digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

domingo, abril 06, 2014

À sombra da Árvore da Ciência do Bem e do Mal

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Estou no meu segundo luto, e segundo homicídio.
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Deitado, lado a lado, aguentei o odor das flores quando os dias lhe tolheram os encantos; vivia num jazigo.
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A primeira pessoa que matei...
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Sem mentir ou disfarçar, não sei se matei...
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Não sei se me posso designar por psicopata, mas não me lembro de nada.
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Entre a hora e a noite do crime e o momento em que o coração recebe o embate final.
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Lembro-me de muita coisa, mas não de armas brancas, de fogo ou venenos. Nem verbal.
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Uma multidão, de duas ou três personagens, apontou-me a culpa.
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Nunca disse que era inimputável, mas daí a homicida... e naquele caso em concreto... por que não.
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Não! Revistos os papéis e as palavras. Não matei!
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E se tivesse morto? E se matei?
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A ignorância magoa muito. Provavelmente mais do que os tabefes que os polícias dão aos meliantes e que, apesar de caçados, voltam imunes para a rua, porque as celas estão cheias, porque há demasiados julgamentos, porque os advogados não sei o quê, e porque uma organização dos bonzinhos interveio em nome dos direitos da canalha contra o socialmente favorecido que estava num lugar errado.
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A polícia não me interrogou. Nem me bateu, limitou-se a fazer-me penar com o silêncio e a ignorância da acusação.
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Julgado e sentenciado por um colectivo de juízes dissonante.
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Sentenciado por um júri volátil, oscilante entre o que não sabe e o que desconhece.
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Nas alegações, os autores da queixa, a mulher em lágrimas e o defunto que não me olhava, até me acusaram de ser bipolar.
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Ora eu que tomo comprimidos para rir... para que possa enganar o mundo.
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Transtorno dissociativo de identidade, queriam dizer a vítima e sua partenere. É normal, é um distúrbio tão raro que quase só acontece na literatura.
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Tanto faz! Trata-se de caso de loucura e aos loucos não se dá conversa.
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A justiça fez-se. Uma voz solene leu uma data de palavras, que eu, mesmo licenciado, não entendi.
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Observando as regras solenes da etiqueta jurídica, lembrada suavemente por estreito esgar do advogado, fiquei de pé a ouvir uma novela aborrecida e mal escrita, cujo interesse se limitou às últimas palavras.
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Eu, em pé, sob o olhar, entre o confiante e o desesperado do meu advogado, e o alheamento, fugidio de expressões dos autores...
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Sendo o homicídio um crime público, lá no cimo do estrado, que existe para dar maior importância a alguém que se veste com uma bata preta, estava uma pessoa, não sei se homem ou se mulher, a olhar para mim, com o mesmo interesse que se finge quando se visita o estábulo de vacas leiteiras.
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A memória é selectiva e, embora me dissesse respeito, sentia, ainda antes do festival de argumentações, uma sentença para um acto que...
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Três juízes disseram: Culpado e com pena efectiva, inocente e em liberdade condicionada (leia-se magoada), e culpado com pena suspensa, não se dê o caso de não ter culpa alguma.
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Como a dor era muita e sempre quis saber a verdade, insisti na tentativa de conversar com o defunto.
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Guardei-me num jazigo à espera que passasse ou entrasse. Infantilidades de optimismos...
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Aguentei-me, enjoado com o odor das flores em agonia.
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E se entrasse, nem que por engano, o que lhe diria?
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Estás bom?
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Matei-te?
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Não sabendo, assumindo o mais puro sentimento da verdade, não estive amnésico.
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Julguei ter sido alvo duma bala de cicuta certeira na têmpora. Nesse caso, do que constaria do diploma de óbito? Pensarei noutro dia.
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A espera, nesse que seria o meu primeiro jazigo, o cheiro das flores tornou-se em vómito e o tempo tira vida a tudo, até à paciência.
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Já deslembrado do que nunca soube, continuei. Uma normalidade que só os tolos pensam ser de grande aventura e maluquice. Pequenas extravagâncias entre amigos que partilharam quartos
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Ah! Mas não sou santo! Tenho em mim um vórtice que me puxa. Não inocentemente, pois tenho a vontade de nele cair, viajando como Alice. Parece-me, pelo que leio e julgo entender, que a dietilamida do ácido lisérgico tem efeitos que podem ser idênticos ou comparáveis.
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Esse vórtice, chupa-cores helicoidal, que me fala e chama, teria de vencer, nem que fosse por uma vez, a lógica do afecto, que, como o das mães, se confia e acredita ser eterno.
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Se nesse primeiro crime deitei-me num jazigo – com as flores que acabaram por apodrecer, esperando que o féretro se juntasse naquele leito de mármore, que tem, à entrada, do lado de fora, uma locução de pesar em latim e que acompanha banalmente a aldeia das casinhas para cadáveres – agora embosquei-me na tristeza da culpa.
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Desta vez houve crime verdadeiro, com as minhas mãos transformadas em boca, que estrangularam pedindo ajuda – um pouco como fazem os náufragos àqueles que os vão salvar, desconhecendo as artimanhas da morte, que com amonas e abraços estrangulantes matam por afogamento os salvadores. Assim fiz, com esperança nas palavras.
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O flúor e o iodo fazem bem à saúde, mas são venenos.
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(É neste ponto que todos aqueles que, vendo o corpo jazente da vítima e o meu semblante tardio, me podem, ou devem, apelidar de manipulador – seja para cima ou para baixo – pois o elevador faz os dois caminhos, com o mesmo ranger de metal, o que assusta algumas pessoas).
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Digo tardio, porque o que penso agora tivera tido outra compreensão a quando da sentença, ainda antes de decidida e proferida.
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Dizia: não fugi e entreguei-me, ainda o corpo fumegava de dor – embora no singular, deve ler-se no plural.
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Ostracizado, foi esse o castigo...
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Voltei a escolher passar a pena num jazigo, sendo este maior. Não por acaso ou bondade para com o condenado, mas para que coubessem mais flores e assim me enjoasse mais facilmente.
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Desta vez, o defunto apresentou-se. Ficando em ausência, para que a minha dor fosse aguda e grave, gritando, figuradamente, como um órgão de igreja barroca, fustigando os ouvidos de qualquer pessoa dotada de bom senso auditivo.
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Eu e a vítima, separados por um muro de flores a impossibilitar o vislumbre e filtrando o som que uma boca (a minha) pudesse proferir.
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Exagero: na verdade, o jazigo partilhado com as flores mórbidas e a vítima basta em espaço.
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Interrogo-me, agora marginalmente, onde estão ou estavam os cadáveres proprietários dos jazigos. As flores garantem a existência do convívio doloroso que une partintes e ficantes... Mais tarde pensarei nisso.
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Não falo ao meu homicidiado, porque não me ouve. Quero dizer, não me quer ouvir. Ainda tentei, mas não se arromba uma amizade.
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Não diz nada, mas tenho a certeza que me ouve. Noto um certo remexer da folhagem das coroas ou das pétalas violáceas lá no outro lado da casa.
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E se falássemos, falaríamos do quê?
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Do frio que faz dentro da casa de pedra? Penso que é de mármore... ou do odor enjoativo das flores?
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Do tempo que está lá fora? Chove? Faz frio? Esta semana viu-se pouca gente...
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Falaríamos do homicídio? Disso não, porque foi com palavras que lhe estrangulei a réstia de paciência.
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Pensando... terei matado alguém vivo num ápice ou terei apenas posto demasiadas gotas de tóxico no chá?!
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Li nos jornais que um bandido anda à solta. Começa por impacientar e acaba estrangulando, com manipulações de sentimentos.
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Ingenuamente sei que sou eu. Louco, não paranóico. Ainda assim espero o momento duma acusação nesse âmbito.
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Manchete em vários jornais: Investigações recentes apontam-me como provável serialquiler.
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As palavras matam e falo demasiado.
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As amizades são para a vida! Ok! Quanto dura uma vida?
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Pelo princípio: o que é a vida? E pressupõe reciprocidade ou Deus criou o universo com um só sentido de marcha, estando a faixa do lado com vedame mais à frente.
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Num outro princípio, mas mais avançado... será o jardim de Deus, um labirinto de sebes, que, ao desvendar-se, como um delta de rio, se transforma em largo prado, com todas as flores em bosquetes, e pomar de todas as árvores de fruta, podendo comer-se de todas elas, incluindo as da Árvore da Ciência do Bem e do Mal?
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Porém, ao contrário do primeiro crime, que alegadamente terei cometido, esta sentença perdeu a vida.
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A sentença morreu. Como tudo na vida. Mentira!... ou quase verdade, em inocência... transfigurada pela metamorfose. Esgotada transformou-se no martírio do açoite.
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Como dói a dor que se dá injusta. Como tudo na vida, há um fim.
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Sem clemência nem apelo, a fustigação fez-se normalidade, daí resultando uma indiferença.
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Tanto faz que tenha morto alguém. Tudo na vida morre. Se morrem os corpos dos amigos, jazem também os sentimentos que se prendem às almas?
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Vive quem quer e sobrevive quem pode. E o mesmo dito colocando os verbos querer e poder.
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Tenho as contas saldadas. Os mortos não me matam. Os vivos, os que ainda, com adaga segurada entre dentes ou drone para balear à distância, o podem fazer... fazem-se de moribundos.
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Como as fieis beatas, que com a boca e coração maldizem para se arrependerem, sem arrependimento, ao cura, recebendo um perdão, graça e hóstia. Pobres homens, o que têm de ouvir e aturar.
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Estamos na Páscoa e sempre comi carne. Antes, durante e depois. Fui malcriado. Esta é característica que, em estudo aprofundado, pode levar a obter conclusões interessantes acerca da minha tendência homicida.
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Tenho a dizer, sem cinismo... acredite quem quiser: Quem teme o estrangulador de afectos que durma descansado, tal a fraqueza.
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Ceder à dor da fustigação, a que me prestam em atenção, seria outro massacre de cinto e fivela.
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Não fico mais num jazigo e deixo as flores defuntas para quem, embora morto, queira continuar sem vida.
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Se os amigos morrem?
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Morrem. Fica viva a amizade.
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Os amigos morrem?
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Uma construção de passados e gratidões, memórias, tristezas e alegrias.
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Matam-se os amigos. Levados para campa rasa, forno ou jazigo, terão consigo sentimentos provenientes das alegrias. As tristezas esquecem-se, ainda que na dificuldade houvesse alguém, mais sóbrio e momentaneamente enrijecido, lutasse para que o bom pudesse amparar...
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Coisas que não se fazer por «gosto», mas por amor. dois.
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Lutasse, pensando, de antemão, no momento do beijo da traição. Afecto cínico, como quem cria galinhas em capoeira, que mantenha ânimo às suas futuras vítimas.
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A verdade é maior do que a vida e nada supera o amor, assim quis Deus. Assim penso. Mesmo crendo por lógica e não por fé, reconheço-lhe infinitas bondade e inteligência.
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Quando penso predisposição de me açoitarem, castigando-me navalhados mortalmente e ainda vivendo, morro um pouco, confesso.
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Morro pelo engano. Pela traição, tirada emprestada à minha vítima homicidiada.
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Compreendo. A verdade é maior do que a vida e que esta se faz de memórias. Mesmo não querendo, negando em juras, há afectos maiores do que outros.
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Que seja o sangue ou o partido a tomar a parte. Que não tome o rancor e a justiça que não lhe compete.
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Que saibam que em cada vida só se morre uma vez. Quem quiser a minha bala de cicuta que se coloque defronte ao gatilho e espere... Nunca se sabe se o dedo se cansa e o único projéctil, em sorte de roleta russa, se liberte.
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Se assim, espero ter saudades da caixa de pedra, onde só se conversa com o vazio.
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Não peço dores emprestadas, nem as ofereço em demérito. Ainda que queiram que o faça... e se mo fizerem, não darei o desgosto do rancor.
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Os amigos são um exército pequenino, talvez menos do que um pelotão. Há os que vão e vêm, os que ficam (por qualquer razão), os que nunca foram (sem razão), os que zarpam, e os mais tristes, que saem fechando a porta aos amigos, com as chaves do lado de dentro e ouvidos surtos a chamamentos.
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A esses desejo que nunca seja noite e que dentro do santuário que encontrem haja do que comer e matar a sede.
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E palavras de encontro, boas ou más, mas que reconciliem quem nunca devia ter sido apartado, tendo ido ou ficado.
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Digo isto tardio, evitando desilusão. Quero compreender o homem, que me perdoe e lhe dê graças por, vindo a mim, mesmo sem que os lábios se mexam, diga uma palavra de consolo e reconhecimento.
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Não é pôr em altar de santo. É pedido. Nem mesmo peço para mim desculpa por mágoas que esqueci ou faço por isso. O mesmo no caminho para lá.
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Terei morto dois amigos. Um na inocência e outro num desastre.
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Um, que não me lembro do crime, terei de esperar pelo momento em que nos encontremos no jardim das sebes e uma força, de luz ou vento ou água ou fogo ou quinto elemento, nos faça falar. Ajustando contas malfeitas.
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O segundo tem a porta aberta, ainda que saiba que jamais a vá querer passar.
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Que nas suas intimidades se queixe do mal que lhe fiz, enquanto murmura etilizado o meu perdão.
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O orgulho calá-lo-á para sempre, ainda que as floristas tenham muitas cores e cheiros, e das suas lojas partam banais rosas encarnadas, assustadoras rosas amarelas, principescas margaridas, arranjos simples, acabamentos comuns e desejos especiais. Nas floristas há muito mais, e as ramagens não se aparam com gadanhas.
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Quem me aponta o dedo... não matarei, pois a dor tomada de empréstimo é roubo. Roubar é muito feio e poucos são os que confessam e devolvem. Nunca roubei! Levei, em nome duma festa, uma garrafa de vinho rasca e porque insistiram que tinha ar de menino de coro, que não acende um círio sem que o prior dê licença.
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Se matarei mais alguém?
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Não sei. Entre mim e mim existe tempo e outras coisas que não se perdoam.
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Se matarei mais alguém?
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Amigos há poucos...
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Se matarei mais alguém?
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A resposta honesta é dolorosa.
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Não quero acerto de contas, nem caubois de revólveres nas mãos, um com balas de arsénio e outro de cianeto.
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A vida é mais do que isso.
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Há uma estrada de ir e outra.
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Há o jardim das sebes e das certezas, muito espaço para conversar.
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Se matarei mais alguém?
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Uma memória próxima quase respondeu...
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Não matarás, mas se o fizeres, faz com que todos chorem também a tua desgraça.
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Que os amigos partilhem, ainda que na dor escusada e desastrada, um sentimento. Como antes fora a felicidade.
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O tempo tira vida a tudo, até à paciência.
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O mar reclama o que é seu.
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Sobre tudo, o jardim de todas as benfeitorias.
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Se por acaso, sejas tu o primeiro falecido ou o segundo mandado, não morreste matado por mim...
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Se por acaso não o podes confessar.
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Com dor e sem rancor, angustiado e triste.
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Uma maré trará o momento.
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As sebes abrem-se como os deltas dos rios e o pomar alarga-se como os estuários.
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Sob a árvore do conhecimento, comendo do querer, a verdade irá juntar quem na Terra disparatou.
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Sem verdade não há...
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Não prometo não voltar a matar.
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Nota: a LM, SA, VR, IQ e PR.


sábado, abril 05, 2014

Tanto faz

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– É cedo ou tarde?
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– É Tédio.

Hoje é um dia qualquer

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Só há duas coisas que me fazem baixar os olhos até ao chão: uma moeda ou um beijo teu que caiu. Às vezes engano-me, por causa do brilho que os teus lábios deixaram pela pressa miudinha do teu andar.

quarta-feira, abril 02, 2014

Sete é um número mágico e três também

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Estou além mas antes do lugar donde vim ou para onde fui, consoante chega o eco dos meus sons, como se duma língua impossível.
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O tremor das mãos não é de doença nem de medo. O seu suor não é insegurança nem resquícios de água perfurada. É qualquer coisa que nasce em nascente incerta e vasta, rio que parte e nunca chegará.
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À noite como um rolo de bolachas-maria. Como duas a duas a duas e desgosta-me quando um pacote tem número ímpar. Bebo, a acompanhar, água que tiro da torneira e duma garrafa, cheia até ver, de litro e meio. São em plástico e só me desfaço quando há qualquer coisa petrolácea a vir pelo gargalo.
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Não tenho nada contra a reutilização de objectos, mas chateia-me ter monos em casa. A mulher é prática, o que quer dizer que sonha muito. Acredita que a reciclagem não é um negócio e que a reutilização tem espaço em casa.
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Escrevo coisas. Umas gosto e outras não. O mesmo com os outros. Escrevo, mas é ela quem sonha. Supostamente, sou o poeta e na verdade sou o manga-de-alpaca.
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Enquanto ela vive na Lua, olho para os pés. Ela vê o azul-bonito e o branco do berlinde. Vejo os pés e outras coisas, raramente moedas.
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Com a tralha faz dinheiro, Só não faz mais porque não aceita o que estou disposto a pagar-lhe para tirar de casa os absurdos. Sonha que será em breve a partida de tudo aquilo que não queremos.
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Escrevi antes... faltou o ponto de interrogação, mas como se fosse... fossem várias:
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 – O que faço aqui, donde vim e não bastasse a confusão do para onde vou.
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Não tem a ver com vontade. Ainda que grite, para que oiça e oiçam, o apelo ou o eco, não tenho forma de.
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De.
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De, basta! Diz tanto quanto as questões primordiais.
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Quanto às outras, as filhas dessas? Triste ou com fome? A pobreza e o egoísmo? Valer esperar pela pessoa certa para. Para basta! Esperar que a pessoa certa encontre. Esperar que queira. Esperar que a pessoa certa esteja no momento certo.
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E se um movimento, um qualquer, a torne na pessoa que não é certa. Ou apenas incerta. Por qualquer coisa, nem que seja por um copo de água que se entornou onde.
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De. De basta. Na confusão dos dias, nos das dores ou nos de alegria, podia ter escrito felicidade. Discutir isso? É mais giro e proveitoso enfiar na cabeça a imitação dum capacete viquingue, só para rir ou não rir ou dizer qualquer coisa que.
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Basta amar? Dor de amar? Amar só dói na perda. A paixão dói sempre. A paixão alegra por se perder quando errada, alegra por se perder quando certa. Enquanto dói ao mesmo tempo de qualquer coisa que.
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Pois, aqui. Entre ir e voltar, ficar. Não é a mesma questão? Um destino.
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Ouvir som ou eco. Pode ser vento ou dor, conforme a proximidade ou a distância ou vontade.
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Sonho em ter e escrevo. Sonha com alegrias, felicidade, se quiserem.
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Sou  o manga-de-alpaca, histérica que desmaia, a fragilidade do homem. Ela desaguou todos os elementos e todos foram só um, porque a vida é.
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Do choro ao riso, há-de ter de tudo. Um destino que

sábado, março 29, 2014

Doutor, doutor... tenho aqui uma dor

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Cheguei à farmácia e o doutor, ou aquele funcionário que faz o mesmo, mas que é só ajudante, perguntou-me:
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– Que remédio deseja?
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– Preciso de dois. Uma para a dívida pública e outro para o défice orçamental.
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Parece que estão esgotados, mas que estamos a tentar mudar de laboratório.

sábado, março 22, 2014

Selfie nua não significa estupidez... corpo de miúda

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Não namoraria com uma mulher banal, porque nenhuma mulher banal me aceitaria a banalidade, ainda que louca, é banal.
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O meu coração é de esferovite!
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Não tenho qualquer conceito que torne este simples verso numa obra de arte ou em parte integrante de criação maior.
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Rimar com infinitivos não é proibido... bem queria a malta do hip hop pra se queixar.
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Na maioria das vezes é só falta de talento.
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Ou tempo a menos nas ruas e esplanadas, de cervejas e charros criam a ilusão de gerar artistas.
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Há os taxistas que fazem poemas complicados, longos e palavrosos, com todas as palavras que conseguiram colher no dicionário.
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Têm mais memória, mas menos música. Ainda que o hip hop, cá da terra, seja todo igualinho, feio como todos os pais que usaram a mesma mãe.
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Não tenho estatuto para bobo nem para maluquinho de aldeia. Para muita gente, algo desinteressante e exótico entre os dois seres.
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Imito. Como todos imitamos, mesmo quando genuinamente criamos. Minto, como todos os que criam.
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Mas para que irei nu para a Segurança Social se alguém já meteu um urinol numa sala de exposições?
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Só a clemência, por causa do frio e da fome, me livrariam da saída apoteótica, ainda que repetida, numa ambulância. Se o fizessem estragavam-me a arte e o propósito: passar à frente de toda a gente.
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Pergunto-me, num monólogo denso que só será lido com muito uísqui, demasiado fumo, apertado em livros de lombadas velhas e de poetas que ninguém quer saber: Devia ter estudado para ministro?
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Que mulher banal me quer? Talvez ébria e por isso não me leve a sério.

sexta-feira, março 21, 2014

Leituras atrasadas

Nunca poderíamos namorar, pela sua inteligência e a minha maldade. Nunca duas tristezas poderiam dar a alegria de juntar a areia dum lugar com a luz do outro sítio. Há ainda o rio e as casas baixas. São quilómetros de distância entre a sua sabedoria e a minha vida prosaica.
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A menina, a quem raptei o nome numa brincadeira inocente, tem todo o conhecimento, tudo cabe dentro do ovo e sabe o que é. Eu, desbocado e galã, derrotado por muita coisa, sou superficial e actor de conhecimento de artifício.
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O amor pelo que escreve... leu «A paixão de Martin Eden», de Jack London? Quendera ser Martin, ainda que a menina não estivesse no sacrário do amor e, por amor de todos os santinhos, não fosse a desilusão.
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Quando a vida me serrou a cabeça e fundiu memórias deixou-me este livro e enredo. O que eu queria era «O Retrato de Dorian Gray», sem aquelas coisas dos maricas.
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A menina é a sabedoria de Martin Eden e o seu esforço. Sou a futilidade, a arte pela arte, o amor pelo capricho.
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Escrevo-lhe como se fosse um poema – talvez seja. Escrevo-lhe como se fosse um poema .
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Conhecemo-nos? Tivemos blindedates intelectuais, sem malícia ou outra intenção que não fossem letras e artes, e conversas do vamo-nos-conhecer-embora-tenhamos-pouca-coisa-para-dizer – que foram agradáveis.
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A menina é densa e eu pueril. Como um casal da pequena burguesia lisboeta do século dezanove.
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Gosto de ouvir e de dizer que sei ver, ainda que muitas vezes apenas julgue que observo uma pérola, que é pedra à vista da verdade. A menina tem flor, folha, caule, raiz, solo, subsolo, hiberna e dá uvas.
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Não é o mundo que perde uma amante – e desconheço se de momento o tem – são as amizades que lamentam o dia de Fevereiro em que pousou o Belogue. Ao contrário da natureza, as letras e a sabedoria não crescem sem amanho.
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Onde começa a menina e onde acaba? É o Belogue, ou apenas quer retomar esta conversa dentro de vinte anos?
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Tenho direito à ilusão de saber o seu nome.
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Como tive direito ao tu e ao açoite da terceira pessoa.
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Ainda tenho o seu nome. Roubei-o, aproveitei-me dum abandono distraído. Podia tatua-lo, mas não preciso.
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Beluga, disse-me. Falei-lhe em caviar, o que é óbvio, e como um herói pronunciei alto, como os novos-ricos, Champanhe.
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Fresco, notas de folar, pitada de erva-doce. De bolha viva e muito fina.
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Não! A Beluga merece mais do que ser rainha de festa em luz. Nunca será brilho, mas ouro velho. Nunca orgia de riqueza de ouro até vomitar, será pintura, talvez a têmpera, abraçada em madeira vestida de folha de ouro, já castanha pelo valor
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Tem a escuridão duma cave de tonéis muito antigos, onde se guarda arte como nos depósitos dos museus. Não é o que todos vêem, esconde-se. Está onde a quiserem procurar.
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Arte  quase única, para quem sabe e sabe guardar segredo, não por intriga, mas por falta de tempo a perder com quem não distingue uma terra-sena-queimada dum verde nascido da força do azul-prussiano e dum amarelo plebeu.
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Sou um homem que vê coisas e algumas até existem. Porém, o meu nariz engana-se menos, expressa-se pior. Leio: 1855. Se puder... como o teatro, é arte efémera e viva.
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Vejo-a, desesperada tentando salvar da fogueira um El Greco, que gosta tanto que se pudesse o mandaria queimar.
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Nessa paixão por querer ter paixão... não tem desassossego louco para ter paixões. A sagrada sabedoria quere-a acima dum breve tempo de loucura pueril. Tem desassossego como quem usa cilícios – a sua dor é pensamento.
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Amar é outra coisa. Pode amar livros e quadros e não ter quem mereça dormir consigo o sexo justo devido a quem tem mais do que letras, visões de arte, triangulações... e ainda que fosse só isso... arte é arte, e merece-a. Não lhe direi de beleza, mas de mulher.
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Repita comigo, bem soletrado e alto: eu amo. É o amor que lhe deve. O gnomo da cultura e a foda da sabedoria que tem da vida e que, aparentemente, não sabe usar... há gordos e Apolos que a esperam, queira ter a coragem de ler a vida como age no conhecimento.
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Sexo é fácil. Difícil é o amor. Que saudades tenho das suas cartas de amor de sabedoria, que lia todos os dias, se todos os dias tivesse escrito e eu tempo para aprender que o meu conhecimento são farófias...
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Sim, esta pode ser uma carta de amor, já que o tempo e a distância não nos deu tempo para sermos amigos.
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A menina fez-me humilde. Quando a soberba, o cinismo e a hipocrisia me poupam tento ser boa pessoa. A sua sabedoria dava-me humildade. Sentia-me feliz com a minha consciência de farófias... leve e doce.
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Humildade é uma coisa boa, não é aquela sensação que o meu cérebro tem, às vezes... quando sinto ter uma alforreca dentro do crânio.
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Não nos conhecemos: fui um galã e quase filho-de-puta... às vezes fui. Consigo, nunca, e nunca o seria, não tenho arcaboiço para um wrestling que acabaria antes que lhe tentasse dar um beijo! E sempre acreditei que a minha inteligência, cultura, virtuosismo e imaginação me faziam alguém que merece ser conhecido e desejado.
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Quase nada. Tenho uma vida tépida... feita de enganos mornos, arrefecidos por hiperventilação por causa de vulcões egocêntricos.
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Não segui pintura, porque recusei a injustiça de ter de estudar matemática. Disse-me o meu pai que mais valia perder dois anos do que toda a vida.
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Se tivesse conhecido uma sabedoria humilde como a sua talvez tivesse segurado a cruz e hoje pintasse, ainda que medíocre. Na verdade perdi dois anos e a vida toda.
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Já a menina é sabedoria; um ovo. As marés não a comovem, interessa-lhe a água.
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Perdi tempo quando, por uma razão justificada e que não me lembro, desacostei do seu Belogue. Perdi lágrimas por razões maiores, mas encheu-me de tristeza saber que não tem escrito desde Fevereiro.
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Queria continuar seu aluno e não ter de lhe escrever um poema de amor, por não lhe sentir amizade suficiente...
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Escreva. Pense que sou um recluso que ama uma mulher abstracta ou um soldado que se felicita pelo aerograma da madrinha e que sabia que um dia poderia ser sua mulher.
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Escreva, não para me fazer um favor. Mas porque...
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Pelo que quiser.
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Nota 1: À Beluga, que mantém parado o Belogue, o blogue mais interessante que conheci.
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Nota 2: Lembre-se de escrever quando for correr a ouvir estas mocinhas...

É no Dia da Primavera que é Dia do Amor – coisa tão verdadeira e estúpida que dá saudades do mau e torna desconfortável o que foi bom

PREÂMBULO
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Entre saber e não saber, a dúvida de que se contarei tudo num longo binómio ou se cansarei em número de postas no blogue. Opto pelo lençol de músicas, conversas verdadeiras, sentimentos sérios. São quarenta e quatro anos de muitos enganos e crimes, em que fui quase sempre o ladrão. Mas sofri também. Não julguem, pensem apenas no começo, da primeira borbulha, até aos cabelos brancos na barba. Quase tudo em português, porque só sei amar em português e percebo mal o que dizem as bocas doutros corações.
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Porque hoje São Valentim estuda a complexidade do amor e Santo António pondera na virtude do casamento.
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Porque hoje começa a Primavera, que é a estação mais estúpida do ano.
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A Primavera é a adolescência. Já se sabia, já tinham dito. E é horrível.
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É da Primavera que me lembro e lembro que era feliz. Afinal a doença já cá estava e ainda assim a sinto feliz, a estúpida da Primavera.
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Engravidar nunca me assustou, pois sabia que nunca seria pai.
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A sida tremia-me. Não parava, mas as adolescentes tinham centímetros de amor dentro delas. Bastaria, pensava eu. Bastaria, pensava certo. Bastaria e continuava.
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Primeiro era tímido. Ela, depois de óbvia, colocou os lábios, encostados aos meus.
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Estúpido, não a beijei. Os miúdos fascinavam-se com os gays e elas perguntou se eu era. Não a mim. Era apenas estúpido.
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Wild one involuntário, digo hoje com ternura. Digo Ocarina. Digo Mila. Digo Iggy Pop – Real wild child.

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Era tímido. Invejava e tinha erecções. Via, via que me viam e nada fazia. Uma dia, num autocarro descapotável, perguntei à miúda se queria namorar comigo.
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Ela quis e demos uns beijinhos. Acho que houve uns dias que desaparecia e sem telemóvel ter sido inventado, nem jeito para lhe fixar o nome.
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Depois, atrás do nada duma surpresa, Tavira, branca e quente, com o Gilão e a esplanada que era a única coisa para fazer.
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Fazia-se mais, mas era conversa. A discoteca não interessava e os bares eram para as pipocas.
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Frente nos olhos convidei-a para sair. Tímido e estúpido, convidei a amiga. Depois foram os outros amigos.
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Num relance de galã, cantei-lhe Elvis, o meu herói... na sua versão cafona do «Oh sole mio» («It's now or never»).
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Beijámo-nos e foram dias a entrar pela janela e sair pela porta.
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Sim, era tudo especial. Para os dois. Demasiado novos para ter filhos e felizes como na ingenuidade dos romances para costureirinhas. The Speacials - «Too much too young».
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Ainda que Tavira continue, os Verões também acabam. Regressei, tímido e mentiroso. Nada se passara comigo. Beijinhos sem canção.
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E foi-se. Aí doeu e quando dói sente-se nascer no peito uns chifres.
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Tanto faz! Saía à noite e dançava. Éramos poucos. Quase todos os rapazes beijaram quase todas as raparigas. Quase todos os rapazes gay beijaram quase todos os rapazes gay. Quase todas as raparigas lésbicas beijaram raparigas lésbicas. Quase todos os rapazes gay beijaram raparigas lésbicas.
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Entre absinto, nem sei quem beijei. Se beijei, esqueci. Nunca beijei um rapaz nem um homem. Mas se o fiz, espero que o beijo tenha sido bom.
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Havia tribos e os que se drogavam. Valia muita coisa e o mundo era tranquilo e feliz. Como na animação para miúdos: dávamo-nos todos bem.
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Era tímido, mas uma coisa líquida, pouca porque era pouco o dinheiro... pouca porque não aguentava... pouca, que nem agonizava ter de andar quarenta minutos até casa.
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Um grupo alemão, da primeira geração que se fartou de arcar com o peso dos erros dos avós, cantava o que ninguém entendia. O ritmo não perdoava e os skinheads, que ouviam Mussolini e Hitler, e numa canção em alemão, festejavam o hino.
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Não percebiam nada. Nem eu. Quase ninguém fala alemão. Mas dançava, toda a gente dançava os DAF – «Tanz den Mussolini».

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Num Verão fui com passear com uns amigos. Não havia adolescente que não se identificasse, ainda que o que houvesse para identificar não lhes fosse permitido perceber. Da barragem ao litoral, horas para ir dum lado ao outro das férias.
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Sim, «Dunas», dos GNR - eram quase tudo e as dunas escondiam os desejos que satisfazíamos onde os adultos não nos descobriam.

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Às vezes a nostalgia e a melancolia visitavam-me. Não tinha lembrança, nem crime, nem alibi, nem nada. Cantava como sentisse que tudo aquilo fosse uma verdade minha. Era só música, mas o coração sentiu.
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No íntimo sabia que em algum dia haveria de ter aquela mágoa. Tive-a, mas quando me chegou já a validade estava cem quilómetros para trás.
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Ná! Sempre tive premonições. Sabia, de facto, que a pessoa que tinha, que iria tendo, que perderia... ou outra qualquer me haveria de deixar a fritar na melancolia.
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Os Sétima Legião eram quase alternativos... quando começaram a surgir os alternativos da roupa... que saíam de milénio em milénio e que hoje dizem ter sido noctívagos e vividos. Raispartam a memória e a adolescência...
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«Por quem não esqueci»... hoje são muitas.
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As borbulhas, que nunca tive muitas nem muito chatas, acabam por nos deixar para que possamos ser homens.
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Trabalhava, era importante. E melhor: ainda estava no liceu, num atrasado difícil de explicar mas que em resumo:
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A justiça adolescente nunca permitiu que a criatividade sofresse com a matemática, a física e a química... principalmente a primeira.
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Mudou-se a vida. Não foram dois anos perdidos e o meu pai disse-me: antes perder dois anos da vida do que perder a vida inteira.
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Certíssimo, o meu pai, que sempre foi mais amigo do que pai.
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Errado momento em que mudei. Perdi dois anos, ganhei umas letras e sei que perdi a vida. Hoje escreveria a tinta e certamente já não me lembrava da assassina da matemática.
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Adolescentes e seus caprichos. Justos. Era homem e queria mostrá-lo. Era um homem pequenino e comecei a fumar, na idade em que se merece uma tareia por pôr um cigarro na boca.
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A noite era minha e dançava. Tinha dinheiro e já podia aguentar mais. Ainda assim fiz muitas vezes quarenta minutos a pé até casa. No dia seguinte estava às nove horas no sítio combinado. Almoçava à mesa, bebia um copo de vinho, fumava um cigarro e, às vezes, pouquinhas, deixava entrar um líquido tingido de castanho a que chamava uísqui.
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Era eu e mais outros... restam alguns nas cartas que tenho para jogar. Felizes, superiormente intelectuais, até porque bebíamos uísqui, tínhamos o mundo na mão. As canções deprimentes, os males do amor...
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As borbulhas não tinham saído há tanto tempo. Podíamos ser felizes com ares tristes. Mas éramos importantes. Esta, dos Diva, nunca se me soltou da cabeça. «Amor errante», talvez por isso... e eu que me tornei tão quieto mais tarde.

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Um dia acordei num casal. Borboletas, passarinhos, calmaria num prado, tranquilidade de amor. Tempo, o mais raro componente do amor. Tantas coisas, do bom ao excelente, do mau ao desespero. Um casal.
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Deve ter sido bom, foram quase oito anos. Asneiras, pois. Provavelmente mais minhas. Não me lembro e tenho tudo guardado em gavetas e armários do sótão das emoções. Tantas canções.
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Não sei porquê esta... podia ser Marisa Monte, mas esta é um beijo tão raro que penso que a memória, que tenho algures, merece um abraço especial. Sim, porque foi um grande amor...
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Quase oito anos, uma vida de fumo, numa Smoke City... um amor verdadeiro, que vivia submerso... «Underwater love». Um dia afogou-se em lágrimas. O resto já disse.

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Eu que já me habituara a viver sozinho, sempre desde que saí do ninho, tinha recordações a saltar, como bonecos de mola, de todo o lado. Não tinham rosto, tinham arrepios. Não eram sustos, eram tristezas, lembranças de muitos beijos dados numa cama partilhada.
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Depois veio a dor de corno e a dor de corno só quer ouvir dor de corno. Músicas bonitas, que poliam as hastes córneas da cabeça. Esqueçam, que já me esqueci... não das músicas, mas donde deixei os chifres.
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Ah! As borbulhas! Subcutâneas. Noites de loucura e dias de encher de tempo com qualquer coisa, do trabalho à esplanada, do livro ao sossego das horas. Do jantar à festa.
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Tantas e tão pouco medo. Onde ficou a timidez? Pudor? Talvez... Para quê? Respondem os GNR, ilustradores de vida duma geração, que aqui cantam um brasileiro... «Quero que tudo vá pró Inferno».

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Na verdade, os trinta são ridículos. São uma espécie de adolescência sem borbulhas.
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Ah! Já não tenho vinte anos... já posso fumar cachimbo.
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Janta-se fora e fazem-se jantares em casa. A música é mais séria. Inventam-se situações infantis para criar casais, juntar pessoas solitárias que vivem tristes ou que aparentemente vivem tristes, ou que fingem viver tristes ou que se estão apenas...
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Leva-se um vinho que se julga bom e é-se simpático. Sorrisse-se e às vezes trocam-se números de telemóvel. Na maior parte das vezes não se vai ligar. Nas outras... combinam-se idas ao cinema.
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Finge-se ser uma pessoa adulta e madura, quando na verdade, os solteiros, têm as hormonas aos saltos e não têm paciência para perder tempo, coisa que os adolescentes, curiosamente, têm para estas coisa. Se é prá cueca, é prá cueca...
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Sai-se à noite. É só um cineminha. Podíamos jantar ou comer qualquer coisa. Tomamos um copo? Vamos dançar – e eu que adoro dançar sozinho e para seduzir – dizia que sim. Não queria nada.
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Ou queria largá-la ou queria cueca e se ela não se quisesse largar depressa, depressa saltava da cueca a minha vontade. Dançar? Sim, no Lux, no meu clube para todos os sentimentos.
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A conversa dava ou desandava em minuetos... muita conversa pressupõe horas perdidas em que se podia estar a dar uso aos corpos.
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Olha, vou só ali. Vou ali ao bar buscar uma vodca... três horas depois, uns minutos, ou conversava com o barista ou com a miúda do lado ou com a miúda do lado que infelizmente tinha namorado e resolvera aportar ou encontrava alguém conhecido ou fazia por...
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Canalha alimentado a vinho e vodca regressava, minutos perdidos, depois a conversar sem sentido, a inventar programas recusáveis numa discoteca...
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Crida, perdeste o autocarro para as cuecas e eu perdi a tesão por ti.
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Sim... tudo começara com um jantar de Cupidos, bem intencionado. Mesa e Rui Reininho... talvez a música não tenha nada a ver com isto, mas a referência ao nono andar lembra-me esses quase blaindedeites... «Luz vaga»... podia ser, mas nem sempre aconteceu.

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Claro que as luzes, a música e a bebida criaram paixões. Marés pequeninas para molhar os pés.
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Ah! Os trinta e as tais borbulhas. Muitas negas, na guerra dá-se e leva-se, e muitas miúdas que já nem apresentavam os novos namorados aos pais... aos irmãos... aos amigos.
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Sem espírito de vingança nem mimetismo... acho que é natural na espécie humana... Eu fazia o mesmo.
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Tudo tão intenso! Como um cigarro. Como o beijo adolescente. Tão consumível e mortal. As borboletas vivem poucas e algumas esfumam-se no calor da luz.
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Como os adolescentes... «Agora e para sempre». O agora dura uns três minutos e o sempre é demasiado sério e doloroso para quem aos trintas começou a aprender a fazer patinagem artística no estilo Bamby...
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Em vez de fofinho, é ridículo. Os «Da Weasel» disseram tanta coisa acertada, tantas vezes de modo tortuoso, mas disseram tão bem, que com os GNR são quem mais sabe da vida duma pessoa. Os cotas sabem-na toda, os chavalos estavam a aprender...

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Não fiquei cínico aos quarenta. Nem fui totalmente imbecil nos trinta. Conheci gente bonita, que por alguma estrela em retrógrado, nos fez encontrar fora do momento.
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Uma noite sem data numa rua que desce, só sobe quando vamos no sentido contrário. Ela e ela e ele e ele. Eles nos olhos nela e a ousadia dos trinta. Risos e mentiras, genuínas como os poemas desastrados dos analfabetos honestos.
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Acho que acreditei na mais que provável mentira. Passei dias a ver passar os dias. Na praia, contra-conselho, mandei-lhe uma mensagem para o telemóvel.
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O resto não sei. Sei que fui feliz, entre tempestades estúpidas. Nos despojos dos acidentes trágicos de comboio surgia sempre vida.
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Corpo que pedia corpo. Um mesmo corpo garantia a química e a física. Nitroglicerina faz bem aos corações doentes.
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A nitroglicerina explode e mata. E numa noite de explosão deu vida. Num dia de implosão enterrou-se a vida.
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Alquimia e magia, a força das bombas dos discursos trocados. O amor morreu com palavras e sem ver, esquecido que nascera na sinceridade das expressões.
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Flor dum cacto? A amarela, com espinhos. Não era rosa, que detesto nessa cor. Nem tulipas que também não gramo. A botânica deve ter alguma na colecção.
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O coração é coisa comum, vale pouco. Todos os animais têm um coração. E a alma? Quanto vale uma alma e quanto lhe pesa o coração?
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Não respondem, mas dizem. Não foi essa a minha vida, mas é este o seu sabor, palavra donde dizem sai sal e sabedoria. «Expensive soul», como se não bastasse... «O amor é mágico» e nem só os aprendizes se queimam.

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Hoje, pela primeira vez, não tenho uma música para cantar ao amor. Posso dizer, com alguma segurança – talvez um dia que os quarenta são ridículos – que me estou nas tintas.
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Nas tintas para quase tudo menos para o amor. Paixão? Isso é doença!
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Como é feliz a paixão! A paixão é uma merda!
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Ainda que neste amor, neste abraço tão grande, viva uma paixão sossegada, que se respeita e sabe respeitar.
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A paixão não está velha nem cansada. A paixão foi à escola e não se deixa esgotar na correria das borbulhas.
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Não sou cínico, estou apenas surpreso. Há tanto mundo e o vento que faz abraçar como dantes fazia a paixão.
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Saudades? Muitas. Vergonhas, apaguei a maioria. Repetia as asneiras? Não mas fazia-as, se soubesse tanto como sabia na altura.
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Quero e o meu quero é grande. Somos sete cá em casa.
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Ao contrário dos egoísmos antigos – repito que um dia talvez pense que os quarenta são inocentes – quero por tudo.
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Se a vida começa, de facto aos quarenta, venho ao mundo com as alegrias das dores.
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Convencido que nesta coisa do amor perdi o egoísmo... reconheço toda a saudade e ternuras.
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É bom ter quarenta. Sei que tudo o que de melhor me aconteceu foi provavelmente aos quarenta, mas uma borbulha insistente canta-me novamente os GNR... «Mais vale nunca».
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Como as lágrimas, o tempo não volta. Choro por todas as dores e pela alegria deste ter.

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Nota: Do pouco que sei, da vida e da escrita, embora o diga mais por soberba... dois poetas escreveram o que eu queria ter escrito. Deixaria tudo para os outros, queria que estes fossem meus.
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Stéphane Mallarmé: «Hoje descobri como é bonito o teu nome. Pronunciei-o baixinho muitas vezes e senti que na minha boca crescia um delicioso sabor a ti».
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João Ruiz de Castel-Branco – Cantiga partindo-se:
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Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
tão fora d' esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

segunda-feira, março 17, 2014

O adultério é algo muito feio

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O adultério é uma doença venérea. A medicina não tem remédio, a ervanária sem mezinha e a voz desautorizada dum cura não cura o que não tem cura.
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Nunca fui às putas. Sou um cavalheiro, acho. Para mim, os desportos são amadores e praticam-se em desafio.
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Não amei todas as mulheres que amei. Porque não quiseram. Porque não quis. Porque não pudemos.
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A moral não tutela o meu desejo. Só o frio resguarda o meu corpo.
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O risco faz-me rir ainda que no final possamos ficar apenas a rir.
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O medo fundo não me coíbe, faz-me é vir mais depressa.
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Amo tranquilo e amei como nos filmes. Desejarei ter amado mais.
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Amei ali escondido no anonimato do óbvio. Amei agasalhado num ninho.
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Amei por fora e não sei, finjo, o que me fizeram.
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Amar será muito. Adúltero é não qualquer coisa.
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Adultério soa-me a dissertação em cuecas-de-gola alta. Nem em sonhos é risível, nem com ódio é ridículo.
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No amor, os corpos são lindos... ou pelo menos salvam-se os olhos ou o sorriso.
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O sexo é ciência, em que a química exige que a física comprove uma lei de atracção – digo isto assim, porque sou civil e nada entendo de patentes nem modos de abotoar batas.
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Por vezes é o oposto – ainda que continue a não entender por que umas batas abotoam de lado, outras à frente ao meio, outras atrás, outras tenham cinto, e haja de várias cores, mas menos complexas que as brancas.
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Há umas coisas que não são enganos nem desenganos ou perdas de tempo. São fé: quando dois corpos – chamemos-lhes pessoas, para ser-se prosaico – acreditam que juntos... ou foram os amigos no gozo ou o padre a criar ambiente para um dia que haverá de chegar...
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Antes isso do que adultério. Brincar com uma almofada ou festejar com uma mulher com comportamento de travesseiro é melhor do que se ser adúltero.
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O amor faz-se em qualquer lado e o sexo também.
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O adultério faz-se em qualquer lado, mas não há um único sítio em que soe bem.
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A palavra adultério é mais feia do que puta... e trabalhar não envergonha.
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Nota: Um dia, quem sabe, escreverei tercetos e quadras, odes ou poemas mais complexos. Sou um simples amador.


A nudez duma rapariga vestida numa fotografia


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Adrenaliza-te, que a espera não te despe mais, não tenho mais olhos para te ver em desejo nem mãos para os satisfazer.
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Não te dispas. Fica, vejo é o teu nu, bidimensional, tenhas ou não roupa.
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Por ela constato a beleza do corpo, sem grandes ou pequenos os teus peitos. As mulheres têm artimanhas que os homens sabem mas se enganam sempre.
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Os olhos de castanho despíveis. Sorriso que exige lábios proibidos.
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Boca que merece castigo e prazer. Onde me toco, quando te vejo parada no papel de luz, seja alimento do desejo que atormenta.
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 Duma vez por todas, que sejam todas as vezes. Sempre que um nosso corpo queira o outro nu, um espectro de luxúria o satisfaça.
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Adrenaliza-te e despe-te. Não esperes por mim na cama ou noutro campo de batalha, não irei. Chegarei ao mesmo tempo. Tal como aquilo que faremos com o corpo um do outro...

quinta-feira, março 13, 2014

De azul de amor e brancura de infinito

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Não quero que sejas pedra para que nunca te jogue nem me aleijes.
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Não quero que sejas mar para diluir as lágrimas.
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Não quero que sejas ar para que te use e despreze.
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Não quero que sejas fogo para que me queimes como mariposa.
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Quero-te como o sabão, que lavas e acaricias.
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Que no fim possa dizer que nos usámos e desfrutámos até ao fim.
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Que brincámos às bolinhas e nos zangámos, deixando-te cair e tu fugindo escorregadia.
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Lavas-me a alma, e limpo posso amar-te sem pecado.
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Para cada pecado, os sete ou outros desconhecidos, temos um elixir.
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Sabão, é forma de abrir a boca sem alternativa... o que quero é que sejas para sempre a minha mulher...
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E que eu, doente de parvoíce, mereça sempre o teu carinho.
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Que quando da dor, da insónia e do susto possas ser o champô, que não limpando amedronta os temores.
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Que tu doente possa ser o antídoto.
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Este é um momento em que não digo nada e te olho nos olhos, estejam aqui ou noutro lugar.
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Quando chegares a casa dar-te-ei um beijo...
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Espero que não tenhas lavado a boca com sabão.