digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

A minha (h)istória de Natal


Roubaram-me o Natal na segunda classe, se não estou em erro. A turma estava divertidíssima na sala de aula, em balbúrdia discutia a existência do Pai Natal. Alguém, mais do que um, desvirginou-me o imaginário e fodeu-me as ilusões: não há Pai Natal. Fiquei a saber que os presentes eram dados pelos pais, avós, irmãos, padrinhos, amigos. Não passei a gostar mais deles por isso, mas fiquei órfão de Pai Natal. Malditos comunas e sua educação materialista!
Alguém me ofereceu, um dia, um disco chamado o Natal das Crianças ou dos Artistas ou dos Operários. Não sei bem. Era uma coisa com poetas e cantores ligados ao PCP e que, cheios de boa vontade, me irritavam o Natal: era a nobreza Natal dos trabalhadores, o pouco valor do Pai Natal... enfim, uma série de juízos de valor que queimavam a poesia e a magia da época. Sempre detestei o disco. Só nunca o parti, porque achei que era melhor guardá-lo para o partir em melhor ocasião.
Bem que podia ter acreditado mais uns anos. Mesmo assim, continuei a escrever cartas ao Pai Natal até aos dez anos, ou assim, não sei. Chegou a adolescência e partiu a criança e suas magias, partiu-se o encanto do Natal, a família desistiu da quadra. Anos mais tarde, já adulto, conheci a Rita, que me deu novo significado à festa. Houve um dia em que a Rita se foi e voltei a ficar sem Natal.
Mas neste tempo todo aconteceu o Sérgio e família que me acolheram, normalmente não na consoada, mas na noite de 25... ou nas duas. Grande amigo de infância, este companheiro. Hoje, este ano calhou a 24, lá vou eu jantar (bem) e apreciar a sua amizade. E não posso esquecer de referir os manos Vasco e Paulo, que muitas vezes me incluiram na consoada.
Amanhã, como sempre, almoço com os meus pais. Nunca se fez consoada lá em casa, mesmo quando eu era miúdo. Nunca me disseram porquê, nunca me interessou e nem quero saber. A refeição da época é a do almoço de 25. Mesmo quando era miúdo, era na manhã de 25 que eu abria os presentes. Adorava abri-los e correr com eles para me enfiar na cama da minha avó, que, coitadinha com o frio, gostava de ficar até mais tarde em repouso; fazia bem.
Não ligo ao Natal, mas não tenho nada contra. Não obrigo ninguém a acompanhar-me nesta minha preferência. Simplesmente, não ligo. Uma vez até fui entrevistado para a Sábado acerca disso. Mas a coisa não correu muito bem, quero dizer, o que disse foi interpretado e escrito de forma diferente. O jornalista tanto queria que assumisse uma posição anti-Natal como me perguntava se eu não tinha uma árvore de Natal em casa ou um presépio. Devia fazer-lhe confusão ou não sabia o que queria. Depois, a minha indiferença face à quadra tornou-me numa espécie vítima da subentendida aleivosa Rita que me obrigava a padecer os castigos natalícios. Para terminar, tinha-lhe contado que houve um ano em que saíra para os copos na noite de Natal e que encontrara um bar com mais gente como eu, que não ligava à festa. Pois o cromo, colocou-me a experiência no futuro e garantiu que eu até iria pagar um copo aos amigos, pois, afinal de contas, era Natal. Burro!... ou manipulador!
Bem, se hoje o Natal me é indiferente é, por certo, graças ao materialismo dos comunas, que pensam que isto do Natal é ópio do povo, conversas para entreter velhinhas e sei lá que mais. Lixaram-me o Natal e agora não há nada a fazer. Tenho neuras enormes nesta quadra.
Enfim, isto tudo para chegar onde vou chegar agora. Não ligo ao Natal, mas não quero que me tomem por mal educado. Por isso, aqui ficam os votos de feliz Natal. Alegrem-se.


Nota: Peço desculpa por não ter nada de bonito para vos oferecer além deste texto. Nada de bem escrito ou de interessante, mas o blogue é meu e apeteceu-me partilhar estas intimidades.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Socorro, estou inquieto


Tenho um aperto que me sufoca. Logo agora que ninguém me pode acudir. É Natal e sempre a mesma cena, Quero um mundo só meu, em que seja sempre Natal, mas onde o Natal seja desconhecido, sem presentes nem consoadas. Não me importa o frio, mas a vontade de rebentar com alguma coisa... os miolos.

domingo, dezembro 21, 2008

80


Devo ter morrido ou estou para o acontecer. Não ligo ao Natal. Não lhe aprecio a magia e dele só sinto a tristeza, o desalento e a solidão. Para sempre jovem? É coisa que nunca fui. Fui. Nos oitenta. Devia ter permanecido nesse final de adolescência. Devia ter permanecido nos oitenta. O que será de mim aos oitenta?

Amizade


As meninas bonitas precisam de músicas bonitas. Ainda que os sábados e os domingos sejam apenas dias da semana. Ainda que se diga olá duas ou três vezes por dia, haverá sempre palavras por dizer. Muito por dizer. No Sol breve e frio do Inverno ou no tempo da luz e do vento quente. O afecto corre todo o firmamento como uma estrela cadente que nunca cairá. Espera-se. Claro que os segredos não serão todos revelados, antes assim. Sempre uns mistérios. A vida é um mistério, mas não tem muito para saber. A amizade é mais difícil, mas mais fácil de levar.


Nota: Este texto é dedicado à M&S.

Tempo

.
Não tenho tempo, mas muitas horas. Os relógios atrasam e adiantam, mas não me adiantam nada nem me adiam a vida. Preciso doutra vida.

Nota: o autor deste texto (eu) está receptivo a patrocínios para este texto. Senhores relojoeiros, aqui ficam algumas sugestões de marcas patrocinadoras, em dinheiro ou em géneros.

A lista: Frank Müller, Patek Philippe, Schaffhausen, Vacheron Constantin, Piaget, Zenith, Baume & Mercier, Longines, Breitling, Mont Blanc, Daniel Jean Richard, Chopard, Jaeger Lecoultre, Breguet, Glashute, Hublot, A. Lange & Söhne, Audemars Piguet, Cuervo y Sobriños, Maurice Lacroix, Tag Heuer, Tissot, Montinari... and so on.

Segunda nota: esta ilustração deve-se apenas ao facto do pintor se chamar Relógio... achei que ficava bem aqui.

Amores antigos

O nosso amor é visível, mas incorpóreo. Como a televisão: intimidade e pouca carne. No entanto, amamo-nos. Ainda. Talvez. Como um sonho permanente.

O outro amor da minha vida

Gosto em ti a gravidade que se sente e puxa para o desconhecido. Este desejo suicida causa delírio. Quero contrariar a tua essência, não para que fiques menos perigosa, mas mais indiferenciada. A tua pessoa cria energia mecânica com os meus sentimentos. Isto há-de levar a alguma coisa, entre de perdição de ir e a de ficar.

Coincidências

Não são coincidências. Nem somos poucos. Andamos todos ligados e, nas voltas da vida, giramos à volta uns dos outros. Já nos conhecemos.

Beleza

- És feio.
- Porque não me conheceste jovem.
- É intrísseco.
- É conjuntural.
- A beleza é inata.
- Se o é, é intemporal e eterna.
- Mesmo assim, não me pareces.
- A beleza não se questiona. Aceita-se e admira-se. O belo é quase como Deus.

Vida 2













- A vida não é como nós queremos.
- Não! Mas temos de tentar.
- Sim, tentativa e erro.
- Corrigir as coisas.
- Tentar construir sobre o desconstruído, o refeito, o passado.
- Sim, a vida é feita por camadas...
- Vai-se construindo.
- Mas há um problema.
- Qual?
- Quando tu olhas, não há beleza ou preocupação estética.
- A estética esta na vida, na patina, na construção.
- Só se fôr isso, assim... mas não lhe acho graça nenhuma.
- Só não vês porque não morreste.
- Só achas porque não morreste.

Diálogos de fumo

- Começar a fumar é fácil.
- Mas fumar é um hábito sério.
- Por vezes leviano.
- A leviandade é para ser levada a sério.
- A leviandade é o oposto da austeridade.
- A austeridade é uma farsa. Uma baile de máscaras em que se finge o oposto da diversão. Coisa Séria.

Vida

- A vida só tem graça às avessas.
- Então para que serve viver?
- Para ter graça transgredir e viver de pernas para o ar.
- Não deve ser fácil...
- Ninguém disse que viver era fácil, muito menos ter uma vida que valesse a pena.

sábado, dezembro 20, 2008

Dores

Dor de cidade. Olhar em suspensão. Antes e agora. Talvez em Sete Rios, sob o viaduto, numa noite fria e deserta. Uma memória de rulote de comida já fechada. Os néons impassíveis e o piso molhado. Quem me dera viesse um carro para ter, nem que fosse, a ilusão de ser um táxi livre para me levar. Se me levasse de vez e para sempre... a derradeira esperança.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Decisão

Se eu chegar a esse dia, desse dia não passo.

Cancro

Tenho um cancro na alma. Um dia ela morrerá. O meu corpo terá uma vida talvez longa, mas eu perderei a eternidade.

Luz de Inverno

Penso que tenho mais memórias de infância do Inverno do que das outras estações. Não só dos cheiros, mas da luz e do tempo das horas. A luz amarela e frágil do quarto da minha avó na manhã de Natal. A luz amarela e quente, entristecida pelas canções da rádio, do ateliê do meu pai. A luz de sonho da sala na manhã de Natal. A luz duma manhã pelo Carnaval. Olho como tudo tivesse sido um sonho. É por isso também que estou triste.

Nota: Depois é Lisboa, ameaça chover e vêem-se gaivotas a voar. É Inverno. Gosto. Gosto da melancolia. Só não gosto dela quando não estou melancólico.

Memória de porto

Não fui e tenho saudades do mar. Deve ser da nostalgia das ondas e das cantorias das gaivotas. O cais, o horizonte e a solidão. Por aqui há promessa de tempestade. Tenho no vento um confessor e nas agulhas de chuva a alegria dos passos sós. Devo estar vivo. Daqui à eternidade e do infinito ao momento. Horas seguidas de enlevo e melancolia. Uma vida dentro da vida. A minha.

Psicanálise

Sonhei. Assistia interessado e nada surpreendido. Duas esculturas, ambas de Miguel Ângelo, faziam psicanálise. Uma deitada e outra sentada ao lado, atrás. Que confissões tem a pedra para fazer? O drama da escultura e o sentimento da expressão. Depois há a morte. Depois da morte. O rosto e o corpo perduram imóveis além da memória. Só vivem depois da memória. Antes disso são lembrança de finados.

domingo, dezembro 14, 2008

quinta-feira, dezembro 11, 2008

O rapaz que havia aqui

Morava aqui um rapaz. Um dia deixou cá a sua infância e foi-se embora.


Nota: É assim que sinto a casa que foi dos meus pais.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Aos amores findos




















Vou tirar as chaves da porta para que possas entrar. Finjo não ficar de vigília, para que quando chegares - se chegares - possa surpreender-me com os passos ou até, se tiver sorte, sobressaltar-me com um beijo.
Mas tu não vens. Há há meio de chegares. E a escuridão voluntária da casa torna-se numa prisão. Até onde se resiste? A luz não acontece. A cama não chega.
Sentado, desiludido, por fim. A luz resignadamente acesa. A ansiedade ainda beija a esperança. Até à hora da adiada desistência.
Não vens. Vou pôr as chaves na porta para poderes sair.

A varanda florida

Conheci-te por dentro. Dentro de tua casa o vento livre. Fora, o mesmo frio. E tu quente por dentro. Não conheci a varanda florida, porque só me lembro do Verão e do Inverno. O nosso amor morreu antes da Primavera. Desperdício de beijos.

Escrever

Depois penso nisso. Amanhã, talvez. Se tenho de escrever as memórias, que o faça mais tarde. Quando já não tiver memória ou força. Que fiquem por revelar. Assim terão alguma importância.

domingo, dezembro 07, 2008

Nós dois

O fio de fumo junto de ti, mulher nevoeiro. Confundimo-nos com as nossas diferenças. O teu mistério e o meu excesso. Ao longe, são saudades de qualquer coisa que se não viveu. Ao perto é um pedido de amor. Que este momento de imprecisão não acabe, que nos valha sempre o equívoco. Lá fora, a realidade não tem graça nenhuma.

sábado, dezembro 06, 2008

Lobotomia

Quendera(1) me abrissem a cabeça e de lá tirassem todos os amores. Já venceram, já caducaram. E lá metessem algum juízo e coisas que valessem a pena. Porque de minha boca só sai o que de minha cabeça emana e dela só saem aleivosias que nem mesmo eu tolero. Há todo um débito de disparate que só se assemelha ao débito de água de Cabora Bassa(2). Enfim, pouco se aproveita e de mim pouco tem fim. Sou uma linha de fumo.


Notas: (1) Quem me dera
(2) Sou português, digo Cabora Bassa e não Cahora Bassa.