digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

segunda-feira, junho 20, 2011

Quietação


















Olhos de doce inquietação e quieta doçura. Sorriso de ninar, mãos de carícia e voz de enlevar. Bondade transparente, corpo flutuante.
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Feitiço sem bruxa. Sensualidade de fumo e carne de desejo. Amor como quem faz amor. Dedicação de alma como se o amor fosse o único, verdadeiro ou o maior.
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Fantasma sem forma. Fumo que entra pelo sonho e quase muda a vida. A ternura dita por uma mulher terna. A ternura eterna.
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Mãe de alguém, alguém tão doce que só pode ter uma mãe como ela. Sem excesso e tudo o que pode dar uma mãe. A timidez ousada das mães.
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Faz amor com o amor que dão as mães. Toda a doçura da mãe ninando, tão verdadeira. Ansiosa e sensual como as mulheres que não são mães. Sôfrega como as mulheres que querem e beijam querendo, dizendo que não com a boca.
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Faz amor, com todo o empenho da segunda vez. Com os beijos quentes de quem foi deixada a meio de amar. Uma lindeza de perder.
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Olhos, sim, com toda a bondade. Boca, sim, do desejo e da verdade. Corpo, sim, do prazer e reconquista.
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Como esquecer? Os olhos doces de quem ama, ainda que não amando. Quieto desassossego. Desejo de muitos dias a desejar.
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Todo o mundo, uma mulher, uma mãe. Toda a vontade de amar.
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O meu beijo pairando pelo desejo de o agarrar, pela moça dos olhos de doçura.

sexta-feira, junho 17, 2011

Estado de graça





















Um amor obscuro, no espaço escuro da casa vazia, é felicidade simples de almas complicadas. A felicidade é um estado de graça e a paixão uma doença de sorriso e tensão.
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A solidão e a memória, forças motrizes do ânimo das noites de intimidade suada. Do fundo do espaço escuro da casa vazia surgem alimentos da alegria do acordar com o abraço deitado ao lado.
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A boca guarda o sabor único da boca de beijo. Sem o riso não voam as bruxas do prazer. A paz do momento seguinte à euforia… estado de graça.
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Um amor obscuro dá luz a toda a vontade de querer mais. Ao deitar junta-se o corpo etéreo da amante e o sono trará o sorriso dos sabores intensos do seu corpo. Estado de graça.

terça-feira, junho 14, 2011

O céu

As estrelas que se vêem no meu céu são da cidade, que é plano. A Lua esconde-se atrás de casas.
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Longe, chama-se firmamento, por ter luzes firmadas. É escuro, acredita-se que negro, como uma pesada cortina de flanela.
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Nos ermos, o céu é cinema, e também teatro. Noites de Verão e tréguas de invernia. A Lua como família. Silêncio e muitos cheiros a brincarem às escondidas.
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A luz e a voz do lume. Na solidão e na presença. Conversa sobre tudo e nada.
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Sob as estrelas pode estar-se com os anjos e pensar em Deus sem pensar em nada.
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Longe, o céu é uma abóbada.
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Nota: Crê-se que esta é a mais antiga representação da esfera celeste, foi encontrada em Nebra, na Alemanha.

domingo, junho 12, 2011

Negar. Dizer amar.

Digo. É inevitável. Os meus olhos dizem. Inevitável como a morte.
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Primeiro, a fuga. Minto. Minto, mas os olhos dizem.
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Acreditas. Mais uma vez, acreditas. Ainda que os meus olhos to desmintam.
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Digo baixinho, para que quem quer que oiça, e saiba que minto, não te diga que minto.
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Sussurro, para que o doce das sílabas te desinquiete a pele e te faça acreditar mais.
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Sussurro e com uma trinca faço-te subir em paixão. Sabes que não queres saber se minto.
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Faço amor. Digo todas as verdades como se fossem mentira. Na loucura acreditas, porque sabes tantas verdades. Ainda assim acreditas que te não minto.
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Ferves. Quando transpiras de prazer, gritas e eu, dizendo-te a verdade, finjo que nunca te menti.
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Na explosão digo-te a verdade. A que queres ouvir. A que acreditas não ser verdade depois dos corpos arrefecerem.
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Com as palavras de verdade, minto-te. Iludo-te temendo que, sabendo a verdade, te afastes de mim.
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Os olhos dizem o que a boca mentindo disse também, dizendo que era mentira.
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Digo, é inevitável. Inevitável como a morte. Mas digo tão baixinho que só se não quiseres não ouvirás a verdade.

terça-feira, junho 07, 2011

Temos de conversar

Acho que a nossa relação chegou ao fim… amámo-nos tanto e demos tantos beijos!… não há mais. Divertimo-nos tanto no escuro que não te consigo achar bonita à luz. Estavas suada e molhada, agora estás uma seca! Baza já!

Chamas-te como?





















És a mulher mais linda! Como te chamas? Lembra-me amanhã antes de dizer o teu nome e te olhar com olhos de realidade e justiça.

segunda-feira, junho 06, 2011

Escrever silêncio

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Se eu soubesse o que dizer, escreveria silêncio.
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Não sei o que fazer ao grande amor, em que armário o arrumar. De que armário o retirar. Se deixá-lo desarrumar-me a vida para me arrumar a vida. Se o conter para que não me estouvar os dias para me arrumar os dias.
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Bebo copos de água, como magia para engolir o problema e deixar o corpo o reciclar. Mas quem digere o amor não é o estômago.
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Não há magia que falte ao amor. Nem teimosia louca. Nem sofrimento, consentido ou não.
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Arrependo-me. Se pudesse voltar, mudaria quase tudo. Provavelmente teria o mesmo resultado.
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O destino existe, mas podemos mudá-lo. É como se não existisse.
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A dor é uma seda fina e resistente que sobrevoa a ferida. O sangue seca e encrosta-se, cicatriza… e a dor pode ficar.
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Assim está o meu grande amor: já foi, não se vê, não se sente, mas ficou a dor.
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Escrevo-lhe gratidão. Escrevo-lhe incompreensão. Escrevo-lhe tristeza e alegria. Escrevo-lhe certezas e aspirações. Oro por ela.
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Recebo o amor que a boca não me diz. Encontramo-nos quase todas as noites.
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Se amputasse onde está a dor, deixaria de ver a cicatriz que a suporta. Mas teria a do couto, que me lembraria a parte amputada.
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Se fosse sábio, guardaria para mim as infelicidades, as dúvidas e as intimidades.
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Mas nasci ou fiz-me ou quero ser poeta. Tenho de dizer tudo. Para que não me doa, para que me doa, para que finja, para que diga a verdade, para agradar, para assustar…
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Se eu soubesse o que fazer à vida… já aprendi a ter o coração longe da alma e do pensamento. Se eu soubesse o que fazer à vida, deixava-o voltar.
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Para tristeza, nasci ou fiz-me ou quero ser poeta. Na melhor das hipóteses ainda poderei um dia ser sábio.
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Se um dia souber o que dizer, escreverei um poema de silêncio.

domingo, junho 05, 2011

Gerês, noventa e três

Fugi para a Galiza e arrependido voltei na fronteira para o Minho. Chovia e convenci-te a ires encontrar-te comigo a Braga. Assim do nada e sem telemóvel para anular. Uma viagem precipitada. Chovia. O meu carro andava pouco mas levou-nos ao Gerês. Chovia. Preocupavas-te com o cabelo, mas não te zangaste. Não sabíamos onde dormir e ficámos na primeira casa que dizia ter quartos. Era verde à volta. Estava fresco e ouvia-se água, a cair e a correr. Era Abril, nesses anos costumava chover. Nessa altura os fantasmas não me deixavam dormir ou acordavam-me na noite. Não os vias mas tinhas medo. Eu tinha medo e fazendo-me forte fazia-te medo. Sem nada dizer, fazia-te medo. A minha pele transpirava medo e a tua voz, doce e tão genuinamente suave, dizia-mo. Fizemos amor nos intervalos do medo, fechando e abrindo as portadas, por causa das figuras, porque se insinuavam na penumbra ou porque se revelavam diáfanas na escuridão. A paixão era maior do que o medo. Tu eras uma miúda e eu tinha a mania que era homem. Quando penso nesses dias não consigo deixar de estar apaixonado. Chovia e tudo à volta era verde. Pensando bem, nem andámos muito, tudo nos juntava os lábios. Nem o antes nem o depois desse Gerês interessam muito. Nem sequer o Gerês. Passados tantos anos ainda sei por que me apaixonei por ti.

Cornos

E se, em vez de nos termos entregado ao outro, tivéssemos omitido o nosso amor?
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Haveria um corno! Qual dos dois, o casado ou o amante?
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Haveria uma mulher enganada! A amante ou a mãe dos filhos?
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Seríamos os dois cornos das nossas opções. Quiçá deles também…

sexta-feira, junho 03, 2011

O infinito tem cor?





















Se o infinito é infinito, para qualquer lado para onde se olhe é infinito. E dentro dum espelho, espaço limitado de capacidade infinita, cabe outro infinito. Entre cada distância finita há um espaço infinito. Cada ponto é divisível infinitamente. A unidade é infinita. O infinito é intangível? E o que tem começo e não tem fim, é infinito? E esta frase é… ?

segunda-feira, maio 30, 2011

Desejo dum corpo que nem fantasma quer ser





















Dor de ser. Entaipado num local de penumbra sem ruído. O tédio dentro do tédio.
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O sono em cumprimento é a viagem possível para fora. Remédio contra o cansaço de existir e ter se sentir o tempo cilindrar a vontade de respirar.
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Respirar é feliz quando se está ao vento. Não digo usufruir os aromas, mas apenas respirar. Por isso não me queixo do cheiro a mofo daqui, só da vontade de desistir.
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Se tivesse ânimo faria um buraco para chegar ao outro lado do mundo. Nem alma chego a ter.
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Não quero o corpo e sua matéria. Não quero espírito sem leveza.
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Deus deveria permitir a morte.

domingo, maio 29, 2011

Lisboa - se tivesse coragem ia-me embora





















Os dias claros, dias de ócio na cidade velha. A janela aberta e a entrada do rio na casa, pela brisa e pelo azul.
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Se tiver ânimo assomar-me-ei à janela para contemplar telhados e os gatos em suas vidas. O ruído das ruas na cidade velha é a música da cidade.
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Por esta altura costuma haver nêsperas nos quintais. Limões há todo o ano. Alguns locais têm figueiras com seu aroma doce. Coisas da cidade velha.
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Não me interessam os eléctricos, agora são mentirosos, com as portas automáticas e luzes de pisca-pisca. Sem câmbio do espaço de condução, o guarda-freio já não faz rodar o trólei.
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A cidade velha vai morrendo sem que uma nova e asseada se vá mostrando. Lisboa está um subúrbio de gente feia.
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Esta noite sonhei em alfamês. Provavelmente também já quase morto. A cidade velha vai morrendo.
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O clima mudou e os dias claros… pouco me interessa nesta cidade em agonia. O rio não tem navios, só paquetes e os cais estão fechados aos passos de todos. O Martim Moniz deixou de ser Lisboa. E o largo de São Domingos. E o Rossio.
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Os dias claros na cidade velha, dias de tédio e tristeza. Guardo-me com as gatas e tento dormir. Em sonhos ainda há dias claros e de ócio. Lisboa é Lisboa e não este subúrbio de gente feia.

quinta-feira, maio 26, 2011

Vinho e artes visuais

Eu tenho dois amores, que em nada são iguais. Um bebe-se por um copo e o outro… não faz rima. Não faz mal.
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A Adega Mayor lançou um programa de conversas acerca do vinho e outros prazeres, as suas ligações. Primeiro foi a música e agora, na passada terça-feira, as artes visuais. O acontecimento deu-se na Galeria de Arte Urbana, na rua da Boavista, em Lisboa.
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E se com a música se apresentaram os Sinfonia (branco e tinto), desta feita foi o Pai Chão (que nome rebuscado), um tinto que é um dos novos topo de gama daquela adega de Campo Maior.
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Na conversa participaram artistas, críticos de arte e crítico de vinho e comida: Sílvia Câmara (historiadora de arte), Fernando Melo (crítico de gastronomia e vinhos), Miguel Januário (artista plástico) e Ricardo Campos (antropólogo), além de Rita Nabeiro (representando o produtor).
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Na exposição apresentaram-se trabalhos de AKA Corleone, Arm Collective, Filipe Rebelo, I’m from Lx, João Retorta, Kruella d’Enfer, Lara Portela, Maria Imaginário, Miguel Januário, Pixelejo e Tamara Alves.
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Infelizmente, o clima de estufa que se viveu na Galeria de Arte Urbana derrotou-me e impossibilita-me de poder narrar o espírito e a matéria do evento. Confesso que estive a beber água, em vez de vinho: litro e meio em menos de dez minutos!
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Esta mesma razão não me permitiu avaliar com exactidão o vinho lançado, obra de Paulo Laureano e Rita Carvalho. Deu para ver que é um vinhaço e que demonstrou frescura, mesmo naquele clima de ananases. Não havia condições para a prática da modalidade.
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Em conversa com o pessoal deu para perceber que o people curtiu a cena e o vinho.
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O vinho resulta de uvas alicante bouschet e trincadeira (se um dia tiver um cão chamo-lhe trincadeira).
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No final foi oferecida uma garrafósia do dito vinho, grafitada à mão por I'm from Lx. Dilema: abrir a obra de arte e perder o conjunto pictórico ou poupa-la e nunca ficar a conhecer o que lá está dentro. Problema: aconselharam-me a guardá-la por três anos, que vai estar uma pinga de estalo… o vinho não aguenta em minha casa… «evapora-se».

segunda-feira, maio 23, 2011

A mulher-abelha





















Pode doer perder quem nunca se teve? Dói-me. Quis um beijo, julguei-o prometido… saboreei-o numa distância de alcançar a mão. Em sonhos chegaram-me ternuras. Dormindo e acordado. Sonhando acordado. Tamanha dor-tamanha. A dor de perder alguém ainda antes da paixão. Perder a vida que se começava a sentir. Estou triste. Tamanha dor-tamanha. Para ela, um beijo maior do que o mundo. Para mim? A esperança de acordar e ter um beijo seu na almofada, pronto para me salvar.

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Nota: Texto de sabor a mel e dor de ferroada.

sábado, maio 21, 2011

A tempestade




Levaste. Levaste-me. Levaste tudo à frente. Fui dispersado por onde a vista alcança.
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Longe, o coração parou de bater. Cansou-se. Luto pela morte de mais uma musa, pelo suicídio duma inspiração. Uma vez mais hiberna. Não chegou a voar até ao corpo do buraco no peito que pulsa por memória ou inércia.
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Como tudo aconteceu. Passo a explicar.
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Em casa quebrou-se um espelho. A vidraça da janela recusa-se a fazer-lhe a vez, molhada de choro. Por um tempo curto, o corpo e o buraco esperaram abraçar o coração, afinal manteve-se longe.
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Quebrou-se o espelho, os olhos não vêem o estado do amor-próprio, sabem apenas que dói. E basta.
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A casa despovoada continua quase desabitada. Não há monumento ou recordação ou milagre que tragam turistas, nem por uma noite.
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Na casa é sempre noite ou noite boreal. Escura como a cave carvoeira, silencia-se ainda no silêncio. Por vezes, as coisas murmuram… lembranças de alguém, desejos de alguém. Não se sabe, está escuro.
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Quebrou-se o espelho de queda matada. Derrubado pela ventania que penetrou a vidraça. Esperava-se a chegada da luz, chegou o vento da chuva. Devia ser dia, finalmente. Devia ser dia, sonhou-se. Afinal sempre foi noite.
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Esperei-te, não vieste. Esquecida, eu, a casa, as coisas recebemos a tempestade da tua ausência. Sem uma lágrima, apenas espanto e tristeza.
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Parecia de luz de paz e Sol. Imaginação de palavras e pele de se tocar. Nunca as palavras prometeram… mas parecia de luz e vontade.
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O vento levou-me para me dispersar por toda a parte. Só o coração tem lugar certo. O magnetismo da imagem impressa na alma reunirá os despojos. As palavras regressam às mãos que as escreveram.
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A vida mantém-se alimentada pela batida por inércia do buraco. Tudo como sempre. A monotonia voltou.

segunda-feira, maio 16, 2011

Novo grafismo e quinto aniversário





















Há datas que sempre nos lembramos. Por vezes passam-nos da ideia. Assim aconteceu este ano com o aniversário do Infotocopiável; cinco anos em 24 de Março.
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Nunca pensei que este caderno de textos pudesse ter esta longevidade. É certo que nem todos os anos correm de forma igual, nalguns escrevi muito, noutros pouco.
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O conceito mantém-se desde o início: todos os textos são da minha autoria e sempre ilustrados. Inicialmente bastava-me com pouco, porém, a dada altura, assumi que as imagens tinham de estar ligadas a arte ou, então, a vídeos interessantes ou dentro do contexto das palavras.
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Embora passe por uma fase de menor criatividade, a verdade é que o número de visitas tem vindo a aumentar. O que não tem grande importância, pois este blogue não tem cronologia, propriamente dita. Um texto do segundo dia pode ser lido como o do penúltimo, não há anacronismos nem agenda. Muito embora, a espaços, possam existir postas um pouco datadas ou referentes a uma determinada situação. Porém, essa não é a regra.
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Uma vez um amigo meu instigou-me a renovar o blogue, que estava já há muito tempo com o mesmo aspecto gráfico. Rabujei, até porque sou conservador no que toca a mexidas. Todavia, ao deixar passar o quinto aniversário e viver uma situação em que me apetece mudar tudo, ou quase, avancei para o rejuvenescimento gráfico.
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Mantém-se o negro como fundo de texto, mantém-se o tom escuro geral, mas foi dada alguma cor, o que o torna um pouco mais leve. A imagem escolhida para fundo é a mesma que ilustra este texto, da autoria de Pierrette Bloch. Agradeço o espicaçar para a renovação e a crítica mordaz aos ensaios gráficos por parte da Rita. Espero que gostem.

sábado, maio 14, 2011

Um dia assim

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O morto ainda respira, acto involuntário e inconsciente. A cabeça há muito que curtocircuitou e as mãos caídas de derrota e desalento deixaram de ter outra função que estarem caídas e desalentadas. A força da gravidade é quase tão forte quanto a da vontade de dela tirar partido. Voo com vontade, de não ficar.
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O morto deixa-se caído na cama, por indolência, não cai nem dela abaixo. Um pouco mais de fé e ânimo e iria até à varanda. Caminho mais rápido para comprar cigarros, modo alternativo, mas mais lento, de se morrer.
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O morto deixa-se adormecido, na esperança de que tudo não passe dum pesadelo, que possa acordar mesmo morto.
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O morto fecha-se na escuridão do quarto, ambientando-se à luz que não terá na tumba. Mesmo lá estará vivo e esperando morrer.
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O morto não tem saída. Caixão fechado à esperança. Com força de vontade conseguirá. A morte faz-se passo a passo.
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No jazigo transparente em que se verá… só a vantagem de não ter corpo e de não ter de falar a quem se esqueceu de lhe dizer qualquer coisa…

quarta-feira, maio 11, 2011

As árvores do Paraíso





















Beijo rosa-água, espelho de muitas luzes. Não num jardim secreto, mas de invisível matéria.
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O desejo é tão forte que poderia ser rocha. Tão belo que poderia ser montanha. Todavia tão pequeno e frágil, tão dependente da vontade duns lábios.
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Em todo azul, muitas luzes, como os frutos das árvores do Paraíso. Nunca a do conhecimento, mas de todas as outras, as dos mistérios.
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Não te conheço a vida, mas pressinto a doçura. Mais do que mel e cores.
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Todas as árvores, menos a do conhecimento. Provar todos os frutos.
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Só depois experimentar o pecado. Se proibido, mais doce. Se secreto, mais sensual.
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Em todo azul. Numa vida toda. Muitas vidas. Não veremos todas as ondas e de todos os mares.
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Em todo azul, muitos azuis e cores.
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Como os sabores dos frutos de todas as árvores do paraíso. O sal do mar, o todo azul.
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Pureza de mil ânsias, intranquilidade do desejo. Para já, beijo rosa-água.
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Todo azul, o Paraíso. Toda a fruta comida. O desejo intranquilo, as incertezas.
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Vem provar comigo o fruto do conhecimento. Acabaremos caídos no mar e temperados de sal.
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Todas as luzes, de infinitos luzires.
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Temperados de sal, beijos rosa-água e já agora, és rosa do mar.

Declaração de amizade

Recebi o chamamento da árvore das palavras. Não da bravia, mas da sativa. Dela recolhi o fruto, letras para escrever bem a gente boa. Letras para desejar bem a toda a gente.
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Pensando em ti, colhi o A, para te enfeitar com amizade. Poderia ser ausência, mas não desta árvore. Com letras dela pode ser saudade, manifestação de ternura.
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Com a letra A escrevo-te abraço, o que te darei sempre que penses em mim.
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Pensando em ti recebi muitas letras para muitas palavras. Por ser sativa, a árvore, só de luz arrecadei.
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Podia escrever um livro de laudas, mas fico-me por uma curta declaração de amizade.
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Calhou-me ainda o B, para que te possa mandar beijos.

segunda-feira, maio 09, 2011

Voar no trapézio

Levantar-te até onde os meus braços alcançam e lá voar num trapézio.
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Pretexto para te segurar as mãos e a cintura. E no aperto do breve voo fazer amor.
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Em voo, mas sexo de anjos, não. Inteiro amor de busca, retribuição e promessa nunca esquecida.
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Se o teu lado melhor é invisível, conto-me com o que posso sentir com a carne.
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Não és nem princesa nem fada. Para mim, que desejo ser poeta, é coisa para um beijo.
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O unir das bocas não é menos amor do que a penetração que desejo. Não me contento, mas chorarei menos a recusa.
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Contigo tenho contas antigas por saldar. Lembradas na revelação do nascimento de Vénus.
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Imagino-te toda em luz, despindo-te em magia. Em transparência. Diante dos meus olhos em encantamento.
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Êxtase ao ver-te entrar a porta. Se algum dia a passares. Um unir dos lábios não é menos amor que a penetração que desejo.
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Dívida contraída num tempo antigo. Só posta em frente na anunciação da tua voz. Afinal existes.
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Tanto tempo tão longe.
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Quendera ter a liberdade de te amar. Incondicionalmente. Quendera ter a liberdade de te amar. Só por umas noites. Quendera, quendera…
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Quendera recusar-te em amor racional. Salto contido na vertigem do precipício. Recusar-te pelo medo de te amar. Recusar-te por medo de me recusares.
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Ao rever-te a luz senti as peles tocando-se. Imaginando os perfumes dos nossos corpos suados. Dos teus dedos em mim. E de mim em ti.
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Adormeço a pensar nas palavras que te direi ao acordar. Digo-tas antes que seja manhã. Medo de morrer sem tas dizer.
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Acordo a pensar o que te de novo posso escrever. A tua luz diz-me as palavras, letra a letra.
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Confesso que estou adolescendo, na esperança de ainda hoje me dares o prazer da tua palavra.
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Amar-te não como mãe, mas como igual no desejo. Querer ter toda a ternura, quase a que se tem pela mãe.
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Amar-te e dar-te o beijo mais longo dado no cinema. E o mais longo dado num cinema.
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Ficar lado a lado, deitados em lençóis amarfanhados, em silêncios e palavras. O tempo perdido e o ganho na aparição… e ainda tão recente.
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Ainda não mandei vir de Edimburgo o coração. Mas já mandei a chave do cofre de vidro, que outrora foi caixão da Bela Adormecida.
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O coração sei que virá quando sentir que o buraco que deixou em mim voltou a pulsar.
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Quendera fazer amor contigo a voar num trapézio. Dar-me no medo da queda, destemento a dor da queda.
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Quendera me aceites. Quendera me recuses. Agora és tudo em mim.

domingo, maio 08, 2011

Amor

Fazer amor faz-se quando se faz amor com cumplicidade. A cumplicidade dos amores antigos e amigos. Quando os corpos cansados têm o poder de ainda surpreenderem em carinho.
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É bonito ver-te dormir, quieta de cansaço. Estás mais velha e eu careca e gordo. És a mesma, a menina da alma sempre livre, presa por amor translúcido.
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Já nos conhecemos há quantos anos? Há tempo suficiente para ainda termos sido muito jovens, a tempo de crises de choro, imponderações, raivas, incompreensões, intransigências…
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Ainda hoje gosto de te dar a mão no cinema. Na rua nunca deixaste, fizeste bem; é piroso. O amor não precisa dessa publicidade para se mostrar, nem precisa de se mostrar.
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O amor só é amor quando a sua perda é perda total. Mas tão grande que por nada se perde e tão sublime que vive, dentro doutro dia qualquer.

sexta-feira, maio 06, 2011

Estrela cadente





















Sim, vi qualquer coisa rasgando o céu. Apontei-lhe o dedo, espantado. Com prazer senti cair em mim qualquer coisa de ternura. Entrou-me até estar beijado, deste ao outro lado da pele.
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Quem com beijos mata, com beijos se afoga. Enviei para longe qualquer coisa de beijável. Pelo eco sei que chegou.
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E se tal nunca aconteceu? Se tudo não passou duma miragem ao admirar o céu? Por certo que algures, numa outra ponta da galáxia, outros dois olhos cerraram os lábios em beijo.
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Até à velocidade da luz o tempo custa a passar. Imagine-se o que não será caminhar toda esta estrada com botas pesadas calçadas.
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Ao fim ao cabo, se tudo demora, até a luz, nada demora nada. Todos os anos da distância resumem-se a coisa pouca.

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Antes menina, pacata à espera de se desarrumar. Hoje mulher-libélula a desassossegar.

domingo, maio 01, 2011

E agora?





















Amas, amarás, amaste. Não. Por que não? Porque sim! Por que não me perguntaste? Por que perguntaste por mim? Por que não me beijaste? Por que te senti? Senti a falta. Agora sei que sentiste. Mas não sabes que sei.
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Por que não me perguntaste? Procurei-te. Vi-te. Viste-me. Ouviste-me. Não me respondeste. Não ignoraste, não respondeste. Aprendi? Não, não aprendi. Amo-te? Amei. Amas? Não amarei. Por que não me perguntaste? Por que perguntaste por mim? Por que me recusaste?
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O cigarro atrás do outro. A cigarrilha. O escândalo à varanda. O funeral sem corpo. A morte sem corpo. Mais pesado que um cortinado de veludo.
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Além do estudo. Além da promessa. Afinal a mentira, depois da descoberta. O estudo…
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Não te esqueci. Não poderei, porque há uma morte para lembrar. Sei que sabes, ainda que sempre digas que não. Não me esqueceste, pelo que nem me dizes que não. Como poderei?
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Não te esqueci. Como poderei, depois de tudo e do amor também?
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Como poderei esquecer esses olhos de água? A fúria em rosto de tranquilidade… o desvario e a preocupação, esta que nem desconfiei. Se amei? Amei!
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Se amo? Amei. Como quase amei tanto quanto outro alguém. Se doeu a perda? Doeu, mas menos do que perder alguém. Se morri? Morri, um pouco, ao saber que para ti tinha morrido e agora ainda mais por saber que te não morri.
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Agora, agorinha mesmo… beijar-te-ia. Concedendo-te o perdão que não pediste nem pedirás nem queres. Para sempre, nesta vida, desavindos… beijar-te-ia. A ti, que quase pensei seres o amor da minha vida. Certamente por não me lembrar do amor da minha vida.
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Beijar-te-ia. Amarei sempre, porque amo sempre a quem sempre amei. A uma mais, mas a ti também. A ti que pensei que viesse a amar mais do que quem mais amei.
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Beijar-te-ia? Agora? Sim! Agora. Novamente. Por saber que, afinal, perguntaste por mim.

sexta-feira, abril 22, 2011

A flor vermelha

Sei que as flores vermelhas não odeiam. São magnânimas, reais. Cor de trono. Acessíveis ao povo, altivas aos egoístas. Sinceras. São de se amar. Pétalas sensíveis, coração de ouro rubro. Perfume de magnólia, que não é encarnada. Encanto maior. As flores vermelhas são de guardar entre as folhas dum livro. As flores vermelhas são para soltar num finíssimo sopro de vento. Contudo arranquei-lhes as pétalas. Não odeia e volta sempre, suave e doce, ainda que depois de zangada. Volta sempre com um beijo. O que não se deu ao outro que nunca se dará.

A flor amarela





















Não sabia que as flores podiam odiar. Perdi um bocado de mim. Tenho no meu tronco um túnel, coisa redonda perfeita, sem nada dentro. Perfeitinho. Calcinado. Vê-se como se fosse de cimento, mas menos rugoso. Totalmente liso e macio. Levou-me a flor. Não encontrou o coração, que esse há muito teve independência. Mesmo lá no Norte, em Edimburgo, bate sentido. Quando sente a alma, sente ele. Que mal terei feito, crime grave. Fui fértil. Desejei e amei. Hoje sou o estrume que alimenta o ódio ou o desprezo ou a negação ou qualquer coisa cuja sombra espeta. Fiquei a saber que as flores mentei e odeiam. Deve ter sido grande o amor por mim.

domingo, abril 17, 2011

Quem?





















Quem vou amar hoje? Não a ti que me amas todos os dias. Não, por amor e pudor, porque és tudo até minha mãe, minha amiga, minha namorada. Ninguém que me ame. Alguém que possa ter medo da perda. Alguém que não tenha medo. Alguém sem passado. A ti, que me conheces desde sempre. A ti que te tenho certa, mereces, mereço. A ti, por todo o respeito que tenho, amar-te-ei. Por favor, não me ames, porque se te amar deixarás de me amar… Por que hei-de amar ou não amar?! Quero amar hoje. Mas a ti… que te amo e me amas e andamos desencontrados, guardando, cada um, o seu silêncio, sorrindo em mentiras, disfarçando? Hoje amarei alguém. Amanhã não sei. Amei já tantas noites, tantas, tanta gente, que não amo ninguém. Se acredito no amor? Acredito quando me dizes que não amas ninguém e que nunca passei de alguém. Acredito quando me dizes, sincera e apaixonada, que nunca me amarás. Sorrio e deixo-te, esvoaçando como um lenço dizendo estar bem preso no pescoço. Sim, amei alguém. Amei-te e amaste-me e se hoje vou amar alguém? Sim, vou. Quem amei sempre. Mas não a ti, que me amas também. Amarei alguém até me esquecer de ti. Até amanhã. Meu amor. Amar-te-ei sempre. E tu também.

sábado, abril 16, 2011

O silêncio calado delas





















Se compreendesse os silêncios… o que faria? Seria mulher, certamente. Saber quando beijar. Saber quando dizer… a palavra certa, o momento certo. Saber desejar no tempo de desejar, e não adormecer depois. O que dizer quando oiço sugerir que diga que amo? Nada oiço, tenho de adivinhar. Ainda que de os olhos fechados. Até na ausência. Se o meu amor tivesse asinhas… antes tenho o cabelo desalinhado… por ver fazerem-me sentir… ao ver enternecida a olhar não sei bem porquê nem para onde em mim… Os homens são cães e as mulheres são gatos. Esfinges? Aparências. Vivências. Enquanto um homem olha, a mulher vê. Por isso exigem que se as olhes enquanto falam… mas sabem ler em silêncio as palavras que não dizemos. As mulheres pensam tudo, até o que não dizem. Os homens dizem até o que não pensam. Se magoa? Magoa! A quem? A toda a gente. A estátua grega é do homem. A inteligência egípcia é feminina. Gato! Quando penso em tanto desacerto, sei que é por isso que amo e só as poderei amar. Porque o mistério nunca tem um fim e há guerras que vale a pena travar, até mesmo depois de se morrer. Sim, gostaria de ultrapassar essa fronteira de lábios, entrar e escutar um coração. Cabeça. Alma. Toda a generosidade. Generosidade, toda. Um homem nunca dará à luz. Se dizem? Não precisam. Qualquer dor é menor e um homem estremece por muito menos. Em silêncio? Quando querem e deixam saber. Se têm de falar, falam. Mas quando têm de dizer, nem sempre dizem. Não, não percebo. Talvez porque tenha o coração ao pé da boca. Por ser maluco. Por ser homem. Não, não percebo. Se quero digo, não indico, digo. Se querem desconfio ligeiramente, na dimensão de qualquer coisa que não entendo. Falar para quê? O homem é gato e a mulher rato. Presa que escolhe quem a há-de caçar. Caçadora, sim. Assumo, não caço nada. Aceito a minha condição de predador sem mérito. O que pensam as mulheres? Quando? Dizem que amam? À porta da loja estão os homens. Lá dentro elas vêem tudo o que não as levou. Levam muito, levam pouco, mas se desejam levam tudo. Se desejam, não levam nada. Até levam outra coisa do que desejaram. Até levam o que queriam. O homem estrebucha. Que diz ela? Não diz nada, cansa-se por o homem cansar-se de esperar. Por não perceber o quanto é importante ser-se espelho de alguém de quem se gosta. Não dizem. Se dizem… Que dizem? Nem dizem, para não magoar, quando dizem magoam mesmo. Quando não dizem não é por timidez, mas por dúvida em saber se a percebem. Os homens nasceram para amar as mulheres. As mulheres amam-se. Amam os homens e o homem perfeito é mulher. Vale a pena dizer? Não! Um homem nunca entenderá. As mulheres percebem o homem e não percebem como é possível. Os homens nem sequer percebem as mulheres, nem tentam. O homem perfeito é mulher! Vale a pena dizer? Há coisas que os homens nunca entenderão.

quinta-feira, abril 14, 2011

Som





















Não consigo ouvir com tanta luz. Sei que há amoreiras por aí, pressinto pássaros e julgo saber que este aroma é de violetas. Não vejo nem oiço com tanta luz. No espaço não se ouve a terra. A voz do universo pressente-se, mas não se ouve. Prevê-se, que é como quem diz que vê antes do tempo. A voz do universo não é a de Deus. Será que Deus tem voz? . Está em toda a parte. É toda a parte. Já esteve. Já está. Estará. Antes de estar já lá está. Deus quer. Não precisa de fazer porque a sua vontade é fazer. Deseja ao mesmo tempo que faz. Será? Há a velocidade da luz. Há a velocidade do querer. Há a velocidade do desejo. Há a velocidade do pensamento. Há uma velocidade para a vontade de Deus? Não compreendo Deus. A minha crença é insuficiente para dele saber o que quer que seja. Intui-o. A minha crença é suficiente para saber que dele não sabemos nada. Esta tanta luz que não me deixa ouvir. É um zumbido nos olhos. Um formigueiro na alma. Desço as escadas que dão para o jardim, pela força de tanto o fazer, faço-o sem custo. Contrariando a vontade da força da gravidade, que quer tudo sempre em baixo. As violetas ficam bem numa declaração de amor? Se a noiva for de negro. A cor não é a do Senhor dos Passos? Não será por acaso que as noivas levam ramalhetes de flores de laranjeira. Têm pétalas claras, evocam virgindade. Evocam a verdade. O tempo que há-de vir. Mas não devia ser. Ninguém se casa virgem. Nem sei se as laranjeiras florescem na Primavera. Deve ser. Já consigo abrir um pouco os olhos, pela sombra entremeada das árvores deste jardim. Apesar de não terem pálpebras, os ouvidos não ouvem nada. Sei que por aí há pássaros. Gostava que fossem melros. Ora, melros e violetas combinam. Que ave se pode rimar com flores de laranjeira? Nenhuma voz me responde. A voz da Terra é ruidosa, mas uns quilómetros lá em cima e é como se o planeta fosse mudo. Dizem que no vazio não se propaga o som. Mas o universo tem voz. Não é a voz de Deus, é a do universo. Os cientistas têm uns equipamentos muito caros que permitem ouvir o som da expansão do universo. Dizem que vem do big bang. Como pode uma coisa ruidosa se resumir a som nenhum, que, apesar de tudo, se ouve nuns equipamentos muito caros e complicados? A voz humana é mais simples. É bela. As dos pássaros também. Também há o som do bater das asas. Pudesse eu voar, como um beija-flor… frente à flor da amada pararia. Um beijo? Um beijo. Com toda esta luz não vejo nem oiço. Pode estar à minha frente falando-me que eu, encadeado, só penso na voz do universo.

sábado, abril 09, 2011

Confesso-me

Nunca te escrevi um poema de amor, porque não te conheço. Se escrevo alguma coisa agora é porque tampouco.

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Pela velocidade dos teus dedos e dos teus verbos, sei-te de sangue. Oiço-te à distância de um ou dois bairros. Invejo-te a ilusão e envergonho-me do cinismo de tanta concessão. Não sou menos honesto, sou manso.

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Ouvir-te gritar é sentir o pulsar. Sou discípulo do silêncio, irreverente e cordato. Tenho a coragem de não ser revolucionário, mas embeveço-me com a saliência, a plasticidade, das tuas veias quando gritas.

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Sim, haveria de me apaixonar por ti se por dois minutos ficasse a olhar-te nos olhos a ouvir-te. Até seria capaz de acreditar nisso que dizes e não acredito.

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Na bola de cristal vejo que tens sal nos lábios. A olho nu, vejo sal nos teus lábios.

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Eu, macho, vergo-me perante a feminilidade que autoritariamente exalas. Cordato, já te disse.

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Já me imaginei campeão amando-te. Quendera, fosse eu homem suficiente. Mais do que ter audácia, tivesse fibra.

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Nunca te escrevi um poema, mas declaro o meu amor. Não de joelhos, mas em cima duma cadeira, para que te poder olhar nos olhos.

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Possa eu ter toda a razão do mundo, derribas-me. Queira eu amar-te, serei sempre manso. Digo então apenas e em voz alta, que não sou homem suficiente para ti.

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Nota: The truta love.