digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

quinta-feira, junho 28, 2012

Na tua casa ou na minha?


Por ti perdia-me. Na tua casa, porque a minha é muito pequena.

Caracol


– Não devia ter comido caracóis…
– Porquê? Porque rima com espanhóis?
– Não. Porque vinte cervejas são demasiado rápidas…

Oi...

– Crida...
– Sim, môr?
– Tás a drumir?
– Tava, sim…
– Ah!
– Que crias?
– O jantar não me caiu bem…
– Vais vomitar?
– Não…
– Do que precisas?
– Que pagues o próximo. Pode ser na Trindade.

Tábem

Sim, está bem… amo-te. Mas não me obrigues a gostar de ti.

Meu amor

Deslizo. Entre ti o sofá, refugio-me do beijo que digo não querer e da vontade de o aceitar.

segunda-feira, junho 25, 2012

Uma noite

Estou um rio exausto. Parte de ar e muita terra. Caído, num sono de impaciência, esperando a baixa-mar do tédio. Fundo no leito, abraçado ao tudo, até o horizonte subir tapando o Sol. Noite de morte descansada, vida de dias intranquilos. Uma noite descansada e um beijo na testa desistente. Dias para arrendar.

sábado, junho 09, 2012

Quão fundo é o meu amor

Tenho um rio, lugar íntimo de intimidade, de verdade e amor. Tenho um rio de água mansa, fresca e doce. Sem sobressalto nem fundões, de fundo macio, rio de ficar.
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O meu amor é de flutuar, de mão abraçada e noites quentes, na cama ou no estio. Toda a noite de corpos emprestados e beijos adormecidos.
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Prazer como fumo de azinho. Bolota assada, presunto gordo e vinho da talha, noite de ceia e insónia, na profundidade da conversa, café de cevada e queijo rijo e salgado, de boca a pedir boca ausente, conselho antigo e família elencada.
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Um prazer de partilhar. Que um dia sejam as pessoas uma só e os olhos colados provem que os lábios se colam e os corpos suem em uníssono. Um rio seco de água corrente de saudade.
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Prometo noites dessas, antigas e de privilégio. Com a intimidade da água conhecida, da proximidade do Inverno e do Verão cúmplice. Boa vinda ao seio da origem e do sangue, ao rio que corre, ora seco ora veloz, o rio da alma.
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Benvinda seja a musa, dos olhos doces e verdes, à profundidade do poço da água eterna e infinita no segundo. Ao lado do rio seco de água corrente da saudade. Ao sabor dos sabores e calor da intimidade.
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Na vontade partilho os colos e a todos mostro o prazer de dar prazer. Um beijo mais não é um beijo a mais. Um beijo é mais do que um beijo, sem deixar de ser apenas um beijo. Do calor do Inverno próximo e Verão infinito.
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A dádiva é o privilégio do amor e o amor a alegria da dor. Que todos os dias sejam de brilho e os corps estejam em abraço. Que a alegria seja o prato do dia no final do dia, consolo de tudo e remédio de tudo.
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Que seja denso e profundo, o amor. Que seja intangível como o céu e próximo como o chão. Que tenha aroma de coisa boa e sabor da fruta preferida, que encharque como a água e eleve como o vinho.
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Que todo o meu amor seja dela e ela me dê a metade do que lhe quero. Que amanhã seja hoje e hoje seja sempre.

quinta-feira, junho 07, 2012

Não quero crescer

Pai, tenho saudades das intermináveis conversas e da companhia. Mãe, tenho saudades da mansa genica, quase parada. Pai, herói e carrasco, justiceiro falhado e usurpador involuntário. Mãe de toda a ternura, até ao sufoco. Um dia serei crescido e terei muitas saudades. Por agora vou-me resignando à desistência de um e impotência de outra. Tenho pena, não deles, mas de mim. Toda uma vida e isto, esta minha vida, a cruz, não a que carrego por eles, mas a do meu fracasso. Tenho saudades e quero esquecer os dias que não as tenho. Saudades dos abraços a três. Um dia serei crescido, e muito mais triste.

quarta-feira, junho 06, 2012

Piroso

Cuidado com os locais e os presentes. Cuidado com a boa vontade, a boa educação e a simpatia. Cuidado com a tolerância. Atenção às ideias. A doença pega-se e é fácil, não há preservativo seguro. Não há tema imune. Engana como uma ilusão de óptica ou alucinação mística. Mistura-se nos vapores da paixão, no éter do amor, na franqueza da amizade, no carinho dos animais, na fé verdadeira, na genuína simplicidade. Fede como a ausência de limpeza num metro lotado em hora de ponta no fim dum dia de Sol escaldante. O piroso é um bicho que anda aí.
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Nota1: Volta e meia pica-me. Escrevo este texto, porque comecei a textular e os dedos mostraram os sintomas. Corrigi e sempre consegui piroso. Pelo que, hoje não infotocopio textos de paixão e amor. Hoje vi a tempo.
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Nota 2: O que não quer dizer que não haja beleza ou interesse no feio, no piroso e no kitsch.

terça-feira, junho 05, 2012

Voltar à luz

Quero luz e silêncio nas horas de luz. Quero sono na morte e uma morte no fim da vida. Quero dormir a vida e acordar da vida dormente. Guardei-me para um ano-luz distante em que se revelará uma virgem santa, um animal sacrificial, guardado como todas as mulheres dos desejos. Nesse dia impossível, longe no escuro, o meu corpo já não chegará a pó, mas o sarcófago ainda estará a ferir-me o coração. Cansado de quase uma eternidade. Quero a promessa e o verbo. Cansado da mortalidade. Que me passe e volte à maternidade.

quarta-feira, maio 30, 2012

Terra

Quero abraçar a Terra. Beijar as árvores. Sorrir aos animais. Comover-me com as pessoas. Quero! Mas não consigo. A vida é uma porra e se a morte existisse não seria merda menor. Voar por aí. Fantasma de mim. A pena e o orgulho. Música para a paixão. Música para o amor. Música para a saudade. Música para tudo. Música para a vida e uma vida para toda a água, lágrimas incluídas. Quero tudo! Mas não posso. A vergonha não me deixa. A Terra tem mais água do que terra. Tenho mais amargura do que amor. Quero, mas não aguento. O que fazer com esta vida? Pois podia, mas não consigo.

Comprimido

A vida é demasiado curta para que não seja passada a dormir.

Normose

Quero uma vida normal, com uma morte no fim.

terça-feira, maio 22, 2012

Hoje bebemos uma cerveja no Estádio

Uma coisa que tenho aprendido a apreciar é a bondade. Não a coerência duma vida ou a verticalidade orgulhosa, mas a bondade. Há pessoas que têm nos olhos a alma sem que por isso sejam uma boa alma. Não me refiro a sentimentalismos, mas a índole. Conheço o João há quase trinta anos e hoje vai a cremar. Não sou o melhor amigo, mas conheço-o e sempre o conheci bom. Não é porque o corpo morreu que ele é bom, mas porque o foi sem nunca se ter feito ver por santo. Lembro-me da frenética calma, que é a forma menos óbvia de não se ter calma. Não lhe conheço má-língua sem ser num lamento. Não me lembro dum lamento sem uma razão. Sempre honesto e íntegro. O João é boa pessoa. Eu, que não sou íntimo, sei do esforço que fez, antes de abandonar o corpo, em tratar dos pais. A sua gesta é prova, no mínimo, de gratidão. O corpo do João queima-se numa máquina, mas a bondade fica com quem o conhece, que só guarda boas memórias.

sexta-feira, maio 18, 2012

Este estado





















Quero um amor abstracto com uma pessoa bidimensional. Quero morrer no acto sensual. Quero pelo Skype os beijos devidos. Mando sms com amassos prometidos. Quero marcar encontros a meio da noite, na febre. Quero adormecer pesado e bêbado. Quero acordar bêbado, mas sem febre, só a febre da excitação. Quero ligar e ser atendido. Quero voz de sono. Quero ligar e não ser atendido, não quero a voz nem o responso. Quero ligar e com medo da aceitação para ter de abrir a porta. Tenho um computador com internet e sítios onde estão de pernas abertas, sonhando-me para que as tome e desapareça com algum desprezo. Mulheres objecto? Pois então. Amor abstracto com pessoa bidimensional.
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Nota: Foto da Modelo MordsithCara aka Chelsea Christian

quinta-feira, maio 17, 2012

Deixem-me o prazer

Cansado dos mesmos hinos. Farto das palavras repetidas. Não é para isso que se fazem revoluções. A revolução sempre é uma não revolução, mas cansa, porque chateia. Há quem tenha encravado nas datas, peço que me deixem viver sem a preocupação de ter de me preocupar. Quero a alienação da beleza e não a comoção do feio. Não será por este copo se não beber que deixa de haver fome no mundo. Não quero os muros da moral, nem de sacristia nem comunista. Quero que me deixem viver, alegre e pobre, com vida de rico.
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Nota: Adoro esta música e José Afonso, estou é farto é dos sacerdotes da democracia e dos guardas do templo revolucionário. Não há paciência para quem ainda apela ao «esganar da burguesia».

sábado, maio 12, 2012

Anda cá antes que nos vamos

Largava-te já se te tivesse agarrado. Fiquei com os beijos prometidos. Não são frigorifáveis nem congeláveis, são demasiado quentes para o frio. Tão quentes que aguentam toda a espera. Mas eu, sôfrego de ti, temo que não durem. Ou que seja eu quem não aguente. Os atrasos matam-me devagar, mas como morro de amor, paixão é coisa que dói, sempre me aliviam a dor e fazem-me desejar-te mais e mais. Ai se te tivesse agarrado… beijava-te agora, e tu, rebelde e libertável, soltar-te-ias para me prenderes e beijares. Devia ter-te agarrado.

O outro

Tenho sono e faço uma birra de sono porque não te deitas a meu lado. Sei que tens outro homem… sei que é mais baixo, fala menos do que eu, sabe menos do que eu… o que vês nele? Um abraço? Uma vontade de comer com mimo? Não sei, vou amuar… e o pior é que também estou apaixonado por esse outro homem.

terça-feira, maio 08, 2012

Rio

Como é doce o teu rio, que é teu corpo, estendido a meu lado e calmo como um lago. Teus braços, braços de rio, abraçam-me como se eu fosse uma rocha e os teus cabelos são pássaros pesqueiros alimentando-se na água. Que bom é acordar no sossego da sombra das árvores e franzir os olhos para felicitar a luz. Dou-te um beijo e tu adormecida sussurras qualquer coisa, mais baixo, infimamente mais baixo que um sussurro, com um sorriso, como se tivesse atirado uma pedra à água para a fazer ricochetear antes de mergulhar. Digo: bom dia meu amor e tu sem sobressalto sorris, correndo o sono como a água de brilhantes. Daqui a nada, quando acordares será o começo do teu dia. O meu vai no meio-dia e já o Sol te grita: bom dia meu amor, acordaste finalmente.

segunda-feira, maio 07, 2012

Dormirei

Abri a janela ao Sol e ao vento. Tirei os lençóis, amacei-os, atirei-os para o chão. Desdobrei os lençóis e fi-los voar e cair certos e direitos na cama. Fiz a cama. Fronhas novas e cheirosas nas almofadas. Dormirei os pesadelos de sempre.

quinta-feira, maio 03, 2012

O futuro





















O futuro não me existe. Nem a seiva quer persistir. Desistir é coragem que me falta. O sono é a minha vida, súplica por clemência. Desvontade de dias por virem. Mais simples o pedido, fechar os olhos. Mergulho no escuro com a única esperança restante, fechar os olhos. Para não ver o futuro que não tenho. Fechar os olhos.

O Primeiro de Maio, o Natal e o Pingo Doce

























Os religiosos do Primeiro de Maio aceitariam a obrigação de celebrar o Natal com consoada e missa do galo?
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Nota: Aquele episódio do fim-do-mundo dos cinquenta por cento de desconto no Pingo Doce foi das coisas mais tristes que vi em Portugal em muitos anos.

quarta-feira, maio 02, 2012

Amor imaginado

























Como posso amar-te se nunca te vi a pele íntima. Se deduzo os seios, especulo os lábios secretos e sua a cor. Que água? Que aroma? Que tal o rosto e a respiração e que fazem as mãos? Como fazem nas costas? Deito-me e sonho, vendo o que acordado sonho. Quendera cumprir o que a mim prometi, e deitado fazer jurar tudo o que se costuma jurar e jurar o que se costuma jurar. Nas juras trocadas não incluir nem a verdade nem a mentira. Como não te amar se desejo desejar-te sempre? Toco-me em memória de querença do teu corpo cor de pele, dos teus seios imaginados e do teu sabor irrevelado matando-me a sede enquanto te como.

terça-feira, maio 01, 2012

Primeiro de Maio a dançar

Deixem os trabalhadores dançar. Para chatices têm todos os outros dias. Profissionais do protesto, desportistas das marchas de palavras de ordem, membros do Grupo Recreativo Sempre em Festa e demais aborrecedores desamparem-me o bairro. Vão dançar.

sábado, abril 28, 2012

Nós por cá





















Vou dormir, que amanhã o país volta a acordar deprimido ou estupidamente feliz e eu, que não tenho culpa nem paciência, vou ter de o aturar. E de me aturar.

Entre nós os elementos

Quando estou em Vénus estás num signo de água. Quando estás em Marte estou num signo de água. Quando estamos na cama nós dois somos de água.
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No calor dos corpos, no enfado do Verão, na indiferença do Outono, na estupidez da Primavera ou na cama do Inverno sempre fogo. Comigo e contigo.
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No cansaço, nos dias felizes, nas noites de claridade, nos tempos de depois sempre vento, do que entra sem que queiramos nem vejamos por onde. No fim do prazer só o ar nos vive.
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O fim do mundo, a erupção dos vulcões, as contrações do chão de pele e calor e as promessas de verdade e de loucura as palavras profundas. No descanso da febre dormimos em paz na terra.

Tugas

Entre 1987 e 2009, mais coisa menos coisa, fomos europeus... em 2010 voltamos a ser portugueses.