digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

quinta-feira, julho 03, 2014

Espuma de mim e mar

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Vou tropeçar-me e na beleza duma queda num mar baixinho de murmúrios molhar-me como se mergulhasse numa onda da altura dum deus. Aleijar-me será castigo por inoportuno desassossego e não valerá a pena justificar-me com as nuances de horizonte, do seu céu e sua água.

Ficheiros secretos desclassificados

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Se te escrevi numa loucura que tive receio que acreditasses e com senso me sacudiste... aos anos. Porei agora à janela o que te escrevi. Talvez te lembres. Talvez me encontres. Talvez não tenhas. Qualquer que seja o teu destino, no que escrevi continuo a querer o que então quis de ti. Fora das letras, fora das vidas. Um passado de insanidade é normal que dê um presente de.

Quinhentos metros crawl

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Não vejo nada e continuo a nadar.
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– À vontade, para terminar a aula – crawl.
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– Hoje é à vontade – crawl.
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– João! João! Pára! Não nades apenas crawl.
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– Não é à vontade?
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– É... nada lá crawl.
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Crawl... não conto braçadas nem respirações nem piscinas nem metros – meço pelo avanço que tenho sobre os outros. Uma de avanço, duas de avanço, três de avanço... conforme a metragem imposta.
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– Hoje vamos começar com bruços. João, não quero ouvir uma palavra.
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– Bruços não...
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– Não gostas do que toda a gente gosta e gostas de crawl que é mais difícil e ninguém gosta.
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Olho à volta – rostos, olhos, bocas confirmam.
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– Acabou a aula, podem fazer duas piscinas à vontade. João, já sei que é crawl.
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Nunca gostei de nadar bruços e até tive um professor que foi campeão e recordista nacional e que apesar de entradote ainda deu luta a federados – fiz de carro-vassoura. O homem insistia para que nadasse na forma clássica: abre os braços e fecha as pernas, fecha os braços e abre as pernas. Tão dotado para sincronismos, após três momentos certos e já abria pernas e braços ao mesmo tempo e fechava em sintonia. Não nasci para sapo e sempre me senti uma rã disfuncional quando tive de nadar bruços.
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– Tens a mania que és o Yokochi...
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– Não consigo.
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Nas muitas vezes que regressei à natação já ensinaram os bruços «à Yokochi».
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Ainda assim, nadar bruços é um castigo, desajeito-me e sou tão lento... uma rã disléxica em que a frente desacerta a traseira e a esquerda engana a direita.
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Um dia, um instrutor sádico iniciou o ensino do estilo mariposa. Uma violência. Não tinha caparro para ser bom naquilo, mas espantei-o por ter aprendido na perfeição na terceira ou quarta piscina.
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– Nunca vi ninguém assim...
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– Assim como?
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– Que aprendesse a nadar mariposa na primeira aula – e a nadar bem.
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Mariposa? Rezava pela aproximação do topo e fingia-me um hydrofoil para me entreter a mente durante a brutalidade.
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Uns anos depois mandaram-me nadar a mariposa. Fiz duas piscinas, voltei a meter para dentro os pulmões e pus-me a nadar crawl para descansar e descomprimir.
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No nadar de costas fui sempre o melhor. Mas duvido que fosse um pouco melhor que bom se me confrontasse com outros, que não das minhas turmas – turmas, porque foram tantas as desistências e tantos os regressos.
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Se pensar... talvez tenha um terço da vida dentro de água. Os elogios afastaram-me sempre. Talvez com medo de falhar, nunca quis competir – bem me pressionaram. Um dia o bem-intencionado instrutor disse-me:
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– Tenho muitas esperanças em ti para as provas da INATEL.
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– Provas da INATEL?
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– Sim, nas outras já não tens hipóteses, com a tua idade e com as vezes que paraste...
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Nunca mais lá meti os pés. Era o que faltava ter mais um a querer levar-me às corridas.
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Depois passou de todo a idade e nunca mais nenhum treinador me sugeriu ir a provas.
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Mas no crawl... na última vez que piscinei, o maior adversário era um tipo magrinho e má-onda – nadava que se desunhava e era perneta. Tenho feito tudo para enganar o ego... um perneta quase a bater-me no crawl. A verdade é que o tipo fazia aquilo há anos e anos e anos. Constou-me que era paralímpico, o certo é que ia todos os dias e ficava pelo menos o tempo de três sessões e pagava uma pista só para ele. Um dia, não sei porquê, ficou no meu corredor. O tipo era uma besta e quase que ia andando ao estalo.
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Em ritmo de passeio, porque embora possa parecer bazófias sei bem que não sou o super-homem, fazia dois mil e cem metros e quarenta minutos. Os outros cinco eram para o aquecimento e adaptação à temperatura da água.
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– Façam duas piscinas à vontade.
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– João, não estás farto de nadar crawl? Não te fartas? Não estás cansado? Pára um bocado...
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– Profe, canso-me mais parado do que a nadar (crawl).
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Os exercícios de membros também eram engraçados. Nunca dei hipóteses. Havia até quem brincasse e dissesse que eu tinha um motor fora-de-bordo.
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E o sepide (speed) do treino com barbatanas? Todos a gozarem...
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– Profe, não dês ao João. Já viste o tamanho dos pés dele? Não precisa de barbatanas.
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Rebentei três pares.
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– Nunca vi nada assim...
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Que posso fazer se tenho força nas pernas e pés grandes?
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Tive um profe que quando chegava à piscina para ministrar o treino e eu já nadava (crawl) não me dizia nada. Muitas vezes a sessão terminava e só percebia que tinha acabado quando via outras pessoas a nadar e que não faziam parte do meu grupo.
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– Nunca te cansas de nadar crawl?
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Tantas vezes ouvi. Não, não me cansei de nadar crawl e juro que até descansava.
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O único desporto em que tive talento foi uma contínua desistência. Desporto? Crawl.
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Desisti por culpa de quem? Minha, claro, que sempre fui pouco dado a relações, compromissos e pressões.
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Não lamento nunca ter ido a corridas. Nadar bem crawl sempre deu satisfação bastante.
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A única vez que estive numa aflição – piscina vazia, ao ar livre, sem aquecimento e professor momentaneamente distraído – estava a nadar bruços. Cãibras tenebrosas do princípio da coxa até meio do pé – na esquerda e na direita ao mesmo tempo. Quem disse que eu sabia nadar só com braços? Quem disse que eu naquela aflição conseguia nadar só com braços. Bem ou mal safei-me.
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Piscina vazia porque treinava à parte e com um treinador exclusivo – ao ar livre e sem aquecimento, porque era o espaço do clube para os treinos do Verão, só que era Março e o local habitual fechara momentaneamente para obras.
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Patati patata corridas e medalhas e de crawl dali para fora.
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Um dia e crawl outra vez lá pra dentro.
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Nota: O meu pai, o meu tio António e o meu mano também nasceram para nadar.

quarta-feira, julho 02, 2014

Crawl: dez braçadas e respira para a direita, dez braçadas e respira para a esquerda

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Existir – inspirar.
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Expirar – inspirar.
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Inspirar – viver.
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Expirar – suspense.
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Inspirar – alívio.
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Desistir – cansaço.
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Desexistir – vontade.
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Pensamento – acção – consequência
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Pensamento – acção – reacção – consequência.
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Hiato – indecisão – inspirar – expirar.
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Ponderar – fazer – expirar.
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Ponderar – não fazer – automatismo melancólico.
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Inspirar fundo – tédio.
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Expirar fundo – tédio.
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Vida – angústia.
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Inspirar – expirar.
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Esperar – agir.
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Passar do tempo – inspirar – expirar.
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Sucumbir ao peso do tempo – inspirar – expirar – desistir.
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Uma recordação para a viagem – inspirar.
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Expirar – por fim.
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Existir – desistir.
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Desejar – desexistir.

De ouro

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Que falas de silêncios e os que guardaste.
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Donde fujo, mergulhando no ruído do tudo à volta.
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Morre-se aos bocadinhos e morri-te, devendo morrer-me.
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Sim também morri-me e no silêncio longo morreste-me um bocadinho.
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(suspiro de confissão e arrependimento, ponderando as palavras)
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Com que cores se pintam o ruído e o silêncio?
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O silêncio é fácil: preto para opaco, branco para liberdade e cinzento para o que sobrevive no caos. Os matizes que provam o ouro.
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O ruído é encarnado? Fora do recato, cada ânimo tem uma cor e cada seu matiz – difícil.
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Depois daquelas palavras e da partida a meio da noite há uma parede sem nada.
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Estou há dias sentado, num muito desconfortável banco de madeira, desequilibrante com as suas três pernas, a pensar na parede e nos filmes que projecto.
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Comecei no passado e não me demorei no futuro.
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(Estou a olhar para a parede enquanto construo este texto na cabeça – acima da testa e no começo da curva superior do crânio – que reescreverei com letras).
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Quando se escreve na cabeça não se rasgam folhas e não há erros ortográficos ou de sintaxe. Por outro lado, há poucas transgressões – uma chatice suíça.
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A luz nítida das quinze horas vai-se e é parda e a parede camufla-se. À noite não dorme.
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Não sei por que é depreciado falar-se com as paredes se falamos com as almofadas.
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(...)
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A almofada é mãe e a parede é padrasto?
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(...)
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Disseram-me:
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– Em Portugal não há nenhum local em que haja silêncio!
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Não é verdade!
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Que silêncio?!
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Devia ter perguntado.
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A minha cabeça não conhece o silêncio, é cansativo.
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Muitas vezes não tenho paciência.
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Quase todas as vezes em que não tenho essa paciência tenho vontade de fugir.
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A fuga tende a cair para dentro dum frasco ou para a linha suburbana.
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(...)
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Será?
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(...)
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Outro dia estava perdido de sono e não me deixava dormir por causa de todas as raivas que me lembrei.
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As raivas e os desaforos engolidos, as figuras patéticas, as humilhações sofridas e as humilhações infringidas.
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(...)
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(...)
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Não consigo calar-me quando abraço, mesmo nos íntimos, mesmo nos de conjuntura.
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É mais fácil não chorar.
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Por si só, não tenho medo de abraçar.
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Tenho medo dos olhos e de seu olhar, da voz e seu engasgo surdo e hesitante, tenho muito medo antes de abraçar.
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Por isso nem às praças largas vou encontrar-me com a voz do fim do silêncio.
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O deserto não existe e as noites não são vazias.
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O tempo que agora está bom foi uma longa espera.
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Longa e dolorosa do silêncio.
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O tempo de azul e vento manso, que é suposto estar e ficar, pede para deixar a janela aberta e a luz acesa.
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Que a voz entre discreta e pouse diante e dela renasçam silêncios de ternura.
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(...)
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Qual será a voz. Que dirão as bocas...
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(...)
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Demasiado o que disse, demasiado o que dei a carga.
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A minha dor pelas dores causadas e a dor de ficar e esperar.
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A dor do silêncio, a vergonha triste da vergonha.
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Compreender não anestesia, até aviva.
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(...)
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O ruído que tenho diz-me que aguarde uma maré baixa nocturna para que possa ter mais para andar e pensar no limite da surpresa.
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(...)
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Que silêncio que me pede o ruído da cabeça.
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Tenho medo do momento do primeiro olhar e do primeiro movimento.
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Tenho medo do que possa fazer e do que não possa, do que deva e não deva.
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Tenho pânico de cair do abraço abaixo.
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Tenho pânico de ver o chão alagado da tristeza da descorrespondência ou da correspondência.
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Tenho medo das ausências, que mostram mais.
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Tenho medo das presenças, que mostram a mais.
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(...)
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A parede não me responde.
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Na noite passada a almofada deu-me angústias.
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(...)
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A minha voz que violou o silêncio e o moral que som terá agora nos ouvidos de quem guarda silêncio?
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Que som terá o primeiro som após meses que sinto injustos e que ouvirei e estarei disposto a ouvir e que estarei pronto a dizer ou a calar.
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Quantos se salvaram no desastre?
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Não quero contar cadáveres. Não contarei.
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Se o tiver não poderei falar e farei o silêncio dos impotentes, dos tristes, dos derrotados.
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(...)
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O que posso dizer?
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Agora não tenho ânimo para assaltar o boião nem para me debruçar para a linha nem para abraçar num silêncio que todos verão.
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(...)
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Tenho muito medo.
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Muito medo e não o poderei contar nem calar.
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(...)
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Suspiro... que fazer se não fugir.
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Tenho muito medo.
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Nota: a AS e V.


Diferença de classes – os vampiros e os zumbis

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Nascemos iguais e vivemos diferentes. Morremos diferentes e os corpos são iguais.
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Voltaremos. Nasceremos iguais e viveremos diferentes. Morreremos diferentes e os corpos serão iguais.
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Se a morte pudesse resgatar com vida só os corpos – morresse-mos e se a morte existisse – ao sair da tumba viveríamos diferentes.

Teatro

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Pancadas de Molière.
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Panos abertos.
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Primeiro acto – Quietar a Terra.
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Ficar é ir à velocidade da Terra. Ainda que queira ontem. Na cabeça a terrível melancolia dos dias e das vigílias.
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Pensar em ir é vislumbrar uma vertigem – diria vértico para inventar mais uma palavra, mas nem isso contentaria por dez minutos.
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Nem com vela latina se pode contrariar o movimento perpétuo (?) ou tampouco parar para pensar no mundo com a cabeça quieta.
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Assim como desdizer, por mais baixo o tom ou maior a distância, os dardos dos lábios voam quase à velocidade de Deus.
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E Deus perdoa? Perdoa. Não sei é se o ferido perdoa ou esquece. Quendera noutra latitude, onde o frio seca e quebra os pensamentos ou onde o calor os derrete e dilui.
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Morrer não basta. Não basta porque a vida depois da vida.
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Desexistir é muito melhor do que o regresso ao ventre materno e aos momentos da sublime inocência.
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Tenho alguns ciúmes da sombra, mas não sei explicar porquê nem quero pensar muito nisso, pois poderia ser ainda mais doloroso. Veio-me, de repente, ao pensamento...
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Tantos os anos de dores e sem me habituar. Tantos anos de dor que não sei doutra forma que não.
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Podia agora escrever frases de banalidades, com facas e coração.
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Trocar o coração pelo fígado é igual.
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Segundo acto – O alívio breve e falso da autocomiseração.
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Pensamento paralelo: Na impossibilidade de voar para recuar o tempo que perca a vergonha e abrace as árvores da cidade e as fruteiras.
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Voltar à escola e escrever uma redacção que dificilmente deixará de ser ridícula.
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Preencher o verso abaixo com o tema «prometer para não cumprir».
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Preencher o verso abaixo com o tema «alegria».
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Ah! Alegria! Laranjas e cerejas, azeitonas e amêndoas... Ah! A beleza dos dias grandes.
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Coisa pateticamente falsa e estupidamente medíocre. Aposto que muitos professores adorariam e até pediriam ao adolescente que fosse ao estrado ler para a turma toda.
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O facto de não ser genial – a escrever ou a desenhar – não me torna medíocre. O que me torna medíocre é a preguiça e a teimosia de menino mimado.
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Pode ser-se medíocre por saber além do pedido e querer fazer outra coisa, porque a coisa que mandam fazer é descaradamente medíocre.
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Não compensa. Ainda que o secreto – verbalizado ou pensado elogio – reconhecimento da vantagem do trabalho pelo professor obrigado a promover a mediocridade.
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Sim, fui sempre um menino pequenino, elogiado por todos e que nunca passou de medíocre, por fazer o que quis.
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Fiz sempre o que quis, porque fui – sou – um menino. Ainda hoje ingénuo e mimado, crente que podemos ser todos amigos, que posso gostar de toda a gente e toda a gente gostar de mim.
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Isto aos quarenta e quatro anos é péssimo. Isto não é ser-se medíocre, é ser-se estúpido – o que é igual ao ser-se inteligente.
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Só a mediocridade compensa e publicam-se e mostram-se mediocridades que não servem para nada e que a rotação da Terra há-de enterrar no esquecimento. O tempo é cruel.
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Não digo que não tenha valor. Digo que sou medriocramente medíocre, o que é trágico aos quarenta e quatro anos e se começa a pensar na vida
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Agora, já com uma pirosa lágrima a querer saltar – sim, até sou piroso, carente como um menino birrento. Nesta fase ganho, finalmente, o direito à mediocridade porque alimentará suspiro a alguém , não por demérito, que é o mérito da mediocridade, mas por longos esforços para o conseguir – um prémio de carreira.
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Nesta fase pede-se um beijo e uma musa sorri e beija. Subo a um palco invisível e comovido aceito a verdade que pode ser-se medíocre, mesmo lutando contra a mediocridade que foi, ao longo da vida, pedida.
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Coisa pateticamente falsa e estupidamente medíocre.
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Não existe uma mediocridade, mas oceanos e talvez galáxias dessa ridicularia ilusória.
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Ainda assim alguém leva a sério e se preocupa ou aplaude.
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Terceiro acto – a palavra merda dita muitas vezes.
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Mediocridadamente despejo-me um balde de merda. Pronto! Já disse! Merda! Merda! Merda! E mais merda!
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Merda!
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Não aliviou.
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Fico parado a pensar como dizer merda sem ser com as letras que a formam e postas da mesma forma. Não é cansaço, porque sou preguiçoso. Talento? O talento por trabalhar é injusta preguiça, mediocridade.
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Aos quarenta e quatro anos faço um balanço da vida. A primeira vez que me senti velho e incomodado foi aos vinte e cinco anos, passou aos vinte e seis. A segunda vez foi quando um miúdo de vinte e poucos anos me perguntou:
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– O senhor tem lume?
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Tinha vinte e oito anos e doeu-me.
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Agora, aos quarenta e quatro anos, a apenas seis meses para me livrar de vez da hipótese de incorporação nas Forças Armadas, mesmo com guerra, e tenho metade dos dias expectáveis, penso no que já fiz, sem saber o que possa fazer.
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Quarto acto: A inocência.
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Quis estudar pintura e a revolta adolescente contra a ditadura da matemática, da física e da química fizeram-me desviar do destino desejado. Gastei dois anos da minha vida a bater com os cornos em três disciplinas inúteis para o meu futuro.
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Disse o meu pai sábio:
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– Antes perder dois anos do que a vida toda!...
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Por que hão-de as artes ter essas ciências e as letras dispensarem-nas? Porque um conjunto de medíocres não pensou na merda tirânica que estava a estabelecer.
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Por que ensinam Os Lusíadas aos putos? Não precisam? Por que não fonética, seria mais útil – e saberão de fonética, os professores?
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Mudei para letras, onde estive bem e descansado como um ilibado de julgamento. Uma vez mais o talento premiou, mas o desinteresse na mediocridade do estabelecido me valeu avaliações medíocres.
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Mas repito o reconhecimento de que fugir a uma mediocridade não implica que não se caia noutra.
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Quis estudar história e concluí. Quis ser jornalista e sou, há vinte e quatro anos menos um.
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Depois a vida. O que começou prometedor estatelou-se como um gordo caído dum décimo andar. Mereço? Disse que sou um menino mimado. Serei ridículo e medíocre e vejo tanta mediocridade e ignorância.
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Uso as desculpas do costume, a de todos os falhados: estou velho, querem sangue novo, não premeiam a experiência, querem é gente baratinha e obediente, os miúdos saem das faculdades sem saber nada...
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O caralho! Sempre foi assim. É igual às actrizes que só o foram por serem jovens e bonitas. Hoje, queixam-se com inveja por os papéis irem para gaiatas... e o talento? E a sementeira das acções? A desculpa da injustiça é argumento medíocre, ridículo e estúpido.
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O tempo é cruel para quem não sabe envelhecer e não vê que os vinte anos não roubam trabalho aos sessenta anos... o talento, mas também mediocridade.
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Apetece-me tanto destilar a angústia no veneno e citar nomes...
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Quinto acto – O direito à comiseração.
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Posso chorar, tenho esse direito – vá, comovam-se, que preciso do vosso sentimento, seja qual for será elogio.
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Comovam-se e tenham pena da mim, que estou tão franco e nu que os amigos dirão para não publicar este texto que começou uma coisa, passou a outra e não é nem poesia nem prosa nem prosa poética nem epístola nem memória futura de despedida da vida corpórea.
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Lamento, perdi o amigo que me aturava e não tenho o dinheiro para pagar a psicanálise.
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Tivesse eu coragem e diria ao meu pai, de noventa anos, uma confissão cruel:
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 – Pai, obrigado por compreender que mais vale perderem-se dois anos de estudo inútil do que a vida toda... mas perdi a vida toda a fazer o que talvez não merecesse, tanto para o bem como para o mal.
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Luser – não quero estrangeirismos escritos em estrangeiro. Luser! Luser! Luser!
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Agora vou mostrar a quem visita ou tropeça no endereço o que escrevi, que é como quem diz o estado do ânimo que, desta vez, é real – coisa raríssima.
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Se quiser posso apagar, anular as palavras, pôr o texto publicado no momento antes da escrita, ao contrário da vida.
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Ainda assim, quem tem jeitinho conseguirá ler o apagado.
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A solução é mesmo desexistir e todos estes textos, mais de dois mil, seriam de pai incógnito.
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Baixam-se as cortinas e vou chorar para o camarim, a almofada.
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segunda-feira, junho 30, 2014

Salvar o Tua - O meu manifesto

A razão deste texto pode conhecer-se em http://www.salvarotua.org/
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O meu pai sempre disse:
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– As pessoas são capazes de ir ao estrangeiro ver paisagens e museus e do seu país não conhecem nem paisagens nem museus.
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Citando mal, foi isto que sempre disse. O meu pai, que hoje tem 90 anos, nunca quis conduzir nem ter automóvel e não foi por isso que deixámos de visitar o país. Levavam-se horas imensas! Fixei algumas: seis horas de Lisboa a Castro Verde, doze horas de Lisboa a Mirandela.
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Para quem não sabe, o meu pai é (era) artista plástico, concretamente pintor, e absorvia o que lhe entrava pela janela do autocarro ou do comboio, eventualmente do automóvel de alguém com quem partilhávamos o passeio.
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O meu pai via e contava-nos o que via, porque os olhos de pintor viam muito além. Tenho a reprodução do retrato de Dom Sebastião, de Cristóvão de Morais, e lembro-me que esse trabalho – estudo para um outro, de encomenda, e ambos com autorização do Museu Nacional de Arte Antiga, onde o meu pai passou horas a estudar a obra quinhentista – estava com pequenos adesivos a assinalar minúsculas alterações de tom. Onde se via negro, o meu pai via negros.
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Dessas muitas viagens recordo-me da que fizemos até Bragança. Não havia auto-estrada para o Porto, mas da estopinha não tenho ideia. Devia ter onze anos, um para cima ou um para baixo, e adorei ver os tróleis do Porto, onde um dizia que Avintes – achei o nome tão engraçado... e ainda hoje me sorrio a lembrar-me da alegria parva, dum pré-adolescente, de pronunciar Abintes.
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Do Porto fomos em direcção ao Douro, apanhámos o comboio primeiro na Estação de São Bento – ou Sambento, para quem gosta de falares – mudámos em Campanhã. O que tem de bonito a primeira – uma das mais felizes gares portuguesas, com azulejos de Jorge Colaço – tem de feiura a outra, que parece um apeadeiro gigante e encardido – e assim acontece também em Coimbra.
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A vista da linha do Douro enche a alma. Mas o arrebatar da respiração começou no Pocinho, onde se fazia o transbordo para a linha do Tua, que desaguava em Bragança. O comboio era pequenino e lento e trepava, pouca-terra-pouca-terra, até Trás-os-Montes.
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Com os olhos quase virgens, sem medo mas pensativo, enamorei-me pelas paredes de encosta dum lado e com a vertigem do outro, que só parava no fim troço de água, um risco largo de verde escuro, bordado a branco fininho, dos tropeções nos calhaus. Do outro lado vi, como se fosse um espelho, escarpas brutas, babantes de amarelo-alaranjado do enxofre, escorrentes nos cinzentos, com umas pouquíssimas plantas doidas que nesses muros escolheram fixar-se.
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O comboio corria em bitola estreita e os bancos eram de madeira, com alguma ergonomia. Eram de suma-a-pau e não sumaúma, brincava o Manuel Jorge, o pintor. A minha mãe, quase sempre calada, mostrava o enlevo.
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Conversador e activo, o meu pai meteu conversa com quase toda a gente e tanto se falou sobre aquela linha, aqueles povos, as vidas de outrora e da linha e sua vista. Dessas conversações não me lembro, mas fixei uma piada:
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– Este comboio é tão lento que se pode sair, em andamento, pela porta da frente, fazer xixi, apanhar umas flores, esperar um pouco e entrar pela porta de trás.
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Apaixonei-me por Bragança e por Vinhais. A capital de distrito era uma aldeia grande e longínqua e Vinhais tocou-me pela decadência do património medieval. Voltei lá, muitos anos depois, e essas pedras estavam barradas com cimento, uma tragédia de gosto e bom-senso.
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Uns anos mais tarde (talvez oito, nove ou dez) andei a mostrar Portugal à Kerstin e tive de a levar até Bragança pelo caminho mais bravio. A bitola estava ainda reduzida e a máquina uma ternura que arrastava duas carruagens. Entrei e decepcionei-me, porque tinham tirado os bancos de suma-a-pau por uns bancos chatos, duros, desconfortáveis – umas coisas verdes iguais aos que equipavam a linha de Sintra. Moderno não é sempre progresso, os de madeira eram muito mais confortáveis, por se ajustarem ao corpo.
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Mostrei-lhe o século dezanove e ela deu-me o século vinte; a minha namorada alemã vivia em Wuppertal, uma cidade em que o metropolitano tem os carris em cima e se prende às linhas por um braço, causando o balanço que lhe deu a alcunha, ou o nome próprio, de «comboio que levita», Schwebebahn. Cidade que Wim Wenders filmou em «Alice e as cidades». Cidade onde a bailarina e coreografa Pina Bausch fixara a sua companhia de bailado, a Wuppertal Tanztheater. Cidade onde nasceu a poderosa multinacional Bayer, cujo complexo, o primeiro, foi cercado pela cidade, é atravessado pelo bizarro veículo. Cidade que, fora isso, não tem nada de interessante e onde já não vive a minha grandíssima amiga Kerstin e o fantástico marido Markus.
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Regresso à viagem no século dezanove... Desesperados pelo conforto e, sobretudo, pelo cheirete dum velhote, fomos indagar a carruagem seguinte. Parecia ter metade do tamanho, mas havia uma porta ao fundo. Abrimo-la e era espaço de carga – levava o correio, um ou dois pacotes. Tão larga e comprida para tão pouca coisa...
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Pouca coisa? Não! Uma porta larga, para permitir a entrada de cargas volumosas. Mais do que porta, muito mais do que janela, era o portão para a liberdade dum salto ou varanda, aberta e apenas com um ferro para alguém se agarrar caso fosse preciso. Sentámo-nos no chão, com os pés no estribo e bebemos o ar de cheiros que fazia parte da paisagem.
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Em Portugal teima-se na asneira de abandonar as linhas férreas. Não digo apenas as antigas e quase vazias, até as que não nascem... Aos anos que oiço falar numa linha de mercadorias, em bitola europeia, entre o terminal de carga do porto de Sines, de águas profundas, e França, passando sem salto ou transbordo a fronteira dos Pirenéus – entrada privilegiada e óbvia para grandes cargueiros – e nada se faz. Em contrapartida pensou-se em comboios de alta velocidade sem cidade onde parar e fez-se um aeroporto em Beja, meio caminho de duzentos e setenta e sete quilómetros e quinhentos metros entre Lisboa e Faro – infra-estrutura que serve uma área metropolitana de pouco mais de vinte e cinco mil habitantes. Mas houve tantos mais.
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A força dum povo – inculto mas cioso das suas coisas, que no tempo certo consegue reparar nas patifarias que querem fazer ao que é seu – rasgou a barragem do Vale do Côa. Os portugueses compreenderam que aqueles riscos, que ninguém percebia, eram importantes. Juntaram-se intelectuais e paisanos, assinaram-se papéis do abaixo-assinado; do duque de Bragança, representante de oitocentos anos de Reis, a intelectuais e anónimos. O Vinho do Porto, património único e valioso, deu outra ajuda. Nos momentos importantes, há canções que se tornam hinos. Nesse momento foi o nascente hip hop português a bandeira sonora da causa, dos Black Company.
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 – As gravuras não sabem nadar, yô!
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Foi em 1995 e Portugal fartava-se da democracia de voz grossa do Governo de Cavaco Silva, que levou mais uns tabefes na Ponte 25 de Abril.
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A força das ideias tanto bateu, e com tanta força, no betão que a barragem não vingou. Quase vinte anos depois, os portugueses voltam a ter de se mover, agora pelo Tua. Agora é mais difícil argumentar, não há gravuras, mas nem por isso a luta deixa de valer a pena.
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Do que se fala?
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– Fala-se de defesa do meio ambiente. Fala-se de vinho, do Porto e do Douro. Fala-se da paisagem humanizada por gerações de trabalhadores, que permitiram a agricultar-se nas montanhas. Fala-se em todo esse património que a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) classificou, em 2001, como sendo de interesse da humanidade.
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Não é com intervenções artísticas que se faz a ressurreição de bens públicos. Com a lição aprendida a quando do movimento contra a barragem do Vale do Côa, a EDP arrebanha agora artistas consagrados e arquitectos de prestígio... matar ao luar não é menos criminoso do que o fazer na rua à luz do dia – como se fosse um filme negro com detectives.
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Esta luta pelo Tua tem a «virtude» de mostrar o rosto de alguns dos grandes nomes das artes portuguesas e das elites da arquitectura. Não quero fazer juízos de carácter dos artistas Pedro Cabrita Reis, Pedro Calapez e Joana Vasconcelos, que têm sido convidados a criar arte nas infra-estruturas hidroeléctricas. Ficamos a saber que gostam de ouvir o tilintar das moedas nas algibeiras – o que é o que é – mas nunca lhes ouvi discursos altruístas acerca da defesa do património e pode ser que tanto lhes dá como se lhes deu o Douro dos socalcos, o vinho único de classe mundial e as plantinhas e a bicheza.
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Mas Eduardo Souto Moura e Álvaro Siza Vieira dão-me vómitos. Tudo o que disseram afinal tem uma excepção e a excepção é o atentado ao património onde vão poder mexer, a troco duma transferência bancária, que tanto pode ser dum cêntimo como de três mil milhões de euros.
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Siza Vieira mete-me particularmente nojo, pelo que defendeu para o Chiado e pelos bonitos riscos que traçou da obra humana e natural do Douro. Poderão dizer:
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– A assinatura de tão reputados arquitectos, ambos vencedores do Prémio Pritzker, dá garantias de boa integração na paisagem e vai criar um sítio de interesse cultural.
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Cultura que destrói o único e o frágil lembra-me a Santíssima Inquisição e a perseguição ao pensamento divergente, queimando livros e pessoas. Para mais, matar é sempre matar, nunca se mata mais-ou-menos. Se matarem o património com a barragem do Côa, não serão São Álvaro (santo dominicano, nascido em Córdova em 1368 e morrido em 1430) nem os dois São Eduardos (ambos reis de Inglaterra – O Confessor, 1004 a 1066 e O Mártir, 962 a 978) quem irá miracular a aventesma. Muito menos os arquitectos Álvaro e Eduardo quem irá embelezar a besta-fera.
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Não, não acredito em milagres... Acreditando em Deus – num sentido de consciência moral, ético e espiritual, mesmo em agnósticos e ateus – sei que haverá quem, mais ilustrado «lá do outro lado», agasalhe esta luta. Mas se a barragem do Tua for levada numa enxurrada de cidadania, o correr da água irá lavar os maus pensamentos, será por labor dos conscientes, numa batalha na Terra contra o materialismo.
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Digam: são trezentos e cinco milhões de euros. Quanto vale um abutre, quanto vale a fauna e a flora selvagem? São quatro mil empregos, directos e indirectos. Até quando? Até dois mil e dezasseis. Depois disso? Os mesmos sítios ermos e os paisanos que não morrerem nem abalem para onde a vida dá mais uns trocos.
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E se antes se criassem redes de turismo e se embrulhasse todo o Vale do Douro até ao Planalto Transmontano num pacote de beleza, cultura e recreio? Daria mais trabalho, a Câmaras, empresários... Começando no Porto e acabando em... não só de luxo. Muito mais euros e mais trabalhos daria. Não Já, mas mais logo.
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Ainda que lá não vá ao Tua, quero que exista. Tal como quero vivos o lobo e o urso não tencione encontrar-me com eles.
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Pois, a luz. Que luz essa que ensombra?
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Estou-me nas tintas se vamos importar mais electricidade, que vamos pagar mais... só tenho dez dedos na mão e não cortaria nenhum para que as minhas mãos coubessem numa luva com nove entradas feita de prata e ouro – que confortáveis seriam.
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Ah! Já me ia esquecendo... a soalheira Alemanha consumiu, a nove de Junho passado, cinquenta vírgula seis por cento da energia a partir do Sol.
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O número de horas de Sol em Portugal situa-se entre as duas mil e duzentas e as três mil. Na Alemanha, a variação é entre mil e duzentas e as mil e setecentas.
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Nota 1: Por limitação do número de caracteres nas tag, os créditos dos vídeos são expostos aqui:
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Nota 2: A música «As coisas mais bonitas que vi» é o hino pela defesa do Tua e tem a autoria de Márcia e Luísa Sobral. Nela participam também Amélia Muge, André Tentúgal (We Trust), Catarina Salinas (Best Youth), Frankie Chavez, Mafalda Veiga, Marta Ren, Rui Reininho (GNR), Samuel Úria, Selma Uamusse, Susana Travassos e Tiago Bettencourt.  
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Nota 3: Para quem ficou curioso com o Schwebebahn, aqui fica um vídeo que acompanha parte viagem – tentei pôr a viagem toda, mas os quarenta e quatro minutos de filme são demasiados para a capacidade do Blogger.
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domingo, junho 29, 2014

Futebol

Uns voam loucos como rapinas. Outros são esqueleto de catedral.
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A luz do santuário arrepia e as vozes grandes dos coros – em transe. Marés sonoras que os olhos sentem na luz dos seus e espanto de medo p’los outros.
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Todo o corpo é olhos, boca e coração. E fogo. Fígado!
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Voltarei feliz, voltarei triste.
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Mesmo triste se forem passarinhos e pedras de jogar.
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Nota: A minha Selecção é o Clube de Futebol «Os Belenenses», a outra existe de vez em quando.

Cardo

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O  dia do regresso, invisível e insonoro, sem bater para entrar e pronto agarra e espreme o que tenho de mais cansado e frágil. Surge como um morto reerguido da campa que num local aguarda. Não é espírito, digo zumbi.
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Aterrado nem desfaleço nem fujo nem me agarra nem diz nada. Aperta-me o coração a estrangular-me e desfaleço por impossibilidade de morrer. Adormeço cainte, e cainte tento erguer-me e volto a cair. O meu sono de farrapos, em terra de ninguém, um tabuleiro de xadrez, perdido sem viver vivalma. Fraquejando das pernas tentando andar, até ao deitado frágil impotente para mover.
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O tempo das perguntas passou. Não passou a incompreensão. Sei da morte e do desejo, não percebo a ferida que se reabre porque sim. Hoje não é dia para chorar, é de tédio, um dia sem horas. Sem horas é muito mais do que muitas horas, com começo e sem fim, em que cada hora dormida é um pesadelo e outra hora acordado é um pesadelo.
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Solidão talvez um pouco, a solidão é como o sal. Hábito e ora bem e ora mal. Se fosse simples e óbvio. Como dói e limpei a dor com o coração e agora espremido não sente nada além da dor. Cria que era da cabeça e também é.
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Não tenho securas na boca, tenho um amargor dum sinal de vida. Não sinto a jugular nem tenho tigre para a usar. O mal está na ficantura.
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Quando se tem a mala e a vontade aviadas para partir e frente ao bus viajante se deixa que se parta uma e uma e uma e uma e uma... vez. Não são vezes, são muitas uma vez. Inconseguir partir e inconseguir ficar.
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O meu sonho, o que quero agora mesmo, assim de repente?... Não estar não me basta e porque sei que se não estiver, estarei noutro lugar. Não ser. Ser ou não ser não é uma questão é um castigo. Quendera poder desexistir.
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Vou para de escrever. Como um franciscano de deita de braços abertos frente ao altar do Senhor, despejo-me onde tiver espaço e ficarei anestesiando-me com a temperatura do chão e com as vidas abaixo e acima da casa.
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Depois logo se vê.

quarta-feira, junho 25, 2014

O que não como

Estou de dieta e apetece-me um bolo... .
Entro na pastelaria e digo:
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– Bom dia, quero um pastel de nada, por favor.
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– Não será um pastel de nata?
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– Não! É um pastel de nada!
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– Um pastel de nada?
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– Sim, estou de dieta...
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– Não estou a perceber...
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– Oh, senhor... um pastel de nata é como as sardinhas. Ambos são símbolos gastronómicos portugueses... tanto um como o outro não como... um não devo e outro não posso.
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– Ah! Então quer o quê?
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– Uma bica curta em chávena fria.
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– Aqui tem...
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– Obrigado, mas o seu conceito de curto é igual ao meu de meia chávena.
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– Aqui as bicas curtas são como os pastéis de nada... não existem.
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Nota: Não sei como engavetar esta obra na lista dos conceitos... escultura ou pastelaria? Ou escultura em pastelaria. Vou tentar comunicar com o autor, Sérgio Dias.

Quero um Nissan Juke

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Não ligo a carros e não gosto da estética dos automóveis japoneses. Mas o Nissan Juke é tão feio que é lindo! Ite-se note a jouque ite-se a Juke.
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Nota: It’s not a joke, it’s a Juke.

Elogio à clínica Dentária de São Paulo – não é publicidade mas seja o que quiserem

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Não tenho a certeza se valorizamos a boca, sobretudo por dentro. Desconfio que a boca é como as mães, só nos lembramos quando nos faz falta, por vezes já no outro lado da vida. Tal como uma mãe, a boca alimenta-nos.
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Dentro da boca cabem o doce, o salgado, o amargo, o ácido e o umami, e o prazer que deles se consegue. Mesmo quem não tem prazer ou grande prazer com a mesa tem preferências.
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Supostamente todos os dias lavamos os dentes, pelo menos de manhã e ao deitar. É uma obrigação de higiene e mesmo que não fosse seria de respeito por causa do hálito. Claro que há campeões como o alho ou a cebola, que se guardam e agarram tão bem que nem a pasta mais voraz os consegue retirar completamente.
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Bem, há a obrigação da lavagem, mas lembramo-nos deles quando nos doem e temos de correr para o dentista. Ou quando a velhice nos tira e a mastigação se torna difícil. Há as próteses, pontes, implantes, coroas, aparelhos, a cerâmica, o titânio, o ouro – alguns estarão repetidos, mas de material de boca percebo pouco.
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Por vezes os dentes zangam-se com os alimentos frios e quentes. Dão coices que lançam dores até aos ouvidos.
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Há a língua, que é uma chatice na cadeira do dentista, porque se mexe e dificulta o trabalho ao doutor. Quando a trincamos... ui! Dor tão incomodativa quanto a de morder as paredes da boca.
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A mesa – a boca por arrasto – é uma secretária para negócios vários, seja ela mesmo de tabuleiro e pernas ou seja no chão com os convivas à volta. Julgo que em todos os povos o momento da comida tem alguma solenidade. Do nascimento, ao simbolismo da procriação, que é o casamento, ao falecer.
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Reis e presidentes de república dão recepções em seus palácios em que o banquete é obrigatório quando o convidado é importante e se vai demorar uns dias. Há as chatérrimas conversações para comprar a porcaria dum tapete, supostamente exótico, nos países árabes. As boas-vindas nas tribos de toda a parte. Por aí, por aí e adiante.
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Há o protocolo da mesa, que se divide entre a habilidade de maneio dos apetrechos e o modo de manifestar satisfação ou falta de educação. Mastigar de boca aberta, causando sons pastelados e visões evitáveis, é comum nos portugueses – penso que nem se apercebem ou são procedimentos que estão de tal modo enraizados que não se liga – eu ligo. Há os arrotos que condenamos e outros aplaudem. Há o educado e respeitoso sorver ruidoso e o desagradável sorver ruidoso.
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A boca – se pensarmos bem nela – gosta que as comidas empratadas tenham uma ordem. Não por ritual, mas porque as determinações, convencionadas após experiência, mas porque os sabores vão-se completando e sobem nas intensidades.
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Há bocas que não gostam de vinho e outras que ganham tanto prazer. Alguns bebem de tudo e outros dispensam os aromas e sabores de cartão molhado ou os que lembram estribarias. Quem diz prazer enófilo pode considerar outra bebida.
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Quanto ao álcool existem pessoas que, por segregarem qualquer químico ou não segregarem – não sei – podem beber sem tino, porque o sopro não acusa penalidades nos testes do balão que as polícias efectuam nos auto-stopes ou nos acidentes.
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Quando me nasceram os sisos, os do primeiro andar doeram-me tanto que desejei ser uma ave ou enviar-me para o mundo dos espíritos. Doeram para não dormir uma semana inteira e para chumbar num exame de condução, por ter adormecido ao volante. Não fosse o examinador ter travado e um automóvel bem estacionado teria sido abalroado. Simpático, o senhor engenheiro, como eram conhecidos à época, compreendeu a situação e em vez de me chumbar escreveu que não tinha comparecido ao exame – é que uma reprovação podia (pode) mandar o candidato de volta para as aulas de código da estrada.
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Nessa semana, a do Natal ou do Ano Novo, consegui falar com o meu dentista. Não havia telemóveis nem emails e a clínica estava fechada. Ainda assim dei com ele, que prontamente deixou o descanso para me aliviar. Deu-me uma pirula mágica e a dor desapareceu... até às quatro da manhã, de madrugada, e fiquei em claro. Bem me aconselhou, o doutor, a não fazer exame de condução...
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Foi o meu dentista durante quase trinta anos, mas agora retirou-se. Disse-me, nessa vez, e lembrou-se noutras, que nunca vira sisos tão grandes. Até afirmou que pareciam dentes de burro. Ah pois que doíam como #*£@+$&!
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Desde então que não sei o que é uma dor de dentes. Tenho, por vezes, uns incómodos, umas coceguinhas irritantes... Como dizia, num inquérito televisivo de rua acerca do frio – uma vaga de frio polar, diz-se agora, dantes chamava-se Inverno – um ucraniano:
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– Frio? Frio é na minha terra, na Ucrânia. Isto é talvez fresquinho.
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Assim são as minhas dores de dentes. Doem? Doer foram os nascimentos dos sisos! Apanharam-me a boca, os ouvidos, os olhos, a testa, o humor. Porra! Os de baixo não incomodaram, o que me leva a crer que sou menos burro em baixo do que em cima – não sei se é bom se é mau, mas com a esperteza dos asininos penso que ainda bem, seja o significado o que tiver de ser.
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Bom, não vivo do vinho nem da comida, embora muita gente pense que sim. Ganho a vida a escrever sobre economia e agricultura. Por isso, a boca é-me muito útil. O olfacto também, mas escreverei acerca do nariz quando tiver de ser – só digo que o cheiro a pescado é cicuta e arsénico para nariz e entranhas gástricas.
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O sorriso! O das mães, oh! O das avós, oh oh! O do pai, sem oh! O dos avôs, leve oh! O dos amigos, qual oh?! O do ser amado, oh que dor tão boa! O da sedução, ai! O da auto-estima, hum! O da vaidade, qualquer coisa oh!
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Não me lembrei de escrever sobre a boca porque me olhei ao espelho e conclui o quão belo sou. Tal como os olhos, a boca fala e não me refiro à articulação dos sons, mas ao estado de ânimo.
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Lembrei-me de escrever, há já umas semanas, porque o meu dentista se retirou e eu estava com uma comichão num molar. Segui a sugestão da amiga Sissi e apanhei o metro até ao Cais do Sodré. Atravessei a avenida 24 de Julho, onde a Câmara Municipal de Lisboa se esqueceu de mandar pintar passadeiras para peões e de pôr semáforos, ladeei, pela estrada, a esplanada do Mercado da Ribeira que abusa de todo o espaço, virei à direita e cheguei à Praça ou Largo de São Paulo – acho que é largo, mas na realidade é uma praça e bem simpática, exceptuando o quiosque, onde os empregados são duma antipatia que roça a falta de educação.
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O Largo de São Paulo que, em tempos, frequentei à hora do almoço. Ia porque encontrei paz na Igreja para rezar. Sou cristão não católico e penso que se pode conversar, pedir e agradecer a Deus ou a entidades de superior moral e espiritualidade, mas ali tinha paz e o coração enchia-se.
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A Igreja de São Paulo, de suave barroco, estava a ser restaurada e já conhecia de vista as restauradoras, acho que eram só mulheres. Uma era bem gira, mas não reparava em mim, que estava tão solteiro e carente... ai! Ai, o #*£@+$&! Não gosto de intimidades postas a público e muito menos destas, cruas e verdadeiras.
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De regresso ao passado próximo; estava adiantado na hora e sentei-me nas cadeiras da esplanada do quiosque a beber uma Água das Pedras. Olhava para o número 19 e pensava: que saudades vou ter do meu dentista!... os dentistas são como os mecânicos de automóveis, quando encontramos um que nos satisfaz, mais ninguém nos mete os dedos na boca.
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Chegou a hora, subi ao primeiro andar, puxei a porta no sentido contrário e, como sou burro – confira-se no que disse o meu anterior dentista acerca dos meus sisos – insisti. O material tem sempre razão e cedi à realidade. Entrei e sorriram-me.
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Na mesa de vidro estão dois papéis. Um diz que tem livro de reclamações e outro que tem livro de elogios – tenho de escrever neste.
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Fui intervencionado e voltei. Voltarei até ter uma boca nova.
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Como bem sabeis, nestas crónicas gosto de pôr uma imagem ou um vídeo no blogue joaoamesa.blogspot.com e no infotocopiavel.blogspot.com é obrigatório.
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Não colocarei a imagem referente à clínica, pois seria publicidade e este é um texto de agradecimento aos doutores e à amiga Sissi, que tem um miúdo que conheci desde o berço e hoje é homem feito e alto como o #*£@+$&!
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Não é publicidade, mas devo colocar o linque para o sítio nainternet. É este. Ide, ide quando tiverdes dores ou quando as quereis prevenir.
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Nota: Pintura Bizantina de São Paulo, Escutura de Bernardí Roig, Pintura de Carlo Dolci de Santa Apolónia (padroeira dos dentistas», Vídeo do anúncio à pasta medicinal Couto.