digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

sexta-feira, julho 27, 2018

Além do Sol assim todos os dias


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Depois de todos, mais da soma de todos, o superlativo do amor é o amor que tenho por ti, pronuncia-se Ana todos os dias, e todos os dias renasce sem ter tido fim.

O rio triste à foz

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Rio triste, a cada gota indo chega outra em flor, luz de caminho, flor-da-luz, derramando-se de eterna.
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O monólito de carbono enternece-se e nos soluços do caos alegra-se para o sacrifício de mercê e graça, sorriso involuntário-autêntico no espelho de cintilação.
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Da pedra grande se faz o navio, inencalhável e de garantido, navegar até à foz.
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Cada saudade abandonada no leito é semente da alegria que chegará da morte da saudade.
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Cada minuto passado é outro chegando e indo haverá aqui, onde a viagem começou e terminará.
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O abraço da chegada é maior se – como assim se encavalitasse na cegueira do desejo – juntar o tumultuo do riso em glória.
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Na glória se apaziguará a tristura.
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Morrendo a inquietação pelo esclarecido amor vindo pelo rio triste tornado vida.
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O rio triste vindo ao seu oposto e assim o é.

quinta-feira, julho 26, 2018

Flor de Luz


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– O que é a luz?
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– Perguntas-me e olhas para mim?
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– Diz-me.
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– …
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– O que é a luz.
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– Olhando os teus olhos. Vejo-te um jardim, onde o brilho conta apenas alguma coisa. Não sei explicar.
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– Isso não me diz sobre a luz.
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– É o que sinto. Aliás, pressinto.
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Pressinto porque é como te sentisse um anjo. Alguém resgatando-me do mundo onde não gosto de viver.
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– O mundo é só um.
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– Fazemo-lo.
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– ...
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– O meu mundo faz parte do mundo…
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Não sei se gosto do meu mundo.
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Não sei se gosto do mundo.
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Não sei se gosto do meu mundo no mundo.
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– Isso não responde à pergunta que te fiz…
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– Como assim?...
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Não esperava que respondesse.
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– O que é a luz?
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– Não sei.
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– Sabes. Sabes.
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– Não entendo.
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– Perceberás!
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Fecha os olhos. Pensa no que, assim de repente, te chega como o mais belo.
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– …
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Não vejo nada…
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Vejo flores.
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– Como são?
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– São muitas.
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– Não são.
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Olha-as bem.
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– Realmente!...
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– O que vês?
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– Cores. Todas quase iguais.
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– Entre elas há alguma vendo-a diferente?
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– Sim. Há uma.
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Uma só.
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– Como é essa flor?
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– É de luz.
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De calma. De serenidade.
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– Disseste de luz.
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O que é a luz?
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– …
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– O que é a luz, agora que vês uma flor de luz.
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– Sinto um inexplicável…
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– A luz é o amor!
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Amas-me?
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– Muito. Como nunca amei ninguém.
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– Essa é luz é a do teu amor por mim.
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Essa luz é a minha felicidade contigo.
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– És a luz?
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– Não. Sou o teu amor.
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Sou a tua flor de luz. Uma flor só tua e, por isso, também única, sem par ou parecença com outra.
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– És uma flor?... És uma flor.
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– …
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– És a flor de luz.
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Percebo a luz de que falas e de quem és.
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– …
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– Amo-te até onde um homem pode amar.
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– Tu és o meu amor. Dás-me luz.
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– Brilhas-me sem sombra.
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– Amamo-nos. Isso é luz.

domingo, julho 22, 2018

Copas


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Não jogamos com o baralho todo!
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Apenas com as copas.
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Aliás, aqui todos somos diferentes.
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A Rainha é Flor de Luz, deslumbrante de bondura, isso de bondade e ternura, e de beleza.
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Não é segredo… A Rainha deixa-me de cabeça perdida…
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Depois há um Alguém Especial. Superlativo de tudo bom.
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Rimos mais do que um Jóquer em desvario!
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Nota: o Valete é um desenho de Salvador Dali.

Por que amor


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Por que escrevo de. Por que escrevo por ela. Por que só posso escrever por ela? Posso escrever algumas palavras que não as unam? Posso escrever algumas palavras que não as unam.
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Isso interessa?
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Estou numa casa repleta de horas. As paredes estão brancas, já o foram – gastou-se-lhes os dias.
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Estou sozinho. É por estar tão longe que a sei perto. Se estivesse mais perto, estaria ainda mais perto. Estou sozinho e perto, no penar da saudade.
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Uma casa vazia não é uma casa vazia. Nela temos o que nos temos. Somos coisas, afectos e memórias. Nesta nunca me feri como noutras.
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Aqui amo-a e por ela amo mais toda a gente desta casa.
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Aqui nem tudo foi de azul – a tal cor de além cor. Escorreram-me lágrimas, sim. Mas. Não vi abatimento nem fonte vertendo e muito menos abatimento-fonte-lâmina. Aqui vivo. Vivo com quem amo, dando-me o tudo importante.
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Lá vem a pieguice.
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Não vem.
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Fazer amor não é piegas. Amar doutra forma para lá do sabido. Nunca! Uma das palavras proibidas, porque se falharem – falham sempre – são catástrofes, é verdade. Não duvido. Se duvido, estou errado.
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Faço amor e não sei como dizer plenitude. Amo-te é maior ou menor do que adoro-te?
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Não sabemos. Por isso, os lençóis têm de se amarrotar, de se encharcarem de nós, de nos fixarem os odores. Amo-a ou adoro-a. Ela o mesmo. Importa isso?
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Importa, porque essa discussão não tem fim. Inversamente a outras divergências, não há dicionário nem calhamaço nem sebenta definindo. O meu corpo-cabeça-alma-boca precisa de saborear o seu corpo-cabeça-alma-boca.
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Para ninguém se rir por vantagem – aquela teimosia como a das crianças e dos velhos – ela também quer com o seu corpo-cabeça-alma-boca apurar do meu corpo-cabeça-alma-boca.
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Houve uma quarta-feira. Tanto faz o dia ou qualquer tempo. Dia do milagre da revelação, quando o presente é de futuro e docemente arruma o passado.
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Por que escrevo de. Por que escrevo de?
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Não sinto – não sei – o que mais arrumar de palavras e gramática e assassinatos de língua. A língua que amamos, com que nos amamos e trocamos de boca e de corpos em plenitude e explosão.
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Aquela quarta-feira é eterna.
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Por aí, nesses refúgios-caverna, senti tantas coisas. Chorei por tantas coisas. Desfiz-me indevidamente por tanto. Mas esta, sem o negrum das outras casas… Esta casa branca tem-me tendo-a e ela a mim.
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Não sei por que mais escrever. Não sei por quem poderia escrever.
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Chama-se amor.
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Amo-a.
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Se basta? Não! Se bastasse não seria amor.
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Amo-a.

Nossa vida-casa-vida é um castelo de afecto


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As cartas foram postas na mesa e a vidente contou quase tudo do tudo ou tudo de quase tudo ou quase tudo de quase tudo. Pelos dias, veio à luz o que contou por vereda complicada e complexa.
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Desenho de Salvador Dali.
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Rainha de Copas e Rei de Copas – encavalitados por Valete de Copas. Cortando-os para raptar afago, Rei de Espadas e Rainha de Espadas – arrastando uma Sena, triste e eufórica por mesquinhez.
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Somos de coração. As Espadas são de invejas. Um coração negro com pedúnculo é o braço que prende a lâmina, brandindo melodiosamente os quereres.
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Pintura de Normal Rockwell.
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O nosso baralho tem 13 cartas, dir-se-á um naipe. Para quê mais? Não vamos jogar noutras mesas. Ninguém é diferente, porque somos diferentes – tomamos ainda as quatro gatas, a cadela e o cão.
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Como maçam de comichão, as pulgas atrapalham e nada de valor nos trazem. Outros bichos vivenciam amargamente a nossa felicidade. Essa glória é ruim para quem a inveja. Do inventário – por segredo dos que urdem malfeitorias de inveja e de malícia – poucos se sabem, tanto do além-espírito quanto de aquém-corpo, embora conhecendo Rainha, Rei e Sena.
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É gente de sofrimento. Por despeito de ânimo-coração-calor e ganância-carne-libidinagem, ela cega e ele surdo, ambos por convicção ateimante. A Sena é um espalhafato de ingratidão-petrificada. Unam-se e conjurem, sabendo nós que a confiança alimenta a vitória.
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Gostam-nos? Desgostam por a vida não seguir os seus caminhos. Desgostam-se, então. Quem exige assim sente dor – por abusadora injustificadamente e aflição indevida, bastando-lhes a aceitação e a benquerença.
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Não passam de três cartas de mão, balbuciando intrigas, esperando repetidamente pela leveza do sono para que lhes enforteça o querer e o acerto – até de olhos bem abertos dedilham instrumentos de fazer veneno. Quem esvoaça fala mais, liberto do corpo, preces de peçonha e do seu corpo etéreo assalta-nos a confiança com cizânia.
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Quem de alma de pedra-metal – granito e chumbo – não tem olhos que alcancem remotamente ao seu querer. Por cinismo, os outros dois ensombrecem as suas virtudes – de brilhar de méritos. Não se é ladrão quando não se visa tirar tudo. Beleza que, a exigência da cobiça, ensombrecem, pelas insolências, discordando e cantando letras falsas.
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Certos da ovação, beijamo-nos como fazendo amor e fazendo amor beijamo-nos.
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Ele de cabeça-perdida, toda em beleza de tudo, de corpo e luz, índole leve de quem subiu e com chama-piloto ensinando o rumo.
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Ela de cabeça-perdida, porque só uma cabeça-perdida se deixa perder por uma cabeça perdida.
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Cá em casa faltam Ouros e vamos despejando a casa dos Paus que nos estorvam as situações. Nem as baralhamos nem queremos. Só Copas. Não amamos com o baralho todo, assim devem ser os amores. Digamos loucos, como desejamos bem-ser.
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Livres por não prendermos, aprisionando-nos na liberdade.
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Aqui-aí somos Rainha, Rei e Valete: já agora sejamos como na sueca, temos a Manilha e o Ás. O Jóquer não faz parte do baralho, mas alegra-nos.
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Domingos


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Há os sábados que vêm antes dos domingos e domingos que sucedem a domingos, porque a normalidade da emoção nem se parece com a rotina do tempo.
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Quem espera conhece o espaço e o tempo e como é custoso ser-se longe e estar e num sítio qualquer.
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Dançar anima e dançar sozinho desanima – ou então se os passos e voltas sós fiquem junto duma respiração amável.
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Ainda assim… a vida é bela!
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Ou assim… a minha vida nova é bela!

sábado, julho 21, 2018

Não amava assim longe e aqui vindo e indo lá


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Certo como nunca e amando tão longe. Olhei para o mapa e não vi se iminente ou remoto o bailado.
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Não percebi. Juro que não. Não entendi olhando para o mapa.
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Após o susto, encontrei.
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Fiz contas, tão erradas como qualquer coisa – seja por estrada, atalho entre cumes, valadas e rios.
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As contas estão sempre erradas. São enganadas, por natureza. Fiz, pois, adições, já malfadadas à saída. Juntei percursos optimistas, como se querendo convencer-me de que o distante fica ali.
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As contas – nunca ajustadas – falaram-me em mil seiscentos e trinta e um (1631) quilómetros. Se o mito do andar impõe que em cada hora se façam cinco (5) quilómetros, serão trezentos e vinte e seis (326) horas até a essa linha do terminar da romaria. Digo eu que, de aritmética e ginástica, sou quase virgem.
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Quanto aguentaria a peregrinar? Se corresse? Se corresse seria mais demorado – a idade e os danos da preguiça nos músculos dariam um passeio de alguns metros.
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São outros somatórios. O que faria se me pusesse sobre a estrada? Se andasse somente a ortodoxia dos metros e do tempo.
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Fácil, não é?! Raispartam as contas, que nunca acabam.
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Quanto aguentaria eu? Dormindo oito (8) horas, descansando quatro (4), andaria doze (12) horas de sol-a-sol. E, sendo em dor realista, a carreira seria de seiscentas e cinquenta e duas (652) voltas de relógio.
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Até ficava nos vinte e sete (27) dias – as contas estão sempre ensarilhadas, sabe-se. Até estas, pecando insuficientes.
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Tão tarde, que melhor ficam os meus passos por cá e os do meu amor dançando por lá.
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Para quê se não se dançam as estradas nem a dança tem outros passos que não os seus?!
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Ah! O nosso amor é tão certo que qualquer beijo alcança os outros lábios ainda antes de abalar – quem tenha ficado em mistério, a rota de Lisboa ao salão duma quinta de Gennetines é uma vereda, percorrida no momento da carícia.
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Reconheço que me tornei atleta, coxo de aritmética, mas amando, em suspiros, no meio mês que me aparta da Flor de Luz.

E por que não?

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Pelo corredor o ranger dos gatos.
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Andar quase silencioso como os gatos.
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Quase invisíveis como os espectros.
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Na verdade na carne e no espírito conjura-se. Por tanta coisa e contra nós.
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Sobretudo de lâminas contra nós.
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Recusamos no alerta do nosso amor e do afago de quem nos quer bem.
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Revezam-se no açoite. Acordamos da noite e do dia – transpirados de agonia, sonhando das lutas e dos debates.
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Mas vivendo-nos como sabem os justos de causa.
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Por nós rezamos porque o amor é nosso.
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Por eles rezamos pela sua paz e a nossa distância.
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Que lhes caiam as invejas da posse e da luxúria.
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Lembramo-nos.
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Porque sabendo da sua persistência…
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E por que não?
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Que se juntem e unam.
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Dando-se ao outro aquilo que querem.
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E que não queremos receber.

sexta-feira, julho 20, 2018

A quarta-feira é como uma oração


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Hoje não nos beijámos.
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Ontem não nos beijámos.
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Houve o amor de quarta-feira.
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Eterno, cheio e único na cama dos dois.
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Ímpar sempre para os dois.
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Só por isso, como se nos restasse só essa certeza, o amor de quarta-feira basta-nos.
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Nem que seja só por isso, cada ambicioso terá de fumo os seus anseios.
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De todos os infames, até os dois maiores serão das suas tristezas..
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Porém, não se findam.
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No silêncio do segredo, na escuridão, alimentam a ânsia de nos ter.
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Um quer amor eterno.
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Outro teimará nos cortejos, procissões pela luxúria.
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Pela nossa confiança do amor, as suas cobiças serão ruínas definhando.
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Arrojem maus-olhados, cada pedra será do nosso castelo. 
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Que queiram os nossos corpos, por teimosia e despeito, este nosso amor é além-túmulo.
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O amor de quarta-feira são dois anjos de sentinela.
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Nunca fizemos amor como na quarta-feira.
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Nem eu, nem tu, nem nós.
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Só isso, nem que tivéssemos apenas a quarta-feira, esse dia basta-nos.

segunda-feira, julho 02, 2018

Ah!


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És a sensualidade das princesas e o fogo do sal marinho.
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Ninguém sorri completamente – apenas.
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Ficas no êxtase abundante do segredo que te conto.
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Deixas verter a pele, saciando-me. Estou sumo e suco, como tu.
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Ninguém conhece a tua doçura e a temperatura calma – como tu quando me apertas!
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Só nas mentiras dos contos milenares há tamanha enxurrada e um amor superior a este.
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Tens a boca fervendo, guardando-me
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Tens a boca fervendo, guardando-me. A perfeição de ir e regressar, mergulhando e subindo. O toque subtil, tempero de sal picante, puxando-me para o desvario.
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Tens a boca fervendo, guardando-me, submisso e soldado, nas linhas perfeitas da folha de louro.
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No fim de tudo – mais do que o fim do mundo – morremos felizes.
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Retornamos tudo o que nos.
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Ah!
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Nunca fizemos amor num jardim.
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sábado, junho 30, 2018

Só alguns amores são eternos


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Há amores tão grandes que nenhuma inveja alcança. Um frio e um quente dos abraços indizíveis e dos beijos, que de tão inesquecíveis, se esquecem, dando às suas bocas o jeito de repetir até ao adormecer e ao acordar.
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A felicidade é um lugar. Aí, tenho-a e perco-a para a conquistar.
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– Quantas mulheres pode amar um homem?
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– Ao mesmo tempo? Numa só vida?
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– O meu amor é tudo. Não são as duas a mesma coisa? Se o tempo é infinito e o universo não pára de crescer.
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– Cada amor novo não é o último e o maior?
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– Se assim fosse, que tristeza.
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– Não. Há o amor-todo, sem hora nem segundos.
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– Eterno?
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– Não sei. Ainda não fui eterno. Sendo todos eternos, negando a morte.
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– Amas assim?
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– Amo. Não há outra forma de amar, se a felicidade se junta à alegria e todas as lágrimas são de contentamento.
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– Quantas mulheres pode amar um homem?
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– Quando se ama assim, como eu, só uma. Nem conceito se alevanta.

Essa onda só tua


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Amo e amarei a mulher certa. Como um maremoto, sinto a altura e o sal, daí cair e mergulhar, respirando no beijo mais longo que as bocas deixam.
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Nem sereia nem ninfa. O amor e o pagão, um lago de tudo o que dois amantes e mais.
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Se um diz amo-te e o outro adoro-te, apenas palavras da dimensão do tal maremoto.
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Amarei até. Menos o que isso não consigo.

domingo, junho 03, 2018

Olhos verdes. Olhos castanhos. Vêem-se


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Disse-te, depois da revelação do teu esplendor:
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– Como é possível a bonança? Não houve guerra nem tempestade.
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Disse-te um segredo. Palavras-engrenagem da macieza do sono depois de fazer amor. O que te disse, eu?
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– Como é possível a tormenta? Se não houve trovoada nem mar alevantado, engolindo todas as palavras de dizer no instante certo.
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Abracei-te como se dissesse alguma coisa acertada. Ouviste-me dizendo qualquer coisa acertada. Falaste:
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– …
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Juntámos os lençóis, ajeitámos as almofadas e encaixámos os corpos. Cada beijo, cada gota dos suores misturados, cada nascente tua, cada erupção minha… todas de ternuras tremendas.
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Castigaste-me com o prazer – aquele sabido e que se esqueceu, sem nunca se ter esquecido. Castiguei-te com o prazer do prazer.
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Passaram-se dez anos. Menos que isso. Passaram-se vinte anos. Passaram-se todos os anos da saudade.
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– Como é possível esquecer? Como – graciosa dádiva – não esquecemos? Ficámos épocas de minutos no desejo que se deseja desejando. Esperámo-nos com todos orgasmos adiados.
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Disseste-me de todos tempos, das horas e dos anos, em que fui um fantasma agarrado ao desconsolo. A minha memória indigesta e o meu desconsolo quase-infinito. A sua memória amarga e o seu desconsolo, quase-infinito, enquanto se perdida numa festa e num choro. E eu estendido prestes-morto.
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Na verdade, não mo disseste. Não precisaste de me dizer amor. Sempre mo deste. Sempre te li os olhos – tanto amor, afago e a paciência de quem espera.
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Os teus olhos espelhando o Sol. O luzir finalmente regressado. Tantos beijos que as bocas contiveram. Deslumbrámo-nos na Lua dos quereres, dos reencontros e dos êxtases.
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– Ainda bem que voltaste.
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– Ainda bem que voltei. Ainda bem que voltaste.
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– Andei bem que voltei.
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– Ainda bem nos viemos.
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Qual a cor do amor? Qual a do desejo? A do bem-querer? A do retardar? Azul? Escarlate?...
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Não importa. As línguas oferecendo-se escondem-se. Os beijos são de.
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Orgasmos de.
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Calámo-nos.
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Assim de tormenta e bonança. Bem-aventurança. 

sexta-feira, junho 01, 2018

Sobreviver


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O meu segredo maior digo-o nas praças das cidades, na imensidão das vistas bravias, no conforto da amizade e ao teu ouvido.
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O luzir ao me teres vale a minha vida. Se tivesse dois corações, amar-te-iam incondicionais.
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És vontade e viagem. És chegada e estada.
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És dois passados e o único futuro. Ave que migra e retorna.
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És romã. Laranja. Pêra. Maçã. És o fruto da paixão.
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És a exaltação da tranquilidade, o amor perene.
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Agora, quase Verão, és mulher-deusa, bacante da minha cama.
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Irás, sei-o, de sensualidade da infracção, para seres a espada que me mata dolorido.
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Mercúrio te levará – pagão e medonho. Tenho medo. Sem uma fé de esperança.
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Rezo a São Cristóvão para que voltes. A Santo António peço milagre.
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És-me tudo. Generosamente de gratidão te agradeço, oferecendo-me no martírio da paixão e no êxtase de calma. No fogo do Inferno.
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O meu sangue, de sacrifício e verdade, alimenta-te. O teu retorno é o regresso do amor.
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Tenho a dizer dos teus lábios. Tenho-te todo o corpo.
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Sem incertezas – és uma verdade, que se colhe e se sabe partirá – do delito.
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Nessa angústia, tenho-te certa. Ainda que no intervalo de dança te perca. Beba tanta dor.
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Só há uma verdade. Depois, os pontos de vista e os equívocos. Silenciam-se nas omissões, criam-se enganos.
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Não há mentira sem verdade – toda ela ilumina tudo.
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Não há só flores. Não és só flor. És a dioneia e a dedaleira-roxa.
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Morro e sobrevives, para te poder morrer novamente.
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Em ti morro, por ti vivo. Se me pudesse ilimitado.
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Sou-te pleno. Não menos espero – iludido na verdade.
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Se eu fosse todo o mar e indivisível, sabes só teu.
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Fosses o meu barco, único de verdade e eternidade e também as ondas.
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Livre e aberta, fechas-me numa tristeza.
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És da natureza, garantes-me. Sou-te a terra e o ar. Bebes nas águas que libertas, desaguando em mares alheios. Incendeias-te ao longe, queimando-me.
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És o folhear, dos castanhos, pelo vento. És o céu barroco do Inverno. És fervor fulgurante da Primavera.
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Choro no Verão. Em todas as horas sobrantes. Quando a minha escuridão é o holofote rompendo-me o sono, devorando a fé e suicidando-me.
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É sempre, sei-o. Assim o será.
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Sempre significa sempre.
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Vives também no longe e morro por te saber vivendo uma vida estrangeira, nos dias doutros lugares, onde a dança que me proíbe – o meu segredo revelando o teu segredo – é me abstenho, libertando-te desapegado, ciente que me faltrás.
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Quando és outra e eu o mesmo.
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Se te peço para não me faltares é porque sei que me faltarás, consumida por outras chamas e saciada e molhada te dás.
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A Terra rodopia. Tonto vou caindo e levantando-me, morrendo e sobrevivendo.
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Na certeza – desejando eu o desacerto da intuição – essa da transgressão.
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Cá estarei calado, esperando da tua boca um beijo e o teu corpo sobrado.
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Que silêncio me cale para não falares o que não quero ouvir, mas sei.
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Não te exaures nem esmoreces, das danças e do repouso que te cansa as vigílias, dos dias sempre seguintes até ao despertar.
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És minha, sabendo que não o és, noutros lugares.
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Dizes-te liberal, mas não te sei se eu o fosse e me desse também.

O amor e o sexo


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Há o medo de perder o que não se tem nem se pode ter – o amor.
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O cerco e a reclusão não prendem, nem a liberdade garante.
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Há medo do segredo. Não da luz. De perceber a penumbra e a sombra – uma estufa de sal e orgasmo, do ímpeto pueril.
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Não há palavra de promessa nem de arrependimento – quem não acredita, não respeita e fala duma substância de condição e estrutura.
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Há palavras guardadas, duma claridade quase transparente, de olhos, beijos e abraços.
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Há quem não saiba mentir, apenas calar.
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Assim mente-se, para que não chegue a verdade, da voz do amor enganador.
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Assim se resguarda em mudo e choro, dos dias e das vésperas, do antes ao amanhecer, das tardes longas e das noites infinitas – melancolia e desânimo.
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Há episódios simples, repetidos e pronunciados vazios. Numa lonjura, o mar tapa a areia – dois corpos entregando-se no sexo. Mas à luz, o oceano se acalma e falando de amor se deixa na praia
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A paz da guerra é falso repouso. Nem há breu absoluto nem eterno.
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Quem vai descansa crente da sua invisibilidade. Quem resta sente o embate atrevido do ciúme.
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Não antes, agora. Um bicho irrequieto, acordando e perfurando num qualquer momento, indiferente à vontade do perdedor.
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O ciúme é um rio que, de adormecido na represa do silêncio castigador, se larga, atropelando a memória e crença.
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O ciúme é impronunciável. O rio que sobe as margens, se estende secretamente fora do seu leito, mesmo na bonança é o sossego atropelando o sossego.
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Perdendo-se se prisioneiro. Perdendo-se ausente. Perdendo livre duma corrente. Perdido de confiança
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A fidelidade icorrespondida não será morta, porque é morta e morrida – matando sempre e sempre.
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Não há presente sem passado e a água repete-se nos leito. A sua jura é chuva certa sem tempo de chegar.
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Perdida a crença, não haverá outra barragem de silêncio, todas as pedras caídas serão seixos, ficando correndo-ficando. A fonte será outro rio e o curso a torrente para outra terra.
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Se a natureza dos rios é desaguar, não há muralha nem confiança alterando a sua índole. Quem quer escoar, correrá – um delito de desobediência, indiferente à beira-rio.
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O conhecimento é duma dor. Se pronunciada – sua vergonha, pesar e inutilidade – é o momento de chorar ao brilhar das águas e da multidão despercebida.
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Dói e dolorosamente mata. Confia-se até quando se finge acreditar.
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Os rios desaguam, mesmo dizendo correr apenas por não haver sexo no seu leito – e do amor ser outra coisa.
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A palavra carência, sua distância, é a mentira de quem trai o padecente – se foi, será sempre. Uma qualquer palavra fenecida.
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Nem a detenção nem a soltura – mesmo a promessa uma sem regresso – fidelizam calmaria mansa.
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Assim se cai. Caindo, fica o desperdício, do pretérito e tempo vindouro.
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Nenhuma jura se ressuscita. Caindo se cai.
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O que é a dança? A liberdade e a transgressão. Qualquer ritmo tem os seus corpos. O seu odor não diverge do da cópula.
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A fidelidade afiançada é morta na próxima sensualidade.
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Quem sabe e se cala do corpo infiel – do dizer da cabeça sem traição do batoteiro – não se perde em ilusão, embaraça-se na desilusão.
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Há flores que se abrem repetidamente à Primavera, da volúpia estrangeira – aquela dita vazia.
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Há heras eternas, presas até ao fim da cama do amor. Morrem morrendo na certeza e do ciúme.
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A Hera – da boda – desponta, um dia morrerá estéril pela cama molhada pelos beijos dos forasteiros, duma língua presa noutra língua, da cor dum qualquer país e da sua fala.
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Do amor onde subiu soltar-se-á. O vento será para onde a flor desabrochada numa cama – do suor da lascívia, da fruição e da falsificação – não a encontrará.
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A dor do engano é calada, mesmo oculta, mas grita rasgando o sangue e o espírito – tudo o que se esconde se revela.
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Assim se diz do amor e do sexo.

quinta-feira, janeiro 04, 2018

Os dias

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Lavar lágrimas e não se alumiam os olhos.
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Daqueles momentos falam num túnel da  brancura da tranquilidade.
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Até já o vivi. Agora é a esperança.
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Vou na ausência da sonância e da cor.
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Vai ser sempre assim, dias sem nada que os alumiem.
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Vão ser assim, os dias.

Sítio

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Esta noite sonhei que descia da Lua.
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Acordei na Terra.

domingo, dezembro 31, 2017

Maresias

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Escritas na água e no sal, as palavras não duram.
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Cada onda traz o linguajar dos poetas e dalguns marinheiros que acenderam os cigarros nas velas.
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De cada ninfa vem a escuridão e a febre escarlate do desejo.
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Por cada onda chegam as palavras claras, do clímax escrito em sal.
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Palavras vagas.

Inalcançar

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Sabes muito mais dos vermelhos do que.
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Sei dum desejo e do falecimento do indevido.
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Como mentir se as palavras me desobedecem.
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Se apenas calasse se as letras não teimassem.
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Escrevi e fechei o envelope. Papel de essências e pétalas para enganar.
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Fiz o que devia, contei-te. Não enviei.

Beijo de granito

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Constritora do coração e do sabor mortal.
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Se pudesse seria teu culpado na vez de ser somente condenado.
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Se pudesse morreria na tua boca na vez de intoxicado.
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Flor, sou o teu jardim – só em mim.
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Jardim onde me deixas afastado.

Feitiçaria

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Queria escrever-te um poema que gostasses e fosse de amor.
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Dos teus olhos comovidos e coração calado.
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Não te minto, o meu suspira, é generoso e infiel.
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Digo-te, com verdade, o sabor terno da lembrança da euforia do engano.
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Imagino-te voando, enquanto a ilusão me prende na crença dos impossíveis.
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Feitiço de impossível.

terça-feira, dezembro 26, 2017

Incalma

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Há coisas fora da calma.
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Desconheço se alguém me pode explicar ou se esta febre é única.
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Se fosse sexo ou amor.
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É um calor inexplicável, como se pudesse deitar-me com todas as mulheres.
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Vê-las secretamente.
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Desejosas por intuição.
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Ser-lhes um arrepio de água morna e lábios quase mordendo os lábios.
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Elas sem castigo – eu sem o martírio na tortura – de arrependimento nem de pecado, qualquer coisa da natureza e dos lençóis.
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Por isso, elas querendo-me e eu desobrigado. Ainda assim:
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– Querendo-as sóbrio ou ébrio – sem escolha demais distante do momento.
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Repito: sem sonho ou obrigação:
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– Não sei se na memória ou no esquecimento.
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Não sei clarificar.
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Nem de acalmação.

domingo, dezembro 24, 2017

Segredo de notícias

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Ela escreveu:
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– Traz-me notícias de mim.
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Não pediu, ordenou.
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Eu, como fosse até aí triste e afogueado, amando-a de improviso.
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Disse-lhe num papel:
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– Não sou correspondido, como não o és.
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Pudesse, o Inverno seria outra coisa. Um tempo qualquer, antes e depois da janela.
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Como dar-te notícias de ti? Não tas tenho nem o que suponho que as possa reunir.
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São notícias de segredo.
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Por isso, não as tenho.
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Se as tivesse, quebrar-se-iam os mistérios.
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Em desânimo ou em euforia, terias de inventar novas.
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Possivelmente, eu precisaria doutra dor, para que escrevesse novamente sobre ti

Retribuo quando

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Irritável como um cão de guarda.
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Triste como um gato molhado.
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Só me importa o Natal porque o fazem de importância.
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Porque não o entendo de pai e mãe.
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Basta um dia, único.
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Tombo desamparado em terra dispensada.
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Não tenho autorização para me retirar.
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Ainda menos de esquecer e não ir nem ficar.
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O Pai Natal ganha a vida a rir-se. É tudo o que aceito.
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Retribuo quando.
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Contudo, o Natal é indiferente se, não me obrigarem a festejar

quarta-feira, dezembro 20, 2017

Tenho um pequeno atlas de locais onde sou

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Em Lisboa quase tudo é luz, do chão ao Tejo. Se pudesse ser outra pessoa, achar-me-ia também nesta cidade.
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A vista da catedral e a ponte ferroviária que se lhe antecipa são um momento de passado e hoje, como uma lembrança num álbum de fotografias com familiares desconhecidos. Do primeiro patamar, olhando verticalmente o templo, imagina-se o que terá sido Babel.
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O meu coração ficou enclausurado, por sortilégio, na escuridão de Edimburgo. Cidade de pedra e céu, de anos sem dias.
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O campo é tão grande que se diz pouco e basta: Alentejo e Escócia. Uma só fotografia.
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Não são os socalcos nem o sangue nem o vento baralhado de qualquer lugar: o Vale do Douro e entremontes e rios em sua roda, como o Rei e sua corte, não são o lar.
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O Douro é um afecto diferente. Lindo, de aprumo e alinhação, mas não o amo de peito nem pelos olhos, mas pelo estômago-vida – isso não é menos.
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A natureza é de odores diferentes, mas parentes. O xisto, a esteva e o azinho. O tomate e a laranja. A oliveira e a vide.
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Amo-o pelo vinho e o azeite, por isso todo como ele é – só à mesa se nos podemos achar, não há vida sem ela.
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Não troco nenhum destes lugares por qualquer outro nem deles prescindo nem opto entre eles. A saudade é uma dádiva, enfim, a ubiquidade seria um milagre para a banalidade.
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O Douro é um assombro, por mágica de alguém.
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