digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

quarta-feira, novembro 09, 2011

Útil como um navio encalhado



Lembro-me da tristeza do Tollan, que Lisboa adoptou como seu defunto com o nome de Tolan. Lembro-me da tristeza do Tollan abandonado às correntes do Tejo. Um dos seus poisos foi à vista lá de casa…
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O que se pode dizer dum navio encalhado? Tombado de borco, sem respirar, sem socorro. Depois de falecido, ali esteve no Tejo, à vista para que se não esquecessem, deprimido sem sair do leito, sem ter ninguém.
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Morreu ali, como uma baleia na praia. Inútil e de cara anónima. Abusado por quem lhe pintou palavras, de reivindicação e de política.
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Um dia foi-se sem aplauso, como um mero bandido acorrentado. Nunca perguntaram por ele e as palavras do dorso saíram com a chuva, o mar ou o maçarico.
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Quando o telefone não toca e as janelas não se abrem… quando a escuridão cai sobre a luz e o sufoco sobre o ar… caio de borco, encalhado… chorando as feridas e rezando para que…
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Tanto faz! Se o telefone não toca é porque não tenho o que dizer.
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Sairei de borco, mas depois de bem engordado com gelados de caramelo. Sairei do lodo dos dias e do sono prolongado das noites.

terça-feira, novembro 08, 2011

Eterna dúvida e sua certeza


















Olhos abertos no negrume, dentro do cilindro que conduz ao futuro, para ver que não há nada para ver.
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Um torcicolo irritante impossibilita o regresso aonde se foi feliz ou onde se perdeu a ilusão de o ter sido.
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À frente, um sacrifício, um abismo, um grifo, uma esfinge, um buraco…
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O salto, o eterno desejo. A vertigem. Na incerteza, ficar ou largar? A vontade na vertigem… acto consequente na vertigem da vontade.
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Valerá a pena viver desconhecendo o futuro? O futuro é invisível, desconhecimento imposto pelo tempo. Olhos abertos? Bem abertos, e continuar a não ver porra nenhuma.
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Pode estar uma besta à frente: dragão de sete cabeças. Pode estar o Paraíso: as tantas felicidades indescritíveis.
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Pode tudo e, na maioria das vezes, não está nada. Uma agonia e enjoo pela mediocridade da ausência e do vazio.
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O futuro é invisível, caminho escuro. Vale andar sem ver? Deduzir com base na ignorância.
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Vale a pena em toda a desesperança?
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A vida é uma grande merda!

sexta-feira, outubro 28, 2011

Verbo esperar














Espero que me esperes, como a primeira vez. Coroada de flores, como virgem, e de olhos brilhantes. Espero a esperança suficiente até esse dia.
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Quero-te emergindo dum lago, orlada de flores e dos pássaros pirosos que há no Paraíso. Quero esquecer a árvore do conhecimento e deitar-me contigo à sombra da dos prazeres.
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Quero cumprir promessas de vidas. Quero meter-te a Lua no ventre, para que te faças Sol.
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Dias soalheiros de amena luz. Mergulhos tépidos em mar de transparência e ondas de brincar. As frutas do mundo e o vinho de Deus.
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A solidão feliz de dois amantes, alimentados de boca-a-boca e mão-a-mão e corpo-a-corpo e jura-a-jura. A feliz solidão sem tempo nem horizonte.
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Amar além das vidas. Entre elas, o caminho do Paraíso para lugar nenhum, um abismo de perda de tempo.

segunda-feira, outubro 24, 2011

quinta-feira, outubro 20, 2011

Árvore







Tens os mesmos olhos brilhantes e vivos. Olhos dos mais inteligentes que conheço.
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Coração de árvore ampla, onde quatro mãos não se tocam. No teu colo, protegida pela sombra das folhagens, a amizade, ser frágil e feliz.
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Generosa e franca; talvez ribeiro que salta nas pedras e que, por vezes, as chuvas fazem lavar a vida à frente.
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Ainda depois de tudo, és mundo de certeza e ternura. As árvores nasceram para ficar e os rios para renascer.
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O brilho da amizade, até ao fim do mundo. Até ao fim da vida.

quarta-feira, outubro 19, 2011

Espreguiça-te



Espreguiça-te em mim. Antes de cair no sono caímos no desejo, até à satisfação plena. Espreguiça-te em mim. Grande como uma sequóia e tu frágil, enrolas-me como as lianas. O teu respirar dá-me vida e o calor tira-me água. Abraçados toda a noite, atiro-te pedrinhas ao sono, com promessas de amor, que não te abrem as vidraças em delícia nem ouves atrás do sonho. Acordamos em beijos e conto-te o que disse ensonado. Ris e faço-te cócegas, como as que te fiz antes de deitar. Despejo-te água, como o fiz antes que adormecêssemos. Só a fome nos tira da cama. O dia fica para depois.

domingo, outubro 16, 2011

Síndrome e transparência















Não são páginas em branco, mas de insuportável transparência. As letras escorregam ou desfazem-se em intersecções desajeitadas… quase suicidárias, se tivessem vista, meditação e coragem e vontade.
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A transparência das páginas não fixa ideias. Mais concreta do que a ideia e fugaz na escrita.
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As palavras são, por natureza, negras. As de tinta são negras e no ecrã vêem-se negras. Esqueçamos as de outras cores, subprodutos alfabéticos. As palavras, as letras, a pontuação são negras. Como desmaiam na transparência das folhas!...
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Como uma vidraça… límpida, baça ou translúcida… folhas sem espessura, sem dimensão, sem cor. É mais doloroso escrever assim: sem ver, forçando a vista, de incerteza crescente, de tempo prolongado no travo que de intenso passa a enjoativo e a vómito… a dúvida chega e volta ao princípio. Folha transparente.
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As ideias são livres e agora… Um descalabro, uma incerteza, angústia, desilusão e loucura.
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Que fazer com esta ausência? Que poderei escrever? Deito-me esperando estar já a sonhar. Que esteja a sonhar com o pesadelo e que amanhã acorde com a síndrome da folha em branco. Espaço suficiente para algumas palavras. Negras, certamente.

sexta-feira, outubro 07, 2011

Lápide da imortalidade



















Depois do seu sonhado sucesso, coisa de amador de poucas ambições, coisa menos que a mínima que uma mãe quer ver, regressa à insignificância.
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Memória deixa pouca e é apenas um tracejado ténue junto dos próximos. Nem os gozos de quem o vê palerma durarão mais do que as vidas que o conhecem e desprezam.
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Ainda sem a noção de que as palavras se escreveram com letras quase invisíveis. Caído e estatelado, na dormência da dor nem descobre que morreu, de corpo ainda respirando.
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Estar quase não é chegar. É perder o que não se chega a ter. O ridículo duma vida é tê-la vivido enganado.
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A beleza está no apanhar da fruta e nas árvores de grande porte e considerável cabeleira. Não há como a natureza. A terra come o resto e dá o que recebe. Do respirar, nem bafo nem vento.
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Uma vida virá que valha a pena.

domingo, setembro 25, 2011

Requerimento



















Venha a Morte, com sua gadanha, ceifar os tristes e deixe os reis e vencedores do mundo. Que o seu manto negro em farrapos sirva de abrigo, resguardo e consolo aos que se cansaram de existir, aos desistentes, aos derrotados. Que o hálito da vida dos fracassados alimente os fortes e os gloriosos. Que partam os desmerecedores, pela sua fraqueza.
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Que o peso do universo esmague os iludidos e estes, em sufoco, tenham um regalo, o de morrer instantaneamente e sem dor. Suspiro menor ao segundo. Uma graça de justiça.
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Que a minha vida seja uma veloz passagem, sem rasto nem saudade. Que a Morte, com seu manto escuro, limpe a sombra e consuma o corpo. Que a morte, com seu mando desmentível e incontestável, queira ceifar cedo quem lho pede.
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Não há, para quem perde, melhor consolo do que a lâmina fria da gadanha. Que a Morte tenha clemência e higiene. Que deixe os vencedores brilharem em eternidade e permita o célere eclipse aos desistentes.
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Não seja suicídio, mas graça. Não se pede mercê, porque os perdedores não merecem reconhecimento nem laudas. Faça a Morte justiça. Que com sua gadanha leve para onde não há universo para guardar almas, os perdedores.

sábado, setembro 24, 2011

Tédio
















Alívio maior. Alívio adiado. Dentro tenho algo maior do que eu. Não é por isso que estou disformemente inchado.
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Como a maçã de Magritte esmaga a respiração de quem olha, algo em mim transborda dentro, querendo rebentar.
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Mil arrepios, dezenas de bocejos, noites e dias dormindo. Um sono muito grande, sem ter cansaço nenhum. Um cansaço muito grande, sem ter cansaço nenhum.
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Pergunto-me se acabar, sabendo que não acaba, é acabar. Se acabar cedo por vontade é deixar a meio. Se acabar por vontade dá direito a acabar mesmo.
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A maçã de Magritte e o pão a crescer no meu forno. Fermento a mais para tão pequena caixa. 

quarta-feira, setembro 21, 2011

Verbo amar conjugado no tempo merecer












Um coração grande em corpo pequenino é ainda maior. Por isso, o abraço é a obrigação desobrigada. A gratidão de ser, além de estar ao lado. Um sorriso é justo, dois, mais justo será. Um mais, pelo menos, não irá sobrar.
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Um amor numa alma sofrida é ainda maior. De tanto abandono vem a vontade de dar. Quem sabe se ainda mais. Pela bondade dos olhos, menos não será. Gratidão? Não, justiça. Se todos merecem ser amados, os que sofreram justificam uma eternidade beijada.
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A presença após a grande ausência é ainda mais cheia. Não há sombra que resista a tanta luz. Vinda de frente, dos lados, de cima e de baixo, das diagonais, de todos os ângulos, de todas as dimensões, de todos os lados. O amor enche de luz as multidões. Ainda que traga o desejo, paixão da terra e da carne, a vontade despertada ilumina o que o mundano retira dando penumbra.
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As ternuras depois dos gritos são ainda mais doces. Agora, gritos só os do prazer. A tesão há tanto tempo contida… do calor à carência… da carência ao calor. Que se dêem as mãos e os olhos se encandeiem em qualquer sítio, os beijos que nunca fiquem por dar. Todos os abraços e o que mais apetecer, desde que seja por amor.
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Não sei o que é amar. Não diferencio, em perspectiva, o prazer de estar com a eternidade de ser. Numa dimensão bidimensional, só se distinguem as cores, que um cartógrafo pintou. Um sítio, num sítio qualquer, tem sítio para mim, para ti e para todos. Chamemos-lhe amor merecido, amor devido, amor desejado.
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Marimbo-me para as duas dimensões das letras, sei que, em concreto, há um sítio de amar e quem se possa amar. Quem mais deu e mais perdeu tem mais a quem amar.

domingo, setembro 18, 2011

Olhos de água















Há anos que não me revia no espelho de olhos tão límpidos. E há quanto tempo não via chuva nuns. Em ternura dão tudo e as promessas saem verdadeiras pelos lábios. Coração bom e toda a culpa do mundo, a que não tem direito. Voz doce e sorriso de enlevo. Generosa nos abraços, quente nos beijos e sensualmente discreta. As mãos servem para se darem em toda a parte, da cama à rua. Um beijo é um beijo, em qualquer lugar. Escrevo-te estas palavras como um beijo. 

sábado, setembro 10, 2011

Dizer-te o quê?



















Dizer-te o quê? Que me ouvirás, com esses lábios vermelhos? Toda a beleza recatada atrás duma pintura, que mais não faz do que sugerir a beleza que lá está.
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Sim, a curva do pescoço. Sim, os olhos revirando-se. Sim, a sabida pose inocente. A indecorosa postura que convida à alcova.
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Qual fragilidade, quando tem o mundo? Que importa o corpo, quando é mais forte a alma?
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Joguete ajoelhado. Dizer-te o quê? Desarmado pelo desamor… desarmado pelo amor… desarmado nessa luta contigo, em que a frágil sensualidade é mais forte que a força viril.
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Dizer-te o quê? Desarmado por esses lábios vermelhos, armadilha de delícias.
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Esses lábios sugerem beleza e, na verdade, timidamente descarados, disfarçam-na. Caio sempre… criado de mim mesmo, servo de minha senhora e escravo do amor. Dizer-te o quê?

terça-feira, setembro 06, 2011

Bom dia mundo
















Olha, lá fora, o Sol brilha e algo de si é teu. Uma parte de luz e outra de calor. Para que te não veja nem te pense acordada, querendo desassossegar-te, baixo-te a persiana. Dorme como uma menina, que o amor será mais tarde.
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Ao abrires os olhos, espreguiça-te bem, acenando ao astro amigo. Abre bem a janela para que para o quarto não fique migalha de vento por entrar. Deixa-te quieta, para que lentamente a luz faça amor contigo.
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Levita dormitando, até não saber se sonhas. O Sol, já refeito das saudades da noite, irá pegar-te ao colo e a água espera-te na banheira. Lava bem os olhos e as orelhas, para que nada do mundo te escape.

sexta-feira, setembro 02, 2011

Em todas as mulheres, tu



















Jogar contigo jogos de cama. Jogos de sorte, sem azar. Nos lençóis da cama, na bombazina dos sofás, na flanela das cadeiras, na pedra da bancada, na madeira da mesa, no esmalte da banheira, à janela, na varanda.
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Pela fresta da porta, a Juliana nua. Pelo vidro da bandeira, a Gisele nua. Pela cama afora, a Adriana nua. Juro amor à Cláudia. Prometo-me à Daniela. Todos os nomes de mulher te assentam na perfeição quando fazemos amor. Sejas ou não sejas a Juliana Paes nua, a Gisele Bündchen desnuda, a Adriana Lima despida, a Cláudia Vieira sem roupa, a Daniela Ruah mostrando-se natural… sejam portuguesas, brasileiras, espanholas, francesas… todas gritando por mim… serás sempre tu.
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Todas cabem em ti, porque, quando em ti estou, nada há além de ti. Nem mundo, nem outra nudez. Só os nossos beijos. Jogos de cama pela casa fora.
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No Facebook estão todos os nomes de mulher, fotografias de lindas e feias. Das que gostam e das que não. No Orkut guardam-se as mesmas e outras. No Youtube há de tudo. Muito do amor de mulher neles cabem. Mas em mim só tu.
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Nas palavras que me dás em desejo estão as vozes da Paris Hilton mostrando-se, da Justine Joli revelando-se, da Sandra Shine avançando-me… se as desejo na ausência, quando juntos, tu e eu, todas estão em ti e sobra espaço.
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De burca, de lábios vermelhos, de cabelo solto, de pelo curto, de pele quente, de boca molhada. Toda molhada. Nua em amor.
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A nudez de todas as mulheres define-se em ti. Podes ser todos os nomes, serás sempre a mesma mulher. Nua, vestida, abraçada, em amor, na luz, na escuridão, na sombra e na contra-luz.

quinta-feira, setembro 01, 2011

O sabor do leite de Bhopal





















Mãe mata filho, com muito amor e carinho. Com leite de Bhopal e afagos de Chernobyl. Amigo dispara sobre amigo, com palavras de amizade. Com olhos tristes e poucas palavras, na voz cinzenta. Como na guerra de blindados e canhões, ninguém ganha. A amizade está e fica, à espera de quem a abandonou a venha buscar.

domingo, agosto 28, 2011

Viagem com o nome de arcanjo

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Um dia feliz, em que os pés de praia não foram à areia. O mar bravo esteve manso e, ainda assim, o menino ficou agarrado ao corpo do amigo, para que não fosse o breve pensamento duma brisa, ridícula e impossível, atirá-lo abaixo para a Boca do Inferno.
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O vento do cimo da terra apresentou-se, enquanto a casa de luz permaneceu quieta à espera da noite. Pedra sobre a pedra, em escadas, em escadas imaginárias, em escalada, em ideias. Um, dois e três… hop!
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Um mapa pequeno e outro grande, a mesma coisa, do tesouro escondido e guardado, ainda que se não diga. O caminho até e o que haveria. Lisboa, perguntada, talvez ansiada… a casa, essa sim.
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No caminho o sono dos pequeninos. Entre um ponto e outro, a magia das viagens sem trajecto. Entre Lisboa e Lisboa, tanta coisa para contar e algumas para lembrar.
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Colher, garfo, faca, copo… comida e toda. Uma corrida, às vezes vitória… quase sempre e em tudo. Sempre bem, como um lorde.
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Não há noite sem sono. Tantas quanto os dias e em todas brincadeiras. É faze-lo enquanto se pode.
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Tenho tanta pena de já não ser pequenino.

sexta-feira, agosto 26, 2011

A volta do pai, a volta da volta do pai



















O pai ri-se. Interroga, afirma, delira, flutua, entre este mundo e um outro. Da lucidez à fantasia real das suas horas, minutos. O pai ri-se e brinca. O pai grita, a mãe desespera. O oceano manso alevanta-se, e o pai amaina-se sem aceitar nem compreender. O pai ri-se. O pai fala. O pai diz com voz de se ouvir. Há quanto tempo não o sentia assim. O pai grita, há quanto tempo, com voz de todo o corpo. O pai grita e a mãe desespera. O pai ri-se, flutuando entre a realidade e um outro mundo.

domingo, agosto 21, 2011

Março em Agosto


















Hoje houve Sol. O calor abraçou o pai e o pai sorriu. Lembrei-me do pai, lembra-se o pai. Sorriu, como há tempo não sorria. Sorriu com a confusão do riso, sem rir e na tristeza. Sorriu num dia de Março que chegou em Agosto. Feio e prometendo luz. Ventoso e anunciando a Primavera, sorrindo. Que o sorrir seja em Março e não de São Martinho, Verão de engano, de Outono profundo, certo do fim da luz e do Inverno. Será um dia, mas não hoje. Hoje, não. Hoje sorriu.

Outubro em Agosto


















Há sempre um abraço que fica por dar. As despedidas tristes escondem minutos felizes. O vento apaga as velas, a luz perdura na memória. Há abraços que têm de ficar por dar, para que as despedidas tristes não sejam mais tristes e possam prometer alegrias. O vento leva as lágrimas e os olhos molhados reluzem amizade devida.

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Nota 1: Repararam na luz bela e triste, outonal, que caiu no final da tarde em Lisboa? Outubro. Tempo permitido à tristeza.
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Nota 2: Dedicado à Janis Joplin da Inês.

sexta-feira, agosto 19, 2011

O pai


















O pai já não é e, contudo, jaz vivo. Ali, entre a vida e já a morte da consciência. Fala para o outro lado e mal diz para este. Desama quem ama, desama quem o ama. Não quer o que quer e agarra-se à vida. Quer o que não quer e tenta alcançar a morte. Não chega a ser triste. É a constatação, a vida vai-se devagarinho, em estrondo sussurrado, em grito louco de grande voz delirante, em sopro fraco e trémulo. A indecisão, na incerteza da certeza de que irá. O meu pai foi-se, só falta o corpo e a voz.

quarta-feira, agosto 10, 2011

Inferno



















A garganta escancarada, a boca do Inferno. Lá dentro milhões de demónios famintos. A cair, almas perdidas de corpo: velhos, novos, crianças, sacerdotes, cardeais, beatas, terroristas, católicos, judeus, muçulmanos, aqueles que crêem noutros deuses, cientistas, os que só acreditam no dinheiro, ou apenas no homem, machistas, feministas, homossexuais, tarados sexuais, abstinentes sexuais, abortadeiras, médicos, loucos, advogados, assassinos, fascistas, comunistas… um ror de gente, para as quais não chegam as palavras.
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As putas estão à porta, a chamar clientes. Os polícias estão a ver, aguardam ordem para serem tragados pela bocarra de enxofre. A escorregar, já dentro, de unhas cravadas na rocha, arautos da desgraça, profetas de religião e dinheiro.
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Mil torturas. Infinito sadismo. Calor e gelo. Um lago de imundices: vómitos, caganeiras, sangue, esperma, leite, suor e lágrimas. Toda a espécie de animais selvagens. E todos os animais nojentos. Todos os animais: aves com dentes, serpentes de plumas, leões de seis membros, insectos gigantes.
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A carne infecta-se e cheira. Para que não se habituem os sentidos, ventos orvalhados e com perfume de flores. Para que desenjoe e se mostre como seria o Paraíso. Depois, metamorfose, nuvens de fumo floral, para que se intoxiquem as goelas e se deseje o odor da merda.
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Dentro do Inferno há uma floresta amazónica a ser abatida, sem sentimento de culpa, sem fim… só árvores caindo e com elas as bestas tropicais e as penas das aves do Paraíso.
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O Inferno é um mundo de solidão, é a multidão. As vizinhas espiam e comentam, em inveja e medo. A paranóia e um capanga em perseguição.
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O chão do Inferno é de lava e dentro das cavernas chovem ácidos. Há padres da Inquisição para os judeus, rabinos intolerantes para os muçulmanos e almuadens a chamar os devotos à guerra santa contra os cristãos. Todos contra todos, incluindo chineses, japoneses, indianos e aborígenes australianos. Todos, incluindo antropófagos. Todos incluindo vegetarianos.
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O pesadelo dos políticos. Para os outros, a certeza de que haverá políticos. No Inferno há bolsa de valores, mercados cambiais, indulgências, Muro das Lamentações para dar cabeçadas, uma mesquita virada para Meca e um calvário para os menos aflitos. Eternidade para todos.
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O Diabo pode tudo. O diabo não gosta de ninguém. Nem gosta de si. O Inferno é uma grande balda, um mundo de confusão. Tudo de pernas para o ar, que, quando se está de pernas para o ar, continua de pernas para o ar. Desconexo. Concertante, contudo.
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Só tenho pena de não acreditar no Inferno nem no Diabo...

sábado, agosto 06, 2011

Baixa mar










A água doce não tem cheiro. Fresca, menos. É mais pobre que a que vem e vai e vai e vem, salgada.
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A água parte. No sítio, um vazio. Parece nada faltar, não falta o cheiro nem nostalgia.
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A dor é maior que a solidão da partida do mar. As lágrimas não são menos abundantes que as ondas. Só o mar é mais salgado.
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O que fazer com a ausência? Quem disse que não se pode estar cheio de nada? Que angústia ver partir o dia na maré baixa… as gaivotas recolhem-se e pela manhã, depois de a água emprenhar de Lua e partir novamente, o areal estará liso. Só as marcas dos passos pequenos das aves.
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Vazia, a maré faz espelhos e inventa rias e lagos. Os limos mergulhados surgem ao Sol ou refrescam-se na noite. Cheiro verde, junto ao azul, lavado de espuma e sal.
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Gosto da brisa do entardecer. Gosto que me sopre o corpo escaldado. Felicito-me por pôr os pés onde havia água. Iludo-me com a imortalidade das pegadas… se o mundo acabasse agora, se o mar se fosse, as marcas ficariam para sempre a lembrar-me.
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É um instante a baixa mar. Nem dá para chegar à outra margem do mundo. Como Moisés abriu o mar? Só penso nisso quando uma onda mais ousada apaga a curta eternidade duma pegada do meu passo mais atrevido.
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No Inverno, a baixa mar faz mais praia de silêncio. Não dá Deus, mas mostra o princípio do mundo. O frio agasalha-se com a vista e um só beijo aperta o amor, que se sacia no abraço enroupado. O sal está sempre, nas bocas, no vento, no mar, nas lágrimas.

quinta-feira, agosto 04, 2011

Preia mar










As tuas mãos são vagas calmas que trazem caracóis de espuma e sal de beijo. Amar-te é o desejo maior.
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Estou abraçado pelos teus braços de algas, molhado pela tua água. Beijado no sal, deitado na areia, a pele escaldada e a cabeça, perdida, quente do Sol.
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À flor dos olhos existe a ternura que nos damos. À flor da alma estão as incertezas que tenho. Mas à flor da pele está o amor que fizemos.
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Quero-te, acima de tudo, amada. Quero essa doçura cândida, o tom de voz agudo e macio. A flor do teu olhar. A flor de sal.
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O amor contigo é tranquilo. A incerteza em mim é ácida. E tão certo de vontade. E tão certo de querer. E tão triste, por incerto.
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Por nada te quero perder. Não sei se tenho forças para que, querendo-te tanto, te queira mais.
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Sem ti não passo. Choro se te vir passar sem que esteja a teu lado.
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Que não sejas a maré baixa. Que sejas a preia mar. 

Êxtase


















A boca que te mordo. Os seios que beijo. O tronco que abraço. Sou serpente e tu árvore, numa floresta multicor, de cacofonia harmónica.
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Fazer amor contigo é a reinvenção da ternura, a descoberta adolescente. A frescura beijante no dia de calor. O suor amado.
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Os meus beijos penetram-te. Sou teu predador e tua presa. Não me sacio num só banquete e tu, tão vasta de querer, não me chegas.
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Rijo, entro-te. Rijo, com a língua entrelaçada na tua. Com os lábios encaixando-se em amor. As mãos em toda a parte. Eu em ti. Tu, anfitriã, minha senhora.
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As horas de vigília, as longas conversas. Um dia tudo será esta verdade, que te desejo em palavras. Por agora, contento-me com a boca, a que mordendo te deixa morder. 

Numa água noutra vida
















Gostava de, agora mesmo, mergulhar numa água de flores. Não de aromas, mas de pétalas. A luz que ilumina a inteligência.
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Mergulhar contigo a ver. Ver-te mergulhar. Contigo fazer amor. Deixar que os teus beijos me façam explodir de homem. Que por ser homem me faça homem, herói para ti. A força sensível do homem que deseja.
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Sem televisão, mas numa música de final de tarde frente ao mar. Sem lembrar os beijos tristes e a pensar na descoberta de redescobrir, a inocência atrás dos corpos por despir e com vontade de perder a roupa.
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Uma varanda sobre o vento quente, antes que acabe o Verão, que não chegou a chegar. O encontro por trás. De Verão e mãos sobre o peito, de boca no pescoço. De loucura.
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Quendera uma solidão. Quendera, amor novo. Sem culpa nem fantasmas. Sem dor nem dúvidas. Sem consequências da consequência do desejo. Estrelas exibicionistas, num céu de azul diurno.
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Esquecer estes dias? Nunca. Lembra-los sempre. Entre o remorso e a dúvida, o medo e o desejo. A realidade e o sonho. Gato a passear no telhado, a Lua e o Sol, as flores e os dias sem fim e sem nada que os ocupe. Esquecer estes dias? Nunca os viver.
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Tantas dúvidas nas horas de tédio. Além das certezas, a indecisão. A impaciência. O desejo de facilidade. O desejo de felicidade. Pensar em ti.
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Ondes estás? Para ir. Para não ir. Para voltar. Para ser campeão. Para acordar para a vida. Para acordar. Para viver. Para renascer. Para não saber. Para não ser.
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A água de flores. A música de jardim. A luz do Sol. A luz da Lua. A luz das velas. A luz de adormecer. A luz de acordar. A luz da voz. Desejo, consequência e ausência de remorsos.
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Deus duma paisagem maior que Deus. Intemporal, o amor finito, numa existência finita, duma vida infinita.
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Braços abertos à luz do Sol. Frente, destemido, ao mar. Beleza, incerteza. Fora de mim. Fora daqui. A incerteza da certeza.
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Fugir, que é o meu verbo. Beijo, o meu desejo. Mergulhar na água de flores e esperar que sob as águas surjas para me beijar o que me faz homem.
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Entretanto, acordar e noutra vida.

quinta-feira, julho 28, 2011

Escrito com palavras de sombra














A eternidade pode ser uma palavra perdida. Uma frase grafitada num muro esquecido. Quase silêncio do vento a bater nas folhas e galhos. Quase quente. Quase ébrio. Quase deserto.
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A solidão é uma sombra esbatida, uma vida abandonada, um encolher de ombros, um não querer saber, um não esperar nada, um não desejar nada, uma vontade de coisa nenhuma.
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E o que é o tempo? O mancar dum relógio de sala? Nas casas vazias, nas almas tristes, nas vidas esquecidas, nas horas de tédio.
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A eternidade dos infelizes escreve-se à mão. Palavra escrita com tinta de sombra. Palavra grafitada numa parede onde não bate o Sol e onde ninguém passa.
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O tempo é um buraco negro, que suga a vida. Viver é esperança? Quantos não andam mortos e apenas esperam?
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A tristeza escreve-se com letras queimadas. A eternidade dos tristes tem trezentos e sessenta e cinco dias por ano e de quatro em quatro tem mais um. Cada dia tem muitas mais horas do que as vinte e quatro das jornadas dos felizes. A dor do tédio. A espertina em desatino. As horas vazias.
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A vida suga a vida de quem vive triste. De quem teve a tristeza de nascer triste e viver triste. A vida é uma voragem. Não vale a pena pedir socorro, porque o triste será sempre triste e quanto mais triste viver, mais triste será.
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Não há socorro. Ainda que peça, ninguém ouve. Os alegres, na sua bondosa ignorância, desviam-se. É mentira. Dizem. Só faz porque isto e aquilo e se quisesse já tinha feito, é mimo, é isto e é aquilo.
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O tédio mata e mata-se o tédio matando a vida que mata.
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A verdade escreve-se a fogo e a tristeza com letras de sombra.

Elogio do suicídio
















Só quem nunca provou o seu sangue pode pensar que o suicídio não é solução. Quem nunca adormeceu comprimidado não pode saber que o suicídio é mesmo a solução.
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A morte é sedutora. Quem já passou o túnel, quem já viu a luz de branquidão indefinível, sabe da vontade de ir, deixando com saudades os que ficam.
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Também quem morre sente saudades. De certo. Mas será tão mais livre sem o peso do corpo. Sem o peso do corpo, que se pode deixar pendurado, preso pelo pescoço.
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Quem nunca se lançou duma altura não sabe da leveza de voar, ainda que por uns segundos. Só dói bater com os pés no chão, prova de que viver não vale a pena.
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Que dizer da vertigem em se lançar para diante dum comboio? Um orgasmo louco e breve.
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Só quem nunca pensou em suicídio não pode saber da leveza que terá quando se for e deixar para trás toda a mágoa de viver.
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Cansado que cantem a vida. Quanto pesa viver em dor? Quanto pesa não ter futuro? Pois que o futuro seja além.
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A sombra, o buraco, o canto, o sufoco. A sombra que dá lugar ao escuro-negro, as lágrimas que doem. Doer só por doer. O suicídio é mesmo a solução.
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Basta querer. No momento em que viver já não é solução. Basta querer. O suicídio é libertação.

terça-feira, julho 26, 2011

Quinquagésimo-sétimo andar


















Bebo vinho, projecto para além do corpo, mas não o corpo. Para longe. Tenho pesadelos, a dormir e acordado. Percorro ruas sombrias, darques, de dia e de noite, desperto ou mergulhado no sono.
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Os dias têm anos.
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Sentado no beiral do quinquagésimo-sétimo andar pondero um salto, em duas esperanças e nenhuma certeza. Partir ou voar?
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Voar para onde possa viver num quinquagésimo-sétimo andar. Partir. Pouco me prende aqui.
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Nem namorada nem amor. Nem filhos nem vontade. Sem ler e sabendo. Sem fazer e com tempo. Nem música nem ânimo. Nem música para o desânimo.
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Projecto para além do corpo a vontade de partir. Daqui e daqui de cima. Tenha ou não um quinquagésimo-sétimo andar. Sem certeza se voo ou se caio.