digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

sexta-feira, janeiro 13, 2017

A vertical vontade de deitar

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Há tempo num armazém de luz uma transcendência uniu o turbilhão quieto dançando sem mexer os pés e os troncos a milímetros sexuavam-se os olhos junto às bocas toda a cumplicidade da música surpreendente.
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Se aí tivesses estado. Teríamos feito amor, duma forma ou doutra.
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Sonhai

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Ainda espero que te dispas ou que vestida me olhes imóvel por três minutos sem descanso. Até lá, sou a miséria e a cara-suja. Como abomino o neo-realismo!
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Nota: E detesto (esteticamente) as obras de Fernando Lopes Graça e de José Gomes Ferreira.

Enxofre, carvão e nitrato de potássio

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Tenho azar aos poemas, nunca medraram beijo.
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O sorriso é lábios e o riso é ânimo ou censura.
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Quem diz beijando fala com os lábios e não com a boca. Acende incêndios, de entusiasmo ou dor.
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Os corpos ardem por centelha dos olhos e a ignição do sorriso.
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Nota: classifiquei esta imagem como pintura. No entanto, não sei se a definição é correcta, pois trata-se de trabalho de manipulação de resíduos de fogo-de-artifício.

Gatofone

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Estou em paz desde que percebi que ser utilizador de Iphone é, mais ou menos, ser servidor de gato.
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O Iphone travado consegue ligar a câmara, a lanterna, o despertador, modo noite, modo voo ou ligar para o gravador após se desligar a chamada.
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O gato é um animal muito inteligente e que faz coisas muito estúpidas.
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Diferenças: os gatos são fofunchos e fazem coisas menos estúpidas do que um Iphone!... e nunca vi um gato acender uma lanterna!

Letra A

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Acordar cedo é tranquilo. Sem problema. O problema de acordar cedo é ser ainda cedo para acordar.

quarta-feira, janeiro 11, 2017

Cadeira-tempestade

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As nuvens são tão fofas apetetecendo como acentos, desejando-as escrevo núvens.

Antes carapaus de escabeche

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A banalidade é uma sopa morna. Óbvia como trágica a sopa fria e a exaltada sopa quente. No enfadonhamento ou com as papilas zangadas não há aromas nem sabores e o cheiro e fome passam.
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A banalidade é vazia. O resfriamento e o escaldamento são fáceis, aos olhos simples são artifícios de vibração elegante ou censura picante.
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A banalidade é uma sopa com legumes infelizes a boiar ou arroz corno-manso ou massa sem erecção.
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A banalidade é uma posta de pescada cozida sem sal.
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A banalidade é o largo da aldeia, onde todos os dias os mesmos bons-dias e a meteorologia.
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A banalidade é confortável como um cobertor de papa no Inverno e a discrepância é um castelo inútil.
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A banalidade tanto serve se dita no preparo dos comeres ou se depois nos equívocos do lado em que se devem pôr os guardanapos.
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A banalidade não está bem com os panos à esquerda ou à direita e contenta-se funcional num efeito de patinho ou de pavão sobre o prato ou à sua frente.
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A banalidade é a solução para se estar bem à mesa sem se saber estar à mesa.
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– Aparte digo que prefiro um arroto bruto para dizer do que o bocejo para dentro de quem descobriu o cabelo despenteado aos quarenta e cinco anos.
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A banalidade é a indiferença que ninguém quer. No entanto, porém e contudo, precavendo sobressaltos, a banalidade é escolher o caminho quieto; há setas, chão-mecânico e, à janela, uma paisagem pré-fabricada engrenada em sentido contrário.
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A banalidade é o elogio fúnebre. Os mortos são ímpares e de Dantas só se sabe por Almada.
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É difícil fazer bem uma sopa. Quanto à média, a única que importa é a Idade.

Letra D


Letra A


Letra S


terça-feira, janeiro 10, 2017

Só isso

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Inspirar ainda morto ainda respira e já morto se ficar. O tal quarto, do alquebramento silencioso de harmonia caótica, onde azul trinchado é horror ao vazio e dormente a tudo. O azul não é cor nem tristeza e contudo, numa excepção, substantivo como melancolia.

Respiração

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O caos em mim invade-me.

Transfusão de qualquer coisa

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O som é centelha e sua sombra ainda que o risco do avião no azul chegue mudo.
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À noite, fosse negro absoluto, na fé, na mágoa, mudo e surdo, em frio ou conforto, tudo qualquer coisa e quem quer que.
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Escondido do arco-íris negro, sem o sentir-saber, abraçando-me na melancolia apática, nada qualquer coisa e querendo não se tem.

sábado, janeiro 07, 2017

Mário Soares – 7 de Dezembro de 1924 – 7 de Janeiro de 2017

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Para dizer verdade, podem muitas ou poucas palavras. A morte não existe e na vida fazemos o devido, o indevido ou nada, sendo nada só nada, o que é ser alguma coisa. Certo de virtudes e sombras, Mário Soares deu-nos muito. O resto que escrevam os historiadores.
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Estou-lhe grato!
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Nota: Escolher Júlio Pomar, para o retratar como presidente da República, diz mais...

Letra P


quinta-feira, janeiro 05, 2017

Chaves

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Em torno não há parede. Provisoriamente eterno, declaração de melancolia e procrastinação, um biombo translúcido por onde vem a luz e a sombra, gente e o ardor dos amores deixando-me.
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Vingo-me numa rebelião, transparento-me  espanco as vírgulas e digo novas palavras, inventadas quase virgens.
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É nudez como a do Napoleão que, de megafone, anuncia o fim do tempo na maior praça da cidade.
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Sou o Inferno, sem escada ou porta de abrir para fora.
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Quanto um sortilégio me alegra sou a tranquilidade sobrevivente da fúria das lâminas e da convulsão do céu e do mar.
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Quando saio nunca me esqueço das chaves.

Letra A


Letras D e M


quarta-feira, janeiro 04, 2017

Quotidiano

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Do alabote faz-se remédio e da pescada a tristeza.

Petróleo

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Quase inteiro de emoção, da tristeza da alegria à mais sincera tristeza. Se azul não é cor, substância doutro mundo, insujável e precioso, água de beber na sede, o negrume é pálido perante o negrum.
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É a isso que me refiro. Quando num silêncio quase mudo ou num ruído eruptivo vejo negro sob a pele ou transbordando. Se os fecho, vem o odor do indizível.
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Não sei se notaram, não quero saber e quase nada me interessa. Na alma o desprendimento próximo franciscano e na carne a vontade de o atingir.
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Neste momento, a cabeça balança pendendo, segura pelo pescoço de ráfia velha, antes pusesse a coragem conseguir pendurar-me íntegro, dizendo a oração de adormecer para acordar o tarde que consiga e onde a tristeza se sepultasse solidária.
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É assim quase inteiro de emoção. Poderia ser paixão feliz, mas paixão é chama triste.

terça-feira, janeiro 03, 2017

Verão

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O Verão é luz, a temperatura é invisível nas fotografias.

Inverno

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Tivessem mil anos seriam os olhos do ano quase choro e toda a melancolia. Por isso as praias cinzentas são infinitas e vêem-se eternas as manhãs vazias. É tudo falso quando parece verdade.

Se não foi por mal também

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Uma conclusão de dúvida, não a podendo contestar admito-a verdadeira. Há flores cheirosas e as esquecidas. Se nunca tiver sido feliz.
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O sal de Tavira, a chuva em Wuppertal, a poeira da festa, as fotografias, as fugas nocturnas, o Renault 5 metalizado, os fins-de-ano frios.
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Memória e verdade distinguem-se e na falta de luz a penumbra faz de Sol.
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Estragar não foi querença e os arrependimentos não desfazem. Se não foi por mal também não por bem.
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Não posso ser amigo de todos, ainda acredito. Ainda sou uma causa.
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Estrangeiro, diferente da vida infantil agora descrida, não tenho como não admitir que talvez.
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segunda-feira, janeiro 02, 2017

Obituário de quem não morreu

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Pode ser que não valha e pode ser que não me importe e pode ser que nem seja importante.
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É! Um retrato da decadência. Para não me aleijar em esforço, digo a banalidade plebeia da prostituição: Servicinhos a preço de Monsanto, num final de noite em que não se juntou para o sonho e muito menos para a pensão.
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Talvez não preste e o esquecimento seja justo. Uns não podem e outros não querem e outros somam – já lhes disse. Na melhor das hipóteses, pode ser que só não valha a pena, por lastro ou sombra.
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Sem o sal apimentante para encarnecer a índole, a inteligência e a bandeira – tantas vezes lhes contei. Como o corno incompreendente, ou disfarçando saber-se enganado, manso para não zangar.
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É tédio numa neblina. A monotonia da posta de pescada cozida.
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Não tenho analgésicos para esta ressaca nem esquadrinho astrologia conspirativa nem me apoquento com vinganças nem as canções tristes se solidarizam.
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As perguntas irrelevantes, às quais as respostas possam ser tristes, não se fazem. Basta-me o silêncio antigo.
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Importam-me os duzentos escudos pelo servicinho e me são insuficientes.
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Nota: Estive quase para escrever «serviçinho»...