O amor é tão complexo que mesmo se fosse sigla seria curta.
digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.
sexta-feira, julho 04, 2014
quinta-feira, julho 03, 2014
Espuma de mim e mar
.
Vou tropeçar-me e na beleza duma queda num mar baixinho de
murmúrios molhar-me como se mergulhasse numa onda da altura dum deus. Aleijar-me
será castigo por inoportuno desassossego e não valerá a pena justificar-me com
as nuances de horizonte, do seu céu e sua água.Ficheiros secretos desclassificados
.
Se te escrevi numa loucura que tive receio que acreditasses e com senso me sacudiste... aos anos. Porei agora à janela o que te escrevi. Talvez te lembres. Talvez me encontres. Talvez não tenhas. Qualquer que seja o teu destino, no que escrevi continuo a querer o que então quis de ti. Fora das letras, fora das vidas. Um passado de insanidade é normal que dê um presente de.Quinhentos metros crawl
.
Não vejo nada e continuo a nadar.
.
– À vontade, para terminar a aula – crawl.
.
– Hoje é à vontade – crawl.
.
– João! João! Pára! Não nades apenas crawl.
.
– Não é à vontade?
.
– É... nada lá crawl.
.
Crawl... não conto braçadas nem respirações nem piscinas nem
metros – meço pelo avanço que tenho sobre os outros. Uma de avanço, duas de
avanço, três de avanço... conforme a metragem imposta.
.
– Hoje vamos começar com bruços. João, não quero ouvir uma
palavra.
.
– Bruços não...
.
– Não gostas do que toda a gente gosta e gostas de crawl que
é mais difícil e ninguém gosta.
.
Olho à volta – rostos, olhos, bocas confirmam.
.
– Acabou a aula, podem fazer duas piscinas à vontade. João,
já sei que é crawl.
.
Nunca gostei de nadar bruços e até tive um professor que foi
campeão e recordista nacional e que apesar de entradote ainda deu luta a
federados – fiz de carro-vassoura. O homem insistia para que nadasse na forma
clássica: abre os braços e fecha as pernas, fecha os braços e abre as pernas.
Tão dotado para sincronismos, após três momentos certos e já abria pernas e
braços ao mesmo tempo e fechava em sintonia. Não nasci para sapo e sempre me
senti uma rã disfuncional quando tive de nadar bruços.
.
– Tens a mania que és o Yokochi...
.
– Não consigo.
.
Nas muitas vezes que regressei à natação já ensinaram os
bruços «à Yokochi».
.
Ainda assim, nadar bruços é um castigo, desajeito-me e sou
tão lento... uma rã disléxica em que a frente desacerta a traseira e a esquerda
engana a direita.
.
Um dia, um instrutor sádico iniciou o ensino do estilo
mariposa. Uma violência. Não tinha caparro para ser bom naquilo, mas espantei-o
por ter aprendido na perfeição na terceira ou quarta piscina.
.
– Nunca vi ninguém assim...
.
– Assim como?
.
– Que aprendesse a nadar mariposa na primeira aula – e a
nadar bem.
.
Mariposa? Rezava pela aproximação do topo e fingia-me um
hydrofoil para me entreter a mente durante a brutalidade.
.
Uns anos depois mandaram-me nadar a mariposa. Fiz duas
piscinas, voltei a meter para dentro os pulmões e pus-me a nadar crawl para
descansar e descomprimir.
.
No nadar de costas fui sempre o melhor. Mas duvido que fosse
um pouco melhor que bom se me confrontasse com outros, que não das minhas
turmas – turmas, porque foram tantas as desistências e tantos os regressos.
.
Se pensar... talvez tenha um terço da vida dentro de água.
Os elogios afastaram-me sempre. Talvez com medo de falhar, nunca quis competir –
bem me pressionaram. Um dia o bem-intencionado instrutor disse-me:
.
– Tenho muitas esperanças em ti para as provas da INATEL.
.
– Provas da INATEL?
.
– Sim, nas outras já não tens hipóteses, com a tua idade e
com as vezes que paraste...
.
Nunca mais lá meti os pés. Era o que faltava ter mais um a
querer levar-me às corridas.
.
Depois passou de todo a idade e nunca mais nenhum treinador
me sugeriu ir a provas.
.
Mas no crawl... na última vez que piscinei, o maior
adversário era um tipo magrinho e má-onda – nadava que se desunhava e era
perneta. Tenho feito tudo para enganar o ego... um perneta quase a bater-me no
crawl. A verdade é que o tipo fazia aquilo há anos e anos e anos. Constou-me
que era paralímpico, o certo é que ia todos os dias e ficava pelo menos o tempo
de três sessões e pagava uma pista só para ele. Um dia, não sei porquê, ficou
no meu corredor. O tipo era uma besta e quase que ia andando ao estalo.
.
Em ritmo de passeio, porque embora possa parecer bazófias sei bem que não sou o super-homem, fazia dois mil e cem metros e quarenta minutos. Os outros cinco eram para o aquecimento e adaptação à temperatura da água.
.
Em ritmo de passeio, porque embora possa parecer bazófias sei bem que não sou o super-homem, fazia dois mil e cem metros e quarenta minutos. Os outros cinco eram para o aquecimento e adaptação à temperatura da água.
.
– Façam duas piscinas à vontade.
.
– João, não estás farto de nadar crawl? Não te fartas? Não
estás cansado? Pára um bocado...
.
– Profe, canso-me mais parado do que a nadar (crawl).
.
Os exercícios de membros também eram engraçados. Nunca dei
hipóteses. Havia até quem brincasse e dissesse que eu tinha um motor
fora-de-bordo.
.
E o sepide (speed) do treino com barbatanas? Todos a
gozarem...
.
– Profe, não dês ao João. Já viste o tamanho dos pés dele?
Não precisa de barbatanas.
.
Rebentei três pares.
.
– Nunca vi nada assim...
.
Que posso fazer se tenho força nas pernas e pés grandes?
.
Tive um profe que quando chegava à piscina para ministrar o
treino e eu já nadava (crawl) não me dizia nada. Muitas vezes a sessão
terminava e só percebia que tinha acabado quando via outras pessoas a nadar e
que não faziam parte do meu grupo.
.
– Nunca te cansas de nadar crawl?
.
Tantas vezes ouvi. Não, não me cansei de nadar crawl e juro
que até descansava.
.
O único desporto em que tive talento foi uma contínua
desistência. Desporto? Crawl.
.
Desisti por culpa de quem? Minha, claro, que sempre fui
pouco dado a relações, compromissos e pressões.
.
Não lamento nunca ter ido a corridas. Nadar bem crawl sempre
deu satisfação bastante.
.
A única vez que estive numa aflição – piscina vazia, ao ar
livre, sem aquecimento e professor momentaneamente distraído – estava a nadar
bruços. Cãibras tenebrosas do princípio da coxa até meio do pé – na esquerda e
na direita ao mesmo tempo. Quem disse que eu sabia nadar só com braços? Quem
disse que eu naquela aflição conseguia nadar só com braços. Bem ou mal
safei-me.
.
Piscina vazia porque treinava à parte e com um treinador
exclusivo – ao ar livre e sem aquecimento, porque era o espaço do clube para os
treinos do Verão, só que era Março e o local habitual fechara momentaneamente
para obras.
.
Patati patata corridas e medalhas e de crawl dali para fora.
.
Um dia e crawl outra vez lá pra dentro.
.
.
.
Nota: O meu pai, o meu tio António e o meu mano também nasceram para nadar.
.
.
.
Nota: O meu pai, o meu tio António e o meu mano também nasceram para nadar.
quarta-feira, julho 02, 2014
Crawl: dez braçadas e respira para a direita, dez braçadas e respira para a esquerda
.
Expirar – inspirar.
.
Inspirar – viver.
.
Expirar – suspense.
.
Inspirar – alívio.
.
Desistir – cansaço.
.
Desexistir – vontade.
.
Pensamento – acção – consequência
.
Pensamento – acção – reacção – consequência.
.
Hiato – indecisão – inspirar – expirar.
.
Ponderar – fazer – expirar.
.
Ponderar – não fazer – automatismo melancólico.
.
Inspirar fundo – tédio.
.
Expirar fundo – tédio.
.
Vida – angústia.
.
Inspirar – expirar.
.
Esperar – agir.
.
Passar do tempo – inspirar – expirar.
.
Sucumbir ao peso do tempo – inspirar – expirar – desistir.
.
Uma recordação para a viagem – inspirar.
.
Expirar – por fim.
.
Existir – desistir.
.
Desejar – desexistir.
De ouro
.
Que falas de silêncios e os que guardaste.
.
Donde fujo, mergulhando no ruído do tudo à volta.
.
Morre-se aos bocadinhos e morri-te, devendo morrer-me.
.
Sim também morri-me e no silêncio longo morreste-me um
bocadinho.
.
(suspiro de confissão e arrependimento, ponderando as
palavras)
.
Com que cores se pintam o ruído e o silêncio?
.
O silêncio é fácil: preto para opaco, branco para liberdade
e cinzento para o que sobrevive no caos. Os matizes que provam o ouro.
.
O ruído é encarnado? Fora do recato, cada ânimo tem uma cor
e cada seu matiz – difícil.
.
Depois daquelas palavras e da partida a meio da noite há uma
parede sem nada.
.
Estou há dias sentado, num muito desconfortável banco de
madeira, desequilibrante com as suas três pernas, a pensar na parede e nos
filmes que projecto.
.
Comecei no passado e não me demorei no futuro.
.
(Estou a olhar para a parede enquanto construo este texto na
cabeça – acima da testa e no começo da curva superior do crânio – que reescreverei
com letras).
.
Quando se escreve na cabeça não se rasgam folhas e não há
erros ortográficos ou de sintaxe. Por outro lado, há poucas transgressões – uma
chatice suíça.
.
A luz nítida das quinze horas vai-se e é parda e a parede camufla-se.
À noite não dorme.
.
Não sei por que é depreciado falar-se com as paredes se
falamos com as almofadas.
.
(...)
.
A almofada é mãe e a parede é padrasto?
.
(...)
.
Disseram-me:
.
– Em Portugal não há nenhum local em que haja silêncio!
.
Não é verdade!
.
Que silêncio?!
.
Devia ter perguntado.
.
A minha cabeça não conhece o silêncio, é cansativo.
.
Muitas vezes não tenho paciência.
.
Quase todas as vezes em que não tenho essa paciência tenho
vontade de fugir.
.
A fuga tende a cair para dentro dum frasco ou para a linha
suburbana.
.
(...)
.
Será?
.
(...)
.
Outro dia estava perdido de sono e não me deixava dormir por
causa de todas as raivas que me lembrei.
.
As raivas e os desaforos engolidos, as figuras patéticas, as
humilhações sofridas e as humilhações infringidas.
.
(...)
.
(...)
.
Não consigo calar-me quando abraço, mesmo nos íntimos, mesmo
nos de conjuntura.
.
É mais fácil não chorar.
.
Por si só, não tenho medo de abraçar.
.
Tenho medo dos olhos e de seu olhar, da voz e seu engasgo surdo
e hesitante, tenho muito medo antes de abraçar.
.
Por isso nem às praças largas vou encontrar-me com a voz do
fim do silêncio.
.
O deserto não existe e as noites não são vazias.
.
O tempo que agora está bom foi uma longa espera.
.
Longa e dolorosa do silêncio.
.
O tempo de azul e vento manso, que é suposto estar e ficar, pede
para deixar a janela aberta e a luz acesa.
.
Que a voz entre discreta e pouse diante e dela renasçam
silêncios de ternura.
.
(...)
.
Qual será a voz. Que dirão as bocas...
.
(...)
.
Demasiado o que disse, demasiado o que dei a carga.
.
A minha dor pelas dores causadas e a dor de ficar e
esperar.
.
A dor do silêncio, a vergonha triste da vergonha.
.
Compreender não anestesia, até aviva.
.
(...)
.
O ruído que tenho diz-me que aguarde uma maré baixa nocturna
para que possa ter mais para andar e pensar no limite da surpresa.
.
(...)
.
Que silêncio que me pede o ruído da cabeça.
.
Tenho medo do momento do primeiro olhar e do primeiro
movimento.
.
Tenho medo do que possa fazer e do que não possa, do que deva
e não deva.
.
Tenho pânico de cair do abraço abaixo.
.
Tenho pânico de ver o chão alagado da tristeza da
descorrespondência ou da correspondência.
.
Tenho medo das ausências, que mostram mais.
.
Tenho medo das presenças, que mostram a mais.
.
(...)
.
A parede não me responde.
.
Na noite passada a almofada deu-me angústias.
.
(...)
.
A minha voz que violou o silêncio e o moral que som terá
agora nos ouvidos de quem guarda silêncio?
.
Que som terá o primeiro som após meses que sinto injustos e
que ouvirei e estarei disposto a ouvir e que estarei pronto a dizer ou a calar.
.
Quantos se salvaram no desastre?
.
Não quero contar cadáveres. Não contarei.
.
Se o tiver não poderei falar e farei o silêncio dos
impotentes, dos tristes, dos derrotados.
.
(...)
.
O que posso dizer?
.
Agora não tenho ânimo para assaltar o boião nem para me
debruçar para a linha nem para abraçar num silêncio que todos verão.
.
(...)
.
Tenho muito medo.
.
Muito medo e não o poderei contar nem calar.
.
(...)
.
Suspiro... que fazer se não fugir.
.
Tenho muito medo.
.
.
.
Nota: a AS e V.
Diferença de classes – os vampiros e os zumbis
Nascemos iguais e vivemos diferentes. Morremos diferentes e os corpos são iguais.
.
Voltaremos. Nasceremos iguais e viveremos diferentes. Morreremos diferentes e os corpos serão iguais.
.
Se a morte pudesse resgatar com vida só os corpos – morresse-mos e se a morte existisse – ao sair da tumba viveríamos diferentes.
Teatro
.
Pancadas de Molière.
.
Panos abertos.
.
.
.
Primeiro acto – Quietar a Terra.
.
.
Ficar é ir à velocidade da Terra. Ainda que queira ontem. Na
cabeça a terrível melancolia dos dias e das vigílias.
.
Pensar em ir é vislumbrar uma vertigem – diria vértico para
inventar mais uma palavra, mas nem isso contentaria por dez minutos.
.
Nem com vela latina se pode contrariar o movimento perpétuo
(?) ou tampouco parar para pensar no mundo com a cabeça quieta.
.
Assim como desdizer, por mais baixo o tom ou maior a distância,
os dardos dos lábios voam quase à velocidade de Deus.
.
E Deus perdoa? Perdoa. Não sei é se o ferido perdoa ou
esquece. Quendera noutra latitude, onde o frio seca e quebra os pensamentos ou
onde o calor os derrete e dilui.
.
Morrer não basta. Não basta porque a vida depois da vida.
.
Desexistir é muito melhor do que o regresso ao ventre
materno e aos momentos da sublime inocência.
.
Tenho alguns ciúmes da sombra, mas não sei explicar porquê
nem quero pensar muito nisso, pois poderia ser ainda mais doloroso. Veio-me, de
repente, ao pensamento...
.
Tantos os anos de dores e sem me habituar. Tantos anos de
dor que não sei doutra forma que não.
.
Podia agora escrever frases de banalidades, com facas e
coração.
.
Trocar o coração pelo fígado é igual.
.
.
.
Segundo acto – O alívio breve e falso da autocomiseração.
.
.
Pensamento paralelo: Na impossibilidade de voar para recuar
o tempo que perca a vergonha e abrace as árvores da cidade e as fruteiras.
.
Voltar à escola e escrever uma redacção que dificilmente
deixará de ser ridícula.
.
Preencher o verso abaixo com o tema «prometer para não
cumprir».
.
–
.
Preencher o verso abaixo com o tema «alegria».
.
Ah! Alegria! Laranjas e cerejas, azeitonas e amêndoas... Ah!
A beleza dos dias grandes.
.
Coisa pateticamente falsa e estupidamente medíocre. Aposto que
muitos professores adorariam e até pediriam ao adolescente que fosse ao estrado
ler para a turma toda.
.
O facto de não ser genial – a escrever ou a desenhar – não me
torna medíocre. O que me torna medíocre é a preguiça e a teimosia de menino
mimado.
.
Pode ser-se medíocre por saber além do pedido e querer fazer
outra coisa, porque a coisa que mandam fazer é descaradamente medíocre.
.
Não compensa. Ainda que o secreto – verbalizado ou pensado
elogio – reconhecimento da vantagem do trabalho pelo professor obrigado a
promover a mediocridade.
.
Sim, fui sempre um menino pequenino, elogiado por todos e
que nunca passou de medíocre, por fazer o que quis.
.
Fiz sempre o que quis, porque fui – sou – um menino. Ainda
hoje ingénuo e mimado, crente que podemos ser todos amigos, que posso gostar de
toda a gente e toda a gente gostar de mim.
.
Isto aos quarenta e quatro anos é péssimo. Isto não é ser-se
medíocre, é ser-se estúpido – o que é igual ao ser-se inteligente.
.
Só a mediocridade compensa e publicam-se e mostram-se mediocridades
que não servem para nada e que a rotação da Terra há-de enterrar no
esquecimento. O tempo é cruel.
.
Não digo que não tenha valor. Digo que sou medriocramente
medíocre, o que é trágico aos quarenta e quatro anos e se começa a pensar na
vida
.
Agora, já com uma pirosa lágrima a querer saltar – sim, até
sou piroso, carente como um menino birrento. Nesta fase ganho, finalmente, o
direito à mediocridade porque alimentará suspiro a alguém , não por demérito, que
é o mérito da mediocridade, mas por longos esforços para o conseguir – um prémio
de carreira.
.
Nesta fase pede-se um beijo e uma musa sorri e beija. Subo a
um palco invisível e comovido aceito a verdade que pode ser-se medíocre, mesmo
lutando contra a mediocridade que foi, ao longo da vida, pedida.
.
Coisa pateticamente falsa e estupidamente medíocre.
.
Não existe uma mediocridade, mas oceanos e talvez galáxias
dessa ridicularia ilusória.
.
Ainda assim alguém leva a sério e se preocupa ou aplaude.
.
.
.
Terceiro acto – a palavra merda dita muitas vezes.
.
.
Mediocridadamente despejo-me um balde de merda. Pronto! Já disse!
Merda! Merda! Merda! E mais merda!
.
Merda!
.
Não aliviou.
.
Fico parado a pensar como dizer merda sem ser com as letras
que a formam e postas da mesma forma. Não é cansaço, porque sou preguiçoso.
Talento? O talento por trabalhar é injusta preguiça, mediocridade.
.
Aos quarenta e quatro anos faço um balanço da vida. A
primeira vez que me senti velho e incomodado foi aos vinte e cinco anos, passou
aos vinte e seis. A segunda vez foi quando um miúdo de vinte e poucos anos me
perguntou:
.
– O senhor tem lume?
.
Tinha vinte e oito anos e doeu-me.
.
Agora, aos quarenta e quatro anos, a apenas seis meses para me
livrar de vez da hipótese de incorporação nas Forças Armadas, mesmo com guerra,
e tenho metade dos dias expectáveis, penso no que já fiz, sem saber o que possa
fazer.
.
.
.
Quarto acto: A inocência.
.
.
Quis estudar pintura e a revolta adolescente contra a
ditadura da matemática, da física e da química fizeram-me desviar do destino desejado.
Gastei dois anos da minha vida a bater com os cornos em três disciplinas
inúteis para o meu futuro.
.
Disse o meu pai sábio:
.
– Antes perder dois anos do que a vida toda!...
.
Por que hão-de as artes ter essas ciências e as letras
dispensarem-nas? Porque um conjunto de medíocres não pensou na merda tirânica que
estava a estabelecer.
.
Por que ensinam Os Lusíadas aos putos? Não precisam? Por que
não fonética, seria mais útil – e saberão de fonética, os professores?
.
Mudei para letras, onde estive bem e descansado como um
ilibado de julgamento. Uma vez mais o talento premiou, mas o desinteresse na
mediocridade do estabelecido me valeu avaliações medíocres.
.
Mas repito o reconhecimento de que fugir a uma mediocridade
não implica que não se caia noutra.
.
Quis estudar história e concluí. Quis ser jornalista e sou,
há vinte e quatro anos menos um.
.
Depois a vida. O que começou prometedor estatelou-se como um
gordo caído dum décimo andar. Mereço? Disse que sou um menino mimado. Serei
ridículo e medíocre e vejo tanta mediocridade e ignorância.
.
Uso as desculpas do costume, a de todos os falhados: estou
velho, querem sangue novo, não premeiam a experiência, querem é gente baratinha
e obediente, os miúdos saem das faculdades sem saber nada...
.
O caralho! Sempre foi assim. É igual às actrizes que só o foram
por serem jovens e bonitas. Hoje, queixam-se com inveja por os papéis irem para
gaiatas... e o talento? E a sementeira das acções? A desculpa da injustiça é
argumento medíocre, ridículo e estúpido.
.
O tempo é cruel para quem não sabe envelhecer e não vê que os
vinte anos não roubam trabalho aos sessenta anos... o talento, mas também
mediocridade.
.
Apetece-me tanto destilar a angústia no veneno e citar
nomes...
.
.
.
Quinto acto – O direito à comiseração.
.
.
Posso chorar, tenho esse direito – vá, comovam-se, que
preciso do vosso sentimento, seja qual for será elogio.
.
Comovam-se e tenham pena da mim, que estou tão franco e nu
que os amigos dirão para não publicar este texto que começou uma coisa, passou
a outra e não é nem poesia nem prosa nem prosa poética nem epístola nem memória
futura de despedida da vida corpórea.
.
Lamento, perdi o amigo que me aturava e não tenho o dinheiro
para pagar a psicanálise.
.
Tivesse eu coragem e diria ao meu pai, de noventa anos, uma
confissão cruel:
.
– Pai, obrigado por
compreender que mais vale perderem-se dois anos de estudo inútil do que a vida
toda... mas perdi a vida toda a fazer o que talvez não merecesse, tanto para o
bem como para o mal.
.
Luser – não quero estrangeirismos escritos em estrangeiro.
Luser! Luser! Luser!
.
Agora vou mostrar a quem visita ou tropeça no endereço o que
escrevi, que é como quem diz o estado do ânimo que, desta vez, é real – coisa raríssima.
.
Se quiser posso apagar, anular as palavras, pôr o texto publicado
no momento antes da escrita, ao contrário da vida.
.
Ainda assim, quem tem jeitinho conseguirá ler o apagado.
.
A solução é mesmo desexistir e todos estes textos, mais de
dois mil, seriam de pai incógnito.
.
.
.
Baixam-se as cortinas e vou chorar para o camarim, a
almofada.
.
segunda-feira, junho 30, 2014
Salvar o Tua - O meu manifesto
A razão deste texto pode conhecer-se em http://www.salvarotua.org/
.
.
.
O meu pai sempre disse:
.
– As pessoas são capazes de ir ao estrangeiro ver paisagens
e museus e do seu país não conhecem nem paisagens nem museus.
.
Citando mal, foi isto que sempre disse. O meu pai, que hoje
tem 90 anos, nunca quis conduzir nem ter automóvel e não foi por isso que
deixámos de visitar o país. Levavam-se horas imensas! Fixei algumas: seis horas
de Lisboa a Castro Verde, doze horas de Lisboa a Mirandela.
.
Para quem não sabe, o meu pai é (era) artista plástico,
concretamente pintor, e absorvia o que lhe entrava pela janela do autocarro ou
do comboio, eventualmente do automóvel de alguém com quem partilhávamos o passeio.
.
O meu pai via e contava-nos o que via, porque os olhos de
pintor viam muito além. Tenho a reprodução do retrato de Dom Sebastião, de
Cristóvão de Morais, e lembro-me que esse trabalho – estudo para um outro, de
encomenda, e ambos com autorização do Museu Nacional de Arte Antiga, onde o meu
pai passou horas a estudar a obra quinhentista – estava com pequenos adesivos a
assinalar minúsculas alterações de tom. Onde se via negro, o meu pai via
negros.
.
Dessas muitas viagens recordo-me da que fizemos até
Bragança. Não havia auto-estrada para o Porto, mas da estopinha não tenho
ideia. Devia ter onze anos, um para cima ou um para baixo, e adorei ver os tróleis
do Porto, onde um dizia que Avintes – achei o nome tão engraçado... e ainda
hoje me sorrio a lembrar-me da alegria parva, dum pré-adolescente, de
pronunciar Abintes.
.
Do Porto fomos em direcção ao Douro, apanhámos o comboio primeiro
na Estação de São Bento – ou Sambento, para quem gosta de falares – mudámos em
Campanhã. O que tem de bonito a primeira – uma das mais felizes gares
portuguesas, com azulejos de Jorge Colaço – tem de feiura a outra, que parece
um apeadeiro gigante e encardido – e assim acontece também em Coimbra.
.
A vista da linha do Douro enche a alma. Mas o arrebatar da
respiração começou no Pocinho, onde se fazia o transbordo para a linha do Tua,
que desaguava em Bragança. O comboio era pequenino e lento e trepava,
pouca-terra-pouca-terra, até Trás-os-Montes.
.
Com os olhos quase virgens, sem medo mas pensativo,
enamorei-me pelas paredes de encosta dum lado e com a vertigem do outro, que só
parava no fim troço de água, um risco largo de verde escuro, bordado a branco
fininho, dos tropeções nos calhaus. Do outro lado vi, como se fosse um espelho,
escarpas brutas, babantes de amarelo-alaranjado do enxofre, escorrentes nos
cinzentos, com umas pouquíssimas plantas doidas que nesses muros escolheram
fixar-se.
.
O comboio corria em bitola estreita e os bancos eram de
madeira, com alguma ergonomia. Eram de suma-a-pau e não sumaúma, brincava o
Manuel Jorge, o pintor. A minha mãe, quase sempre calada, mostrava o enlevo.
.
Conversador e activo, o meu pai meteu conversa com quase
toda a gente e tanto se falou sobre aquela linha, aqueles povos, as vidas de
outrora e da linha e sua vista. Dessas conversações não me lembro, mas fixei
uma piada:
.
– Este comboio é tão lento que se pode sair, em andamento, pela
porta da frente, fazer xixi, apanhar umas flores, esperar um pouco e entrar
pela porta de trás.
.
Apaixonei-me por Bragança e por Vinhais. A capital de
distrito era uma aldeia grande e longínqua e Vinhais tocou-me pela decadência
do património medieval. Voltei lá, muitos anos depois, e essas pedras estavam
barradas com cimento, uma tragédia de gosto e bom-senso.
.
Uns anos mais tarde (talvez oito, nove ou dez) andei a
mostrar Portugal à Kerstin e tive de a levar até Bragança pelo caminho mais
bravio. A bitola estava ainda reduzida e a máquina uma ternura que arrastava
duas carruagens. Entrei e decepcionei-me, porque tinham tirado os bancos de
suma-a-pau por uns bancos chatos, duros, desconfortáveis – umas coisas verdes
iguais aos que equipavam a linha de Sintra. Moderno não é sempre progresso, os
de madeira eram muito mais confortáveis, por se ajustarem ao corpo.
.
Mostrei-lhe o século dezanove e ela deu-me o século vinte; a
minha namorada alemã vivia em Wuppertal, uma cidade em que o metropolitano tem os
carris em cima e se prende às linhas por um braço, causando o balanço que lhe deu
a alcunha, ou o nome próprio, de «comboio que levita», Schwebebahn. Cidade que
Wim Wenders filmou em «Alice e as cidades». Cidade onde a bailarina e
coreografa Pina Bausch fixara a sua companhia de bailado, a Wuppertal Tanztheater.
Cidade onde nasceu a poderosa multinacional Bayer, cujo complexo, o primeiro,
foi cercado pela cidade, é atravessado pelo bizarro veículo. Cidade que, fora
isso, não tem nada de interessante e onde já não vive a minha grandíssima amiga
Kerstin e o fantástico marido Markus.
.
Regresso à viagem no século dezanove... Desesperados pelo
conforto e, sobretudo, pelo cheirete dum velhote, fomos indagar a carruagem
seguinte. Parecia ter metade do tamanho, mas havia uma porta ao fundo.
Abrimo-la e era espaço de carga – levava o correio, um ou dois pacotes. Tão
larga e comprida para tão pouca coisa...
.
Pouca coisa? Não! Uma porta larga, para permitir a entrada
de cargas volumosas. Mais do que porta, muito mais do que janela, era o portão
para a liberdade dum salto ou varanda, aberta e apenas com um ferro para alguém
se agarrar caso fosse preciso. Sentámo-nos no chão, com os pés no estribo e
bebemos o ar de cheiros que fazia parte da paisagem.
.
Em Portugal teima-se na asneira de abandonar as linhas
férreas. Não digo apenas as antigas e quase vazias, até as que não nascem...
Aos anos que oiço falar numa linha de mercadorias, em bitola europeia, entre o
terminal de carga do porto de Sines, de águas profundas, e França, passando sem
salto ou transbordo a fronteira dos Pirenéus – entrada privilegiada e óbvia
para grandes cargueiros – e nada se faz. Em contrapartida pensou-se em comboios
de alta velocidade sem cidade onde parar e fez-se um aeroporto em Beja, meio
caminho de duzentos e setenta e sete quilómetros e quinhentos metros entre
Lisboa e Faro – infra-estrutura que serve uma área metropolitana de pouco mais
de vinte e cinco mil habitantes. Mas houve tantos mais.
.
A força dum povo – inculto mas cioso das suas coisas, que no
tempo certo consegue reparar nas patifarias que querem fazer ao que é seu –
rasgou a barragem do Vale do Côa. Os portugueses compreenderam que aqueles
riscos, que ninguém percebia, eram importantes. Juntaram-se intelectuais e paisanos,
assinaram-se papéis do abaixo-assinado; do duque de Bragança, representante de
oitocentos anos de Reis, a intelectuais e anónimos. O Vinho do Porto,
património único e valioso, deu outra ajuda. Nos momentos importantes, há
canções que se tornam hinos. Nesse momento foi o nascente hip hop português a bandeira
sonora da causa, dos Black Company.
.
– As gravuras não
sabem nadar, yô!
.
.
Foi em 1995 e Portugal fartava-se da democracia de voz
grossa do Governo de Cavaco Silva, que levou mais uns tabefes na Ponte 25 de
Abril.
.
A força das ideias tanto bateu, e com tanta força, no betão
que a barragem não vingou. Quase vinte anos depois, os portugueses voltam a ter
de se mover, agora pelo Tua. Agora é mais difícil argumentar, não há gravuras, mas
nem por isso a luta deixa de valer a pena.
.
Do que se fala?
.
– Fala-se de defesa do meio ambiente. Fala-se de vinho, do
Porto e do Douro. Fala-se da paisagem humanizada por gerações de trabalhadores,
que permitiram a agricultar-se nas montanhas. Fala-se em todo esse património
que a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a
Cultura) classificou, em 2001, como sendo de interesse da humanidade.
.
Não é com intervenções artísticas que se faz a ressurreição
de bens públicos. Com a lição aprendida a quando do movimento contra a barragem
do Vale do Côa, a EDP arrebanha agora artistas consagrados e arquitectos de
prestígio... matar ao luar não é menos criminoso do que o fazer na rua à luz do
dia – como se fosse um filme negro com detectives.
.
Esta luta pelo Tua tem a «virtude» de mostrar o rosto de alguns
dos grandes nomes das artes portuguesas e das elites da arquitectura. Não quero
fazer juízos de carácter dos artistas Pedro Cabrita Reis, Pedro Calapez e Joana
Vasconcelos, que têm sido convidados a criar arte nas infra-estruturas hidroeléctricas.
Ficamos a saber que gostam de ouvir o tilintar das moedas nas algibeiras – o que
é o que é – mas nunca lhes ouvi discursos altruístas acerca da defesa do
património e pode ser que tanto lhes dá como se lhes deu o Douro dos socalcos,
o vinho único de classe mundial e as plantinhas e a bicheza.
.
Mas Eduardo Souto Moura e Álvaro Siza Vieira dão-me vómitos.
Tudo o que disseram afinal tem uma excepção e a excepção é o atentado ao
património onde vão poder mexer, a troco duma transferência bancária, que tanto
pode ser dum cêntimo como de três mil milhões de euros.
.
Siza Vieira mete-me particularmente nojo, pelo que defendeu
para o Chiado e pelos bonitos riscos que traçou da obra humana e natural do
Douro. Poderão dizer:
.
– A assinatura de tão reputados arquitectos, ambos
vencedores do Prémio Pritzker, dá garantias de boa integração na paisagem e vai
criar um sítio de interesse cultural.
.
Cultura que destrói o único e o frágil lembra-me a
Santíssima Inquisição e a perseguição ao pensamento divergente, queimando
livros e pessoas. Para mais, matar é sempre matar, nunca se mata mais-ou-menos.
Se matarem o património com a barragem do Côa, não serão São Álvaro (santo dominicano,
nascido em Córdova em 1368 e morrido em 1430) nem os dois São Eduardos (ambos
reis de Inglaterra – O Confessor, 1004 a 1066 e O Mártir, 962 a 978) quem irá
miracular a aventesma. Muito menos os arquitectos Álvaro e Eduardo quem irá
embelezar a besta-fera.
.
Não, não acredito em milagres... Acreditando em Deus – num sentido
de consciência moral, ético e espiritual, mesmo em agnósticos e ateus – sei que
haverá quem, mais ilustrado «lá do outro lado», agasalhe esta luta. Mas se a
barragem do Tua for levada numa enxurrada de cidadania, o correr da água irá lavar
os maus pensamentos, será por labor dos conscientes, numa batalha na Terra
contra o materialismo.
.
Digam: são trezentos e cinco milhões de euros. Quanto vale
um abutre, quanto vale a fauna e a flora selvagem? São quatro mil empregos,
directos e indirectos. Até quando? Até dois mil e dezasseis. Depois disso? Os
mesmos sítios ermos e os paisanos que não morrerem nem abalem para onde a vida
dá mais uns trocos.
.
E se antes se criassem redes de turismo e se embrulhasse todo
o Vale do Douro até ao Planalto Transmontano num pacote de beleza, cultura e recreio?
Daria mais trabalho, a Câmaras, empresários... Começando no Porto e acabando em...
não só de luxo. Muito mais euros e mais trabalhos daria. Não Já, mas mais logo.
.
Ainda que lá não vá ao Tua, quero que exista. Tal como quero
vivos o lobo e o urso não tencione encontrar-me com eles.
.
Pois, a luz. Que luz essa que ensombra?
.
Estou-me nas tintas se vamos importar mais electricidade,
que vamos pagar mais... só tenho dez dedos na mão e não cortaria nenhum para
que as minhas mãos coubessem numa luva com nove entradas feita de prata e ouro –
que confortáveis seriam.
.
Ah! Já me ia esquecendo... a soalheira Alemanha consumiu, a
nove de Junho passado, cinquenta vírgula seis por cento da energia a partir do
Sol.
.
O número de horas de Sol em Portugal situa-se entre as duas
mil e duzentas e as três mil. Na Alemanha, a variação é entre mil e duzentas e
as mil e setecentas.
.
.
.
.
Nota 1: Por limitação do número de caracteres nas tag, os créditos dos vídeos são expostos aqui:
.
Nota 2: A música «As coisas mais bonitas que vi» é o hino pela defesa do Tua e tem a autoria de Márcia e Luísa Sobral. Nela participam também Amélia Muge, André Tentúgal (We Trust), Catarina Salinas (Best Youth), Frankie Chavez, Mafalda Veiga, Marta Ren, Rui Reininho (GNR), Samuel Úria, Selma Uamusse, Susana Travassos e Tiago Bettencourt.
.
.
.
Nota 3: Para quem ficou curioso com o Schwebebahn, aqui
fica um vídeo que acompanha parte viagem – tentei pôr a viagem toda, mas os quarenta e quatro minutos de filme são demasiados para a capacidade do Blogger.
.
domingo, junho 29, 2014
Futebol
Uns voam loucos como rapinas. Outros são esqueleto de
catedral.
.
A luz do santuário arrepia e as vozes grandes dos coros – em
transe. Marés sonoras que os olhos sentem na luz dos seus e espanto de medo p’los
outros.
.
Todo o corpo é olhos, boca e coração. E fogo. Fígado!
.
Voltarei feliz, voltarei triste.
.
Mesmo triste se forem passarinhos e pedras de jogar.
.
.
.
Nota: A minha Selecção é o Clube de Futebol «Os Belenenses», a outra existe de vez em quando.
.
.
.
Nota: A minha Selecção é o Clube de Futebol «Os Belenenses», a outra existe de vez em quando.
Cardo
.
O dia do regresso,
invisível e insonoro, sem bater para entrar e pronto agarra e espreme o que
tenho de mais cansado e frágil. Surge como um morto reerguido da campa que num local
aguarda. Não é espírito, digo zumbi.
.
Aterrado nem desfaleço nem fujo nem me agarra nem diz nada. Aperta-me
o coração a estrangular-me e desfaleço por impossibilidade de morrer. Adormeço cainte,
e cainte tento erguer-me e volto a cair. O meu sono de farrapos, em terra de
ninguém, um tabuleiro de xadrez, perdido sem viver vivalma. Fraquejando das
pernas tentando andar, até ao deitado frágil impotente para mover.
.
O tempo das perguntas passou. Não passou a incompreensão. Sei
da morte e do desejo, não percebo a ferida que se reabre porque sim. Hoje não é
dia para chorar, é de tédio, um dia sem horas. Sem horas é muito mais do que
muitas horas, com começo e sem fim, em que cada hora dormida é um pesadelo e
outra hora acordado é um pesadelo.
.
Solidão talvez um pouco, a solidão é como o sal. Hábito e
ora bem e ora mal. Se fosse simples e óbvio. Como dói e limpei a dor com o
coração e agora espremido não sente nada além da dor. Cria que era da cabeça e
também é.
.
Não tenho securas na boca, tenho um amargor dum sinal de
vida. Não sinto a jugular nem tenho tigre para a usar. O mal está na ficantura.
.
Quando se tem a mala e a vontade aviadas para partir e
frente ao bus viajante se deixa que se parta uma e uma e uma e uma e uma...
vez. Não são vezes, são muitas uma vez. Inconseguir partir e inconseguir ficar.
.
O meu sonho, o que quero agora mesmo, assim de repente?... Não
estar não me basta e porque sei que se não estiver, estarei noutro lugar. Não
ser. Ser ou não ser não é uma questão é um castigo. Quendera poder desexistir.
.
Vou para de escrever. Como um franciscano de deita de braços
abertos frente ao altar do Senhor, despejo-me onde tiver espaço e ficarei
anestesiando-me com a temperatura do chão e com as vidas abaixo e acima da
casa.
.
Depois logo se vê.
quarta-feira, junho 25, 2014
O que não como
Estou de dieta e apetece-me um bolo... .
Entro na pastelaria e digo:
Entro na pastelaria e digo:
.
– Bom dia, quero um pastel de nada, por favor.
.
– Não será um pastel de nata?
.
– Não! É um pastel de nada!
.
– Um pastel de nada?
.
– Sim, estou de dieta...
.
– Não estou a perceber...
.
– Oh, senhor... um pastel de nata é como as sardinhas. Ambos
são símbolos gastronómicos portugueses... tanto um como o outro não como... um não devo e outro
não posso.
.
– Ah! Então quer o quê?
.
– Uma bica curta em chávena fria.
.
– Aqui tem...
.
– Obrigado, mas o seu conceito de curto é igual ao meu de
meia chávena.
.
– Aqui as bicas curtas são como os pastéis de nada... não
existem.
.
.
.
Nota: Não sei como engavetar esta obra na lista dos conceitos... escultura ou pastelaria? Ou escultura em pastelaria. Vou tentar comunicar com o autor, Sérgio Dias.
Quero um Nissan Juke
.
Não ligo a carros e não gosto da estética dos automóveis
japoneses. Mas o Nissan Juke é tão feio que é lindo! Ite-se note a jouque
ite-se a Juke.
.
.
.
Nota: It’s not a joke, it’s a Juke.
Elogio à clínica Dentária de São Paulo – não é publicidade mas seja o que quiserem
.
Não tenho a certeza se valorizamos a boca, sobretudo por
dentro. Desconfio que a boca é como as mães, só nos lembramos quando nos faz
falta, por vezes já no outro lado da vida. Tal como uma mãe, a boca
alimenta-nos.
.
Dentro da boca cabem o doce, o salgado, o amargo, o ácido e
o umami, e o prazer que deles se consegue. Mesmo quem não tem prazer ou grande
prazer com a mesa tem preferências.
.
Supostamente todos os dias lavamos os dentes, pelo menos de
manhã e ao deitar. É uma obrigação de higiene e mesmo que não fosse seria de
respeito por causa do hálito. Claro que há campeões como o alho ou a cebola,
que se guardam e agarram tão bem que nem a pasta mais voraz os consegue retirar
completamente.
.
Bem, há a obrigação da lavagem, mas lembramo-nos deles
quando nos doem e temos de correr para o dentista. Ou quando a velhice nos tira
e a mastigação se torna difícil. Há as próteses, pontes, implantes, coroas,
aparelhos, a cerâmica, o titânio, o ouro – alguns estarão repetidos, mas de material
de boca percebo pouco.
.
Por vezes os dentes zangam-se com os alimentos frios e
quentes. Dão coices que lançam dores até aos ouvidos.
.
Há a língua, que é uma chatice na cadeira do dentista,
porque se mexe e dificulta o trabalho ao doutor. Quando a trincamos... ui! Dor
tão incomodativa quanto a de morder as paredes da boca.
.
A mesa – a boca por arrasto – é uma secretária para negócios
vários, seja ela mesmo de tabuleiro e pernas ou seja no chão com os convivas à
volta. Julgo que em todos os povos o momento da comida tem alguma solenidade.
Do nascimento, ao simbolismo da procriação, que é o casamento, ao falecer.
.
Reis e presidentes de república dão recepções em seus
palácios em que o banquete é obrigatório quando o convidado é importante e se
vai demorar uns dias. Há as chatérrimas conversações para comprar a porcaria
dum tapete, supostamente exótico, nos países árabes. As boas-vindas nas tribos
de toda a parte. Por aí, por aí e adiante.
.
Há o protocolo da mesa, que se divide entre a habilidade de
maneio dos apetrechos e o modo de manifestar satisfação ou falta de educação.
Mastigar de boca aberta, causando sons pastelados e visões evitáveis, é comum
nos portugueses – penso que nem se apercebem ou são procedimentos que estão de
tal modo enraizados que não se liga – eu ligo. Há os arrotos que condenamos e
outros aplaudem. Há o educado e respeitoso sorver ruidoso e o desagradável
sorver ruidoso.
.
A boca – se pensarmos bem nela – gosta que as comidas
empratadas tenham uma ordem. Não por ritual, mas porque as determinações,
convencionadas após experiência, mas porque os sabores vão-se completando e sobem
nas intensidades.
.
Há bocas que não gostam de vinho e outras que ganham tanto
prazer. Alguns bebem de tudo e outros dispensam os aromas e sabores de cartão
molhado ou os que lembram estribarias. Quem diz prazer enófilo pode considerar
outra bebida.
.
Quanto ao álcool existem pessoas que, por segregarem
qualquer químico ou não segregarem – não sei – podem beber sem tino, porque o
sopro não acusa penalidades nos testes do balão que as polícias efectuam nos
auto-stopes ou nos acidentes.
.
Quando me nasceram os sisos, os do primeiro andar doeram-me
tanto que desejei ser uma ave ou enviar-me para o mundo dos espíritos. Doeram
para não dormir uma semana inteira e para chumbar num exame de condução, por
ter adormecido ao volante. Não fosse o examinador ter travado e um automóvel bem
estacionado teria sido abalroado. Simpático, o senhor engenheiro, como eram
conhecidos à época, compreendeu a situação e em vez de me chumbar escreveu que
não tinha comparecido ao exame – é que uma reprovação podia (pode) mandar o
candidato de volta para as aulas de código da estrada.
.
Nessa semana, a do Natal ou do Ano Novo, consegui falar com
o meu dentista. Não havia telemóveis nem emails e a clínica estava fechada.
Ainda assim dei com ele, que prontamente deixou o descanso para me aliviar. Deu-me
uma pirula mágica e a dor desapareceu... até às quatro da manhã, de madrugada,
e fiquei em claro. Bem me aconselhou, o doutor, a não fazer exame de
condução...
.
Foi o meu dentista durante quase trinta anos, mas agora
retirou-se. Disse-me, nessa vez, e lembrou-se noutras, que nunca vira sisos tão
grandes. Até afirmou que pareciam dentes de burro. Ah pois que doíam como
#*£@+$&!
.
Desde então que não sei o que é uma dor de dentes. Tenho,
por vezes, uns incómodos, umas coceguinhas irritantes... Como dizia, num
inquérito televisivo de rua acerca do frio – uma vaga de frio polar, diz-se
agora, dantes chamava-se Inverno – um ucraniano:
.
– Frio? Frio é na minha terra, na Ucrânia. Isto é talvez
fresquinho.
.
Assim são as minhas dores de dentes. Doem? Doer foram os
nascimentos dos sisos! Apanharam-me a boca, os ouvidos, os olhos, a testa, o
humor. Porra! Os de baixo não incomodaram, o que me leva a crer que sou menos
burro em baixo do que em cima – não sei se é bom se é mau, mas com a esperteza
dos asininos penso que ainda bem, seja o significado o que tiver de ser.
.
.
Bom, não vivo do vinho nem da comida, embora muita gente
pense que sim. Ganho a vida a escrever sobre economia e agricultura. Por isso,
a boca é-me muito útil. O olfacto também, mas escreverei acerca do nariz quando
tiver de ser – só digo que o cheiro a pescado é cicuta e arsénico para nariz e
entranhas gástricas.
.
O sorriso! O das mães, oh! O das avós, oh oh! O do pai, sem
oh! O dos avôs, leve oh! O dos amigos, qual oh?! O do ser amado, oh que dor tão
boa! O da sedução, ai! O da auto-estima, hum! O da vaidade, qualquer coisa oh!
.
Não me lembrei de escrever sobre a boca porque me olhei ao
espelho e conclui o quão belo sou. Tal como os olhos, a boca fala e não me
refiro à articulação dos sons, mas ao estado de ânimo.
.
Lembrei-me de escrever, há já umas semanas, porque o meu
dentista se retirou e eu estava com uma comichão num molar. Segui a sugestão da
amiga Sissi e apanhei o metro até ao Cais do Sodré. Atravessei a avenida 24 de
Julho, onde a Câmara Municipal de Lisboa se esqueceu de mandar pintar
passadeiras para peões e de pôr semáforos, ladeei, pela estrada, a esplanada do
Mercado da Ribeira que abusa de todo o espaço, virei à direita e cheguei à Praça
ou Largo de São Paulo – acho que é largo, mas na realidade é uma praça e bem
simpática, exceptuando o quiosque, onde os empregados são duma antipatia que
roça a falta de educação.
.
O Largo de São Paulo que, em tempos, frequentei à hora do
almoço. Ia porque encontrei paz na Igreja para rezar. Sou cristão não católico
e penso que se pode conversar, pedir e agradecer a Deus ou a entidades de
superior moral e espiritualidade, mas ali tinha paz e o coração enchia-se.
.
A Igreja de São Paulo, de suave barroco, estava a ser
restaurada e já conhecia de vista as restauradoras, acho que eram só mulheres.
Uma era bem gira, mas não reparava em mim, que estava tão solteiro e carente...
ai! Ai, o #*£@+$&! Não gosto de intimidades postas a público e muito menos
destas, cruas e verdadeiras.
.
De regresso ao passado próximo; estava adiantado na hora e
sentei-me nas cadeiras da esplanada do quiosque a beber uma Água das Pedras.
Olhava para o número 19 e pensava: que saudades vou ter do meu dentista!... os
dentistas são como os mecânicos de automóveis, quando encontramos um que nos
satisfaz, mais ninguém nos mete os dedos na boca.
.
.
Chegou a hora, subi ao primeiro andar, puxei a porta no
sentido contrário e, como sou burro – confira-se no que disse o meu anterior
dentista acerca dos meus sisos – insisti. O material tem sempre razão e cedi à
realidade. Entrei e sorriram-me.
.
Na mesa de vidro estão dois papéis. Um diz que tem livro de
reclamações e outro que tem livro de elogios – tenho de escrever neste.
.
Fui intervencionado e voltei. Voltarei até ter uma boca
nova.
.
Como bem sabeis, nestas crónicas gosto de pôr uma imagem ou
um vídeo no blogue joaoamesa.blogspot.com e no infotocopiavel.blogspot.com é
obrigatório.
.
Não colocarei a imagem referente à clínica, pois seria
publicidade e este é um texto de agradecimento aos doutores e à amiga Sissi,
que tem um miúdo que conheci desde o berço e hoje é homem feito e alto como o
#*£@+$&!
.
Não é publicidade, mas devo colocar o linque para o sítio nainternet. É este. Ide, ide quando tiverdes dores ou quando as quereis prevenir.
.
.
.
.
Nota: Pintura Bizantina de São Paulo, Escutura de Bernardí Roig, Pintura de Carlo Dolci de Santa Apolónia (padroeira dos dentistas», Vídeo do anúncio à pasta medicinal Couto.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
.jpg)









