digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

sábado, setembro 04, 2010

As musas





















Alimento-me de mulheres. Da pele e da carne. Da voz e do olhar. Das mãos que me amam e do meu desejo. Não escrevo se não tiver uma musa que me entre e me abra ou feche janelas. Sem musa não tenho nem luz nem penumbra nem escuridão. Apenas um vazio, espaço onde o nada consegue existir.
.
A musa é alimento. Martiriza-me com desgostos. Anima-me com esperanças. Nada precisa ou pode fazer, basta-lhe estar onde penso que está.
.
As musas chegam e também partem. Voltam quando não as espero. Acordam-me de noite. Seduzem-me e desarrumam-me. Doem-me e saciam-me.
.
Apaixono-me pelas musas e posso amar mais do que uma. Posso não amar nenhuma. Só querendo as tenho. Não aprisiono, vivem secretamente em mim, mesmo desconhecendo.
.
Faço amor com as musas. Desejo-as. E depois de abandonado, pela mulher de carne verdadeira, continuo alimentado por ela. Faço amor com as musas ainda que possa nunca o ter feito com a mulher que traz a inspiração.
.
As musas são pessoas importantes. Sem elas não escrevo ou escrevo desinteressadamente. Sem escrever e sem orgasmo não vivo. As musas dão-me tesão. Na escrita e no corpo. São fadas e são fodas. Amo as minhas musas.

A primeira musa

Por ti, densidade, já me apaixonei, amei e desamei tantas vezes que desisti de deixar de te querer. Serás minha para todo o sempre, como em tempos prometemos. Ainda que não me olhes nos olhos, abraças-me todas as noites durante o sono.
.
Densidade no olhar e na fala, amor profundo numa fonte. Coração aberto, muito grande, e tantas intimidades. Tantas que se as contasse todas estariam tão secretas como antes.
.
Noite a dentro, em vigília, peço a quem pode que nos una. Porque colados andamos nós sem o querermos saber.
.
Invento, de vez em quando, artifícios e amores de substituição. Nenhum medra. Morrem de desgosto, morrem de desilusão, morrem de distância, morrem por quase nada.
.
O amor vai e vem como as ondas. Mas por ti sinto o mar.

As papoilas

Espero que tenhas gostado destas flores que não te enviei, por saber que a língua das flores fala duas línguas, a de quem manda e a de quem recebe.
.
Mandei-as por a paixão inviável mo determinar. Mandei-as sem ter mandado pela certeza de nunca as desembrulhares com o mesmo sentimento de quem as envia.
.
As flores não são um espelho da alma, mas o sussurro dum amante que não sabe o que dizer. Se soubesse não mandaria flores, mas escreveria um bilhete.
.
Depois há os dândis, que, à falta de cultura, banalizam qualquer coisa e, por não saberem escrever, mandam rosas. Quem diz dândis, diz outra coisa qualquer que signifique o mesmo acerca de quem é embrulho de qualquer coisa sem relevância.
.
As flores que não te mandei não têm grande aroma, porque são de estufa. Se ainda o não fossem talvez tas mandasse.
.
Prefiro ir um dia contigo mostrar-te as papoilas e, no meio da vegetação, experimentar a origem do mundo.
.
Antes e depois um piquenique que retire a animalidade aos animais que se querem. Um arrebatamento de civilização que se pode fazer com um só copo de vinho. Partida e chegada de compostura. Origem de sorrisos e rubores.
.
Se me prometeres vir comigo experimentar a suavidade das ervas e os cantares naturais, prometo oferecer-te flores das verdadeiras, das que cheiram bem e mal, apanhadas à beira da cama onde se faz amor.
.
Prometo não contar a ninguém que não sabes o que são papoilas. Só direi que conheces rosas.

sexta-feira, setembro 03, 2010

Estrelas





















Se me acreditasses quando te digo o que penso das estrelas olharias o céu com outros olhos. Não te prometo a abóbada celeste, mas apenas uma nesga de luz distante. Há dias em que o azul-negro do céu tem mais luz do que um dia de Sol. Basta acreditar numa revelação. A palavra certa levanta um véu invisível e toda a luz possível ilumina o que há para dizer. Tudo mais selo com a certeza de que as estrelas não caem do céu.

A namorada





















Preciso duma namorada com quem não tenha de namorar.

quarta-feira, setembro 01, 2010

Alma de Sol e chuva





















Alma de Sol e chuva. No ribeiro. As pedras também dormem, mas ao olhar fingem. Entre as ervas verdes e o frio. São seixos, dizem. Às vezes aprisionados em casas sem campo, às vezes secas. São como as águias e as lebres, as pedras. Penso, não juro, que as flores não se chegam perto. Pelo menos as papoilas, não me lembro. Sob as árvores descansa-se bem. Dos pés doridos do andar sobre os seixos, no caminho do banho bravio. No Inverno, com certeza também no Outono, até na Primavera e em alguns dias do Verão, as águas, que lhe vêm, vêm também do céu. Por isso, alma de Sol e chuva. As pedras não mentem; quando estão molhadas, estão mesmo molhadas. Os seixos não choram, mesmo quando aprisionados em casas sem campo, quase sempre secas.

terça-feira, agosto 31, 2010

Sou da carne

Duvido da existência de Deus mesmo quando oro com empenho e verdade. Se há fé que não é cega é a minha. E tantas provas e iluminações depois. Nasci rebelde de espírito, mas facilmente amansável. Teimoso na descrença, estúpido na compreensão. Senti Deus quando o percebi pela lógica. Porém ainda não o sei amar. Deus é uma espécie de parente afastado.
.
Não tenho altares sacrificiais. Apesar, sacrifico-me ainda que querendo queimar outrem. Sacerdote empenhado e descrente. Sacerdote comprometido, mas ignorante.
.
Sou mais da carne. Tanto que insisto em comê-la, memo sabendo que toda vem dum animal. Não sei de para Deus um animal vale menos do que o homem. Não mato. Mas não condeno quem mata. Infantilmente, chego a desejar uma morte vingadora, mesmo sabendo que a morte não existe. Não mato, mas mato baratas, moscas, formigas e rastejantes de toda a ordem. Será que Deus os ama menos?
.
Sou mais da carne. O meu coração ama mulheres. Amo os amigos. Chego até a comover-me com as pessoas. Amo as minhas gatas e os cães, cavalos, texugos… uma data deles, quase todos. Não agrado a Deus quando não os amo a todos. Mas perdoa-me.
.
Sou mais da carne. E dos olhos. Mesmo sabendo que há coisas que não se vêem e outras que se vêem e não são verdade. Concordam, crentes, agnósticos e ateus. Porque vi a luz, acredito em Deus. Acredito em Deus porque vi a luz. Duvido porque em mim há negrume.
.
A dúvida não abate Deus. A resposta confirma-o. Digo isto porque vi a luz. Mesmo tendo-a visto, duvido. Ainda que ore com muito empenho. Ele perdoa-me.
.
Se amo, acredito em Deus. Ainda que se não acredite em Deus, amar é um luzir divino. Pode amar-se sem acreditar em Deus, mas sem amar não se pode acreditar.
.
Deus tem a vantagem de ser o criador. De amar todas as suas criaturas. De ninguém o ver. De muita gente o sentir ou acreditar. De ser justo e bom.
.
Duvido de Deus não por duvidar da sua bondade ou obra. Porque cada um tem um caminho. Porque muitas são as vidas que nos tornam iguais. Porque diz quem sabe mais. Maravilhosamente mais. Escuto com atenção. Mas sou mais da carne.
.
Sou barro a moldar-se. Obra imperfeita porque incompleta. Quando estiver pronto terei fé. Por enquanto, vou orando a Deus, empenhado e duvidante.
.
Sou mais da carne. Acredito em belas mulheres deitadas nuas numa praia. Na febre da sedução. Na cegueira do desejo. Sou da carne. Mas sou de Deus.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Tímida declaração de amor a uma miúda morena

Para falar verdade, ainda tremo como um adolescente, apesar de morto para a vida que um adolescente deseja. Tremo quando um brilho mínimo alumia meio grão de nada. Tremo por pensar que ainda posso viver qualquer coisa que quis deixar. Sou viciado numa vida que renego. Como um monge, tenho a perversão da abstinência.
.
Há dias que os trinta e nove graus à sombra e a luz ao Sol abanam as certezas dum homem. Na indolência própria dos dias de tamanha calma, uma loucura assalta as vontades. Como um incêndio antes de se descontrolar. Há qualquer coisa de cinematográfico num dia assim.
.
Não há água de mangueira que acuda, porque o calor está mais dentro do que fora. Não é o coração e talvez nem seja a cabeça. Mas os pulmões e a sua vontade insaciável de respirar. Inalar tudo e sentir o aroma da carne subjacente à pele que se quer tocar.
.
Nos dias de estio bruto não são precisas bebidas que escalam cabeças para que a boca diga disparates ou que as mãos os escrevam. Só há tempo para verter segredos, mal escondidos, perante aquela que se quer resguardo.
.
Aconteceu-me hoje. Não fossem tão mundanas e terrestres as palavras e teria dito poesia. Não fossem tão cautelosas e tímidas e teria grunhido sexo. Nem uma coisa nem outra nem meio caminho. Apenas uma infantilidade.
.
A provar que os mortos estão mortos, mas os que se querem mortos não estão. Sem cilícios, penitencio-me renegando tudo o que lhe disse. Cobarde, sim. Mas com palavras de fora já se não é tão inconsequente. Ainda que este amor não corra como um rio, mas que fique quieto como um lago.
.
Afinal também tem a sua beleza. Um amor não correspondido nem accionado. Telepaticamente falhado. Sexualmente imaginado. Nudez de fantasia. Mas nado morto. Havia de ser bonita outra coisa.
.
Por estar voluntariamente morto não me choro nem me doou. Não me ardem as feridas que não tenho. Tremo, sim, porque em alguns minutos senti viver. Em loucura de um salto quis novamente voltar a morrer, antes que ela me matasse de amor ou desgosto.

sábado, agosto 28, 2010

Vou sair logo à noite

Não me deixo de recordar dos amanheceres de Junho. Não me deixo de recordar dos amanheceres de Janeiro. A luz clarividente e a púrpura. Alguém me dá as manhãs e eu, agradecido, acordo nelas. Mas prefiro deitar-me, depois de esperar o raiar, brindando a vida, mas recebendo depois em troca a sensação de dia perdido, de luz desperdiçada.
.
Hoje acordei num momento ambíguo, nem cedo nem tarde. A aquela que já foi miúda acordou-me e desvaneceu-se ao abrir dos olhos. Logo a mim, que tenho uma cama deprimida e solitária.
.
A outra rapariga, a que conheci há dias, não me desperta muito, apesar da sua beleza e escultura. Prova de que olhos de negro profundo e sorriso aberto não são sinónimo de fantasia. Não a quero como mulher nem como objecto.
.
Neste tempo em que se percebe a despedida do Verão não há já as esperanças do começo do estio. Tudo é já certeza e a juventude dos dias deu lugar à maturidade das horas. Quendera os amanheceres de Junho.
.
Ainda não é amanhã que vou à praia. Custa-me ir tão longe para ter prazer ou tão perto para ter cadinhos. O Sol esgota-se desde que nasce e desde que começam os dias. Nasce, morre e renasce antes de voltar a morrer. Lá para Dezembro é fugidiu, em Junho é magnânimo.
.
Tenho uma certa inveja da sua vida. Eu que tenho uma plana e deprimida. O Sol quando tem de se queixar desaparece. Eu tenho que aguentar toda a fraqueza à frente do mundo. Ele resplandece e ninguém repara na minha alegria.
.
Espero hoje ter a largueza de ver o luar. O Tejo, sempre o Tejo, à vista ou adivinhação. Que a luz da noite prometa tanto quanto as dos amanheceres de Junho e Janeiro. Logo mais saberei.

terça-feira, agosto 24, 2010

Os novos amores

.

Dias de viuvez e chuva
.
O odor da cera e do mogno numa casa fechada
.
A luz morta das janelas quase cerradas e o pó dos reposteiros
.
O silêncio da casa e o espaço todo que fora de gatos
.
Na cozinha ainda entra a luz, branca como os azulejos, em alguns dias escura como os dias feios
.
Que Deus permita aceitação da quietude
.
Que nunca a revolta ou a indignação estorvem a morte da casa
.
Nem a naftalina dos armários, para matar as traças dos vestidos negros
.
O soalho corrido ainda tapado pelos pesados tapetes
.
Os candeeiros apagados e as paredes de encardido solene
.
Nem os tímidos ratos surgem furtivos
.
O vazio e a memória dos gatos
.
Viuvez austera. Morte amorosa
.
Fantasma vivo
.
Não deixo que o amor maior me permita amores novos.

sexta-feira, agosto 20, 2010

Meu amor, meu amor

Meu amor, meu amor, estou apaixonado por ti. Um dia vou sorrir das tuas tiradas infelizes e sentir saudades dos teus ciúmes disfarçados.
.
Os dias de pensamentos e as noites de acção. Meu amor, como és bela na escuridão e sob o Sol mais luzente, na penumbra e no crepúsculo, ao lusco-fusco, das velas e do entardecer, das manhãs violáceas. Do frio que cortas as manhãs, da chuva que empapa as tardes e de todo o Sol do Verão.
.
Sonha comigo, meu amor. Que nos sonhos nunca entardece a vida. Nos sonhos não se dorme nem se desperta. E os beijos vão da pele ao átomo.
.
Meu amor, meu amor, que saudades já tenho e ainda não me afastei de ti. Abraçar-te até o meu corpo te absorver e o teu me diluir. Tenho o olhar encadeado e a boca sorrindo pedindo-te mais um beijo. Diga-se o que se disser é como não dizer. Não há palavras certas, só desejos.
.
Agora deito-me e junto a mim a tua presença em ausência. O teu corpo sinto-o e abraço-o no ar que sobrevoa a cama. Sonho contigo, porque nos sonhos não se envelhece. Toda uma eternidade para amar. Do princípio até ao acordar.

quarta-feira, agosto 18, 2010

Alma

Fotografia de alma inteira. Uma espécie de ramalhete nas mãos. Tem tudo, corpo espectral de luminescência variável. Não ter medo de se ser só alma, não ter medo de ter perdido o corpo que a ela estava agarrado. Saber correr com o pensamento. Não ser uma pessoa só, ser muitas. Muitos corpos para uma só alma. Não ter medo de dizer, a quem souber ouvir, o que vai na alma. Não ter medo de surgir nas fotografias. Aparecer de corpo inteiro, com o corpo que as almas têm.

segunda-feira, agosto 16, 2010

Antes de deitar

Deus é aquém de alfa e além de ómega, imagino eu. Mas duvido, porque é mais do que uma viagem de circunavegação infinita num alfabeto e mais depois. Duvido, porque Deus é todas as coisas pequenas. E todas as grandes. E as partes pequenas das pequenas. E as grandes das grandes. Duvido, não sei se é tudo, porque tudo é o universo. Sei que não é nada, porque há tudo. Não sei o que é Deus. Sou pequeno para saber, mas sei que é grande para nela caber. Os meus olhos não o vêem, o coração pressente-o e a alma sente-o.

Como o céu no cenário dum teatro





















Beijo, nas águas claras do amor. Dias de poucas horas. O céu, nos dias e noites de beijos, tem aura de encanto. O descobrimento das bocas, o desejo dos corpos e a ternura dos olhos.
.
São cidades que se descobrem, os medos e as alegrias.
.
Beijo como porta de sala sem paredes. Quadrado mágico, árvores de sombra e céu denso e escuro, como o cenário dum teatro.
.
As águas claras do amor são de chegar e ficar. Vidro pausado em descanso, mesmo com vento de outras coisas.
.
Sobre as águas claras do amor levito quando penso em amores antigos, no amor maior e na nostalgia do futuro. beijos que dei e esperança nos que darei. Só posso sonhar e desejar.
.
Como se chovesse, afundo-me na tristeza dos dias sós. Angústias de quem não ama e diz já não saber voar.
.
Porque o coração sem dono tem sempre alguém que ama.

Rio de angústia

É como um rio que nasce e corre, cada vez mais caudaloso. Rio de Inverno, ganhando corpo e força. Perigo de transbordo e afogamento.
.
Angústia ao acordar. Às horas úteis do dia. Ao deitar. Até amanhã. Acordar numa vida que não se quer. Ver a chegar a vida que não se quer. Ser quem não se quer. Angústia nas horas mortas, nas horas de sono e em todas as outras horas.
.
O corpo sempre em tremor. Um lugar de esconder que não esconde. Um sono que não é eterno. Por que teimam em passar todas as horas em que se dorme? Por que pastam lentas as horas de olhos abertos?
.
Rio que corre e traz sedimentos de qualquer coisa que se desconhece. Rio que traz angústias para a esperança. Rio de lágrimas. Rio dos que se querem mortos. Angústia em todas as horas.

terça-feira, agosto 10, 2010

Campo no Verão, e outras coisas que não te disse e não vivemos e que gostaria

Se chovesse. A água que limpa e seca as lágrimas. A terra abraça depois da chuva. Aroma de pertença a uma família.
.
No Verão há refresco na água. À sombra das árvores descansam carne e ossos. Os pensamentos aliviam-se no vento e a alma levita com os cantares avoantes.
.
Um avião passa lá no alto, e fica o rasto do seu voo. Mudo em todo o tempo em que traçou a linha feita de nuvens. Cá, imagino as conversas de lá. Sentimentos e ânsias. Imagino pessoas e destinos.
.
Sou da cidade. Nos caminhos velhos doutra Lisboa há província e azinhagas. Memórias toponímicas. Sou da cidade e cabem em mim jardins bucólicos. Nostalgia do tempo em que não era vivo.
.
Agora neste prado com árvores e ribeiro não tenho tempo. Existo porque vivo. Vivo sem que me doam os dias. Só dores de gente crescida. Dias sem fim. Noites de confissão.
.
Noites de confissões, sentados à porta da casa, sob uma árvore, vê-se o céu, contempla-se a vida. Pensa-se em Deus e no infinito. Todas as questões sem resposta. Vêem-se estrelas. Será alguma a nossa? Ouvem-se grilos ou cigarras. Sou da cidade.
.
Noites. Conversas intermináveis. Conversas justas. De Amor. De vida. No Verão, à noite, pode estar-se abraçado lado a lado e sem tocar. No calor. No frio o enlace é no lume. Agora é Verão.
.
Gosto de árvores: das oliveiras velhas, porque belas. Azinheiras, sombra. Laranjeiras, fruta. Figueiras, aroma. Ciprestes, alma. Em algumas há formigas, comichão.
.
Sob a árvore grande estou estiraçado ouvindo o ribeiro, cigarras, pássaros e outros irmãos. Sob a árvore grande olho o céu sem nuvens nem pressa. O avião foi e o trilho dissipa-se até à inexistência. Só as minhas palavras lhe dão memória.
.
A tarde passa-se. A tarde esvaiu-se à sombra, regada pela música ribeirinha. Alguma sede. Preguiça de beber. Sou da cidade: deambulando pelas azinhagas do prazer bucólico.
.
Que bem me ficaria a imensidão das charnecas frente ao mar. Ainda seria da cidade? Não vivemos.

sexta-feira, agosto 06, 2010

Nada por tudo

Invejo os filósofos e os físicos teóricos, não têm de provar nada... e também os escritores que não querem provar nada... e os gastrónomos que querem provar tudo.
.
.
.
Nota: Como não é nada óbvio, eu explico... mas só uma vez... o quadro chama-se «A lição de filosofia». Ficou giro, não ficou?

O melhor bolo de chocolate do mundo





















Farto-me de rir (irritado q.b.) quando me vêm dizer que a coisa é a melhor do mundo. Perdoo nas conversas informais, mais ou menos sérias. Aprovo na paixão ingénua. No deslumbre da coisa nova. Não tolero no auto-elogio.
.
Registar um bolo de chocolate como o melhor do mundo pode ser um bom número de marketing. Mas maior é a parolada de tal afirmação. Só acredita o patego, o crédulo estúpido, o ignorante distraído.
.
O «melhor bolo de chocolate do mundo» é banalíssimo, desinteressante, desimaginativo. É uma fraude. É ridículo. É parolo. É estúpido. Nem para saciar a fome de açúcar é competente.
.
Podem afirmar ser o melhor bolo de chocolate do mundo, mas não deixará de ser uma acusação injusta e infundada. Prefiro o bolo de chocolate do Pingo Doce.

quinta-feira, agosto 05, 2010

Nostalgia pungente, persistente. Um texto infeliz, no género, no modo, no conteúdo, no objectivo, no resultado final.

Sou nostálgico. Nos sentimentos sou nostálgico. Consigo amar, amo todas as que amei, e ao mesmo tempo, nas evocações do tempo. Sofro com todos os sofrimentos passados, como se nunca tivessem passado. Sinto vergonhas antigas e arrependimentos longínquos.
.
Sempre nostálgico, sinto diferentes nostalgias. Não duma época, mas de vários momentos, ao mesmo tempo. De várias pessoas. Da tristeza à felicidade. Riso tenho tido pouco desde há uns anos. A felicidade não me bate à porta, apesar das gargalhadas.
.
Vivo entre o vermelho escuro de Bordéus e o lilás, no ameaço de negro, na promessa, nunca cumprida, de laranja. Nos desertos, do branco e do negro. Dez anos tem muitos dias. Alguns de alegria, de tonalidades felizes, antecedendo o firmamento nocturno, boreal.
.
Não sei se trocando beijos. Não sei se por engano. Não sei se por engano de ilusão. Não sei se de boca fechada. Não sei se de propósito. Não sei se por desgosto. Quase sempre em solidão. Quase de certeza em solidão. Nostalgia.
.
Quando me perdi de ti ou te perdeste de mim. Dias de pungência, da dúvida, da injustiça, da incompreensão, de desaire, de fim, de tudo, de nada. Toda a música posta no lixo, amarrotada. Tanta música sem préstimo, contaminada por ti. Música ensopada em nostalgia.
.
A agulha grossa de croché escarafunchou. O sangue procurou vida nova. Na surpresa, esta música. Na nostalgia dos dias antigos, mas purgada de ti. Nova música, como uma sala onde nunca estiveste. A mesa onde nunca comeste, que virginal se guardou até à desistência. Não por amor primeiro. Não por amor maior. Mas por amor de desistência.
.
Desisto de nostalgias. Desisto de ti. Mas a nostalgia não vai e tu também não. Voltas nos sonhos quase diários. Regressas aos espaços e às coisas. Invades as memórias de outras. Deitas-te na cama, esteja eu só ou acompanhado.
.
Nostalgias. Amo-as a todas, mas mais a ti, amor maior. Amo-te nos dias vagos, nos dias úteis. Nas horas mortas e nas de sonho. A música que não é tua, os lugares que não são teus, têm-te, porque neles noto a tua ausência. Nostalgias.
.
Amo-as a todas e ao mesmo tempo. Viúvo de todas, mas só beijando um fantasma.

Amor, do zero ao infinito ou o seu oposto
















Quero desapaixonar-me. Abdico destes tremores e gelatina no abdómen e pensamentos obcecados. Comigo não são borboletas no estômago, são aves brincando no ar.
.
Amo ninguém, mas amo. Derramo amor pelos lençóis em que durmo. Sem fazer amor, suo noite fora, desejando uma pessoa inexistente.
.
Não amo uma ausente. Amo a infinidade do zero. Sonho com arranjos florais sem destino. Enlevo-me com todos os olhares de doçura. Os toques suaves de pele, os silêncios de encantamento.
.
Deitar fora todo este temor. Abandonar todo este tremor. Estou capaz de cortar os pulsos por desassossego. Não aguento os suores, as esperas, as efabulações, os receios, os desejos, as angústias, as horas, os sonos, os sonhos, os momentos felizes passados, os momentos felizes por vir, a primeira noite, a outra a seguir, e a outra, e a outra e a outra.
.
Há quem ame e não seja correspondido. Há quem deseje. Há quem seja correspondido no amor. E na paixão. Há os que amam viúvos. Há os que amam fantasmas de pessoas vivas. Amo ninguém. Desejo ninguém. Mas, mesmo assim, amo.
.
Amo de loucura como todos os apaixonados. Fervilha-me o sangue e sinto ansiedade pelo momento em que, por fim, estaremos juntos. Não tenho paixão física. Nem tão pouco espiritual. Não tenho enlevo intelectual. Paixão: infinito ama zero. Zero não pode amar infinito.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Derrame

Derramado, luto para que as próximas horas não sejam a dormir. Preguiçoso ou cansado, demoro-me pendente de alguma coisa que quero que aconteça, mas que não tenho coragem para fazer acontecer. Como se estivesse muito bêbedo.
.
Muito bêbedo, deitado, abraçado pelo colchão. Os sapatos tirados a sopapo com os pés. As calças abertas para saírem, mas ainda a meio-rabo, pesado como um hipopótamo. A camisa aberta, sem sair, esmagada pelo torso. Os óculos esquecidos algures, ao alcance duma das mãos, que não se sabe qual. Duas mãos, duas pernas, quatro membros, nenhum se move com o outro. Movimentos independentes. A cabeça desencaixada.
.
Como se estivesse muito bêbedo, debruçado sobre uma almofada quente, quase a escaldar, mas donde não se sai. Esforço. O esforço de não fazer esforço de sair de tamanha letargia.
.
Há esperança num objectivo. Algo que convença a cumprir a vontade de cortar a dormência e anular horas de sono de tédio e ócio. Que objectivo? Vontade de dormir sobre o assunto. Decisão sempre adiada.
.
Não pensar mais. Um longo suspiro e um gesto brusco, como um salto suicida. Levantar. Upa! Já está. Já não há corpo debruçado no parapeito da preguiça.
.
Momento indeciso. Pendente. Balanceado. Cai, não cai. Para a frente não cai. Ânimo. Vitória. Orgulho. Descanso. Cair para trás.
.
Derramado, caído por terra num leito. Desejo que as próximas horas de ócio não sejam de dormir nem de tédio. Como se estivesse muito bêbedo. Duas mãos, duas pernas, quatro membros, nenhum se move com o outro. Movimentos independentes. A cabeça desencaixada.

terça-feira, agosto 03, 2010

A ilha





















Só mais além. Acabou-se. O destino só não tem fim, porque sempre se pode voltar para trás. Ter coragem para ficar, ter coragem para retroceder. Se ficar não tem futuro, voltar só tem passado. Para além, nada mais.
.
Precipício e eu sem asas. Um monte alto, escarpado, ilha agreste. Tanto faz silêncio, tanto faz vento. À volta, o mesmo céu mais que negro ou o Sol matador. O mar revolto, armadilha para corajosos. De lá não se volta.
.
Nem frio nem calor, mas solidão. Dias de diálogos de mim para comigo. Noites agitadas de ansiedade. Pequeno demais para ser um reino, de um homem só. Agulha de vento rodeada de nostalgia a toda a volta. Ilha dos medos e das certezas.
.
Além desta circunferência tosca não há nada. A esperança é o sonho, a realidade é de vento, granito e salpicos de sal. Voltar, só para o centro deste reino de um homem só. Para além, nada mais.

domingo, agosto 01, 2010

Cama

Quando conheço uma cama estranha lembro-me de ti. Nos hotéis, nos lençóis imaculados. Na minha cama. Na cama de outras. Em qualquer cama. Lembro-me em toda a ausência. Lembro-me além de ti.

sexta-feira, julho 30, 2010

Tempo de calor. Calor de tempo.

Nem este calor detém o tempo. As chamas invisíveis do Verão não vão além da pele, mas quendera me consumissem a alma até à existência.
.
Os amores antigos já foram verdes e maduros, já caíram no chão, apodreceram e foram hoje seiva nova. Em árvore velha não nascem frutos.
.
Queria que o tempo parasse até que fosse tempo de tempo novo. Vida em suspensão, na ânsia de um beijo volátil, com toda a beleza do que é efémero.
.
E se só eu parasse, expectante e curioso, suspenso também no ar, a ver a vida em trezentos e sessenta graus, com seus degraus, correrias, arrelias e sorrisos, noites de tudo e dias de nada?
.
E se eu parasse, por um instante, inquieto com a não paragem do tempo? Que doces frutos poderia então trincar. Entre o maduro e o verde, vivos de água. Sem culpa, respiraria.

sexta-feira, julho 23, 2010

O arbusto





















Se não sou de ferro é porque suo. Mas suando tanto não chegarei a ser, um dia, de ferro. Serei erva alta que se dobra com o vento, que espero não se vergue, mas apenas dobre. Não serei árvore, que é dura como um castelo, mas se quebra. Não quero ser arbusto, forma mínima de ser árvore, que se verga e quebra. Quero ser cabelo que voa pendurado ou nada dançando. Ou nada. Nada disto. Não ser nada, não existir: sem vergar nem balançar nem ir nem ficar. Pairar no éter como uma medusa, coisa entre o vivo e o não vivo. Entre o fantasma e o médium. Ser de plasma e alma de sentimentos e sem perdas. Entre o vivo e o não vivo.

domingo, julho 18, 2010

Esperança de estar quase a brindar





















Não há como. Seja Verão ou quaisquer outros dias, não vejo o momento em que possa voltar a beijar as águas tranquilas de sono e vida. Se agora algum Sol entra pela minha janela, não esqueço que o céu está ainda escuro e que são precisos muitos dias soalheiros para que me sequem as lágrimas. Ainda assim, tudo é ainda uma esperança, que espero não seja mais uma que se vai numa chuvada súbita. Muitas luas de tristeza, de sonhos acordados e outros desejos. Muitas horas numa sauna a pensar nos dias que se querem de abundância e na felicidade que o dinheiro pode comprar. Espero que este Sol fique como o Verão e perdure por longos dias longos. Que venham mais dias e dias e dias de felizes horas, em que possa ter mais do que pão.

sábado, julho 17, 2010

Mãozinhas

Deviam de me dar umas mãozinhas de madeira, para pôr nas outras mãos, para que não escrevesse nada que não devesse ser escrito, ou que, se escrevesse, não escrevesse, ou que, se escrevesse, não tivesse escrito.

sexta-feira, julho 09, 2010

Passados

Há passado que queremos esquecer e passado que queremos lembrar. Pior é quando o que queremos lembrar nos quer esquecer.

domingo, julho 04, 2010

Sexo oral


Parece-me que não há palavra bonita para uma coisa tão boa. Mesmo quando mal feita, essa «coisa» é prazenteira, como o sexo oral… aquele em que uma boca abocanha, cabeça e corpo da piça... não sei se se escreve piça ou pissa, mas a coisinha é a mesma e, neste termo, refere-se normalmente ao seu estado erecto.
.
Mas o que chamar? Broche é barrasco, tipo cuspir no chão. Mamada não é menos, é alarvidade leitosa. Chupada, acho que nem ouvi, mas padece de falta de gentileza.
.
Felácio é uma intelectualização, uma evocação do termo latim – duvido que um professor de latim o diga ou uma académica o faça usando tal palavra. Mesmo querendo ler um livro enquanto o fazem, o alegre beneficiário não conseguirá concentrar-se nas letras ou na boca que lhe torna a piça em chupa-chupa. Não passará de pesporrência intelectualóide:
- Querida faz-me um felácio…
Ou melhor:
- Faça-me um felácio.
Mal se pronunciasse o vocábulo, a parceira perderia toda a tesão para fazer, caso não rebentasse a rir ou a chorar.
.
Tomás Taveira, no seu impagável vídeo de final da década de oitenta ou início de noventa do século passado, falava ao telefone enquanto lhe faziam a pregadeira. A avaliar pelas imagens e pelo tom de voz, ou não estava a gostar do que lhe estavam a fazer ou não estava a ligar grande coisa ao brochedo e à chamada.
.
A propósito de chamada, no caso a propósito da chamada de Tomás Taveira, há quem lhe chame chamada para Tóquio. A expressão não evoca nada de oriental, mas lembra um título de filme… imaginem um filme negro, com Humphrey Bogart, chamado «Chamada para Tóquio». Parece-me plausível.
.
Mesmo pensando num idioma que não é o meu, a coisa não é fácil… blowjob… blowjob? Trabalhinho de soprar? Trabalho de operário vidreiro. Pipe em francês, cachimbo?
.
Voltando à língua de Luís de Camões, de Fernando Pessoa e de Herberto Hélder… Quanto a bico… bico? Fruto do aguçar da glande? Coisa piramidal? Angulosa e fria? Bico, não. Não pode. Além de não ter, à primeira vista, grande lógica.
.
O tanas, é que não tem grande lógica. Os linguistas que o dizem nunca pensaram na arte da mamada, do broche, da chupada, da chamada para Tóquio, da pregadeira e do bico. Pensemos um pouco: Em galego, nossa língua ou nossa língua-avó, conforme preferirem, bico quer dizer beijo. Ora, o que é uma mamada do que um valente, guloso, sensual e prolongado beijo? Para mim, bico ainda é a melhor solução.
.
Mesmo assim, não há palavra ou expressão que diga tão bem o bom prazer. Há falta de melhor, uso as palavras todas em forma de pedido. Já ia um!

quinta-feira, julho 01, 2010

Gata, gatinha, canalha, que não voltas




















Tive uma namorada, nos dias mais fáceis, que era uma gata. Por causa dos olhos verdes, pela expressão serena e inteligente, pelo maneirar gato, em imitação perfeita dos seus banhos, pelo desapego sentimental aparente. Um dia abri-lhe a janela e saiu com a natural leveza das patinhas. Não lhe perguntei onde ia nem se voltava. Como gato livre, foi-se pelos telhados. À Lua viverá, sem dúvida, enquanto eu fico no beiral frente ao vento na esperança de ver o seu salto delgado e ágil. Como gato que abandona o dono, a minha gata já nem olha para mim.