digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

sexta-feira, abril 22, 2011

A flor vermelha

Sei que as flores vermelhas não odeiam. São magnânimas, reais. Cor de trono. Acessíveis ao povo, altivas aos egoístas. Sinceras. São de se amar. Pétalas sensíveis, coração de ouro rubro. Perfume de magnólia, que não é encarnada. Encanto maior. As flores vermelhas são de guardar entre as folhas dum livro. As flores vermelhas são para soltar num finíssimo sopro de vento. Contudo arranquei-lhes as pétalas. Não odeia e volta sempre, suave e doce, ainda que depois de zangada. Volta sempre com um beijo. O que não se deu ao outro que nunca se dará.

A flor amarela





















Não sabia que as flores podiam odiar. Perdi um bocado de mim. Tenho no meu tronco um túnel, coisa redonda perfeita, sem nada dentro. Perfeitinho. Calcinado. Vê-se como se fosse de cimento, mas menos rugoso. Totalmente liso e macio. Levou-me a flor. Não encontrou o coração, que esse há muito teve independência. Mesmo lá no Norte, em Edimburgo, bate sentido. Quando sente a alma, sente ele. Que mal terei feito, crime grave. Fui fértil. Desejei e amei. Hoje sou o estrume que alimenta o ódio ou o desprezo ou a negação ou qualquer coisa cuja sombra espeta. Fiquei a saber que as flores mentei e odeiam. Deve ter sido grande o amor por mim.

domingo, abril 17, 2011

Quem?





















Quem vou amar hoje? Não a ti que me amas todos os dias. Não, por amor e pudor, porque és tudo até minha mãe, minha amiga, minha namorada. Ninguém que me ame. Alguém que possa ter medo da perda. Alguém que não tenha medo. Alguém sem passado. A ti, que me conheces desde sempre. A ti que te tenho certa, mereces, mereço. A ti, por todo o respeito que tenho, amar-te-ei. Por favor, não me ames, porque se te amar deixarás de me amar… Por que hei-de amar ou não amar?! Quero amar hoje. Mas a ti… que te amo e me amas e andamos desencontrados, guardando, cada um, o seu silêncio, sorrindo em mentiras, disfarçando? Hoje amarei alguém. Amanhã não sei. Amei já tantas noites, tantas, tanta gente, que não amo ninguém. Se acredito no amor? Acredito quando me dizes que não amas ninguém e que nunca passei de alguém. Acredito quando me dizes, sincera e apaixonada, que nunca me amarás. Sorrio e deixo-te, esvoaçando como um lenço dizendo estar bem preso no pescoço. Sim, amei alguém. Amei-te e amaste-me e se hoje vou amar alguém? Sim, vou. Quem amei sempre. Mas não a ti, que me amas também. Amarei alguém até me esquecer de ti. Até amanhã. Meu amor. Amar-te-ei sempre. E tu também.

sábado, abril 16, 2011

O silêncio calado delas





















Se compreendesse os silêncios… o que faria? Seria mulher, certamente. Saber quando beijar. Saber quando dizer… a palavra certa, o momento certo. Saber desejar no tempo de desejar, e não adormecer depois. O que dizer quando oiço sugerir que diga que amo? Nada oiço, tenho de adivinhar. Ainda que de os olhos fechados. Até na ausência. Se o meu amor tivesse asinhas… antes tenho o cabelo desalinhado… por ver fazerem-me sentir… ao ver enternecida a olhar não sei bem porquê nem para onde em mim… Os homens são cães e as mulheres são gatos. Esfinges? Aparências. Vivências. Enquanto um homem olha, a mulher vê. Por isso exigem que se as olhes enquanto falam… mas sabem ler em silêncio as palavras que não dizemos. As mulheres pensam tudo, até o que não dizem. Os homens dizem até o que não pensam. Se magoa? Magoa! A quem? A toda a gente. A estátua grega é do homem. A inteligência egípcia é feminina. Gato! Quando penso em tanto desacerto, sei que é por isso que amo e só as poderei amar. Porque o mistério nunca tem um fim e há guerras que vale a pena travar, até mesmo depois de se morrer. Sim, gostaria de ultrapassar essa fronteira de lábios, entrar e escutar um coração. Cabeça. Alma. Toda a generosidade. Generosidade, toda. Um homem nunca dará à luz. Se dizem? Não precisam. Qualquer dor é menor e um homem estremece por muito menos. Em silêncio? Quando querem e deixam saber. Se têm de falar, falam. Mas quando têm de dizer, nem sempre dizem. Não, não percebo. Talvez porque tenha o coração ao pé da boca. Por ser maluco. Por ser homem. Não, não percebo. Se quero digo, não indico, digo. Se querem desconfio ligeiramente, na dimensão de qualquer coisa que não entendo. Falar para quê? O homem é gato e a mulher rato. Presa que escolhe quem a há-de caçar. Caçadora, sim. Assumo, não caço nada. Aceito a minha condição de predador sem mérito. O que pensam as mulheres? Quando? Dizem que amam? À porta da loja estão os homens. Lá dentro elas vêem tudo o que não as levou. Levam muito, levam pouco, mas se desejam levam tudo. Se desejam, não levam nada. Até levam outra coisa do que desejaram. Até levam o que queriam. O homem estrebucha. Que diz ela? Não diz nada, cansa-se por o homem cansar-se de esperar. Por não perceber o quanto é importante ser-se espelho de alguém de quem se gosta. Não dizem. Se dizem… Que dizem? Nem dizem, para não magoar, quando dizem magoam mesmo. Quando não dizem não é por timidez, mas por dúvida em saber se a percebem. Os homens nasceram para amar as mulheres. As mulheres amam-se. Amam os homens e o homem perfeito é mulher. Vale a pena dizer? Não! Um homem nunca entenderá. As mulheres percebem o homem e não percebem como é possível. Os homens nem sequer percebem as mulheres, nem tentam. O homem perfeito é mulher! Vale a pena dizer? Há coisas que os homens nunca entenderão.

quinta-feira, abril 14, 2011

Som





















Não consigo ouvir com tanta luz. Sei que há amoreiras por aí, pressinto pássaros e julgo saber que este aroma é de violetas. Não vejo nem oiço com tanta luz. No espaço não se ouve a terra. A voz do universo pressente-se, mas não se ouve. Prevê-se, que é como quem diz que vê antes do tempo. A voz do universo não é a de Deus. Será que Deus tem voz? . Está em toda a parte. É toda a parte. Já esteve. Já está. Estará. Antes de estar já lá está. Deus quer. Não precisa de fazer porque a sua vontade é fazer. Deseja ao mesmo tempo que faz. Será? Há a velocidade da luz. Há a velocidade do querer. Há a velocidade do desejo. Há a velocidade do pensamento. Há uma velocidade para a vontade de Deus? Não compreendo Deus. A minha crença é insuficiente para dele saber o que quer que seja. Intui-o. A minha crença é suficiente para saber que dele não sabemos nada. Esta tanta luz que não me deixa ouvir. É um zumbido nos olhos. Um formigueiro na alma. Desço as escadas que dão para o jardim, pela força de tanto o fazer, faço-o sem custo. Contrariando a vontade da força da gravidade, que quer tudo sempre em baixo. As violetas ficam bem numa declaração de amor? Se a noiva for de negro. A cor não é a do Senhor dos Passos? Não será por acaso que as noivas levam ramalhetes de flores de laranjeira. Têm pétalas claras, evocam virgindade. Evocam a verdade. O tempo que há-de vir. Mas não devia ser. Ninguém se casa virgem. Nem sei se as laranjeiras florescem na Primavera. Deve ser. Já consigo abrir um pouco os olhos, pela sombra entremeada das árvores deste jardim. Apesar de não terem pálpebras, os ouvidos não ouvem nada. Sei que por aí há pássaros. Gostava que fossem melros. Ora, melros e violetas combinam. Que ave se pode rimar com flores de laranjeira? Nenhuma voz me responde. A voz da Terra é ruidosa, mas uns quilómetros lá em cima e é como se o planeta fosse mudo. Dizem que no vazio não se propaga o som. Mas o universo tem voz. Não é a voz de Deus, é a do universo. Os cientistas têm uns equipamentos muito caros que permitem ouvir o som da expansão do universo. Dizem que vem do big bang. Como pode uma coisa ruidosa se resumir a som nenhum, que, apesar de tudo, se ouve nuns equipamentos muito caros e complicados? A voz humana é mais simples. É bela. As dos pássaros também. Também há o som do bater das asas. Pudesse eu voar, como um beija-flor… frente à flor da amada pararia. Um beijo? Um beijo. Com toda esta luz não vejo nem oiço. Pode estar à minha frente falando-me que eu, encadeado, só penso na voz do universo.

sábado, abril 09, 2011

Confesso-me

Nunca te escrevi um poema de amor, porque não te conheço. Se escrevo alguma coisa agora é porque tampouco.

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Pela velocidade dos teus dedos e dos teus verbos, sei-te de sangue. Oiço-te à distância de um ou dois bairros. Invejo-te a ilusão e envergonho-me do cinismo de tanta concessão. Não sou menos honesto, sou manso.

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Ouvir-te gritar é sentir o pulsar. Sou discípulo do silêncio, irreverente e cordato. Tenho a coragem de não ser revolucionário, mas embeveço-me com a saliência, a plasticidade, das tuas veias quando gritas.

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Sim, haveria de me apaixonar por ti se por dois minutos ficasse a olhar-te nos olhos a ouvir-te. Até seria capaz de acreditar nisso que dizes e não acredito.

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Na bola de cristal vejo que tens sal nos lábios. A olho nu, vejo sal nos teus lábios.

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Eu, macho, vergo-me perante a feminilidade que autoritariamente exalas. Cordato, já te disse.

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Já me imaginei campeão amando-te. Quendera, fosse eu homem suficiente. Mais do que ter audácia, tivesse fibra.

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Nunca te escrevi um poema, mas declaro o meu amor. Não de joelhos, mas em cima duma cadeira, para que te poder olhar nos olhos.

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Possa eu ter toda a razão do mundo, derribas-me. Queira eu amar-te, serei sempre manso. Digo então apenas e em voz alta, que não sou homem suficiente para ti.

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Nota: The truta love.

sexta-feira, março 25, 2011

Jura

Se tudo tem um começo, que o começo seja aqui. Agora, no momento em que de olhos postos no outro dizemos, de olhos fixos, sem olhar os lábios, mas sabendo-os quase a sorrir de solenidade, que é importante começar. De olhos frente a frente e hálito a tocar no hálito, promessas de gente madura, a imponência em que os momentos sem importância ficam grandes. Só a imaturidade condena a imaturidade, como os arrogantes culpam a simplicidade. Que seja aqui a fonte de tudo o que está por diante. Prometo e exijo garantia de que as palavras sejam precisas e se leiam em letra e não em espírito. Granito é granito e o coração uma outra coisa. As palavras são prova se de chumbo ou de sólida consistência. Frente a frente, palavras de hálito a hálito. As juras de amor são rendilhados de pedra, luz de consolo no Inverno, luz de vitral no Verão, palavras sérias de conversa mole. Que comece assim a proclamação do meu amor, com sujeito e vontade. Faço tudo o que se espera, deve, promete, deseja e sonha. Faço tudo! Pelas regras e fora delas. Porque sim, porque é o destino. Faço tudo! Quero já, só não tenho quem.

quinta-feira, março 24, 2011

Aniversário





















O Infotocopiável fez cinco anos… desta vez esqueci-me completamente. Para que a data não passe sem ser assinalada, o texto de aniversário será publicado a 16 de Maio.

domingo, março 20, 2011

Um dia

Bordando o tempo com o carinho das mães, pousa a atenção na memória dos dias felizes. Enternece-se de olhos em lago, donde escorregam rios.
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Os anos passam e as pessoas ficam e esse ficar diminui com o adiantamento dos dias. Que partissem logo duma vez, os dias e as pessoas, para que a dor da falta se não sentisse nem a velhice aleijasse.
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Para que serve viver, quando a morte é uma certeza? Porque a saudade é um punhal. O sorriso das mães inunda o rosto.
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Por que partem as mães e ficam os filhos? Porque sobrevivem as mães a seus filhos? Que a minha nunca parta nem eu me vá.
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O amor é eterno e o que dói é não ver. Sim, porque há a fronteira, fina e impalpável, onde se passa dum para outro lado. Espera-se por cá o momento de ir e lá o de voltar. Assim deve ser. Assim deveria ser.
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O amor é eterno como a vida. Ainda nessa certeza, os olhos das mães fazem-se rios pensando em todos os dias dos filhos. Por que morrem as mães? Por que morrem os filhos?
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A natureza da morte é natural, e a naturalidade da morte é a dor. Para quê morrer se o nosso destino é viver?

sábado, março 12, 2011

Pena de morte

Devia haver morte para poder haver pena de morte. Devia não haver morte para, em consciência, mandar alguém para a morte. Devia haver morte, como um saco, para meter toda a gente que se quer ver morta.
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Devia haver vida para que todos os dias fossem felizes. Que as rosas das videiras nunca se cansassem de oídio e que todos os males do mundo fossem esses. Que o vinho nunca azedasse.
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Só pode haver vida, porque a vida tem de ser pesada para que um dia a possamos saborear leve. E que as rosas cheirem a rosas e o moscatel novo também. Que haja essa certeza para alimentar os dias de chuva.
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Os dias de chuva não matam e mostram a vida como quem tem certeza da morte. E numa graça de desafiar o fim dos dias rir de tudo o que é efémero e brindar com um vinho eterno. O que o momento seja vitalício. Do momento antes de nascer ao dia depois de morrer.

sábado, março 05, 2011

Dia de sol





















Também há tristeza nos dias de sol. Só não se chora com os olhos postos no horizonte e, lavados em lágrimas, confundem-se com a ondulação de calor, a ilusão de óptica que turva a paisagem.
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Queria-te mais perto. Quando o sol se levanta com força ou quando a chuva o abaixa. Há tanto tempo não tenho um domingo assim.
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A memória apaga-se, mas outra inventa-se. Sei gostar e, não me lembrando, estás com todo o nosso passado. Quase tudo inventado, mas não deixando de ser verdade.
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Desce em mim uma luz, queria e sonho. Elevando-me pelo feixe, uma grua içando-me. Vou da terra onde estás ao céu onde nos encontraremos.
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Não me lembro, mas sei ter sido feliz. Desejo que tivesse sido contigo. E tu comigo. Num dia destes, de sol, satisfaz-me saber que chove. É mais fácil apaziguar a tristeza e os remorsos.

domingo, fevereiro 27, 2011

Basta querer para se ter uma satisfaçãozinha





















Já fiz e não custa nada. A coragem é maior do que um segundo, mas dura menos do que um instante. Depois de o corpo sair ficará a marca, prensada na memória e na fantasia, de quem viu ou soube. Que palavras poderão ser ditas? Coitado. Teve um dia difícil. A mulher com o outro. Andava a beber. Tinha dívidas de jogo. Uma doença incurável. Perdeu um filho. Desde então que não andava bem. Nada disso, só o prazer de sair daqui.

Lâmina





















Faltam poucos minutos para que o gume me atravesse as veias dos pulsos. Tenho tempo para escrever a banal carta de despedida. Não aguento uma má notícia sem me matar.
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Em alternativa há o estômago… o fígado talvez seja melhor, mas não sei se o consigo encontrar. Para o coração, melhor uma bala. Numa brincadeira, os pulmões para não ter um último suspiro.
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Quero cair só de cabeça. Bater na pedra ou no fim do precipício. Cair sem voltar para trás.
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Doem-me os cornos por me saber separado depois da separação. Rejeitado depois de tantos anos de ausência. Emprenhado e demorado, muito mais que os nove meses. Abandonado na condição de mãe. Só e a parir toda a merda que disse, fiz e vi.
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Não falta quase nada. Quanto tempo durará o escarlate? E o jorro, até onde chegará? Quero cair de joelhos ou afundar-me numa banheira. Ficar com os olhos abertos, para ver a morte chegar.
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Não falta quase nada. Só o tempo de não acreditar.

sábado, fevereiro 19, 2011

Tempo que passou passando





















A tua beleza é a minha esperança. Conheço-a. No escuro daria por ela.
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Numa sala que abafasse o mais suave dos sons saberia onde estaria a tua voz.
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Estou contigo. Nos beijos todos que se deram e na beleza que me agarra à vida. Vida que após vida nos junta. Vida que após vida desperdiçamos.
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Na próxima semana ligo-te. Acabo por não ligar. Escrevo-te uma carta, não mando. Lanço-me num ésse éme ésse como me suicidasse duma grande altura.
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Lanço-me num ésse éme ésse como me suicidasse duma grande altura. Arrependo-me por não ter resposta. Por te pensar embaraçada. Sei lá eu por que te embaraças.
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Se tivesse a certeza que não sofres, não te faria sofrer dizendo que penso em ti. Se não conhecesse os olhos, ainda que distantes e invisíveis… sei que pensas, que talvez te arrependas, que receias recuar. Porque o tempo passou e no tempo que levou a passar muita coisa se passou.
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As feridas sararam. Já se perdoaram as cicatrizes. Não se esqueceram os locais; das feridas e dos que nos fizeram felizes. Nada que um abraço não resolvesse.
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Penso como seria fazermos amor com as gatas por perto. Não que se aproximassem duma cama em delícias. Penso na tua timidez. Será que te zangarias ou aceitarias derretida o mimo que te quisessem dar?
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A tua beleza é a minha esperança. Porque sei que depois da vida vem outra vida. E o tempo que passou não é tempo nenhum.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Jardim, com pássaros, abelhas e gatos

Jardim, rosas multicores e amoras. O chão de ervas muito verdes, uma fonte, um lago e um ribeiro que vai para caudal maior, já fora da vista. Sombra de folhosas e ciprestes como torres de vigia.
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No topo, ervas de cheiro e abelhas, mansas e laboriosas. Melros, pardais e outros, anónimos, por toda a parte. Ao sol e à sombra. Ao vento e no abafo. Na chuva ou na temperança. Todas as estações, todos os dias. Lua cheia, lua nova, lua metade.
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Flores? Margaridas. Fruta? De polpa branca, peras doces e maçãs de frescura verdácea. Abelhas entretidas nas sobras trincadas, caídas, pousadas e descuidadas, enquanto a preguiça manda. Uma manta no chão, por causa da roupa, e outra por cima, porque, dizem, nos constipamos quando deitados ao relento.
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Ramalhete de perfumes e gatos. Daquele lado cebolas. Não, rosas. Dizem, entretanto, que são ranúnculos, flor rara e rara também nas aparições. Ali, mesmo ao lado do canteiro dos morangos.
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Por toda a parte, espalhadas, tulipas, açucenas, mimosas, lírios, violetas e jasmins. Alegria das abelhas. Limoeiros e laranjeiras. Figueiras e romaneiras. Sombras e delírios. Pássaros e gatos, e outros que tenho preguiça de enumerar.
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O ribeiro e os pássaros. O silêncio dos gatos. O vento e as sombras. A preguiça. Um dia todo. Um entardecer com rosado e uma ceia de figos secos, tâmaras melosas e Vinho do Porto Tawnie com anos.
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Pode ser Verão. Com toda esta preguiça só não é Primavera. Com todos os aromas só não é Outono. Com este calor suave só não é Inverno. Pode ser Verão, mas tão ameno… não pode ser. É lua cheia, ainda de dia. É céu estrelado na lua nova.
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À noite só gatos e fantasmas. Flores, jasmim e violetas. Sei lá, tanta coisa. Demasiadas para quem se delicia com tudo, além do Vinho do Porto idoso.
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Amanhã será mais um dia no jardim. Ao acordar, tapado e fora da manta. Apetite de sumo de laranja. Aroma de pão quente e chá verde. Framboesas e mirtilos. Como se tivesse feito amor toda a noite. De certeza.
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Nota: À amiga AA, que também é musa e até tem um número, que nunca sei de cor.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

À namorada morta

Antes que me perguntem, tenho o coração em Edimburgo, assim não dói. Com o corpo cansado de prazeres e aborrecido por se malentender na cabeça, sem corpo para velar. Não namoro há tanto tempo, não sinto falta. Como sentir, se tenho o coração no Norte e a cabeça no Inferno?!
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Juro que não conheço. Nem as que conheci, partiram, morreram, não me lembro. Sem marcas de dedos nas costas ou derrames no pescoço. O fantasma é vivo.
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À noitinha, quando já dormirmos, deito-me contigo. Se puder, nos teus cabelos enrolo os dedos. Cara na cara. Lábios na cara. Quase os beijos. Sem corpos. Além faremos amor.
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Antes que me perguntem, digo que não direi. Depois do corpo, porque esse é malentendido na cabeça. Logo à noite, quando já dormir, faço amor contigo. Mesmo sem cabelo onde enrolar os dedos.
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Nota 1: Para mim, o catorze de Fevereiro só é bonito, porque nasceu uma menina que terá sempre quatro anos.
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Nota 2: a menina de quatro anos não morreu.

sábado, fevereiro 05, 2011

Ilha adjacente

Ao largo do grande amor deixei o desejo de voltar. A esperança de lá encontrar um sinal beijado. Não dos que restaram, não dos que ficaram por dar, mas dos da saudade.
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Quendera o amor da idade primaveril, em que tudo não é nada e o pouco é sempre pouco e o tanto, muito pouco.
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É sabido que não se morre. Morre-se por muita coisa. Morre-se por muita coisa e um dia morre-se duma só vez, para que um dia se renasça e se possa fazer tudo, outra vez.
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Até se morre ao sábado. Nos dias úteis. Quando se morre é sempre domingo. O susto dos tédios torna-se medo das saudades. Morreste para longe, mas não em mim. À noite encontramo-nos. Acordados sozinhos em casas separadas, sem que os corpos se tenham tocado, mesmo quando se fez amor.
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Sei, porque vivo estou morto e, tu, viva és fantasma. Para ti sou outro espectro. Sabemos que não se morre, nem quando se está morto. Mas deixamo-nos mortos, negando estar vivos.
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Ao largo do grande amor está encalhado o que se teve um dia. À noite, quando não nos vemos, visitamo-lo. Sem vontade nem coragem de dar corpo à vontade, de levar a carcaça ao porto da cama.
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Gosto de camas desfeitas, impregnadas de amor. Tu delas feitas, recuperadas da felicidade e preparadas solenes para renascer, em afecto, mais tarde. O que se faz a duas pessoas separadas na vida, unidas aquém e além da morte, queimando a eternidade numa separação infeliz?
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Ao largo do meu corpo está o amor maior. Presente, enfrentando todos os amores que chegaram. Vendo partir todos os que vieram.
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À noite, à socapa, sento-me, na praia em que durmo, e admiro a beleza dos dias que foram. Sinto-te do outro lado da costa, de cabelo entretido pela brisa, contemplando em suspiro o tempo em que se não morrera.
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Sei porque nos vemos à noite, quando estamos mortos. Fazemos amor sem os corpos, distantes, na ilha adjacente às vidas. Terra onde as quedas d’ água são aos soluços e as aves se calam, em saudades, os nossos segredos, que sabemos um do outro.
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Quando estamos mortos ainda sentimos as dores da morte que nos separou em lágrimas. Mas fazemos amor, antes que a manhã ilumine e apague o amor, ao largo.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Pânico

O coração aos sustos e a cabeça florida de fúnebre. Sem vida nem descanso, entre mortes. O querer viver, às vezes, é um querer de morte. Não me recordo nem acordo. Alguma vez me terei perdido num jardim de buchos, fugindo e caçando risinhos de êxtase virginal de mocinhas. Não veio noite nem companhia, todas fugiram para onde não as oiço. Perdido e desistido, desesperado por viver ou morrer. Ficando entre mortes. Sempre o mesmo nome, que ninguém chama nem responderia. Os dedos frenéticos, como se desejassem um cigarro, fumável que a boca recusa. O coração aos sustos, desejoso que algo consuma o que está dentro da cabeça. Será que vale a pena? Será que vale a pena sem interrogação no final. Entre mortes.

domingo, janeiro 23, 2011

Há demasiados mortos nesta vida

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Esta notícia faz-me lembrar o azul profundo duma solidão. O momento preciso do desprendimento. O espírito desagarrado do corpo. A morte, se assim se quiser.
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Não há tempo para palavras tristes. Não é preciso ter-se um coração para que este se sinta apertado e minguado. Rezando para que os pés não doam demasiado pelo caminho.
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Se a tristeza não se vai, que nos apartemos nós dela. Abandoná-la onde faz sofrer. Poça de sangue que mais ninguém vê.
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Quando estocas e feres, é o teu sangue que se derrama. Quando matas, morres. Morres-te devagar, aos bocadinhos, com o peso de toda a memória. Ainda que a consciência te alivie. Delinquente inocente.
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Os homens grandes não precisam de monumentos. A verdade é toda e toda exige que se o diga: todos os homens nascem iguais. Preciso de palavras de circunstância no meu velório.
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Os homens grandes não precisam de monumentos. Desejo, em ânsia, os aplausos, as intimidades gloriosas e um tocante discurso de abalada.
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No fim de tudo, só o amor primeiro e o amor maior. Todos os outros não são bem coisa alguma. Inspiração e desejo. O que fica?
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Cuidava que os poetas podiam matar as musas e renasciam fortalecidos no desgosto de não falecerem por elas. Que viviam felizes ou infelizes. Que viviam.
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Cuidava que a musa nunca mataria. Com o feitiço suficiente para o cantor se cortar, desperdiçando-se em letras rubras de odor férreo. Por suicídio ou surpresa por se saber morrer, com um sopro da musa.
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Desamando, ela, com um pranto. Pode viver-se sem um coração, mas não com uma consciência leve. Não com um manto de veludo negro na memória.
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Baixada a cortina sobre o amor prometido em sacrifício de viver infeliz. Tragédia sanguinária em que todos morrem. Quendera uma cova para repousar o corpo. Todos os amores acabam mal, está na lei moderna. Até os que nunca começaram. Está na lei suprema.
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A notícia faz-me lembrar o azul profundo duma solidão. A vida recomeça adiante.

terça-feira, janeiro 18, 2011

Não sou à prova de água





















Tenho-te, fogo livre. Tens-me, queimando-me preso. Sem artifício no que digo. Não plasmo as promessas, não materializo as palavras. Consumo, até ao momento em que terei devorado tudo. Tudo, sôfrego, nunca satisfeito. Na terra ou no ar, preso ao fogo do teu signo água.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

A musa ressuscitada





















Vejo-te, flor. Sinto-te menina e sei-te mulher. Vejo-te imaginando, nua num canapé com uma cidade por trás. As janelas são para se abrirem. Pela tua entra a música das ruas e a luz que o céu permite. Por ela saem os meus olhos, envergonhados por, tão descaradamente, gozarem a tua beleza.
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Vivo-te doentiamente. Invisível a teus olhos. Invisível também para me dissimular no teu quarto para me deliciar quando te despes. Sofro por te ver amada e amante. Vejo-te tão ignorante de mim.
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Não fosse invisível veria as minhas mãos nos teus quadris. Nos teus seios e no teu rosto. Afastando os cabelos suados enquanto mordisco e mordiscas alternadamente com o soar das almas a sair das bocas.
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Em que cidade vives? Nunca saio. Talvez por isso não me leves a sério. Nem me vejas. Ou, pior, não me leves a sério.
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Sou tonto. Acredito no acreditável, menos crível que os zombies baterem à porta doutro defunto. Defunto, sou eu, que escondi o coração em Edimburgo. Eu, que nem vivo, nem sou credível. Tão tonto como inacreditável.
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Se é Lisboa, a janela abre-se às ruas populares. Qualquer outra é desilusão e sofrimento. O meu coração abandonado sente, lá longe em Edimburgo, uma saudade do que não deve, não pode, porque não sabe.
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Sim, flor-menina-mulher… sei-te triste comigo e não por ser invisível ou apaixonado, ainda que inacreditável. Noto-te na voz o cansaço da minha tristeza e pelo ridículo de todos os disparates que digo e escrevo.
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Ainda assim vivo escondido no espelho do teu espelho, donde te vejo desnuda e amante doutro amante. Ciúmes? Não. Tristeza por não me veres. Por não me mostrar e apenas soar.
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Coragem só na voz. No corpo a morte, vagarosa, como poeta, um desespero incontável e ignorância.
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As musas não matam os poetas. Os poetas é que morrem tristes frente às musas.
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Escondido num espelho desconheces-me sabendo-me. Dentro do espelho escondido vejo o reflexo da luz do esconderijo, plano insensível, impronunciável e morto diante da tua beleza e nudez.
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No escuro sei-te. Amante e amada. Desfaleço sem ciúme, mas desesperançado. Os poetas não matam as musas. Deixam-nas cair, quebrando-se. A minha partiu-se e, estupidamente, tento cola-la. Do lado dela a mesma insensibilidade. A mesma falta de crença. Que nunca perca o sorriso que me ata. Que nunca perca de vista a flor-menina-mulher.

sexta-feira, janeiro 14, 2011

A mão além do corpo aquém

A mão além, do corpo aquém. Respiração visível, como plasma. Não vapor no frio, mas como plasma. Como um fantasma.
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Não tenho dúvidas que flutuo sobre o corpo deitado. Vestido sobre a cama. Olhos abertos de pálpebras em descanso.
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Há um espaço entre as orelhas e os sons da rua. Uma parede de ar.
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Dentro, dia. Fora, noite. Minutos depois, o inverso. Difícil sincronia.
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O corpo ergue-se. Como que se a alma estivesse fora do corpo. Por cima, observa. Visão em três linhas, horizontais e paralelas. Entre cada uma, um espaço sem concreto. Todas límpidas e claras, precisas, bem definidas e inconfundíveis. E sobre o corpo, a observação.
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Três horizontes. Indiferente à temperatura, a mão além projecta-se fora da janela. A dúvida. Entre a vida e a morte. A certeza da vida, a dúvida da vida.
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Por momentos, os olhos outra vez fechados crêem poder alcançar qualquer coisa. A mão além vai, ainda que os olhos se tenham fechado, por insuportável trivisão. Além da observação sobrevoada, consciente do que é e donde está. Acima duma realidade tangível.
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A mão além tenta despertar o corpo que se voltou a deitar. A angústia.
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Afinal quase tudo é angústia. No sono. No sono depois do sono. No sono que se força. No sonho no sono. Do sonho entre sonos. O tempo em que não se dorme. Sempre a angústia.
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É um peso. A mão estrafoga, a angústia. A mão, além, tenta fugir. De matar, e do local do seu crime. A mão além, na dúvida. A alma vigia o corpo deitado.
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Cobardias da mão e da alma. O corpo em angústia, entre viver e o contrário, em dúvida. Triste.
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A mão além recolhe-se num receio. A visão que flutuava escondeu-se atrás da consciência. A respiração desplasmou-se. Os olhos despertaram. O corpo levantou-se. A mesma angústia e a dúvida, de viver e de não viver.
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Até um dia. Um dia novo de certezas. A angústia vai dormir. Enquanto se não dorme, a angústia pausa-se. Tocaram a campainha e a porta abre-se. A angústia foi dormir. A angústia voltará.

Quando o acordar ilumina e o coração morre

O tédio e o marasmo. À vez nos dias. Os dias de tempo preciso e igual. Dias de mecânica precisão, desde o acordar desejoso do adormecer e ao deitar angustiado com a manhã que há-de vir.
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A maioria dos suspiros não tem força para rasgar a carne e medrar na liberdade possível duma tristeza. A maioria morre triste e ignorante de que a vida, lá fora, é mais triste. Suspiros com esperança e, porém, tão tristes.
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Os olhos quando se fecham não é para dormir, mas para ver o que dentro se recusa a sair. É como o arfar soluçado num choro que vai longo. Há sempre gotas de água e sal que não chegam à fonte e nunca serão rio.
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Os banhos de corpo mergulhado em câmara sobreaquecida não acalmam os dias de inquieta quietude. Iluminam as dores, para que os dedos da cabeça possam melhor infectar as feridas com o seu escarafunchar.
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Há dias que não olhava para esta vida toda. Há dias em que uma lucidez indesejada vem afirmar o quanto se é infeliz. Não vale a pena sonhar. Há sempre um dia em que o Diabo vem cobrar os momentos de paz concedida.
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Há dias em que se percebe que os amores que julgávamos são mesmo sonhos. Há dias em que percebe que os amores que sonhámos não chegam a ser sonhos. Retratos de casais que só na casa cómica dos espelhos se formam. O que dentro é cómico é na verdade deformação e fora da casa não é mais do que banalidade e triste distância de vontades.
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Talvez ainda seja capaz de amar. Talvez não queira. Talvez seja capaz. Sei, porque sei – não porque tenha percebido, mas porque vivi – que as vidas a dois nunca são uma… e tanto que se desejou, prometeu, garantiu e jurou. E tantas vezes se mentiu e se foi enganado. Não no corpo. Não no amor. Não na convicção. Enganado pela vontade e imagem que se colocaram diante dos olhos.
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Talvez nas relações haja sempre um que goste mais do outro. Por vezes, um doentiamente mais do que outro. Por vezes, um mais cruel do que o outro. Talvez. E quando não há relação? Quando quem se deseja amar não seja amável. Quando a pessoa desejada exista apenas numa vontade ou numa imagem, num desejo filho da solidão e da tristeza.
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Fui mexer na minha caixinha de musas… umas estão preservadas ainda com os aromas das flores que trocámos. Umas desapareceram, esfumadas, porque nunca o foram, apenas exercícios de retórica e massagem de sedução infantil e egoísta da adolescência. Há musas tristes e molhadas das lágrimas. Há musas enternecedoras por toda a ingenuidade. Há musas de loucura com pedidos lancinantes para que largassem o noivo no altar e mergulhassem loucamente num desconhecido desequilibrado. Há musas que não mereceram. Há musas que não mereci. Há musas que nunca o foram, porque nem olhei ou nem percebi ou nem quis. Estão todas guardadas na caixinha das musas. Onde fui remexer.
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Há musas que desejei serem musas. Musas a quem sussurrei palavras que se gritam e declamam em gritos sonoros nas praças. E há musas que tendo tudo isso, levadas em andor, por devoção e esperança, esmagaram, indiferentes, os sentimentos crédulos do amante.
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Há musas que leram as palavras que lhes escreveram, coraram e silenciaram. Há musas que se afastaram zangadas. Há musas que não as leram ou, se as leram, desprezaram toda a energia que há numa semente e faz vingar uma planta, empurrando-a para além do solo em direcção ao Sol.
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Há musas que não são ingratas. São apenas elas próprias. Os poetas vestem as musas. Escovam-lhes o cabelo. Levam-lhes morangos à boca na sua época e descascam-lhes romãs. Aromas frescos de citrinos, vinho generoso e conversas de segredo.
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Há musas que só por engano se cruzaram com o seu poeta. O poeta sabe que não há enganos, porque o artificie de sentimentos sabe da sua matéria-prima, que trabalha com as ferramentas de letras.
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Com efeito. Enganos. Não são desencontros. São cumplicidades deformadas na casa cómica dos espelhos. Lá fora tudo volta a ser o que deve ser. As musas não existem e os poetas continuam poetas.
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Da vistoria à caixinha das musas soube o que sabia antes. Cinco musas de verdade, que nasceram de terramotos e se foram em maremotos. Uma viva. Uma morta. Três arrumadas no quarto do lado. Das cinco, a sexta é a que nunca existiu.
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A sexta de cinco musas nunca quis o seu poeta. Toda a poesia foi prado de papoilas pisadas em danças pueris e inconscientes. A musa não tem culpa, apenas não reparou.
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Nos dias de tédio, que são todos, a Dulcineia era a alegria que levava as lágrimas para fora do rosto. Não se pode apagar o que não existe. Está mais vazio o vazio que habita dentro dum homem triste.
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Se sou capaz de amar? Serei, mas não quero. Deixei o meu coração numa cidade que digo saber qual é. Não me lembro onde, dentro dela, o recolhi. Nem me lembro dele, sei que tive.
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Quando esperei voltar a tê-lo… Os olhos molhados pelo orvalho fresco da musa ficaram lacrimosos e quentes.
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A tristeza escalda. Escalda tanto que o coração, que já não tenho, não sente, numa dormência, numa fuga. A alma contorce-se com a dor, como a que sente um heroinómano na ressaca.
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O que se pode dizer? O que se diz todos os dias, do acordar ao dormir: tédio e marasmo. Dias de infelicidade precisa. Não reconheço a vida. Não reconheço o lugar. Descubro que com quem me cruzo quase não conheço ninguém. Confundo amigos com conhecidos e lamento todo o sentimento de desamor para comigo. Transbordo afectos. Transbordo porque excessivo. Desperdício e desajuste. O mal não está nos outros, está na fonte de lágrimas que tenho para amar.
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Sim, queria ser amado. Sim, mas preferi ser poeta, antes de nascer. O que faço com as musas? Uma está morta e nem fede. Três são memória de odor suave das flores secas. Não mereço cantar a viva. Das cinco, a sexta é a que me dói. Com todos os pregos do acordar para a realidade que sempre se soube e sempre se negou.
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Das cinco, a sexta é a única que nunca mereceu ser cantada. Toda ilusória, que só uma vez não se esqueceu de me dizer baixinho que gostara das palavras saídas das minhas mãos. Os espelhos da casa cómica dos espelhos tornaram-se, de repente, lisos e concretos.
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As luzes suaves da noite estrelada soçobraram na incandescência aflitiva dum holofote. Acordar, que já é noite, meio da noite, e é tempo de sofrer.
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Em sofrimento disse, uma vez, à sexta das cinco musas, que sofria. Esperei e recebi silêncio ou nem isso, mas silêncio de indiferença. Silêncio negligente, talvez egoísta de quem nunca se tocou pela dor. Sim, os poetas devem sofrer. Sem sofrimento não há palavras. Sim, mas sofrer por uma musa que exista!... Pois a sexta de cinco musas nem na verdade o foi, porque nunca se aceitou, nem tampouco me consolou quando lhe disse que sofria. Sofria não de amor, mas de morte. Da morte lenta da alma.
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Em saltos suaves de correria pueril, a sexta de cinco musas pisou-me, o prado verde e de papoilas. Os espelhos da casa cómica não se partiram. A luz dos holofotes revelou a crueldade grotesca do não existente.
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O tédio e o marasmo acalmados pela doce esperança numa não esperança, são agora simples e crus tédio e marasmo. O Diabo cobra sempre os seus silêncios.
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O coração esquecido algures mantém-se na caixa de veludo escarlate que não sei onde guardei. A alma chora-se em auto-comiseração. O corpo? Não me reconheço no espelho. Nem mesmo quando mais gordo me descubro mais magro.
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Mato-me. Mato-me matando. Mato assim, aqui e agora, a musa, que não me matando matou. Que não me amando não me deixou ama-la. A sexta de cinco!

terça-feira, janeiro 11, 2011

O fim a chegar

Não tenho dedos para te dar tanta ternura. Mereces que te trate como viola e te dedilhe até cantares prazeres.
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Deitados em lençóis amassados, lado a lado. Deitados e em palavras, em voz densa, mergulhados. Mergulhados num lago de intimidade e afecto.
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Não há horas para tantas palavras. Não há horas para tudo o que se deve fazer na cama. As noites são breves, o resto das horas são sono.
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Não há tempo para as perdas, que os dias correm e amanhecem muito cedo uns anos à frente.
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Mesmo sem o corpo entrar no corpo, o braço estendido sobre o outro afunda-se. Mesmo sem loucura, os cabelos entrançam-se nos dedos da parelha.
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A densa respiração engana. Não é a profundidade do desejo que exala, mas a do sono.
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Horas perdidas. Tempo que se desperdiça e sem pensar.
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Eu sem dedos para te dedilhar. Porque adormecendo. Tu e eles. Só as preocupações despertam. A monotonia é o que resta dum dia, semana, mês de trabalho.
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O fim não tarda.