digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.
segunda-feira, outubro 05, 2009
sábado, outubro 03, 2009
sexta-feira, outubro 02, 2009
quinta-feira, outubro 01, 2009
Árvore. Ár-vo-re!
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Planto uma árvore e, sob ela, espero pelo dia em que me venha a dar sombra. Que seja larga e espessa, que os ramos tenham ninhos e gatos para os assaltarem, mas que não veja nem pressinta..
Uma árvore que tenha carreiros de formigas na vertical. Que não mordam outra coisa que não os frutos. Não disse, mas digo agora, a árvore terá frutos. À sombra o odor maduro dos açúcares.
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A árvore pode ser uma figueira ou uma laranjeira. Pode ser amendoeira, limoeiro, romanzeira. Podia ser videira, se videira desse sombra e fosse árvore; disseram-me que não é. Ou até morangueiro, se este não rastejasse com medo de chegar ao céu.
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As árvores têm a liberdade de ficar e o dever também. Por que não eu, plantado, abrigado do Sol e mal defendido da chuva? Tomara haja um quase canteiro, um pequeno cercado circular, em torno da adivinhação das raízes. Se for terreiro não será menos digno, mas sujará mais as calças com que me sentarei.
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Os frutos darão de comer e a seiva matará a sede. Toda a vida alimentará a alma. Não é preciso mais nada para se ser feliz.
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Tudo isso. Tudo! Tudo se eu conseguisse ficar quieto.
Mudam-se os tempos

Tenho percebido, com o tempo, que o tempo muda-nos. Não gostava de ervilhas nem de favas, passei a gostar das bolinhas e, bem mais tardiamente, das favas. Odiava cozido à portuguesa, passei a gostar depois de me ter convertido à dobrada e à feijoada. Quando era miúdo, até ser crescidinho, a carne tinha de ser quase carvão, prefiro-a agora em sangue..
Não sei se o tempo nos dá bom gosto, porque não quero pensar no que é bom ou mau gosto. É o gosto que se tem. Ou que se tem em determinada altura.
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Os quadros de Renoir deliciavam-me com as suas subtilezas de luz, sombra e cores, com as pinceladas doces, coquetes, femininas. Van Gogh entediava-me, como que me doesse a barriga ou os olhos ou os olhos e a barriga e mais os olhos da barriga. Hoje não suporto Renoir e rendo-me a Van Gogh.
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Não sei o que o tempo nos dá além de experiência, mas alguma coisa acontece no coração. Se antes preferia rosas, hoje quero as flores da amendoeira.
Não sei o que o tempo nos dá além de experiência, mas alguma coisa acontece no coração. Se antes preferia rosas, hoje quero as flores da amendoeira.
Só tu
Dava tudo, menos a vida, para voltar a quando não te conhecia. Dava tudo, menos a vida, para te voltar a conhecer. Dava tudo, porque só voltava para te viver. Não me basta sonhar-nos.
quarta-feira, setembro 30, 2009
Nada como Janeiro
Nada como Janeiro! Nem o tempo, nem o tempo, nem a luz, nem a paciência. Nada!.
O tempo é de chuva, de chuva… de água, frio, vento, nostalgia, constrangimento, vontade de aconchego, de amores antigos… talvez de reencontros ou duma loucura tão insana que parece Primavera, mas que há-de ser para a vida toda… ou toda como se imagina toda… ou toda aquela que se pensa quando não se pensa em toda.
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O tempo é dos vagares todos, com toda a lentidão que exigem os dias curtos e as noites longas. Os dias duram menos, as noites de dormir duram o mesmo. Sobram mais horas entre o dia e o tempo de dormir.
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A luz é do princípio do mundo, aquela com que nasci, faça sol ou chuva, frio ou calor. A luz é o princípio do mundo, é aquilo que veio depois do nada, depois do escuro, depois da ignorância.
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A paciência vem com o tempo. Depois dos frenesins do Verão, das palpitações da Primavera e dos devaneios outonais… A paciência chega quando o Outono chega à vida, mas só desperta verdadeiramente quando é Inverno. A paciência é um ganho do tempo.
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Que ganho com isso? Nada! Perco quase tudo, como todos nós. Restam-me consolações e ficam-se os desejos por fruir. O frio de Janeiro ajuda a aguentar a vida, porque, numa ilusão compreensível, temos todos a mesma idade… ou vulnerabilidade bastante e suficiente.
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Janeiro começa no Natal, uns dias antes, ainda antes de ser Inverno, e acaba pouco tempo depois da quinzena do primeiro. Só existe quando o frio é mais frio e o escuro mais escuro. Janeiro é o Inverno do Inverno. Dezembro, que é frio e chuvoso, é o Inverno do Outono, e Fevereiro, que às vezes é gelado, é o Inverno da Primavera. Já o Verão não tem Inverno, uma chatice… tem apenas dias chatos de Primavera.
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O Verão devia morrer por decreto. Chegando ao dia tal não haveria mais calor nem estupidez. O Verão tem de ser sempre festa e quando acaba a festa começa a vida. Já o Inverno é diferente. Se um é infância ou outro é esplendor. Pode vir devagar, mas vir. Até ao último suspiro, seja de dor ou de alegria.
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Mas ninguém morre em Inverno. Morre-se a caminho do Inverno ou na viagem para a Primavera. Está demasiado frio para se morrer no Inverno, quero dizer, em Janeiro. Janeiro é tempo da luz única, que começa um pouco antes do Natal.
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Se há calor em Janeiro, não falta nada no Natal, ou desculpam-se as falhas, se as houve. Nasci em Janeiro. Gostava de morrer antes de lá chegar. Morrer depois deixar-me-ia um sabor infeliz na vida.
terça-feira, setembro 29, 2009
A chegar
Estou aqui, estou aí. Em movimento natural, em força de pensamento. Chego como quem vem ao mundo, até à maturidade e deixo espaço para o que a vida quiser de mim. Não vou além do presente, espero que o porvir se torne hoje. As imagens dos próximos dias vêem na parede em frente. De olhos fechados para não enfrentar a vertigem desta viagem nem ver, para não compreender, o passar do tempo e o envelhecer dos dias. De olhos fechados para não os secar com o vento de frente. segunda-feira, setembro 28, 2009
domingo, setembro 27, 2009
Verão de oitenta e sete
Há umas noites a esta parte que está um calor e uma curiosidade como as daquele Agosto. Só falta a inocência.
sábado, setembro 26, 2009
Juras

Jura. Jura que me ouves até ao fim e que farás o teu juízo, sem direito a ponderações nem a recurso.
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Juro que deixarei de te amar assim que me deixes de sentir. Juro que não mais te trairei. Juro que te serei leal.
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Juraste que me amarias para a vida. Depois, juraste que deixaste de me amar. Prometeste amizade eterna, mas nem distância pedes, impões uma parede de gelo e silêncio.
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Jurei que te compreenderia o silêncio. Jurei que faria como queres. Julguei ser forte, mas sou cobarde. Não amo, mas dependo.
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Jura que me ouves mais uma vez, que o farás até ao fim, sem preconceito, sem decisão tomada, de coração aberto e mente desperta. Jura-me isso. Serei longo, como compete aos desesperados.
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Jurámos tantas vezes tantas coisas e poucas podemos já contar e saber. O que nos resta é a certeza dum tempo e mágoas das discussões por ganhar. Não vale a pena. Tudo isto está no fim. No fim do fim, no fim depois do fim.
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Juro que de bom grado te daria um abraço, enquanto suspirasse de remorsos, comoção, choro e desconforto. Juro, como pedi desculpas por tudo. Juro! Mas estamos muito além da vida. Estamos além da morte. Somos muitas vidas. Temos muitas vidas. Não será esta a última.
sexta-feira, setembro 25, 2009
Leito de pecado
Ontem, quando entrava em casa, cheirou-me a salsa. Não tinha salsa em casa nem cozinhara recentemente. Percebi que era um sinal. Um sinal duma força ou ser qualquer a alertar-me para uma coisa qualquer, ou especial. Deve ter dias..
Feliz pelo odor da salsa, espojei-me na cama a pensar num tinto com idade, não muita, onde floresce-se o aroma da erva. Levado pelo desejo, deixei-me afastar da realidade, como um barco desamarrado se vai pela corrente.
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Espojado na cama pensei nas coisas que nelas se podem fazer. Se é, por excelência e facilidade, a sede do amor, também o é da luxúria. Mas é também do descanso e da preguiça. Duas acções benevolentes, duas tentações, dois pecados.
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Se a cama guarda dois pecados, o divã guarda três. Pois, além da luxúria e da preguiça soma o da gula. Quem não comeu já, refastelado, num canapé, num leito dum só corpo, propício ao egoísmo, à preguiça, à soma de sois corpos? O prazer da mesa é, tantas vezes, superior quando se estende, deitado à mesa, com o corpo coberto dos resíduos da satisfação. O divã é talvez o objecto mais pecaminoso. Não pensei mais nisso, porque me satisfaz a ideia de que o seja.
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Dos delírios hedonistas fui voar, para o reino mágico dos sonhos. Acordei hoje, há bocado, frustrado por ter acordado e insatisfeito por ter a mesma vida. Quendera voltasse o aroma da salsa.
quinta-feira, setembro 24, 2009
quarta-feira, setembro 23, 2009
terça-feira, setembro 22, 2009
segunda-feira, setembro 21, 2009
domingo, setembro 20, 2009
Dói

Que me dói ver-te nesse estado. Que me dói que me vejas neste. Sem nada para dizer um ao outro. Contudo, com uma vida junta feita da separação. Cada qual com as dores deixadas pelo outro. Hoje os silêncios são mais do que circunstanciais, são movimentos do jogo. Porém, à noite, ainda nos conhecemos na cama, nos sonhos um do outro.
Três horas da manhã

São quase três horas da manhã e o meu amor não chega. Será que vem? Será que ama? Será que ficou presa numa barco que, no Tejo, não consegue atracar? Será que uma tempestade o afundou? Ou um engatatão a convenceu? São estas horas e nada. Nem um sinal de desistência… nem uma notícia de catástrofe.
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São três horas da manhã e é já tarde na noite. Uma certeza no toque da campainha lá de baixo. Uma incerteza sobre quem nela tocou. Talvez seja ela. Talvez não seja. Quem sabe? Saberei quando chegar ao cimo das escadas… se chegar… se chegar a entrar no prédio. Tão tarde!
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Já passa das três horas da manhã e está ofegante. Ofegante de subir tantas escadas e de tantos atrasos. De tantas aventuras sem aventura. De contratempos sem carisma. São estas horas e sem uma desculpa forçada. Tão tarde e sem uma palavra esquisita além da normalidade entediante.
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São estas horas e tenho sono. É este atraso e não tenho sono algum. Acendo um cachimbo que não quero fumar. E sento-me na sala onde não sei se me quero só. Só escuro e talvez silêncio. Um dia qualquer que não hoje e a palavra e os passos que se ouvem ao longe.
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É tarde e vou dormir contrafeito, com a insegurança dos homens traídos, mas com o ressonar dos egoístas. Amanhã talvez fale ao pequeno-almoço. Talvez continue casado e não diga nada. Um dia destes.
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