digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

segunda-feira, maio 16, 2011

Novo grafismo e quinto aniversário





















Há datas que sempre nos lembramos. Por vezes passam-nos da ideia. Assim aconteceu este ano com o aniversário do Infotocopiável; cinco anos em 24 de Março.
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Nunca pensei que este caderno de textos pudesse ter esta longevidade. É certo que nem todos os anos correm de forma igual, nalguns escrevi muito, noutros pouco.
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O conceito mantém-se desde o início: todos os textos são da minha autoria e sempre ilustrados. Inicialmente bastava-me com pouco, porém, a dada altura, assumi que as imagens tinham de estar ligadas a arte ou, então, a vídeos interessantes ou dentro do contexto das palavras.
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Embora passe por uma fase de menor criatividade, a verdade é que o número de visitas tem vindo a aumentar. O que não tem grande importância, pois este blogue não tem cronologia, propriamente dita. Um texto do segundo dia pode ser lido como o do penúltimo, não há anacronismos nem agenda. Muito embora, a espaços, possam existir postas um pouco datadas ou referentes a uma determinada situação. Porém, essa não é a regra.
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Uma vez um amigo meu instigou-me a renovar o blogue, que estava já há muito tempo com o mesmo aspecto gráfico. Rabujei, até porque sou conservador no que toca a mexidas. Todavia, ao deixar passar o quinto aniversário e viver uma situação em que me apetece mudar tudo, ou quase, avancei para o rejuvenescimento gráfico.
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Mantém-se o negro como fundo de texto, mantém-se o tom escuro geral, mas foi dada alguma cor, o que o torna um pouco mais leve. A imagem escolhida para fundo é a mesma que ilustra este texto, da autoria de Pierrette Bloch. Agradeço o espicaçar para a renovação e a crítica mordaz aos ensaios gráficos por parte da Rita. Espero que gostem.

sábado, maio 14, 2011

Um dia assim

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O morto ainda respira, acto involuntário e inconsciente. A cabeça há muito que curtocircuitou e as mãos caídas de derrota e desalento deixaram de ter outra função que estarem caídas e desalentadas. A força da gravidade é quase tão forte quanto a da vontade de dela tirar partido. Voo com vontade, de não ficar.
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O morto deixa-se caído na cama, por indolência, não cai nem dela abaixo. Um pouco mais de fé e ânimo e iria até à varanda. Caminho mais rápido para comprar cigarros, modo alternativo, mas mais lento, de se morrer.
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O morto deixa-se adormecido, na esperança de que tudo não passe dum pesadelo, que possa acordar mesmo morto.
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O morto fecha-se na escuridão do quarto, ambientando-se à luz que não terá na tumba. Mesmo lá estará vivo e esperando morrer.
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O morto não tem saída. Caixão fechado à esperança. Com força de vontade conseguirá. A morte faz-se passo a passo.
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No jazigo transparente em que se verá… só a vantagem de não ter corpo e de não ter de falar a quem se esqueceu de lhe dizer qualquer coisa…

quarta-feira, maio 11, 2011

As árvores do Paraíso





















Beijo rosa-água, espelho de muitas luzes. Não num jardim secreto, mas de invisível matéria.
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O desejo é tão forte que poderia ser rocha. Tão belo que poderia ser montanha. Todavia tão pequeno e frágil, tão dependente da vontade duns lábios.
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Em todo azul, muitas luzes, como os frutos das árvores do Paraíso. Nunca a do conhecimento, mas de todas as outras, as dos mistérios.
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Não te conheço a vida, mas pressinto a doçura. Mais do que mel e cores.
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Todas as árvores, menos a do conhecimento. Provar todos os frutos.
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Só depois experimentar o pecado. Se proibido, mais doce. Se secreto, mais sensual.
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Em todo azul. Numa vida toda. Muitas vidas. Não veremos todas as ondas e de todos os mares.
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Em todo azul, muitos azuis e cores.
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Como os sabores dos frutos de todas as árvores do paraíso. O sal do mar, o todo azul.
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Pureza de mil ânsias, intranquilidade do desejo. Para já, beijo rosa-água.
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Todo azul, o Paraíso. Toda a fruta comida. O desejo intranquilo, as incertezas.
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Vem provar comigo o fruto do conhecimento. Acabaremos caídos no mar e temperados de sal.
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Todas as luzes, de infinitos luzires.
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Temperados de sal, beijos rosa-água e já agora, és rosa do mar.

Declaração de amizade

Recebi o chamamento da árvore das palavras. Não da bravia, mas da sativa. Dela recolhi o fruto, letras para escrever bem a gente boa. Letras para desejar bem a toda a gente.
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Pensando em ti, colhi o A, para te enfeitar com amizade. Poderia ser ausência, mas não desta árvore. Com letras dela pode ser saudade, manifestação de ternura.
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Com a letra A escrevo-te abraço, o que te darei sempre que penses em mim.
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Pensando em ti recebi muitas letras para muitas palavras. Por ser sativa, a árvore, só de luz arrecadei.
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Podia escrever um livro de laudas, mas fico-me por uma curta declaração de amizade.
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Calhou-me ainda o B, para que te possa mandar beijos.

segunda-feira, maio 09, 2011

Voar no trapézio

Levantar-te até onde os meus braços alcançam e lá voar num trapézio.
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Pretexto para te segurar as mãos e a cintura. E no aperto do breve voo fazer amor.
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Em voo, mas sexo de anjos, não. Inteiro amor de busca, retribuição e promessa nunca esquecida.
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Se o teu lado melhor é invisível, conto-me com o que posso sentir com a carne.
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Não és nem princesa nem fada. Para mim, que desejo ser poeta, é coisa para um beijo.
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O unir das bocas não é menos amor do que a penetração que desejo. Não me contento, mas chorarei menos a recusa.
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Contigo tenho contas antigas por saldar. Lembradas na revelação do nascimento de Vénus.
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Imagino-te toda em luz, despindo-te em magia. Em transparência. Diante dos meus olhos em encantamento.
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Êxtase ao ver-te entrar a porta. Se algum dia a passares. Um unir dos lábios não é menos amor que a penetração que desejo.
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Dívida contraída num tempo antigo. Só posta em frente na anunciação da tua voz. Afinal existes.
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Tanto tempo tão longe.
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Quendera ter a liberdade de te amar. Incondicionalmente. Quendera ter a liberdade de te amar. Só por umas noites. Quendera, quendera…
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Quendera recusar-te em amor racional. Salto contido na vertigem do precipício. Recusar-te pelo medo de te amar. Recusar-te por medo de me recusares.
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Ao rever-te a luz senti as peles tocando-se. Imaginando os perfumes dos nossos corpos suados. Dos teus dedos em mim. E de mim em ti.
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Adormeço a pensar nas palavras que te direi ao acordar. Digo-tas antes que seja manhã. Medo de morrer sem tas dizer.
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Acordo a pensar o que te de novo posso escrever. A tua luz diz-me as palavras, letra a letra.
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Confesso que estou adolescendo, na esperança de ainda hoje me dares o prazer da tua palavra.
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Amar-te não como mãe, mas como igual no desejo. Querer ter toda a ternura, quase a que se tem pela mãe.
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Amar-te e dar-te o beijo mais longo dado no cinema. E o mais longo dado num cinema.
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Ficar lado a lado, deitados em lençóis amarfanhados, em silêncios e palavras. O tempo perdido e o ganho na aparição… e ainda tão recente.
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Ainda não mandei vir de Edimburgo o coração. Mas já mandei a chave do cofre de vidro, que outrora foi caixão da Bela Adormecida.
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O coração sei que virá quando sentir que o buraco que deixou em mim voltou a pulsar.
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Quendera fazer amor contigo a voar num trapézio. Dar-me no medo da queda, destemento a dor da queda.
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Quendera me aceites. Quendera me recuses. Agora és tudo em mim.

domingo, maio 08, 2011

Amor

Fazer amor faz-se quando se faz amor com cumplicidade. A cumplicidade dos amores antigos e amigos. Quando os corpos cansados têm o poder de ainda surpreenderem em carinho.
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É bonito ver-te dormir, quieta de cansaço. Estás mais velha e eu careca e gordo. És a mesma, a menina da alma sempre livre, presa por amor translúcido.
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Já nos conhecemos há quantos anos? Há tempo suficiente para ainda termos sido muito jovens, a tempo de crises de choro, imponderações, raivas, incompreensões, intransigências…
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Ainda hoje gosto de te dar a mão no cinema. Na rua nunca deixaste, fizeste bem; é piroso. O amor não precisa dessa publicidade para se mostrar, nem precisa de se mostrar.
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O amor só é amor quando a sua perda é perda total. Mas tão grande que por nada se perde e tão sublime que vive, dentro doutro dia qualquer.

sexta-feira, maio 06, 2011

Estrela cadente





















Sim, vi qualquer coisa rasgando o céu. Apontei-lhe o dedo, espantado. Com prazer senti cair em mim qualquer coisa de ternura. Entrou-me até estar beijado, deste ao outro lado da pele.
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Quem com beijos mata, com beijos se afoga. Enviei para longe qualquer coisa de beijável. Pelo eco sei que chegou.
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E se tal nunca aconteceu? Se tudo não passou duma miragem ao admirar o céu? Por certo que algures, numa outra ponta da galáxia, outros dois olhos cerraram os lábios em beijo.
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Até à velocidade da luz o tempo custa a passar. Imagine-se o que não será caminhar toda esta estrada com botas pesadas calçadas.
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Ao fim ao cabo, se tudo demora, até a luz, nada demora nada. Todos os anos da distância resumem-se a coisa pouca.

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Antes menina, pacata à espera de se desarrumar. Hoje mulher-libélula a desassossegar.

domingo, maio 01, 2011

E agora?





















Amas, amarás, amaste. Não. Por que não? Porque sim! Por que não me perguntaste? Por que perguntaste por mim? Por que não me beijaste? Por que te senti? Senti a falta. Agora sei que sentiste. Mas não sabes que sei.
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Por que não me perguntaste? Procurei-te. Vi-te. Viste-me. Ouviste-me. Não me respondeste. Não ignoraste, não respondeste. Aprendi? Não, não aprendi. Amo-te? Amei. Amas? Não amarei. Por que não me perguntaste? Por que perguntaste por mim? Por que me recusaste?
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O cigarro atrás do outro. A cigarrilha. O escândalo à varanda. O funeral sem corpo. A morte sem corpo. Mais pesado que um cortinado de veludo.
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Além do estudo. Além da promessa. Afinal a mentira, depois da descoberta. O estudo…
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Não te esqueci. Não poderei, porque há uma morte para lembrar. Sei que sabes, ainda que sempre digas que não. Não me esqueceste, pelo que nem me dizes que não. Como poderei?
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Não te esqueci. Como poderei, depois de tudo e do amor também?
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Como poderei esquecer esses olhos de água? A fúria em rosto de tranquilidade… o desvario e a preocupação, esta que nem desconfiei. Se amei? Amei!
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Se amo? Amei. Como quase amei tanto quanto outro alguém. Se doeu a perda? Doeu, mas menos do que perder alguém. Se morri? Morri, um pouco, ao saber que para ti tinha morrido e agora ainda mais por saber que te não morri.
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Agora, agorinha mesmo… beijar-te-ia. Concedendo-te o perdão que não pediste nem pedirás nem queres. Para sempre, nesta vida, desavindos… beijar-te-ia. A ti, que quase pensei seres o amor da minha vida. Certamente por não me lembrar do amor da minha vida.
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Beijar-te-ia. Amarei sempre, porque amo sempre a quem sempre amei. A uma mais, mas a ti também. A ti que pensei que viesse a amar mais do que quem mais amei.
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Beijar-te-ia? Agora? Sim! Agora. Novamente. Por saber que, afinal, perguntaste por mim.

sexta-feira, abril 22, 2011

A flor vermelha

Sei que as flores vermelhas não odeiam. São magnânimas, reais. Cor de trono. Acessíveis ao povo, altivas aos egoístas. Sinceras. São de se amar. Pétalas sensíveis, coração de ouro rubro. Perfume de magnólia, que não é encarnada. Encanto maior. As flores vermelhas são de guardar entre as folhas dum livro. As flores vermelhas são para soltar num finíssimo sopro de vento. Contudo arranquei-lhes as pétalas. Não odeia e volta sempre, suave e doce, ainda que depois de zangada. Volta sempre com um beijo. O que não se deu ao outro que nunca se dará.

A flor amarela





















Não sabia que as flores podiam odiar. Perdi um bocado de mim. Tenho no meu tronco um túnel, coisa redonda perfeita, sem nada dentro. Perfeitinho. Calcinado. Vê-se como se fosse de cimento, mas menos rugoso. Totalmente liso e macio. Levou-me a flor. Não encontrou o coração, que esse há muito teve independência. Mesmo lá no Norte, em Edimburgo, bate sentido. Quando sente a alma, sente ele. Que mal terei feito, crime grave. Fui fértil. Desejei e amei. Hoje sou o estrume que alimenta o ódio ou o desprezo ou a negação ou qualquer coisa cuja sombra espeta. Fiquei a saber que as flores mentei e odeiam. Deve ter sido grande o amor por mim.

domingo, abril 17, 2011

Quem?





















Quem vou amar hoje? Não a ti que me amas todos os dias. Não, por amor e pudor, porque és tudo até minha mãe, minha amiga, minha namorada. Ninguém que me ame. Alguém que possa ter medo da perda. Alguém que não tenha medo. Alguém sem passado. A ti, que me conheces desde sempre. A ti que te tenho certa, mereces, mereço. A ti, por todo o respeito que tenho, amar-te-ei. Por favor, não me ames, porque se te amar deixarás de me amar… Por que hei-de amar ou não amar?! Quero amar hoje. Mas a ti… que te amo e me amas e andamos desencontrados, guardando, cada um, o seu silêncio, sorrindo em mentiras, disfarçando? Hoje amarei alguém. Amanhã não sei. Amei já tantas noites, tantas, tanta gente, que não amo ninguém. Se acredito no amor? Acredito quando me dizes que não amas ninguém e que nunca passei de alguém. Acredito quando me dizes, sincera e apaixonada, que nunca me amarás. Sorrio e deixo-te, esvoaçando como um lenço dizendo estar bem preso no pescoço. Sim, amei alguém. Amei-te e amaste-me e se hoje vou amar alguém? Sim, vou. Quem amei sempre. Mas não a ti, que me amas também. Amarei alguém até me esquecer de ti. Até amanhã. Meu amor. Amar-te-ei sempre. E tu também.

sábado, abril 16, 2011

O silêncio calado delas





















Se compreendesse os silêncios… o que faria? Seria mulher, certamente. Saber quando beijar. Saber quando dizer… a palavra certa, o momento certo. Saber desejar no tempo de desejar, e não adormecer depois. O que dizer quando oiço sugerir que diga que amo? Nada oiço, tenho de adivinhar. Ainda que de os olhos fechados. Até na ausência. Se o meu amor tivesse asinhas… antes tenho o cabelo desalinhado… por ver fazerem-me sentir… ao ver enternecida a olhar não sei bem porquê nem para onde em mim… Os homens são cães e as mulheres são gatos. Esfinges? Aparências. Vivências. Enquanto um homem olha, a mulher vê. Por isso exigem que se as olhes enquanto falam… mas sabem ler em silêncio as palavras que não dizemos. As mulheres pensam tudo, até o que não dizem. Os homens dizem até o que não pensam. Se magoa? Magoa! A quem? A toda a gente. A estátua grega é do homem. A inteligência egípcia é feminina. Gato! Quando penso em tanto desacerto, sei que é por isso que amo e só as poderei amar. Porque o mistério nunca tem um fim e há guerras que vale a pena travar, até mesmo depois de se morrer. Sim, gostaria de ultrapassar essa fronteira de lábios, entrar e escutar um coração. Cabeça. Alma. Toda a generosidade. Generosidade, toda. Um homem nunca dará à luz. Se dizem? Não precisam. Qualquer dor é menor e um homem estremece por muito menos. Em silêncio? Quando querem e deixam saber. Se têm de falar, falam. Mas quando têm de dizer, nem sempre dizem. Não, não percebo. Talvez porque tenha o coração ao pé da boca. Por ser maluco. Por ser homem. Não, não percebo. Se quero digo, não indico, digo. Se querem desconfio ligeiramente, na dimensão de qualquer coisa que não entendo. Falar para quê? O homem é gato e a mulher rato. Presa que escolhe quem a há-de caçar. Caçadora, sim. Assumo, não caço nada. Aceito a minha condição de predador sem mérito. O que pensam as mulheres? Quando? Dizem que amam? À porta da loja estão os homens. Lá dentro elas vêem tudo o que não as levou. Levam muito, levam pouco, mas se desejam levam tudo. Se desejam, não levam nada. Até levam outra coisa do que desejaram. Até levam o que queriam. O homem estrebucha. Que diz ela? Não diz nada, cansa-se por o homem cansar-se de esperar. Por não perceber o quanto é importante ser-se espelho de alguém de quem se gosta. Não dizem. Se dizem… Que dizem? Nem dizem, para não magoar, quando dizem magoam mesmo. Quando não dizem não é por timidez, mas por dúvida em saber se a percebem. Os homens nasceram para amar as mulheres. As mulheres amam-se. Amam os homens e o homem perfeito é mulher. Vale a pena dizer? Não! Um homem nunca entenderá. As mulheres percebem o homem e não percebem como é possível. Os homens nem sequer percebem as mulheres, nem tentam. O homem perfeito é mulher! Vale a pena dizer? Há coisas que os homens nunca entenderão.

quinta-feira, abril 14, 2011

Som





















Não consigo ouvir com tanta luz. Sei que há amoreiras por aí, pressinto pássaros e julgo saber que este aroma é de violetas. Não vejo nem oiço com tanta luz. No espaço não se ouve a terra. A voz do universo pressente-se, mas não se ouve. Prevê-se, que é como quem diz que vê antes do tempo. A voz do universo não é a de Deus. Será que Deus tem voz? . Está em toda a parte. É toda a parte. Já esteve. Já está. Estará. Antes de estar já lá está. Deus quer. Não precisa de fazer porque a sua vontade é fazer. Deseja ao mesmo tempo que faz. Será? Há a velocidade da luz. Há a velocidade do querer. Há a velocidade do desejo. Há a velocidade do pensamento. Há uma velocidade para a vontade de Deus? Não compreendo Deus. A minha crença é insuficiente para dele saber o que quer que seja. Intui-o. A minha crença é suficiente para saber que dele não sabemos nada. Esta tanta luz que não me deixa ouvir. É um zumbido nos olhos. Um formigueiro na alma. Desço as escadas que dão para o jardim, pela força de tanto o fazer, faço-o sem custo. Contrariando a vontade da força da gravidade, que quer tudo sempre em baixo. As violetas ficam bem numa declaração de amor? Se a noiva for de negro. A cor não é a do Senhor dos Passos? Não será por acaso que as noivas levam ramalhetes de flores de laranjeira. Têm pétalas claras, evocam virgindade. Evocam a verdade. O tempo que há-de vir. Mas não devia ser. Ninguém se casa virgem. Nem sei se as laranjeiras florescem na Primavera. Deve ser. Já consigo abrir um pouco os olhos, pela sombra entremeada das árvores deste jardim. Apesar de não terem pálpebras, os ouvidos não ouvem nada. Sei que por aí há pássaros. Gostava que fossem melros. Ora, melros e violetas combinam. Que ave se pode rimar com flores de laranjeira? Nenhuma voz me responde. A voz da Terra é ruidosa, mas uns quilómetros lá em cima e é como se o planeta fosse mudo. Dizem que no vazio não se propaga o som. Mas o universo tem voz. Não é a voz de Deus, é a do universo. Os cientistas têm uns equipamentos muito caros que permitem ouvir o som da expansão do universo. Dizem que vem do big bang. Como pode uma coisa ruidosa se resumir a som nenhum, que, apesar de tudo, se ouve nuns equipamentos muito caros e complicados? A voz humana é mais simples. É bela. As dos pássaros também. Também há o som do bater das asas. Pudesse eu voar, como um beija-flor… frente à flor da amada pararia. Um beijo? Um beijo. Com toda esta luz não vejo nem oiço. Pode estar à minha frente falando-me que eu, encadeado, só penso na voz do universo.

sábado, abril 09, 2011

Confesso-me

Nunca te escrevi um poema de amor, porque não te conheço. Se escrevo alguma coisa agora é porque tampouco.

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Pela velocidade dos teus dedos e dos teus verbos, sei-te de sangue. Oiço-te à distância de um ou dois bairros. Invejo-te a ilusão e envergonho-me do cinismo de tanta concessão. Não sou menos honesto, sou manso.

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Ouvir-te gritar é sentir o pulsar. Sou discípulo do silêncio, irreverente e cordato. Tenho a coragem de não ser revolucionário, mas embeveço-me com a saliência, a plasticidade, das tuas veias quando gritas.

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Sim, haveria de me apaixonar por ti se por dois minutos ficasse a olhar-te nos olhos a ouvir-te. Até seria capaz de acreditar nisso que dizes e não acredito.

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Na bola de cristal vejo que tens sal nos lábios. A olho nu, vejo sal nos teus lábios.

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Eu, macho, vergo-me perante a feminilidade que autoritariamente exalas. Cordato, já te disse.

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Já me imaginei campeão amando-te. Quendera, fosse eu homem suficiente. Mais do que ter audácia, tivesse fibra.

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Nunca te escrevi um poema, mas declaro o meu amor. Não de joelhos, mas em cima duma cadeira, para que te poder olhar nos olhos.

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Possa eu ter toda a razão do mundo, derribas-me. Queira eu amar-te, serei sempre manso. Digo então apenas e em voz alta, que não sou homem suficiente para ti.

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Nota: The truta love.

sexta-feira, março 25, 2011

Jura

Se tudo tem um começo, que o começo seja aqui. Agora, no momento em que de olhos postos no outro dizemos, de olhos fixos, sem olhar os lábios, mas sabendo-os quase a sorrir de solenidade, que é importante começar. De olhos frente a frente e hálito a tocar no hálito, promessas de gente madura, a imponência em que os momentos sem importância ficam grandes. Só a imaturidade condena a imaturidade, como os arrogantes culpam a simplicidade. Que seja aqui a fonte de tudo o que está por diante. Prometo e exijo garantia de que as palavras sejam precisas e se leiam em letra e não em espírito. Granito é granito e o coração uma outra coisa. As palavras são prova se de chumbo ou de sólida consistência. Frente a frente, palavras de hálito a hálito. As juras de amor são rendilhados de pedra, luz de consolo no Inverno, luz de vitral no Verão, palavras sérias de conversa mole. Que comece assim a proclamação do meu amor, com sujeito e vontade. Faço tudo o que se espera, deve, promete, deseja e sonha. Faço tudo! Pelas regras e fora delas. Porque sim, porque é o destino. Faço tudo! Quero já, só não tenho quem.

quinta-feira, março 24, 2011

Aniversário





















O Infotocopiável fez cinco anos… desta vez esqueci-me completamente. Para que a data não passe sem ser assinalada, o texto de aniversário será publicado a 16 de Maio.

domingo, março 20, 2011

Um dia

Bordando o tempo com o carinho das mães, pousa a atenção na memória dos dias felizes. Enternece-se de olhos em lago, donde escorregam rios.
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Os anos passam e as pessoas ficam e esse ficar diminui com o adiantamento dos dias. Que partissem logo duma vez, os dias e as pessoas, para que a dor da falta se não sentisse nem a velhice aleijasse.
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Para que serve viver, quando a morte é uma certeza? Porque a saudade é um punhal. O sorriso das mães inunda o rosto.
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Por que partem as mães e ficam os filhos? Porque sobrevivem as mães a seus filhos? Que a minha nunca parta nem eu me vá.
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O amor é eterno e o que dói é não ver. Sim, porque há a fronteira, fina e impalpável, onde se passa dum para outro lado. Espera-se por cá o momento de ir e lá o de voltar. Assim deve ser. Assim deveria ser.
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O amor é eterno como a vida. Ainda nessa certeza, os olhos das mães fazem-se rios pensando em todos os dias dos filhos. Por que morrem as mães? Por que morrem os filhos?
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A natureza da morte é natural, e a naturalidade da morte é a dor. Para quê morrer se o nosso destino é viver?

sábado, março 12, 2011

Pena de morte

Devia haver morte para poder haver pena de morte. Devia não haver morte para, em consciência, mandar alguém para a morte. Devia haver morte, como um saco, para meter toda a gente que se quer ver morta.
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Devia haver vida para que todos os dias fossem felizes. Que as rosas das videiras nunca se cansassem de oídio e que todos os males do mundo fossem esses. Que o vinho nunca azedasse.
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Só pode haver vida, porque a vida tem de ser pesada para que um dia a possamos saborear leve. E que as rosas cheirem a rosas e o moscatel novo também. Que haja essa certeza para alimentar os dias de chuva.
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Os dias de chuva não matam e mostram a vida como quem tem certeza da morte. E numa graça de desafiar o fim dos dias rir de tudo o que é efémero e brindar com um vinho eterno. O que o momento seja vitalício. Do momento antes de nascer ao dia depois de morrer.

sábado, março 05, 2011

Dia de sol





















Também há tristeza nos dias de sol. Só não se chora com os olhos postos no horizonte e, lavados em lágrimas, confundem-se com a ondulação de calor, a ilusão de óptica que turva a paisagem.
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Queria-te mais perto. Quando o sol se levanta com força ou quando a chuva o abaixa. Há tanto tempo não tenho um domingo assim.
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A memória apaga-se, mas outra inventa-se. Sei gostar e, não me lembrando, estás com todo o nosso passado. Quase tudo inventado, mas não deixando de ser verdade.
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Desce em mim uma luz, queria e sonho. Elevando-me pelo feixe, uma grua içando-me. Vou da terra onde estás ao céu onde nos encontraremos.
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Não me lembro, mas sei ter sido feliz. Desejo que tivesse sido contigo. E tu comigo. Num dia destes, de sol, satisfaz-me saber que chove. É mais fácil apaziguar a tristeza e os remorsos.

domingo, fevereiro 27, 2011

Basta querer para se ter uma satisfaçãozinha





















Já fiz e não custa nada. A coragem é maior do que um segundo, mas dura menos do que um instante. Depois de o corpo sair ficará a marca, prensada na memória e na fantasia, de quem viu ou soube. Que palavras poderão ser ditas? Coitado. Teve um dia difícil. A mulher com o outro. Andava a beber. Tinha dívidas de jogo. Uma doença incurável. Perdeu um filho. Desde então que não andava bem. Nada disso, só o prazer de sair daqui.

Lâmina





















Faltam poucos minutos para que o gume me atravesse as veias dos pulsos. Tenho tempo para escrever a banal carta de despedida. Não aguento uma má notícia sem me matar.
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Em alternativa há o estômago… o fígado talvez seja melhor, mas não sei se o consigo encontrar. Para o coração, melhor uma bala. Numa brincadeira, os pulmões para não ter um último suspiro.
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Quero cair só de cabeça. Bater na pedra ou no fim do precipício. Cair sem voltar para trás.
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Doem-me os cornos por me saber separado depois da separação. Rejeitado depois de tantos anos de ausência. Emprenhado e demorado, muito mais que os nove meses. Abandonado na condição de mãe. Só e a parir toda a merda que disse, fiz e vi.
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Não falta quase nada. Quanto tempo durará o escarlate? E o jorro, até onde chegará? Quero cair de joelhos ou afundar-me numa banheira. Ficar com os olhos abertos, para ver a morte chegar.
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Não falta quase nada. Só o tempo de não acreditar.

sábado, fevereiro 19, 2011

Tempo que passou passando





















A tua beleza é a minha esperança. Conheço-a. No escuro daria por ela.
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Numa sala que abafasse o mais suave dos sons saberia onde estaria a tua voz.
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Estou contigo. Nos beijos todos que se deram e na beleza que me agarra à vida. Vida que após vida nos junta. Vida que após vida desperdiçamos.
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Na próxima semana ligo-te. Acabo por não ligar. Escrevo-te uma carta, não mando. Lanço-me num ésse éme ésse como me suicidasse duma grande altura.
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Lanço-me num ésse éme ésse como me suicidasse duma grande altura. Arrependo-me por não ter resposta. Por te pensar embaraçada. Sei lá eu por que te embaraças.
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Se tivesse a certeza que não sofres, não te faria sofrer dizendo que penso em ti. Se não conhecesse os olhos, ainda que distantes e invisíveis… sei que pensas, que talvez te arrependas, que receias recuar. Porque o tempo passou e no tempo que levou a passar muita coisa se passou.
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As feridas sararam. Já se perdoaram as cicatrizes. Não se esqueceram os locais; das feridas e dos que nos fizeram felizes. Nada que um abraço não resolvesse.
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Penso como seria fazermos amor com as gatas por perto. Não que se aproximassem duma cama em delícias. Penso na tua timidez. Será que te zangarias ou aceitarias derretida o mimo que te quisessem dar?
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A tua beleza é a minha esperança. Porque sei que depois da vida vem outra vida. E o tempo que passou não é tempo nenhum.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Jardim, com pássaros, abelhas e gatos

Jardim, rosas multicores e amoras. O chão de ervas muito verdes, uma fonte, um lago e um ribeiro que vai para caudal maior, já fora da vista. Sombra de folhosas e ciprestes como torres de vigia.
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No topo, ervas de cheiro e abelhas, mansas e laboriosas. Melros, pardais e outros, anónimos, por toda a parte. Ao sol e à sombra. Ao vento e no abafo. Na chuva ou na temperança. Todas as estações, todos os dias. Lua cheia, lua nova, lua metade.
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Flores? Margaridas. Fruta? De polpa branca, peras doces e maçãs de frescura verdácea. Abelhas entretidas nas sobras trincadas, caídas, pousadas e descuidadas, enquanto a preguiça manda. Uma manta no chão, por causa da roupa, e outra por cima, porque, dizem, nos constipamos quando deitados ao relento.
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Ramalhete de perfumes e gatos. Daquele lado cebolas. Não, rosas. Dizem, entretanto, que são ranúnculos, flor rara e rara também nas aparições. Ali, mesmo ao lado do canteiro dos morangos.
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Por toda a parte, espalhadas, tulipas, açucenas, mimosas, lírios, violetas e jasmins. Alegria das abelhas. Limoeiros e laranjeiras. Figueiras e romaneiras. Sombras e delírios. Pássaros e gatos, e outros que tenho preguiça de enumerar.
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O ribeiro e os pássaros. O silêncio dos gatos. O vento e as sombras. A preguiça. Um dia todo. Um entardecer com rosado e uma ceia de figos secos, tâmaras melosas e Vinho do Porto Tawnie com anos.
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Pode ser Verão. Com toda esta preguiça só não é Primavera. Com todos os aromas só não é Outono. Com este calor suave só não é Inverno. Pode ser Verão, mas tão ameno… não pode ser. É lua cheia, ainda de dia. É céu estrelado na lua nova.
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À noite só gatos e fantasmas. Flores, jasmim e violetas. Sei lá, tanta coisa. Demasiadas para quem se delicia com tudo, além do Vinho do Porto idoso.
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Amanhã será mais um dia no jardim. Ao acordar, tapado e fora da manta. Apetite de sumo de laranja. Aroma de pão quente e chá verde. Framboesas e mirtilos. Como se tivesse feito amor toda a noite. De certeza.
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Nota: À amiga AA, que também é musa e até tem um número, que nunca sei de cor.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

À namorada morta

Antes que me perguntem, tenho o coração em Edimburgo, assim não dói. Com o corpo cansado de prazeres e aborrecido por se malentender na cabeça, sem corpo para velar. Não namoro há tanto tempo, não sinto falta. Como sentir, se tenho o coração no Norte e a cabeça no Inferno?!
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Juro que não conheço. Nem as que conheci, partiram, morreram, não me lembro. Sem marcas de dedos nas costas ou derrames no pescoço. O fantasma é vivo.
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À noitinha, quando já dormirmos, deito-me contigo. Se puder, nos teus cabelos enrolo os dedos. Cara na cara. Lábios na cara. Quase os beijos. Sem corpos. Além faremos amor.
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Antes que me perguntem, digo que não direi. Depois do corpo, porque esse é malentendido na cabeça. Logo à noite, quando já dormir, faço amor contigo. Mesmo sem cabelo onde enrolar os dedos.
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Nota 1: Para mim, o catorze de Fevereiro só é bonito, porque nasceu uma menina que terá sempre quatro anos.
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Nota 2: a menina de quatro anos não morreu.

sábado, fevereiro 05, 2011

Ilha adjacente

Ao largo do grande amor deixei o desejo de voltar. A esperança de lá encontrar um sinal beijado. Não dos que restaram, não dos que ficaram por dar, mas dos da saudade.
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Quendera o amor da idade primaveril, em que tudo não é nada e o pouco é sempre pouco e o tanto, muito pouco.
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É sabido que não se morre. Morre-se por muita coisa. Morre-se por muita coisa e um dia morre-se duma só vez, para que um dia se renasça e se possa fazer tudo, outra vez.
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Até se morre ao sábado. Nos dias úteis. Quando se morre é sempre domingo. O susto dos tédios torna-se medo das saudades. Morreste para longe, mas não em mim. À noite encontramo-nos. Acordados sozinhos em casas separadas, sem que os corpos se tenham tocado, mesmo quando se fez amor.
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Sei, porque vivo estou morto e, tu, viva és fantasma. Para ti sou outro espectro. Sabemos que não se morre, nem quando se está morto. Mas deixamo-nos mortos, negando estar vivos.
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Ao largo do grande amor está encalhado o que se teve um dia. À noite, quando não nos vemos, visitamo-lo. Sem vontade nem coragem de dar corpo à vontade, de levar a carcaça ao porto da cama.
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Gosto de camas desfeitas, impregnadas de amor. Tu delas feitas, recuperadas da felicidade e preparadas solenes para renascer, em afecto, mais tarde. O que se faz a duas pessoas separadas na vida, unidas aquém e além da morte, queimando a eternidade numa separação infeliz?
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Ao largo do meu corpo está o amor maior. Presente, enfrentando todos os amores que chegaram. Vendo partir todos os que vieram.
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À noite, à socapa, sento-me, na praia em que durmo, e admiro a beleza dos dias que foram. Sinto-te do outro lado da costa, de cabelo entretido pela brisa, contemplando em suspiro o tempo em que se não morrera.
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Sei porque nos vemos à noite, quando estamos mortos. Fazemos amor sem os corpos, distantes, na ilha adjacente às vidas. Terra onde as quedas d’ água são aos soluços e as aves se calam, em saudades, os nossos segredos, que sabemos um do outro.
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Quando estamos mortos ainda sentimos as dores da morte que nos separou em lágrimas. Mas fazemos amor, antes que a manhã ilumine e apague o amor, ao largo.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Pânico

O coração aos sustos e a cabeça florida de fúnebre. Sem vida nem descanso, entre mortes. O querer viver, às vezes, é um querer de morte. Não me recordo nem acordo. Alguma vez me terei perdido num jardim de buchos, fugindo e caçando risinhos de êxtase virginal de mocinhas. Não veio noite nem companhia, todas fugiram para onde não as oiço. Perdido e desistido, desesperado por viver ou morrer. Ficando entre mortes. Sempre o mesmo nome, que ninguém chama nem responderia. Os dedos frenéticos, como se desejassem um cigarro, fumável que a boca recusa. O coração aos sustos, desejoso que algo consuma o que está dentro da cabeça. Será que vale a pena? Será que vale a pena sem interrogação no final. Entre mortes.