digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

sábado, agosto 03, 2013

A princesa e o princeso

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Era uma vez uma princesa. Um dia, a princesa teve um pinto, pelo que se tornou numa mãe-galinha. Mas o pinto era tão esperto e fofo, tão macio e divertido, que era um leitãozinho. Porquinho lindo, príncipe de sua mãe-galinha.

Nã cômo pêche

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Pela boca morre o peixe e pela boca bebi eu, no fim, morri-me d’amores por ti, logo eu, que não como peixe, mas como-te a ti, quando deixas.

domingo, julho 28, 2013

Möebius - 1938-2012

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Aconteceu o destino, nada que não se esperasse. Um dia teria de ser e descobri-o agora. Um admirado perdeu o corpo. Está num outro elemento e a essência ficou, neste espaço quadrado. A luz de Incal ilumina a memória.
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Requiescat in pace Möebius, Jean Giraud. Nesta vida (8 de Maio de 1938 a 10 de Março de 2012)... na próxima, uma quinta essência.

Éter

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Éter. O meu nome, Éter. Primo de Hélio e de Escândio. Mas não sei se somos filhos legítimos.
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Pode um filho biológico não ser legítimo? E ao contrário.
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Não é a essência. Nem a vida, nem a essência da vida. É tudo e tudo é a mesma coisa.
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Não fomos nem seremos. E sendo coisas diferentes, seremos sempre. Somos.
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Somos muita coisa. Além de matéria, que não somos. Somos espíritos. E antes de sermos isto, estamos vestidos por perispírito.
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À semelhança do Pai. Que podia ser Mãe. Que é além.
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Aton era único e tangível.
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O Dia da Revelação acontece quando? Não será simultâneo, em nome da justiça e da perfeição.
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Será além do segredo e da dimensão. Será além da essência.
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À semelhança do Pai. Que podia ser Mãe. 
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Será além do segredo. Será além da dimensão. Será além da essência.
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Seja que número for. Somos filhos de quem? Pais de quem?

Comer

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Alimentar é comer na cozinha, e comer, neste contexto, é por falta de melhor vocábulo. Comer é uma transcendência, tão meta que só se deveria escrever com minúsculas. A pretensão de alimentar, ou, pior, de bem alimentar é que precisa de maiúsculas e justificações. Comer, beber, água, vinho, rir, amar, respirar, ar... tudo com minúsculas. Alimentar é um tédio! Comer na cozinha? Só de castigo. Gosto da solenidade de comer na sala e da fruição pueril da mesa de festa mesmo sem mesa. Abomino o dia-a-dia, o tem de ser, o come-senão-morres. Um milhão de vezes a mesa curta da taberna. Um milhão de vezes a mesa rica do palácio. Mastigar pode ser penoso e não mastigo em vão. Comer na cozinha é como foder de cuecas e com peúgas de turco. E antes a fome do que a monotonia e o tédio.

Alimentar é comer na cozinha, e comer, neste contexto, é por falta de melhor vocábulo. Comer é uma transcendência, tão meta que só se deveria escrever com minúsculas. A pretensão de alimentar, ou, pior, de bem alimentar é que precisa de maiúsculas e justificações. Comer, beber, água, vinho, rir, amar, respirar, ar... tudo com minúsculas. Alimentar é um tédio! Comer na cozinha? Só de castigo. Gosto da solenidade de comer na sala e da fruição pueril da mesa de festa mesmo sem mesa. Abomino o dia-a-dia, o tem de ser, o come-senão-morres. Um milhão de vezes a mesa curta da taberna. Um milhão de vezes a mesa rica do palácio. Mastigar pode ser penoso e não mastigo em vão. Comer na cozinha é como foder de cuecas e com peúgas de turco. E antes a fome do que a monotonia e o tédio.
Alimentar é comer na cozinha, e comer, neste contexto, é por falta de melhor vocábulo. Comer é uma transcendência, tão meta que só se deveria escrever com minúsculas. A pretensão de alimentar, ou, pior, de bem alimentar é que precisa de maiúsculas e justificações. Comer, beber, água, vinho, rir, amar, respirar, ar... tudo com minúsculas. Alimentar é um tédio! Comer na cozinha? Só de castigo. Gosto da solenidade de comer na sala e da fruição pueril da mesa de festa mesmo sem mesa. Abomino o dia-a-dia, o tem de ser, o come-senão-morres. Um milhão de vezes a mesa curta da taberna. Um milhão de vezes a mesa rica do palácio. Mastigar pode ser penoso e não mastigo em vão. Comer na cozinha é como foder de cuecas e com peúgas de turco. E antes a fome do que a monotonia e o tédio.

quarta-feira, julho 17, 2013

Amén

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Dizem que sou engraçadinho, que tenho piada... que sou espirituoso. Não sou espirituoso, sou espiritual, porque as minhas piadas são divinais.
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Nota: Será que não fui bafejado pela virtude da modéstia?

Xô! Pára de me andares sempre a cheirar o rabo...


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Embora só tenha quatro patas, o meu cão é uma melga. Na imagem até se vê bem que tem asinhas.

terça-feira, julho 16, 2013

Eis a questão e a resposta

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Quando estava para nascer, os meus pais perguntaram-se: «Tobias ou não Tobias, eis a questão»... depois puseram-me João, porque rima.

Bem vestido, dando um ar de sua graça

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Sou uma pessoa feliz... não caibo em mim de contente... por isso é que a roupa quase não me serve...

Jornal das novas que se deram neste Reino de Portugal

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Passei o dia fora de casa... o destino não teve sequer a decência de fazer acontecer alguma coisa que me tivesse feito arrepender por não ter ouvido as notícias.

As gatas

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Não me deixo dormir. De manhã não me deixo acordar.
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Até lá, um cão possessivo e omnipresente, como um polícia político, dorme ao pé de mim. Tenho saudades das gatas.
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A televisão, confidente e enfermeira, ligada só porque a tenho, como sempre, todas as noites, até adormecer, até de manhã.
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Uma gata tem chorado nas noites, a chamar por mim. Quase todas as noites e outra não se cala quando me vê. A terceira chama à atenção cagando fora da caixa.
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O cão anda atrás de mim, como uma mãe zelosa que persegue a virgindade da filha, primorosa e única.
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A gratidão do cão por o levar à rua é menor do que as saudades que eu e as gatas sentimos. É patético e consolador. Quendera me desse algum ar. Pobre cão, mulher gato-sapato de bêbado e putanheiro.
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Não me posso fechar sem o cão, porque gane e chora, como a mãe que vê o filho emigrar para a estranja. A mãe enlevada no seu filhinho-mais-que-tudo, que não tem mal nem pecado.
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Um cão é um cão e os gatos são pessoas. Gosto mais de pessoas quadrúpedes do que de animais. Mas gosto do cão.
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O cão é o meu carcereiro e sofro de síndrome de Estocolmo.
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Quando lhe vejo os olhos, com a ternura eterna e grata dos cães, e observo o manear de cabeça... meu Deus, como não amar este ser...
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Porém, as gatas e a saudade.

Cão

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O meu cão tem a mania que é cão. O meu cão é tão cão.

segunda-feira, julho 15, 2013

Não como Marat

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Não tenho mais nada para acontecer aqui. Fico, porque há coisas para me acontecer.

Como o achigã. Como o alabote.

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Dizer amor, dizer mentira, dizer mistérios. Dizer dinheiro, dizer saúde, dizer juventude. Dizer Deus e não dizer Diabo. Dizer razão, dizer beijo. Dizer tempo, dizer brevidade, dizer eternidade.
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Não tem nada a ver, mas tem vida. Dizia o Eduardo que andava tudo ligado. Que fazer se somos apenas únicos e cada um não se repete. Dizer vida.
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Dizer para não dizeres. Que me disseram que disseste, que era para o meu bem. Que disseste para não me dizer. Que perguntaste, que perguntei, que perguntei se perguntaste, que perguntaste se perguntei. Não digo mais nada. É pior, é melhor, é o que Deus quiser, é o que seja, nem que seja Buda.
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Um abismo, não há palavras. Nem de amor que unam. Nem que separem. Abismo de cair, de não voltar. Silêncio e uma outra vida.
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A loucura dos beijos, loucura de dias e noites. Acerto de tudo o que não fez sentido. Uma carta de amor por entregar.
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Não expliquem. Não expliques. Não entenderei, só à luz da morte e da renascença. Contas por acertar e vidas para justificar. Tristeza que deu.
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Fiquei de te escrever uma carta de amor. Ficaste de não a receber. Ficámos sem falar. Antes fosse falar por falar. Qualquer coisa que não silêncio.
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Disse que não te dissessem. Disseste para não me dizerem. Não dissemos. A vida ficou a meio e ainda assim continuou.
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A Primavera não tem nada a perdoar. O Inverno perdoa tudo. Entre o Verão e o Outono tudo acontece. Assim aconteceu. Às vezes acontece. E a vida mudou. Mudámos, mudamos.
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Esta não é a carta de amor que fiquei de te escrever. É aquela que prometeste nunca querer receber. No fundo, a vida.
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Como o achigã, não sou daqui. Como o alabote, ninguém sabe. Só podia ser, então. Porém, há as contas. A certeza dum dia, depois da vida.
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Não é fácil de entender. É fácil, não é?
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segunda-feira, junho 17, 2013

Duas pessoas, um texto estúpido e duas imagens

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Se te tivesse conhecido noutra vida... fora num tumulto qualquer, com reis guilhotinados. Nesta, sou morto para te amar e tu sempre em comícios.
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O que gosto em ti? Essa raiva de construir, que tem tanto de leite. Se te sonhasse, seria de ternura profunda e acção, como os gatos.
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Não te conheço... o que importa, se és actriz? Tenho o mesmo direito de sonhar.
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És do mundo e engano-me noutro lado qualquer. Gostava de te encontrar entre Vénus e Marte. Se, pelo menos, tivessemos entrecruzado o olhar.
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Sem que nos entrecruzassemos no olhar...
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És uma viúva negra. Querendo ter-te, sabendo-te o perigo, suicidar-me-ia em tesão.
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Quem tem no mundo um caminho, nunca poderá amar quem não quer seguir caminho algum.
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Quem vê passar, pode sempre desejar quem deixou para trás o aroma duma forte vontade.
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Nunca pediria que me amasses, porque nunca se pede e amo paisagens quietas. Mas invejo quem luta e com quem se deleita.
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Vistas de negro, de escarlate, d’ambas, doutra cor qualquer, tens na voz a locução da guerra. Vista-me do que for, terei sempre os olhos submissos.

domingo, junho 09, 2013

quarta-feira, junho 05, 2013

Livro

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Quando se deseja a primeira edição dum livro é por amor às letras, para fazer amor com uma virgem.
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A mim não me importa quantas noites dormiram sem mim. As páginas arrancadas e perdidas são rugas para contar.
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Como o pai se derramou, se entornaram as palavras.
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A vida começa e fenece, os livros arrumam-se na estante.

Olhos bem amados

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Amar-te é um golpe baixo que dou à tristeza.

A miúda perdida

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Lembro-me da temperatura da língua, que tinha a força das coisas frágeis. Que tinha o tesão da quase inocência.
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Nada que diga faz o tempo voltar. Fiz-lhe amor dormindo ou acordado no ócio. Esmeralda perdida.
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Não parece que foi ontem. Parece que foi nunca. E nunca foi. Um ramo de flores sem Outono.
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Morrerei sem voltar aos lábios que me amaram por tão pouco. E sem nunca lhe ter morrido no leito.

terça-feira, junho 04, 2013

Para os dias tristes


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Para te distrair destes dias tristes, qualquer coisa que não se tenha de fazer, para fazer o que dará para lembrar. Queres um beijo ou que te empurre?

Praga e piedade

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A boca é uma nascente. A mais pura não vem de cima, mas do meio, às vezes do fígado.
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Que chores sempre que te lembres. Que te doa o meio da alma. Que arranques os cabelos.
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O que te disse de doce será diabetes. O que disse de mal saberás quando te julgares livre.
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Os beijos chegaram-me ao coração e vivi. Com a ausência, septicemia.
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O corpo vive fantasma. Depois de passar, penar ainda mais, até que a eternidade se esqueça.
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Dor de horizonte ao entardecer. O silêncio das rochas no mar.
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Lágrimas pela piedade da vida que se cala ao entardecer.
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Todo o choro que se tem. Todo o fingimento. Toda a dor que não tem nada a ver e se vai buscar para chorar mais.
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Despedida e derrota. Dias amarfanhados. Até uma alegria e outra tristeza. Por diante.
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Despedida de bílis. Faltando o sangue, sonhando a morte.
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Sem insulto, só pena: a minha; e inveja de ti, sempre feliz.

Síndrome de Peter Pan

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Se não fosse tão idiota seria mais velho.
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Nota: Sou eu e o Marcelo.

Talibã

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No metro ia um tipo com turbante roxo e barba comprida, mal enjorcada para os padrões estéticos vigentes. O tipo era escuro e enquanto o via conversava comigo:
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– Duvido que na América o considerem caucasiano... É muito escuro, mas é caucasiano.
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Fustigo-me por pensar tal coisa... o que importa? Homo sapiens sapiens; viemos todos de África, temos uma mãe comum, a tal de Eva, que, parece, existiu mesmo, assim o determina o ADN mitocondrial. Blá, blá, blá, a globalização...
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Perguntei-me, porque não tinha mais nada para pensar, donde seria? Índia, Paquistão ou Ceilão? Poderia ser sikh... com turbante e barba? Há muitos por aí. Um talibã?... viria do Bangladesh? Há talibãs no Bangladesh? E sikhs?
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A ideia do talibã agradou-me, mas a chatice da minha cabeça convenceu-me de que seria sikh e do Bangladesh.
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O que fará alguém do Bangladesh vir perder-se em Lisboa? Isto é um fim do mundo, um extremo, uma Europa irrelevante.
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Como se constata ao observar a posição geográfica, ninguém chega a Portugal por engano; não está em nenhum caminho, é um fim das estradas.
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Que vida estúpida teria no Bangladesh para vir aparvatar-se aqui? Por que veio perder-se aqui?
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Se fosse um talibã, pelo menos, significaria que Portugal importa alguma coisa para o mundo. Mas o gajo era sikh e do Bangladesh.
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Nota: Se tivesse sido em Badajoz poderia ter sido para comprar caramelos.

terça-feira, maio 28, 2013

Local donde

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Um local donde não se sai, terra de velhos e risos mudos. Os carros esquecem-se de passar e se passam, passam só por passar. Dias sem sombra, nem Sol nem chuva. Sempre mais um dia à espera. Todos os dias iguais de solidão. Água fechada nas torneiras públicas. Ruas sem cães nem crianças. Onde vive o tédio e sepultam vidas. Bairro de esquecidos, de quase pobres. Operários vencidos.

Palavras

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Há ruas para passos e outras de voltar para trás. Nesses dias, chuva ou não chuva. Tédio e medo, horas e dias, noites inteiras, sonos de morte. As palavras sustentam-me, as palavras viciam-me. Suicido-me nas palavras. Reencarno depois, por outra causa qualquer.