terça-feira, abril 26, 2016

Luz nocturna no jardim

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Como uma noite num jardim-de-inverno, onde a luz exterior chega acanhada por não pertencer. Como o receio de se ser amado. Como a ternura devida à criança. Como a alegria do reencontro.
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Assim é Paraquedas, o bicho meigo e louco, que apanha mariposas invisíveis e ronrona em murmúrio.
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Nota: A Paraquedas faz onze anos.

quinta-feira, abril 21, 2016

Hora certa

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Também choro com luz acesa e em silêncios frágeis.
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Quero vida e não precisar do que se quer da vida.
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Quero atirar-me ao mar e, se não desexistir, pelo menos morrer.
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Troco a eternidade por minutos de beleza e de tudo branco e azul.
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Quaisquer dias aleatórios, certos como relógio astronómico como muito religiosos.
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A indiferença de mim e para mim, a enfadonha crueldade do meio.
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Quanto valem os dias? Não dão e nem tenho como pagar.
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Para isso há o mar. Na incerteza da desexistência, fico gordo e triste e ainda pior feio.

quarta-feira, abril 06, 2016

Mariposas

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Então foi aí e ela disse enfim o esperado há tanto faz de dias.
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– Anda, vem.
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Depois disse mais:
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– Junto a mim. Chega-te e toca-me.
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Como se fosse uma ovelha, docilmente me cheguei e tímido e discreto como um gato. Ela era macia e seus pêlos suaves e de maçã.
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Não falou mais e sussurrei-lhe ao ouvido sílabas aleatórias como se fizessem poema.
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No final sem fôlego falámos do estado do tempo e do anticiclone dos Açores e inevitabilidades.
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Reincidimos a espaços cronometrados involuntariamente, tal os sismos e vulcões da Terra.
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As mariposas vivem horas e despenham-se na luz.

Como Bettie Davis e J. P. Morgan

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Outro dia num escuro vi-os brilhando. Densos como o amor de mãe, ternamente escuros como canção de ninar. Ah! E têm a força e a velocidade como as do comboio abrupto. Quem os vê sabe sem que a boca diga. Tanto faz ter defeitos como todos, olhos daqueles são balas de canhão e ninguém segura uma bala de canhão.
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Nota: Presente de aniversário para a amiga Sónia Teias, que outro dia partilhou uma fotografia em que os seus olhos são mesmo os seus olhos.