digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

segunda-feira, maio 31, 2010

Verão





















Agora as árvores têm os braços abertos. O azul celeste não esconde o pouco vento atropelado pelo calor.
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É tempo dos amores, ou das paixões, melhor dizendo.
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Numa sombra derramo para dentro a limonada, a mais desejada. Logo irei estar feliz por este momento. Prolongamento feliz da visão, do que ficará na memória. Esta sombra é o ócio, o tempo com tempo para ser tempo. É dádiva de deuses pagãos.
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Tardes destas são as terras mediterrânicas, das oliveiras e das figueiras. O vinho para o entardecer suave e ébrio.
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Reza-se pelos amores que hão-de vir. Reza-se pelos que foram.
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À sombra, com uma limonada, aguarda-se, sem pressa, a noite quente, dos terraços e das praças. O pôr-do-sol diante dos olhos e os dias longos. A fauna em festa dia fora. Tempo de felicidade.

domingo, maio 23, 2010

O amor é complicado

Mesmo que o amor fosse espelho, a esquerda de um seria sempre a direita do outro. Não há hipótese, nunca se é igual. Por isso, por vezes, o amor acaba. Por isso, por vezes, um amor começa. O amor é complicado.

Capacidade de amar

Sei que vai parecer estúpido ou inteligente, em sentido literal. Parecer burlesco ou deprimente, quando deduzido. Lamechas ou arrogante, conforme se quiser. Piroso ou tocante… Mas vou escrever à mesma.
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Gosto de pessoas. Como poderia não gostar de pessoas? Paternalismo? Soberba? Um afecto que me esburaca por dentro quando me comovo. Comovo-me com facilidade. Dizia-me uma namorada que eu sou uma mimosa, forma mais imaginativa de flor de estufa. Não sou sentimentalão, sou sensível.
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Estava eu no Facebook e vi uma fotografia, de alguém que não conheço, e senti vontade de conhecer. Porque me pareceu ser bom homem. Porque atrás daquela fotografia tem quem o ame. Quem não o ame. Tem sonhos e tristezas. Alegrias e enganos. Já foi mais novo e não se sabe até quantos chegará.
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Gosto tanto da espécie humana como, às vezes, a odeio e mostro profundo desprezo. Mas amo. Porque não se pode viver sem amar: as pessoas, os animais, a vida, as flores, as grandes árvores… tudo pode ser amado. Digo que amo tudo, até o que não amo. Esquizofrénico, ambidestro mental.
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Odeio o mal que há nas pessoas. Repudio a mesquinhez, a soberba, a falta de princípios, a boçalidade… mas não deixo de gostar das pessoas. É amor e não paixão. Não é um amor grande como o de Cristo. Mas é amor.
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Tenho amor ao mesmo tempo que tenho desavenças, intrigas, sofrimento, pânico, depressão, cinismo, hipocrisia, mentira, premonição, predefinição, preconceito, interesseirismo. Tenho essas coisas todas e mais outras que não me ocorrem.
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Gosto das pessoas. A velhice dá-me ternura, apesar de saber que um velho não é sinónimo de boa pessoa. Gosto da maternidade. Gosto da paternidade. Gosto da irmandade. Gosto da amizade. Alegro-me com os sorrisos, mesmo quando estou triste e, até mesmo, com lágrimas. Revolto-me com muitas coisas, mas quase nunca ajo… muitas vezes para, depois, não me comover mais. A infância dá-me ternura, pelos olhares do progenitores, familiares, amigos e todas esperanças, embora saiba que muitas criancinhas serão, um dia, filhos da puta.
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Não há amizade interesseira. Ou há amizade ou não há amizade. Pode haver traição, acabando ou fazendo perigar a amizade… mas interesseirismo não combina com amizade, são antónimos.
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Tenho medo da doença. Afligem-me os doentes, enterneço-me com a morte. Não uso luto. Razão provável da minha dificuldade em fazer o luto dos amores passados e da amizade que deixou de o ser. Quero amar toda a gente, ser amigo de todos… acredito que é possível. Sou mortal e pecador, longe da angelitude, longíssimo de Cristo… a muitas eternidades de Deus.
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Amo todas as minhas ex-namoradas. Não deixo de amar nenhuma. Estão todas arrumadas na sua gaveta. Como estão os amigos. Quando as recordo sinto todos os bons momentos que tivemos e aí volto a ama-las. Depois distraio-me com qualquer coisa e volto a não amar ninguém.
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Também amo os animais, a comida que me alimenta e o vinho que me alegra. Há o amor maior de todos que é o da mãe… que é tão grande quanto o de sua mãe, porque era mãe da mãe. De lá para cá, há a reciprocidade da parentela. De lá para cá há o amor de Cristo que é maior do que o dos homens, que ama mais do que o amamos. Há ainda o amor de Deus, que é maior que o amor maior de todos.
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Ainda não estou em momento em que pense na minha salvação. Deixo que outros sejam anjos e conformo-me com a minha mundanidade, com o tamanho pequenino da minha alma. Preocupo-me ainda mais com o corpo do que com a alma. Mas amo, já sou capaz de amar e amo muito, amo muitos e quero amar mais.

Que caminho seguir?

O destino é um livro escrito por nós. Confesso que dou muitos erros ortográficos e faço muitos enganos gramaticais.

terça-feira, maio 18, 2010

Fora de mim

Entreguei o que restava. Todo, estou por outros corpos. Fora de mim. Como é possível o furor quando se está fora de si? Por isso, calmo. Por estar fora de mim.

Queda serva

Não tenho certezas. Deixei-me disso quando a vida me atropelou. Certo, pouca coisa… e talvez já sejam demasiadas. Deus, que nunca vi, Cristo, que nunca me falou, e o amor por uma mulher numa outra vida.
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Quando me empurraram vida abaixo julguei que haveria um momento em que me estatelasse no chão, numa dor profunda e cega, capaz de matar, depois de muito sofrer e de temperar a carne com dormências.
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Quando me empurraram vida abaixo julguei que bateria no fundo. Ainda não bati. A vida continua a teimar na queda e, no escuro, não vejo onde me agarrar. Ainda que visse não tenho forças para me levantar.
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Só um elevador me fará subir. Ou uma outra vida. Ou uma mão benigna de anjo. Continuo a cair, agora com a angústia dos suicidas de se jogar para o abismo. Continuo a cair, desejando o embate que me leve. Que me leve a dor aturdida, que antecede a dor brutal do impacto no chão.
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Continuo a cair. Em mim não há sono que me vença, para que sinta cada momento do desgosto. Continuo a cair na desilusão. É uma outra certeza… e a incerteza é se pararei de cair.
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Continuo a cair.

Sono da morte





















Não quero dormir. Quero morrer e só acordar amanhã.

quarta-feira, maio 12, 2010

Quando deixei de rezar não me senti mais só. Quando deixei de rezar foi por uma revolta por Deus não me dar o que quero. Deixei porque todo o egoísmo pode caber numa oração. Porque toda a gratidão deve existir nas palavras da fé.
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Quando deixei de rezar não me orgulhei disso. Apenas abandonei Deus, como ele nunca mo fez. Abandonei-me, pois. Deixei de pedir, porque não vi satisfeitas as minhas preces de pedinte.
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Na verdade, sou um homem de pouca fé e muito egoísmo. Por orgulho deixei de pedir até aquilo que todos desejamos… o amor, a saúde e a amizade. Já agradecimentos, pouco os fiz.
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Sou um homem de pouca fé. Sou um ateu dentro dum crente. Ou um ateu crente. Agnóstico sei que não. Porque o meu umbigo é o centro de todo o universo e os meus pedidos ordens.
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Deixei-me em pausa com Deus, mesmo sabendo que me ama. Merdifico todas as relações, corroo todas as teias. Como um lacrau que não resiste a picar-se, matando-se. Assim, mato-me aos poucos, estrago o que me dão, mas exijo ainda mais.
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Incinero-me nas chamas dos pecados, por um gozo estúpido que não gosto e digo não desejar. É um impulso forte para o salto sem rede sobre o precipício. Vontade suicidária, antecedendo o choro e a auto-comiseração ingrata, laudatória e cínica.
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Sou um poço de negrume, fantasma deambulando no Purgatório, desejando o Inferno. Não pertenço a nenhum lugar. Quero-os todos e desisto. Deus dar-me-ia o consolo e o equilíbrio, mas como um lacrau, suicido-me... aos poucos.

domingo, maio 02, 2010

Única

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Ainda hoje, às escondidas, te escrevo palavras de amor. Faço-o por seres única, a única. Berço das esperanças e das certezas. Abraço de mulher mãe de filhos por nascer. Por ti, acredito na imortalidade do amor e na clarividência das linhas da mão. Os beijos foram globos celestes, cúpulas de planetário, e onde hoje se deleitam as memórias. Deixados vazios no escuro, esperam por uma outra luz, encontro de mãos, para que se acendam como um carrossel de feira. A esperança é sempre filha da tristeza. Mas há também a certeza de que haverá novos dias bonitos.

terça-feira, abril 27, 2010

Quietude

A fonte dos enganos tem água límpida, disfarça-se melhor na transparência. A água que brota em sobressaltos é mais justa do que a tranquila, porque não se deixa morrer nem desmaia, desistente. Luta, porque tem de viver. Beija-se melhor na companhia do borbulhar do que na pasmaceira e do chilrear pequenino. Mas sou cinzento e quieto, descuidado desfaleço, aprontando a morte na tristeza dos nevoeiros. Não beijo, apenas junto dos lábios e humedeço os outros.

Até que uma noite ou a morte os una

Contigo partilho os dias de solidão. Tu tão longe e eu aqui. À noite juntamos o que o dia separa, em sonhos partilhados em duas camas diferentes.

Fonte temperada





















Numa fonte de temperada Primavera, deixo-te em segredo as palavras que sempre te quis dizer. Nada de muito complicado, a simplicidade das coisas grandes, os afectos de todos os dias. Palavras por embrulhar, depositadas apenas nos seixos que orlam a água limpa, brilhante. Doces, de atrair os pássaros. Doces que os pássaros bicam, mas não comem. Em segredo deixo-te poucas palavras, que conhecerás a minha revelação no primeiro instante em que as leias.

sábado, abril 17, 2010

Até já

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Nada a dizer. Nada a acrescentar. A minha voz está muda e os meus ouvidos tapados. Prometo voltar. Até lá vou contando dias e horas de tédio. Juro que prometo jurar amor eterno. E fidelidade absoluta.

quinta-feira, abril 08, 2010

Como o Mondego

O meu pai ensinou-me que se chamava bazófias ao Mondego. No Inverno é caudaloso, mas tímido e magro no Verão. Assim estou eu na paciência escrita, nas ideias, no esforço... magro como o Mondego.

quarta-feira, março 31, 2010

Mioleira





















Emocionalmente já tenho os miolos esporrados na parede da casa de banho. Na prática ainda estou a poupar para comprar uma pistola.

terça-feira, março 30, 2010

Mulher-gata





















Já é mania... ou regra. As minhas gatas ronronam e fogem. Penso que é uma característica tipicamente feminina: charme, delícia e abalada para que se vá atrás apaparincado. Ou então é mesmo sina.

sábado, março 27, 2010

Texto dos quatro anos

Foi há quatro anos e não parece que foi ontem. Parece que começou na infância, num tempo escondido. Na altura tinha reencontrado o amor maior num sítio do acaso. Ela estava bonita como sempre e também blogava. Foi estranho, como é sempre estranho quando se encontra o amor maior quando já só é espuma.
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Onde estava eu há quatro anos? Sensivelmente no mesmo sítio. A mesma melancolia… o tédio, a desesperança, a tristeza, a solidão. Houve amores de vai-e-vem, mas nada de especial… ou sem nada de especial que queira partilhar.
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O resto já se sabe: muitas letras, muitas imagens, uma média superior a um texto por dia e sempre a vontade de escrever novo, escrever diferente e escrever interessante… apesar de muitas vezes me confundirem com a escrita e com as personagens.
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Nota 1: Dedico este texto à Calvin, que blogava antes de eu blogar e que, infelizmente, se deixou disso.
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Nota: Este texto devia ter sido escrito a horas, para figurar no dia 24, que é o momento astral do infotocopiável, mas a distracção e o estado de presença…

Túnel de tédio

Deve haver uma saída qualquer, ainda que não se vislumbre uma fresta para entrar a luz ou ver o mundo lá fora. Dizem que a solução não pode ser a explosão das paredes e tecto desta monotonia. Digo-lhes que aos empurrões não se chega lá.
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Há três dias deitado em tédio. Os olhos rasos de tédio. Os ossos cansados de tédio. A boca sôfrega, quase engasgada, a sufocar de tédio.
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Afinal a nesga… da nesga não se vê o mundo lá fora. Depois do breu de dentro de mim, há o breu da casa, o breu do jardim, o breu da rua, o breu do mundo. Por vezes parece que a única luz é a que vem da escuridão da cova de sete palmos.
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Este túnel parado há-de ir dar a algum lado… nem que seja aqui.

A tempo da tristeza

Este nosso tempo quase perfeito. Este tempo de indecisões coloridas. Vejo flores silvestres represas em jardins tristes, árvores grandes em espaços privados e fauna pequena onde precisava que estivesse um leão devorar-me.
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Tempo quase perfeito, sem horas de estar e pertencer ao tempo que se faz de sol, sombra, penumbra e escuridão. Luzes calmas rentes ao chão. Aragem boémia. Porém, a mesma solidão.
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Em mim, amores. Ontem, amores. Amores perenes. Amores de ida e volta. Traços de laranja no azul celeste a perder-se na tarde. Um tempo haverá de amores novos.
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Um dia, no jardim triste, a minha solidão desimportar-se-á de todos os instantes de vacatura. Um dia, o tempo quase perfeito. Amores só de ida e tempo sem volta.

quinta-feira, março 25, 2010

Tempo





















Deve ter havido um início do tempo. Algures no princípio do universo, Deus quis. Aquém de todo o tempo, além da eternidade, Deus é. A questão está em saber onde estamos. Por mais que puxe pela cabeça, não me lembro quando nasci. Por que haveria de entender o que é o tempo e sua importância na eternidade?

quarta-feira, março 24, 2010

Quatro anos de infotocopiável

Quatro anos! Nunca pensei que durasse tanto. Aliás, nunca pensei se durava ou se deixava de durar. Que venham outros tantos.

quinta-feira, março 18, 2010

Memória por instantes

Hoje no jardim da Parada cheirou-me à Feira Popular. Chegou-me ao estômago e ao cérebro uma mistura de saudades, desejos, diversão e fascínio... o espaço, a multidão, as pinturas murais, as atracões mecânicas, a casa dos espelhos…
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A Feira Popular era a parte boa dos circos. Sem palhaços nem domadores de feras, sem contorcionistas nem equilibristas. Só a parte boa, o aroma das frituras de churros e farturas, da carne a grelhar, o frango, das saladas a puxar ao vinagre, frescas.
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Veio-me, assim, a velha Feira Popular ao nariz. Devia ter ficado ali parado a absorver as memórias? Preferi vir embora para que a nostalgia fique onde está e guarde dela esse manto invisível de amor não correspondido. Como se, muitos anos passados, reencontrasse o amor maior e não lhe falasse, apenas ficasse a pensar o que teria sido a vida se nós não tivessemos chegado a um fim. Em qualquer caso, é melhor não saber, não ficar, não vá o espelho estilhaçar-se.
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Nota: Vi-me aflito para ilustrar este texto e, mesmo assim, não consegui o que queria.

Objecto

Uma mulher-objecto não entretém como uma obra de arte, porque deixa de o ser. E deixa de ser desejo, porque objecto. Já na fotografia erótica e pornográfica a estória é outra, porque aí podem gozar, e largo, com as caretas dos onanistas e suas barrigas gordas ou magrezas doentias.

terça-feira, março 09, 2010

domingo, março 07, 2010

Espelho





















O outro lado do espelho é tão vasto quanto o de cá. A vista alcança menos no inverso, mas está tudo quanto é útil ou despropositado ao homem. Alice também lá foi e espero, numa próxima, visitar, alucinado com qualquer substância que faça partir. Porque para se encarar com seriedade o oposto há que o desconstruir para virar.

sexta-feira, março 05, 2010

Chinelos





















Estes chinelos vão fazer, em Junho, dez anos. Lembro-me muito bem do dia em que os comprei e do Sol e praia que os abraçaram no começo. Nesse tempo acreditava piamente no amor, apesar das palavras premonitórias dum abismo próximo.
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Parei a olhar para eles e para o tempo que desde então passou. Outros chinelos teriam desesperado e partido há muito. Estes ficaram, como se tivessem esperança de me reencontrarem com o amor e com quem partiu.
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Por causa deles pensei nos outros que tenho, de Inverno. Não vão durar tanto, como não durou tanto o amor que tive quando os comprei. Estes estão rotos e partirão em breve, como foi já a esperança dum novo assombro.
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Tive amor da cabeça aos pés. Agora tenho um sentimento vago, que calco e desprezo. Um dia, se as encontrar, dou-lhes com os pés.

Chinelos

Estes chinelos vão fazer, em Junho, dez anos. Lembro-me muito bem do dia em que os comprei e do Sol e praia que os abraçaram no começo. Nesse tempo acreditava piamente no amor, apesar das palavras premonitórias dum abismo próximo.
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Parei a olhar para eles e para o tempo que desde então passou. Outros chinelos teriam desesperado e partido há muito. Estes ficaram, como se tivessem esperança de me reencontrarem com o amor e com quem partiu.
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Por causa deles pensei nos outros que tenho, de Inverno. Não vão durar tanto, como não durou tanto o amor que tive quando os comprei. Estes estão rotos e partirão em breve, como foi já a esperança dum novo assombro.
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Tive amor da cabeça aos pés. Agora tenho um sentimento vago, que calco e desprezo. Um dia, se as encontrar, dou-lhes com os pés.

Entre a solidão e o tédio





















A minha solidão. A minha inteira solidão. Única, intransmissível, particular. Completamente minha, que não a quero acompanhada por mais alguém.
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Na solidão, as velas também se apagam. De cada vez uma alfinetada. Ainda agora morreu uma. Morrem todas. Morrem aos poucos. Nos momentos de prazer, nos de doçura, nos de agonia.
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Fechado num quarto de três paredes e uma cortina espessa, contenho as palavras que magoam, que talvez justifiquem o estado solitário, nos momentos felizes e tristes.
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Já cansado, enfado-me apenas com a confusão que de mim fazem, desconhecendo baralham autor, personagem e pessoa. São sinais de qualquer coisa que não quero compreender nem aceitar.
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Ninharias! O que é isto quando comparado com a fé não esclarecida? Ninharias que vêm à cabeça dum ocioso entediado. Coisas minhas. Tão minhas quanto a solidão, que me mata, que é minha e não partilho.

quarta-feira, março 03, 2010

As flores





















As flores que te dei eram de outra para outra pessoa. Não são amores trocados. Não são amores defuntos nem promessas. É apenas o destino a traçar o destino. Sem mistério não seria amor. Aguardo um beijo na volta dos meus lábios e o pousar desdenhoso das flores, para que te prendas em mim, de pernas em volta da minha cintura, e as esmagues, tirando delas toda a sensualidade do perfume.