sábado, janeiro 31, 2015

Onde

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Diz-me onde estás nua para ir lá ter. Levo-me para te agasalhar e ardente convidas-me a entrar. Assim estaremos até que as bocas se cansem e as diferenças se saciem.

estou a fazer birra!

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informo os meus leitores sejam eles muitos ou poucos que estou de birra e que em vez de bater ou pé atirar-me para o chão a espojar-me a chorar guinchar berrar espumar e ranhar-me pelo que durante um período de tempo indefinido não vou usar vírgulas nem maiúsculas e só por irracionalidade dentro da irracionalidade porei aqui nesta declaração um ponto final.

São rosas

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Como é agora e ainda aqui estou, falando sozinho ou repetindo sempre aos mesmos ouvidos e nada me dando quem pode e havendo tanto de mau com uso, repito na certeza e no lamento louco do amor próprio ferido, que é agora e ainda aqui estou.
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Melhor do que eu:
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Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais m´espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado:
Assi que, só para mim
anda o mundo concertado.
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Luís Vaz de Camões.

Os tempos dos amores

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Já nos metemos ao caminho, mas ainda não nos cansámos, mas não chegámos nem vimos e que no encontro, de tão cansados, nos deitemos e nos cansemos mais um pouco e mais felizes.

Tiro

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Jornalista terrorista faz perguntas à queima-roupa.

Uma noite mais pequena que o seu sonho

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Entre casas onde não vivi ou conheci, que comprei e vendi, arrendei e me enganaram e que me desfiz, de vizinhanças tristes e más de inveja e recalcamento, vivi uma noite, esta noite que passou. Casas que a vizinhança me apoquentou levando-me áreas.
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O grande jardim afinal não era meu. Foi simpática a vizinha que me deixou usar a piscina tapada até meio e protegida por vegetação viçosa, de esconderijo. Pois ainda assim me sobravam divisões e usava-as só para que não mas roubassem.
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Já bastavam as várias portas para as zonas comuns, cujas chaves tinha e mais gente também. Em casa entravam e saiam e eu vivendo devassado. Portas para um átrio pequeno de prédio modesto. Portas para um átrio tão grande como o dum hotel.
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Era um hotel e embora quandrangular se podia percorrer como se fosse um círculo, enorme, era um museu militar, um museu de reis, um museu com mausoléus de santos, de pedra fria, e um padre começou a dizer missa. Doutra seita, vi-me aflito desfeito sem pouso nessa fé e entre os meus, numa sala duma casinha perto, vivia-se uma estranheza que não reconhecia, com rituais e superstições.
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À noite fui… Havia um jardim escuro como um cemitério nocturno. Nele, uma casinha, como aparentando ser porta para metropolitano, um paralelepípedo, bem fechada e com a escuridão que se sabe fechar a luz, deduzindo por ter vidro martelado e gradeamento de ferro.
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Eu e mais alguém desejava entrar. Esperei e vi-os, os eleitos, chegar e consegui entrar numa nesga de sorte e magia inexplicável. Um mundo subterrâneo sem medos, e havia luz, como aquela amarela que ilumina as oficinas silenciosas pelo pouco trabalho.
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Eles podiam ser escurecidos à volta dos olhos e das bocas, com pinturas esborratadas, de negro e falso branco, porém simpáticos. Sem medo e findo o mistério de lá saí e sem certeza de voltar, na certeza que voltaria.
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Por essas alturas viajava por uma terra que do campo se abeirava da cidade. Podia ir, como tantas vezes, subindo num furgão desconfortável e medonho ou num dos funiculares, de vária ordem de feitio e juventude, outras vezes parecendo os trams de Lisboa. Ora encravavam ou descarrilavam ou faziam tudo bem.
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Nesses tempo viajei com frequência para as Américas. Se ia em trabalho, conseguia voo para outro lado, outra cidade, outro país, que escolhera sem saber, onde desembarcava e quase me perdia, para ver alguém, só por ir ou por ter de ir sem saber por que razão. Pelas Américas, várias vezes e sempre os mesmos desvios. Sempre na Continental Airlines, de dentro conseguia ver o avião por fora.
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O balcão de check-in parecia a bilheteira dum grande cinema e era alfândega e tudo jóia. Ficava num centro comercial imenso de que escreverei mais. Se me perdesse, se quase perdesse o avião, tinha esse colosso de lojas e desejos inventados.
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Uma vez cheguei e era muito cedo e por isso o centro comercial era pequenino e fechado. Tinha um minimercado com um MacDonalds dentro e podia-se aviar doutras coisas. Era labiríntico, havendo uma loja com livros raros, livros do Tintim, recantos em corredores com artesãos de incenso aceso e jóias verdadeiras de materiais não nobres e ainda galerias de arte.
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Sei que em casa dos meus pais pintei muito e em muito grande, traços soltíssimos soltos e desentendidos. Usei o facto consumado de os enviar, sem remetente, para a Gulbenkian. Que os apreciassem e deles fizessem o que quisessem. Não sei os que lhes aconteceu, mas o mestre Júlio Pomar gostara do que vira e ainda desconheço como.
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Entrava depois do check-in e o avião, uma vez, tinha um piloto apressado, fugindo ao engarrafamento do taxiway circundou o aeroporto, usou auto-estrada, ruas, ruelas e azinhagas e colocou-se à frente na bicha para a descolagem.
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Assim andei rumo à América, nunca ficando no destino, sempre fugindo num pretexto para outra cidade onde não me desviava da avenida central. Ia sempre pela Continental Airlines.
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Andei pela Europa, que fica logo a seguir às montanhas que fecham o país. Ali, no caminho, é escuro, faz-se vinho e dei em doido para o reencontrar, tantas e tantas vezes, quem gerava «aquele» que tanto gostava e deduzia quem era e era simpático.
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Passadas as montanhas subi um rio adentro pela Alemanha, poucas vezes de barco e mais de comboio, depois do avião. Via amigos, mas noutra cidade, talvez na Holanda. Havia prédios altos magnânimes, colossais, não era Paris não era sítio que exista ou talvez fosse. Perdi-me sempre e ainda pouco me afastando da avenida que sabia ser o eixo do caminho e da ordem.
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Por ela andei e sabia que lá do alto, descendo por aquele caminho, o mais fácil e bonito, era sempre assaltado por miúdos, danados, ferozes, inteligentes e impiedosos, protegidos por irmãos maiores, caso fossem vencidos. Nas portas de muitas tascas, mesas, cadeiras e velhos bebendo vinho e desligados do meu dramas, dos dramas de quem passava, era as suas realidade.
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Aí não sabia se era estrangeiro ou estava na minha cidade.
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Já cá em baixo e sempre de noite, a praça larga do Rossio, sua estação e a Praça da Figueira. Indo em direcção ao Tejo, tudo em terra e lama dum cataclismo. No rio os barcos, muitos e grandes. Num deles embarquei e viajei rio acima e abaixo, vendo naufrágios e também caindo desgraçadamente na água.
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Havia naufrágios junto a Santa Apolónia. Do ninho da água, a casa dos pais, via-os naufragar, senti a água de ondas colossais, vi a margem esquerda chegar-se e terra com prédios e vida subir e descer como se fosse natural e maravilha de se ver. No Tejo surgiu um castelo e desapareceu e navios continuavam a afundar-se
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Fora daí mostrava Lisboa e as praças e sabia os atalhos e que devia contornar o morro das crianças ladras, evitar as ruas desconhecidas onde havia a droga e a miséria de zumbis e dormentes. Admirava-me por desconhecimentos meus, tão perto da vida e escondida e passava tantas vezes naquela Avenida Almirante Reis e que era em situação diversa na geografia e morfologia da cidade.
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Desconhecendo a cidade conhecida e mostrava e certo dos caminhos certos, dos atalhos e dos perigoso deslumbrei-me com a longura das muralhas do castelo, decadente e orlado por casas pobres e vazias, bairros de alcoolismo e transgressão.
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As igrejas estavam meio tombadas por causa dum sismo e um político numa varanda arengava sem que as massas se importassem. Estavam ali por causa das vistas e recantos bonitos e que eu conhecia e desconhecia mas queria mostrar.
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Os meus visitados sabiam mais do que eu acerca de muitos dos lugares por onde os levava, dos cafés com vistas, tirados em puxadas às ruas movimentadas como verdadeiros formigueiros, locais antigos feitos novos por esse cataclismo ocorrido certamente enquanto dormia algures nesse dia que era sempre o mesmo.
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Lembro-me que passava um tram por uma rua fechada por tecto e feita de barbearias e que eu e o meu amigo S uma vez cortáramos uma vez o cabelo e tomáramos um chá e que daí seguimos num giro de tram, uma coisa mágica, alucinada e irrepetível. Mais tarde voltei e insisti em cortar o pelo em todas as casas e ainda que me servissem uma bebida simpática não voltei a essa maratona mágica e nocturna que percorri de tram e por ruas sem carris, uma outra dimensão.
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Desiludido e pelo caos fui a um hospital onde já fora doente, lá estivera a mãe, o pai, uma tia, um tio e parentes desconhecidos. Mulheres enjoavam e aquele abrigo não tinha sítio certo, um caos organizado e que desentendia. Ora estava lá eu ou a mãe ou o pai ou ninguém. O pai morrera e arrependera-se e voltara e uma tia a mesma coisa. Sei perceber porquê desejava-os no outro lado.
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Confundia os caminhos daquele hospital, vagueei por corredores asseados e velhos. Num salto quântico – e não sei o que quero dizer com isto – fui apanhado sem perceber com uma arma de fogo e vi-me no caos de Kafka, com perguntas e incertezas, pátios de prisões em luscofusco, logo me livrei, fazendo os amigos possíveis de fazer com polícias.
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Ainda perdido no hospital e sempre noite, perguntei por gente que não me lembro. Lá dentro, o palácio, museu e mausoléu, uma escadaria enorme até a um teatro, como o da escola primária. Representava-se ópera e saia-se e entrava-se. Junto à bilheteira representava-se modernidade inatingível, não entendi e fui vagamente participante.
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Fugindo fui por bastidores de tecto distante e longos no comprido como uma feira industrial, onde se oficiavam muitos ofícios e solidão. Cheguei a um espaço muito grande e industrial, quase esquecido violando proibições de passagem, sendo visto e ignorado. Fora uma fábrica e era vagamente qualquer coisa, havia uma pedreira escavada fundamente e aparentemente sagrada por alguma razão. Desci e subi para a praça industrial e de carris e gigantes mecânicos. Qualquer coisa secreta haveria e jornalistas procurámos saber e furando uma proibição não proferida chegámos a uma nave inespecial por onde passavam seres maquilhados de branco e negro esborratados e nos ignoravam. Não se passava nada e tudo se passava e intimamente sabia que dali haveria de haver passagem escondida para a casa grande que fora da família e que o avô com síndrome de Peter Pan tornaram num labirinto de atalhos e segredos.
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Sabia intimamente e do terraço dessa casa ancestral via-se o Tejo. Por isso e levado em inconsciência ou deslembrança fiquei junto ao rio largoe despojos do cataclismo. Nas ruínas, o espaço da antiga empresa de televisão onde fora feliz. Dali escorraçado como o seu proprietário que tentava com os despojos reerguer a obra usurpada e destruída. Aí nós todos em facções e querendo apenas trabalhar.
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Saí de noite, sempre de noite, desse pátio ribeirinho e sem vista por murado. Fui pela lama e tentei apanhar um táxi e folguei por já conseguir erguer-me e andar um pouco mais desde a última vez, há muito tempo nos sonhos, em que rastejava e pouco conseguia manter-me nas pernas, levantar-me e caminhar.
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Não sei quantos táxis apanhei e nenhum motorista sabia levar-me onde queria. Um perdeu-se e a medo me apeei junto a um bairro velho de ruas de drogados zumbis. Se conseguisse escapar dali… sabia que se subisse para depois descer apanhando caminho conhecido seria novamente atacado pelas crianças ladras.
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Encontrei amigos desconhecedores de Lisboa e que sabendo sabia desconhecer e ainda assim a mostrava. Contava-lhes dos lugares secretos, das passagens negras, dos atalhos por dentro de casas de gente modesta, saltando cancelas, pisgando por tubos à moda das ratazanas até à casa enorme dos meus antepassados, toda com recantos, atalhos improváveis, da subcave ao terraço, das paredes giratórias e buracos estreitos por onde incrivelmente conseguia passar.
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Nesses caminhos havia um pátio de casas velhas e oficina em prédios despelados. Tivera a chave duma oficina partilhada com a amiga I. Ainda tinha e mostrava-a. À saída e virando à direita estava o café que foi meu com o amigo C, mas era noutro o local e ainda o mesmo, este maior, fundo, profundo e servido por desconhecidos. Às vezes ele estava mas quase nunca.
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Não ia há tanto tempo que desconfortei e desejei a minha casa devassada pela vizinhança e a piscina em que me deixavam banhar-me. E lá cheguei sem saber e vi o que além estava: campos largos de lama e ervas, o território do meu liceu, onde agora havia cavalos, que montei às escondidas sem ser visto umas tantas vezes nessa vez.
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Apeei-me e voltei à cidade, subindo e descendo a avenida em que supostamente trabalhava, à procura dum grande amor morrido ou de alguém incerto e predestinado. Fazia-o do topo à baixa e nem mesmo os corsos de Carnaval ou a multidão indiferente me desviavam da certeza do querer, coisa nenhuma.
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Sem trabalho e insistentemente acalentava esperanças duma empresa produtora de televisão e de burocracias entediantes, situada já fora da cidade num espaço chique. Lá tinha trabalhado e conseguira voltar e para fazer diferente mas daí a poucos meses saíra e sem saber por que me quisera vir embora.
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Sem trabalho, mas com uma decisão. Haveria de conseguir pela persistência na presença, pelo facto consumado, beneficiando da manifesta falta de mão-de-obra. Sentei-me à secretário do jornal onde comecei a ser jornalista. Por um sortilégio, o periódico voltara à origem e aí comecei a bater notícias à máquina-de-escrever, e não me interessavam nem o trabalho.
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Fiz isso nesse e noutros sítios e em todos me fui sentando pedindo trabalho, que não conseguia que faltava e inventava desculpas. Tinha trabalho e não sabia como o manter. Estava incapaz e assim continuei no medo de ser descoberto pelo que decidi ser repórter especial sem obrigação de apresentar obra.
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Desconhecia onde estava empregado. Sabia que era um jornal, mas mudara. Para onde? Na mesma avenida, mais acima ou do outro lado? Sei que entrei num e dele passei para o outro por corredores estreitos.
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Recebia insistentes telefonemas para um encontro com uma fonte, um empresário importante, que tinha para me dizer qualquer coisa de relevante. Ignorava-o, esquecia-o, negligenciava-o, omitia-me e acabei por ir ter com ele. E esqueci-me e voltei a ir e a esquecer-me e a ir e a esquecer-me até que percebi a importância do contacto e não era nada que importasse.
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Percebi isso na última vez que lá fui e única que importa. O escritório ficava na avenida principal da cidade. O elevador dava acesso ao átrio do hotel, onde estavam portas da minha casa. O elevador deixava a realidade vertical e em queda abissal transformava-se em comboio sem paragens cruzando o campo até à vila donde chegavam e partiam funiculares.
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Consegui regressar ao edifício e subi e desci escadas de serviço sem saber se ali trabalhava ou pertencia. Estava a empresa donde desaparecera. Uns fumavam fora da autorização e numas escadas mais secretas cheguei ao pátio do palácio que era museu e ainda igreja com o grande túmulo de calcário esculpido à moda do século catorze e onde jaziam os ossos dum santo. Depois de descer subi atrapalhado.
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Era ali afinal a tal empresa que por vezes parecia outra ou era mesmo outra e onde havia muitas profissões para desempenhar. Tinha trabalhado ali naquele subúrbio chique, com um hotel chique onde almoçava chique. Era longe e ia e vinha de carro. Aí havia um museu e teatro. Enorme e de arquitectura brutalista como a Gulbenkian. Como um tarado voyeurista quis espreitar e no afã calcando a relva e ignorando que chovera. Excitado como um pré-adolescente a ver revistas de mulheres nuas avancei e cai num lameiro, estava de fato, um bonito fato cinzento claro, da gravata não me lembro. Triste como um gato enxarcado.
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Daí fui à procura do tal produtor do tal vinho e não o encontrava. Sei que parei e estacionei para ir a uma discoteca da moda e já fora de moda tentava ser exclusiva e por isso abria portas para um espaço abaixo e depois fechava para todos irem para cima. Havia amigos e não me senti pertença de ninguém, prometendo regressos que só aconteceram por acaso.
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Saí farto e não encontrei o carro. Rebocaram-mo e fui buscá-lo à área de serviço que ficava no centro comercial e aeroporto, museu, palácio e mausoléu. No hotel estava o átrio e suas portas para a minha casa em que tanta a gente tinha a chave, tanta e desconhecida e eu sem saber quanta.
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Procurando o abrigo, entrei enganado em vários quartos estranhos e uma mulher com quem devia ter dormido alguma vez na vida me encontrou. Nada me disse além de desinteressantes circunstancialidades.
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Sabia que passara muito tempo sozinho e estava com amnésia sentimental ou física. Tinha nomes na cabeça a que não conseguia atribuir um rosto e rostos sem nome e sem certezas se eram amantes ou pretendentes ou vagamente alguma coisa ou só sonho ou fantasmas. E quem? A agenda do telefone não me ajudava e sabia de ter estado prometendo amores a várias e em vezes simultâneas. Sem saber se acreditaram e deveria ter vergonha ou se eram levianas como eu. Sem saber se tinha um compromisso apalavrado e a quase certeza que sim e muitas.
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Enfim, haveria de casar e sabia-o e sem saber com quem. A data estava marcada e reservei pernoita num albergue holandês que conhecera há muitos anos e sempre detestara, por todos dormirem ao lado uns dos outros. Dessa vez pernoitei num quarto próprio, desconhecia tal existência. Era lá que deveria passar a noite de núpcias e seguintes mesmo sem saber se com a noiva teria quarto ou partilha de camarata, que podia em última análise formar-se num enorme arrumo de colchões e confusões de mantas, almofadas e agasalhos em que cada um fazia por si e ninguém se levava a parvo. Tudo dependia do humor duma gorda e balofa patroa com ar de ter sido madama de tias.
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Isso passou e com amigos procurei comprar casa e essa era uma camarata estreita, com beliches de quatro pisos. Sem odor era igual a um hospital da Primeira Guerra Mundial e seus frios azulejos brancos. Ficava numa cidade noutro país que tinha um rio, suas esplanadas e poliglotas e vigaristas.
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Não comprámos porque quem nos venderia não compareceu. Em seu lugar chegou o proprietário, quem jamais a alienaria e desagradavelmente nos expulsou. Voltei ao albergue onde deveria estar com quem deveria ser a minha mulher e que amava.
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Por essa cidade, uma avenida enorme, onde o sistema de metro é complexo e onde me perdi em corredores, portas giratórias, direcções das carruagens, contradições, enchentes e vacantes, passageiros simpáticos e outros alemães e eu sem bilhete sabia ter direito à primeira classe porque comprara e o revisor acreditou em mim. Esse metro fazia-se comboio e chegava ao cimo do vilarejo onde desembocavam os funiculares e que noutras vezes chegara no furgão deprimente.
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De comboio voltei passando para cá das montanhas e de carro viajando repetidamente Lisboa e o Alentejo, enganando-me sempre nas entradas e saídas das estradas, perdendo-me subúrbios e terriolas com sinais de trânsito equívocos. Cheguei a um lugar proibido onde a droga e a miséria significavam raça. Grandes complexos de apartamentos sociais e cimento mal tingido de branco, sujo com gatafunhos de spray por adolescentes de calças a caírem pelo cu e horríveis bonés postos com as palas para trás. Não tive medo.
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Fui para o Algarve. O Algarve é uma terra duma só cidade contínua de praia como fronteira. O mar e cidade ou o mar e falésias altas ou a linha do comboio a separar o areal da calçada. Perdido procurando alguém, repetidamente e teimoso, nessa faixa tão comprida de quilómetros, passando de cá para lá na linha, partindo e chegando em comboios incaracterísticos.
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Havia locais com muita gente e crianças a comerem gelados e adultos a existirem em esplanadas, pessoas a atrapalharem outras e pedófilos caçando os miúdos com os sorvetes na mão e deliciados mais frágeis e desprotegidos. Preocupei-me com o filho que não tenho – e tenho – e que brincava num parque infantil, felizmente numa realidade paralela.
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No Algarve houveram ondas tão grandes que subiram acima das falésias molhando de sal. Não era tsunami porque proibi a palavra, nem maremoto porque não. Eram ondas gigantes sem nome. Depois soube que o povo gostara e tratara de criar dentro de portas uma piscina que fabricava ondas gigantes para deleite mas sem perigo, um ócio estúpido como habitualmente acontece nos subúrbios e na província modernaça.
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Dei por mim a surfar agarrado a uma tábua. Tinha jeito, mas saí do tanque e estava no ginásio, donde quis fugir desde a primeira vez que lá entrei. Estava diferente, agora havia uma piscina normal e cheia de chapinhadores e os que nadavam com zelo faziam-no numa banheira de doze metros e meio de comprimento. Havia um cubo de vidro alto e largo, uma piscina bonita de tentação para saltos fundos mas de porta fechada para quase todos.
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Perdi-me nos vastos balneários e ignorando onde eram os dos homens e os das mulheres e os de partilha. Tinha sede e as torneiras abertas para os homens beber estavam no lado das mulheres e o seu oposto. Tinha-se de estar nu para beber e nu fui ao lado saciar-me. Depois ajudei uma moça a matar a sede no lado errado pelas normas do sítio e circunstância. Sem pecado como no lado de baixo do Equador.
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Do ginásio saí e dei por mim no enorme centro comercial que era hotel, museu, palácio, igreja e casa. Saí e fui até à Madredeus, mas não era, de tram madrugador iluminado tristemente a amarelo. De lá custei a voltar e tinha ido à procura de alguém para um favor e que era vagamente ladrão, era um sítio de ladrões. E fui daí à outra ponta da cidade onde ao regressar apanhei táxis cujos motoristas desconheciam caminhos, um dos carros era um Rolls Royce.
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Nesse momento percebi por que me agitava tanto. Tinha assassinado um amor e enterrado o corpo sob uma rua da cidade feita em esquadria romana. Falava com os familiares tristes e enlutados e escondia a autoria do pesar. Sempre em medo, desde então, indo e retornando ao sítio do homicídio e sepulcro.
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À noite, fazia essa procissão de noite como um vampiro. Cansado de esconder-me e incapaz de ficar vi-me novamente no Algarve. Por desentendimento lógico estava no Algarve. Repousando afastei-me do centro dessa cidade una onde, sinal de modernidade, passava um comboio metropolitano que irracionalmente contornava o centro e parava onde houvesse gente para entrar ou sair percorrendo carris encaixilhados em areia acastanhada e certamente salgada. Apeado segui a linha e juntei-me a malta. Fui ao banho num rio sabendo que deveria manter-me seco.
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Uns metros adiante estava um cubo, um edifício em art deco que por dentro se aparenta com uma estação ferroviária. Sem que um comboio possa correr na água apanhei transporte e cheguei ao restaurante chique e se situava no prolongamento da nave gigantesca e industrial por onde fugira à participação na performance artística de vanguarda, através dos longos e aborrecidamente escurecidos bastidores do teatro. Nesse restaurante havia delicadezas e confusão de gentes e baralhações com a comida, bebidas e serventes, entre eles algumas freiras. Reclamações, pedidos de desculpa, juras de nunca mais e certezas de regresso.
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Estava aí porque ia haver uma prova de vinhos e sei que estava e não estava, que havia copos errados e muito maus para uso e numa ânsia frenética procurei o tal vinho, do produtor simpático, cuja quinta se situava nas montanhas num caminho para um país estrangeiro, mas que descendo por uma estrada podia ir-se à vila dos funiculares ou por desvio aparecer no Alentejo. Havia vinhos raros, secretos e falsos e era uma pândega que me desagradava por falta de respeito para com a bebida.
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Estava aí e não estava onde era suposto esse sítio ficar. Tinha de voltar e voltei a Lisboa. Desci e voltei a subir o país demandando aquele vinho que tanto gostara. Simpáticas as gentes, acolhendo-me em casa e nada do tal vinho. Daí das montanhas desci ao Alentejo e havia qualquer coisa com as árvores mas não me lembro. Cheguei à propriedade dos primos e à casa grande. Embora juntos no sítio, desencontrando-me com a família a maior parte do tempo. Entardecia e falava-lhes em plantarem no jardim uma videira para latada, mas não queriam porque o Alentejo não é o Minho ainda que a sombra fosse fresca – diziam que as uvas chamariam moscas e mosquitos – verdade.
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Tinha de voltar a Lisboa. Tinha de voltar. Mas onde estavam as minhas gatas? Por que razão estariam no Alentejo e como lá chegaram? Uma dor tão grande de não saber. A Paraquedas sei que está em casa, em Lisboa, porque não saiu ou porque regressou sozinha. Disseram-me que a Granita e a Lioz estavam doentes e podiam morrer ou podiam ter já entregado a alma ao Criador e que as esquecesse e outros falavam em gataria imensa em que nenhuma se distinguia devido a muitas sósias – só gatas. Doente e enjoado de pânico pensei em novas gatas, mas acreditando que perdidas e mesmo doentes a mim voltariam, com as fé e certeza das mães assustadas.
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E se nessa multidão as não as reconhecesse? E se não me quisessem reconhecer? A Granita vem ao chamamento e passou agora uma gata preta grande como um gatão e não podia. Chamei-a e não veio, mas à primeira vez que se aproximou tive-a nas mãos e docilmente deixou que a virasse de papo para cima, privilégio raro que me permitem, e nele topei as manchas brancas sob o pescoço, no peito e na barriga. A Granita!
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Mas e a Lioz? Como a reconhecer se não vem ao nome ou vem quando lhe apetece e é tímida e está camuflada numa ninhada de tantas siamesas. Tal como no princípio, quando não a escolhi e ficou por ser a que sobrava – o que me atormenta o afecto e a culpa. Tão bebé e ainda mais frágil temi que morresse por inanição e saudade do conforto materno. Alimentei-a à força e resgatei-a e inadvertidamente aleijei-a várias vezes – que dor que com ternura me perdoou.
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Reencontrei-a e distingui-a por um sinal no focinho, uma marca que não tem. Coração de mãe, o meu. O coração bateu de certeza ao mergulhar os meus olhos nos seus azuis muito grandes, abertos e espantados. Calor sem suor.
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Prontos para a viagem. Juntos numa carroça cheia de panos, mantas e trapos, cestos e comidas virgens e cheirosas, eu, a Granita e a Lioz – tiradas tão cedo da mãe que nem sei como me perdoaram – numa caixa de cartão larga e tampa furada como se faz para arejar o habitat falso dos bichos da seda. Teimava a família fechasse com outra tampa, mais comprida e estreita. E se fugissem? Infantilmente acreditei que um gato se manteria enclausurado numa caixa de cartão fino sem trinco.
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Chegados se soltaram nas escadas do prédio dos meus pais. Fugiram em direcção a um lugar que o meu íntimo sabia do regresso e em paz.
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Assustado lembrando o pavor pretérito e imaginando outros gatos e outros animais que se adoptariam e morrendo e surgindo e morrendo e surgindo e deixando-me órfão. Sustos que não seriam verdade.
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No regresso ao prédio da infância subi as escadas à frente do J, tão amigo da família, e da mana, que levava muito avanço. L subia as escadas e vinham os seus três novos filhos, ela que deu à luz quatro e um partiu aos dezasseis e estes eram novidade. Filhos? São dois os netos e o outro? A L ia adiante com dois e eu carregava o mais novo.
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O J estava atrás, no lanço anterior ao meu. Falou-me e virei-me. Parei e o bebé soltou-se, esgueirando-se entre os ferros de suporte do corrimão. Das minhas mãos soltou-se macio.
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No preciso instante Deus apagou toda a luz, um longo e breve breu sepulcral. Tentei segurar-lhe e dos três dedos – polegar, indicador e médio – senti a pele virgem deslizar rumo ao fundo. Morri todo e por tudo, em suicídio instantâneo e incorpóreo. Morri!
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Deus acendeu a luz e J agarrara o bebé.

sexta-feira, janeiro 23, 2015

Ermitão

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É o momento do frio o que testa a solidão. No mar calmo na praia a coragem de ser nu e deixar a ondulação cobrir e destapar. O pensamento lava-se e virão as dores e sempre o sal. Se amanhã não, pode ser sim. Poucas horas para saber quanta angústia e se obriga a eremitar sobre a areia e sob a água e seus brilhares. 

Reticência e resistência

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Um caminho em princípio e a primeira tentação de ficar a pensar ou não pensar e voltar. Ir até à linha e, embora sabendo a verdade, saber que se tem medo dos tremendos que vivem no mar e no céu longe da terra. Ir voando tão rente quanto um barco, do incómodo ao prazer das lágrimas que voam e chegam e molham e ainda a chuva cinzenta, do incómodo ao prazer de se estar só. Mas um poiso mesmo agora…

Sem luar

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Estou escuro comendo-me de dentro para fora e fora para dentro, virando-me em digestão pesada, como as olheiras, do aperto no coração à alma de bruma e noite. Fantasma de mim assustando-me e desejando a coragem para um passo mais, o mergulho no vórtice insonoro e não saber se se volta a respirar.

Livres

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Que bom que foi! Que bom que foi! Que bom que foi! Ainda resta vinho e sobra sono da noite de sexo libertado. Ah, sim! Adão e Eva. Ai, meu Deus! Que bom!

F...

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Lembra-me tanto nem alegria nem tristeza, uma praça larga vazia no final da madrugada. Nem os pombos voam nem as gaivotas aportam. A luz do sono mal dormido e do amor mal feito. Sem espessura mas gosto de quem. Ver assim diria que é, nem tristeza nem alegria, um pensamento para algo para fazer.
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Nota: Esta obra já tinha sido publicada, em Setembro passado.

O grande timoneiro de Gotham City

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O Batman não é mau, mas o Mao era.
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Nota: Esta pintura já tinha sido colocada, mas apeteceu-me!

O meu cão é um cão mais cão

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Em nós, os olhos são janelas para a alma, nos cães a alma vive à janela e o coração no corpo todo.
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Nota: O Papa Francisco disse que os animais tão vão para o Paraíso. Fique onde ficar, seja o que for o Éden, os amigos querem os amigos. Que futuro têm na decisão de Deus, desconheço. Se nos dão amor aqui também darão por lá. Paulo disse que toda a criação será libertada, «para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus». Francisco de Assis chamou-lhes irmãos.

Da luz, o medo

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Não gostaria de namorar uma cantora. Deslumbram na luz do palco e ascendem a angelitude e píncaro de desejo. Não por ciúme, por medo que bata as asas e se esqueça de mim. Por medo de ter medo que me regresse apenas mulher.

O tédio é veneno agonizante

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Quando a cidade estiver limpa, tão limpa que a memória esqueça, os velhos e heróis viverão em lares melancólicos morrendo devagar e fumando cigarros em transgressão.

quinta-feira, janeiro 22, 2015

Valquíria

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Disseram que assim era perigoso. Triste será não cair contigo levando-te à garupa. Disseram que poderia ser perigoso. Se mal fizer, é não o fazermos. 

Todas as árvores e também o vinho

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Os anos apagam letras e palavras e nos seus lugares põem outras. Dos lapsos da memória, atraiçoada pela idade antiga ou distraída pela jovem. Os sítios mudam de sítio e as pessoas entram porque outras se tiram.
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Uma estória só está completa na sua nascente, nem quem a escreveu a dirá sempre do mesmo modo. Depois inventaram a escrita e ainda.
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No livro:
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– O Senhor Deus fez brotar da terra toda a espécie de árvores agradáveis à vista e de saborosos frutos para comer; a Árvore da Vida estava no meio do jardim, assim como a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.
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Se não fossem duas árvores, uma dá frutos como a outra, tão próximas que as abelhas as cruzaram. 
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O livro diz que disse:
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– E o Senhor Deus deu esta ordem ao homem: «Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim, mas não comas o da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, porque, no dia em que o comeres, certamente morrerás».
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Se for a mesma que a Árvore da Vida? Quem contou e os que foram contando e o que escreveu, quantas vezes não se empolgaram e do ribeiro fizeram rio?
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Comeram e viram-se nus e de vergonhas se tomaram, escondendo as partes pudendas com folhas de figueira.
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Não terá sido com uma pouco calórica maçã que a Serpente desafiou. Seria figo, o fruto da árvore proibida…
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Do que o tempo erodiu se criou o lugar para outras palavras e conhecimentos. O saber anterior feneceu. Digo, porque não era uma árvore.
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A Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal era uma trepadeira. Por lenhosa, cuidaram que fosse de largo tronco vertical.
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Uma videira, tenho a certeza! A certeza dos insábios.
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Ou se fosse uveira abraçando a figueira... Vejam-se as folhas duma e doutra – quase insolentemente – e a doçura das frutas.
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Se fosse uma parreira, entrelaçada no tronco forte, podia ser que existisse a Árvore da Vida, a figueira. A outra, a da sabedoria.
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As primeiras adolescências foram como hoje, de desobediência e transgressão.
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Com o conhecimento, Adão e Eva colheram uvas e com elas fizeram vinho, que também se chamou sangue.
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Da alegria do vinho nasceu o desejo e despiram-se de folhas para a primordial cópula.
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Só a idade junta experiência e diz certo e errado, culpa e punição, e penitência, castigo com que os anos maltratam a libido.
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Nasceram filhos e filhos e filhos dos filhos e filhos dos filhos dos filhos.
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Por culpa de declamadores por milénios, a verdade retorceu-se. Deus deu-nos o prazer e todas as árvores e também o vinho.
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domingo, janeiro 18, 2015

sexta-feira, janeiro 16, 2015

A minha ida à guerra

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Com a idade limite, fiz a inspecção militar num dos quartéis da Ajuda, em Lisboa. Reparei na clivagem de tratamento dos militares, muito educados com quem poderia ser chamado para oficial e agrestes para com candidatos a praças.
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Ainda assim, ia-me chateando com um palerma dos Comandos que me fez exame oftalmológico. Saí do quartel pelo meu próprio pé, pois escapei por centímetros duma porta que se abriu com a força dum obus, empurrada por um tipo dos Fuzileiros.
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Passei a primeira manhã a fazer testes de vária ordem. Descobri que tinha bons reflexos e acuidade visual, quando um magala, um dos que monitorizavam a prova, se chegou e disse:
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– Se não queres cá vir bater com os costados, é bom que comeces a falhar.
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Preguicei, então. Bocejei nesse e nos testes de valência aparentada.
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– Obrigado, bacano.
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A inspecção militar tinha a duração de dois dias, que na realidade era de um dia e meio… diziam dois dias, com a sabedoria de que o tempo não dura o mesmo nos quartéis. Ao meio-dia da primeira jornada faltava-me só ser visto por um médico, mais graduado do que aquele que me topou a coluna torta, e ter uma entrevista final.
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Era meio-dia e podia ir embora, pois sabia-se que o tal médico não iria estar. Mas não se podiam saltar etapas, pelo que quem me faria a entrevista não adiantou trabalho… e tempo… e paciência.
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Na manhã seguinte apresentei-me e lá fui visto por o tal médico, que era antipático a roçar a má educação… como se eu fosse culpado por estar ali e de ter a coluna desarranjada. Depois entrei no gabinete dum oficial tarimbeiro, que fingia haver uma hipótese de escolher o ramo e a arma. A entrevista era mera formalidade. Estava liberto, podia dirigir-me à Porta de Armas e sair assim que gritassem o meu número.
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Gritaram, mas, em vez de sair, entrei para um anfiteatro. Ali penei cinquenta minutos, mais uns tantos mancebos. Ninguém dizia por que estávamos ali… tropa entrava e tropa saía, uns jovens chegavam pelo próprio pé e outros vinham escoltados.
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Aquela espera revelou-se como uma das coisas mais estúpidas que devem existir na vida militar. Aguentar e calar. Quando lhe apeteceu, chegou um oficial subalterno que informou a sala:
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– Quem está nesta sala foi dado como inapto ou, por ter até três deficiências, deverá passar à reserva.
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Tinha bastado um postalinho, um telegrama, um telefonema ou um ritmo mais acelerado… cinquenta minutos até que o anfiteatro se enchesse, para não ter muito trabalho em dizer as coisas várias vezes. Tanto lhe fazia, era oficial do quadro e nós paisanos e hipotéticos futuros subordinados… éramos quase qualquer coisa.
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A minha ligação ao mundo militar é… uma coisa engraçada. O meu pai e o meu irmão foram militares, ambos voluntários na Armada. Quer um quer outro foram empurrados. Este ramo dos Barbosas não se dá bem com a instituição castrense… nem o meu avô Francisco foi chamado, tinha a idade certa para ser flagelado na Flandres ou desbaratado em África – coisa que pouca gente sabe: os portugueses foram malbaratdos pelos boches em Angola e em Moçambique, fizeram o que quiseram.
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Tão remota é a ligação à instituição militar que só no casamento dum primo, com a filha de um general, é que percebi para que servia o serviço militar obrigatório. O Exército tinha – ou tem – uma quinta, com capela, cujo uso é… servir para casamentos, provavelmente só para alguns.
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Tinha um Renault 5 TL, cinzento metalizado, e apontei-o ao portão. Um magala, fardado com a «número um» e luvas brancas calçadas, pôs-se diante do meu carro-de-assalto blindado, fez-me continência, chegou-se à janela, pediu-me os documentos e mandou-me seguir.
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Segui muito devagar… percebi que devia ir mesmo muito devagar, pois, dum lado e doutro, perfilados, jovens, vestidos com a «número um», batiam-me a continência, com luvas brancas calçadas.
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No final dessa alameda, um soldado mandou-me parar e fez-me continência. Fez-me sinal para o seguir. Corria com aprumo. Depois parou, bateu-me a continência e afastou-se. Logo substituído por outro… continência de luva branca… a correr até que parou, saudou com a mão junto à testa e logo outro surgiu com os mesmos preparos. Este terceiro servia para ajudar nas manobras de estacionamento.
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Nos anos noventa, Lisboa vivia o auge do pesadelo do consumo de heroína. Farrapos e zumbis ganhavam a vida nas ruas, a indicarem lugares de estacionamento a troco de alguns escudos. Perante aquele espectáculo fandango, questionei-me se haveria de dar uma moedinha ao soldado. Não dei, o pré chegava-lhe bem, certamente.
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O casamento foi chato, como todos os casamentos. O sogro do meu primo vestia um traje antiquado, de opereta, com dragonas e um chapéu esquisito. Acho que era a farda de gala… depois da missa mudou-se, e vestiu um fraque. Haja normalidade!
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Até aos trinta e três anos tinha feito a inspecção militar e participado numa manobra militar de alto coturno. Aos trinta e três anos estava desempregado e o Instituto de Emprego e Formação Profissional chamou-me para me perguntar se queria realizar trabalho de ocupação. Receberia mais vinte por cento de subsídio e trabalharia quatro dias por semana, o outro era para procurar trabalho.
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– Claro que sim! Para onde é?
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– Para o Arquivo Histórico Militar.
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Ora eu, com formação em história, adorei a ideia… de tal modo que ainda arrastei para lá uma grande amiga – a Carla Pedro, doce e de coração terno. No primeiro dia útil de Abril de dois mil e três apresentei-me na Porta de Armas, que dá para o Pátio dos Canhões do Museu Militar.
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Não me lembro da formalidade, sei que recebi uma letra, que definia até onde poderia ir dentro daquele complexo, que agrupa o Museu Militar, o Arquivo Histórico Militar e o Estado Maior do Exército.
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A Porta de Armas situa-se junto à estação ferroviária de Santa Apolónia. No largo informe desenrascou-se um parque de estacionamento para os automóveis dos oficiais superiores e carritos de serviço. Desde então que duas questões me assaltam:
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– Por que é que um oficial superior tem direito a carro e motorista? Por que é que o automóvel de serviço é um carrito de família de classe média-baixa, com muitos anos e quilómetros?
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Um tenente-coronel sentado no banco de trás dum Opel Corsa de três volumes, guiado por um jovem ao serviço da pátria, não dá a dignidade que se pretende. Se o país é pelintra, que se poupem os cobres gastos em carritos. Já os oficiais generais tinham outro tratamento. Quando havia reunião, o Pátio dos Canhões – que é uma área museológica – transformava-se no parque de estacionamento de Mercedes pretos.
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Ao contrário do que acontecia com os outros parceiros de actividade complementar, quando me aproximava da Porta de Armas, os lanceiros punham-se em sentido e faziam-me continência. Como não percebia, tratei de questionar um sargento lá do serviço.
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– É simples! É novo, tem o cabelo curto e vem à civil… é porque é oficial.
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Acrescento que tinha menos trinta quilogramas do que hoje. Um camarada de ocupação – um feliz gozão com inteligência – tratou de me meter veneno:
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– Na próxima vez diga-lhe: À VONTADE!
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Hã, hã… estava-se mesmo a ver.
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Brincadeiras à parte, a verdade é que ganhei muito respeito e consideração por aqueles militares do Arquivo Histórico Militar. Simpáticos, educados e muito interessados no trabalho que exerciam. Todos, sem excepção, estavam prontos a ajudar os noviços com dúvidas.
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Digo por brincadeira que fiz a tropa no Arquivo Histórico Militar, na altura dirigido pelo tenente-coronel Aniceto Afonso. Além de pessoa de bom trato, foi Militar de Abril. Nunca assentei praça, mas ali percebi que a tropa não é uma tortura.
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Gasto o sangue do impulso por via da idade, embora ainda com raros cabelos brancos, compreendo a nobreza da função militar. O serviço militar não me teria feito mal. Olhando para ontem e hoje, percebo que foi asneira terminar com a obrigatoriedade, desde que reconhecendo o direito à objecção de consciência e civicamente colocar as mesmas obrigações às moças.
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Aos dez anos insistia que queria ir para os Pupilos do Exército. Ainda assim, sei que não fui fadado para a instituição castrense, embora sonhe acordado em que comando uma corveta ou rode a torre de um carro-de-assalto com lagartas.
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Cheguei aos quarenta e cinco anos e ouvi dizer, há muito tempo, que aos quarenta e cinco anos se ficava, de vez, livre de cumprir serviço militar. Procurei e é aos trinta e cinco anos… podia ter feito a festa dez anos mais cedo.
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Mas o prazer daqueles seis meses na minha «guerra»… foi mesmo muito bom.
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Nota: Caro coronel Aniceto Afonso, se me ler, não leve a mal as brincadeiras. Foi um privilégio aquele tempo de serviço cívico que cumpri no Arquivo Histórico Militar.

Hoje poderia ser major ou capitão-tenente

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No final dos dois dias de inspecção militar havia uma entrevista, como as de emprego. Um oficial tarimbeiro da Armada fazia a vez do director do departamento pessoal. Como o meu processo nas mãos, qual currículo, perguntou-me.
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– Pode dizer-me para onde quer ir, caso venha a ser chamado?
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– Quero ir para a Marinha.
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– A Marinha, são dois anos…
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– Quero ir para Cavalaria.
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Ele já tinha a resposta e disse-ma com um sorriso genuinamente simpático.
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– Vai para Comunicações, na Trafaria.
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Não fui. 
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GPS

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Não tenho saudades dos anos sessenta e dos setenta quero a avó e a mãe. Os oitentas foram e bastam-me, escusam de mos lembrar. Os noventa vincaram até à cicatriz, da ferida que lhe sucedeu – uma guerra termonuclear, pelos escombros doutro mundo perdido, querendo perder-me e achar-me. Cheguei aos quarenta e – agora sim – tenho a certeza que não sei o que faço aqui.

Agora todos juntos

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Açúcar e gema, no café não quero. Entrecosto grelhado e molho à espanhola, da manteiga desisto. Sandes de pepino, chucrute e carapaus de escabeche, chuva insistente. Mexilhões e batata frita, chuva insistente. Sal, azeite, alho e coentros, que venha pão duro de trigo duro, água fervente para escalfar um ovo.
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Há coisas perfeitas e outras que não sei. Do chão vêm as trufas e do Cáspio o caviar, Champanhe, sim, do escondido em grutas de giz.
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Se dois e dois são quatro, por que é um o resultado? Quando dois e dois são cinco a inteligência e o prazer beijam-se.
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Nota: A Optimus promoveu uma série de encontros musicais, juntando improváveis, em torno da canção «All together now», dos The Beatles, que serviu como hino publicitário. De todos os «Duetos improváveis», nome da iniciativa, esta união foi a que melhor me soube nas orelhas.

O tempo tem tempo, o tempo não tem tempo nenhum

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Dispo-te-me e despes-te-me. Agarrados pelos lábios e soltos pelas pressas, caímos e não pousamos. Como lutando, libertando os espíritos do desejo, o tudo passa a nada e não existe outra coisa menos nós, caintes num vórtice. Sem fundo e no fundo, o topo da abóbada celeste – Céu, o maior espectáculo do mundo, o primeiro deslumbre do mundo depois de provado fruto da árvore do conhecimento. Afogueados, queremos apenas o instante em que se vai ao fundo do mar.
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Nota: Se alguém souber quem é o autor deste terrastro que me informe, de modo a assinalar a autoria.

Siza 2009 – muito mais do que um vinho

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Tenho uma frustração: não segui belas artes. No tempo em que estava no liceu – Escola Secundária Gil Vicente – a minha primeira opção para prosseguir os estudos era pintura. O design atraía-me e a escultura nem por isso. Sonhava também com casas, mas arquitectura estava fora de opção.
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Acabei por desistir por causa de três cadeiras absolutamente inúteis para quem quer seguir pintura, design de comunicação ou escultura: matemática, física e química. Nunca percebi por que haveria de ser flagelado se quem ia para letras estava dispensado – aliás, a única via em que o terror estava ausente.
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Anos depois compreendo a minha frustração. O sentido de justiça e a falta de lógica toldavam-me a razão. Birra?... Penso que não. Olhando para esses anos e relativizando, percebo que seria justo que todas as hipóteses pedagógicas deveriam ter matemática. Isso, só por si iria fazer prosseguir os estudos sem ser por fuga.
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Mudei-me para letras – sem sacrifício, pois a escrita e a história sempre estiveram comigo como as artes plásticas. Não me sinto ou senti frustrado, propriamente, apenas desgostoso. Nunca fui bom aluno a matemática, desde a primeira classe. Até ao nono ano safei-me à tangente.
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No décimo e décimo primeiro a loiça era outra. Dizia-me uma Professora (com «p» bastante grande) que não compreendia como era possível ter as notas que obtinha, quando era o primeiro ou dos primeiros a entender a matéria.
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Na verdade, esses patamares de matemática foram, em toda a minha vida escolar, os que melhor entendi em números. Porém, a minha vocação era tão grande, que o resultado era em linguagem binária: 0 e 1 – zero e um!
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Tive explicadores e ajudas familiares. Entendia, tudo bem. Porém, chegada a véspera do teste todo o conhecimento se evaporava. Entendo hoje, a reacção psicológica… ter matemática, física e química não tinham lógica nem função. Já a geometria descritiva não me causava dores… fazia sentido para o futuro que ambicionava.
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Acabei por mudar de área vocacional. Cheguei ao 12º ano com 19 anos. Um professor – professorzeco, com «p» minúsculo – de filosofia gostava muito de ser gozão. Mas gozo humilhante. Na primeira aula decidiu tentar enxovalhar-me, por causa da idade com que chegava ao último ano do secundário.
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No final, dirigi-me a esse senhor – baixinho de altura e carácter – e enfrentei-o. Baixou os olhos e engasgou-se ligeiramente. Pelos vistos, nenhum aluno o enfrentara nos olhos e o contestara. Expliquei-lhe por que tinha 19 anos e ia terminar o ano lectivo com 20.
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Rancoroso, ainda tentou ensaiar alguns achincalhamentos. A minha resposta visual recuavam-no e seguia a tentativa de humilhação para outro aluno. Sempre muito capaz nas coisas das letras e com leituras acertadas, espantei-me quando saiu a nota da primeira avaliação: 2,5 valores.
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Percebi que não podia permanecer com o sujeitinho como professor. Anulei a matrícula e candidatei-me a exame nacional: 16 valores. Nas provas de admissão à faculdade, outros 16 valores. Confirmei o quanto era pequenino esse sujeitinho, que era professorzinho.
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Com demasiado tempo livre, na altura o 12º apenas tinha três cadeiras (hoje não sei) e eu tinha anulado uma, tornei-me jornalista em Janeiro de 1990, no Diário Económico. Cresci imenso e fiz-me mais crescido, mimetizando os mestres.
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Tardei em acabar o curso de história, e cedo percebi que não o iria utilizar, e cá continuo às voltas com reportagens, sobretudo. Disciplina maior do jornalismo, que tenho o privilégio de exercer regularmente.
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As artes não morreram. Ainda hoje desenho e pinto, com frequência insuficiente. Quem olhar para o blogue preto perceberá que a arte vive-me e que a uso não como ilustração, mas como complemento do texto, em diálise – embora haja situações em que são ilustrações e noutras em que a ilustração é o texto, em forma de legenda.
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Teimo em gostar de arquitectura e dou-me a liberdade de a julgar. Não tenho habilitações académicas ou de tarimba, mas se todos podemos discutir literatura, música ou cinema, por que não arquitectura?!
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Bem, a arquitectura não é uma ciência artística, embora alguns arquitectos e paisanos pensem que sim. A arquitectura, como o design ou a enologia, é saber técnico. A estética vem por acréscimo – certo disso é que nunca aspirei a seguir arquitectura, licenciatura que, à época, era ministrada nas faculdades de belas artes. Tanto quanto sei, hoje está enquadrada em universidades técnicas.
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Sendo arte ou ciência técnica, a arquitectura pode ser discutida pelos curiosos e ignorantes, como tudo. Viva a liberdade! Álvaro Siza Vieira é um dos melhores arquitectos do mundo, vencedor do Prémio Pritzker, referente a 1998, pelo Pavilhão de Portugal na Exposição Internacional de Lisboa. Aquela pala é fantástica e espero que o engenheiro – deve ter passado semanas acordado – que fez os cálculos estruturais tenha ganho também um troféu, não consegui apurar.
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Nas minhas liberdades de discussão de arquitectura, afirmo que detesto o trabalho de Álvaro Siza Vieira. Em parte é para chatear a minha prima, Maria Carolina Palma, que exerce e tem nesse arquitecto do Porto um marco de referência.
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Um dia disse-lhe desastradamente:
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– A arquitectura do Siza Vieira não é gira!
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Deu-me uma resposta em forma de tiro de canhão:
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– Giros têm de ser os brincos.
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Assunto arrumado.
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Na verdade, o que me chateia na obra de Siza Vieira é a obsessão pelo branco. Não é a síntese do traço ou o conceito dos edifícios. É o branco, que se torna melancólico. Para melancólico basto eu!
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É certo que são conhecidas bizarrias, (birras) e teimas. Quem as não tem? Tratando-se de trabalho (técnico) criativo, Siza Vieira tem todo o direito de defender a sua estética e de a exercer.
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Não vou enumerar o que gosto e não gosto nos edifícios de Siza Vieira, digo somente que o Pavilhão de Portugal é uma construção que o mundo merece ver, nem que seja em fotografia.
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Tenho tido a possibilidade de ver e tocar desenhos, em liberdade, de Álvaro Siza Vieira, nomeadamente na Quinta do Vale Meão. À solta, em rótulos ou por aí, os traços agradam-me muito.
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Enófilo, já se percebeu, tem concretizado adegas e rótulos. A Adega Mayor, em Campo Maior, é um objecto para se ver. O rótulo que se mostra no vinho que Rui Azinhais Nabeiro – homem dos maiores que Portugal deu à luz – é duma simplicidade, ou síntese, arrasadora.
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Tratando-se dum vinho de homenagem, o Siza 2009, não o irei classificar com uma nota redutora, ainda que assumidamente subjectiva e excêntrica. Não tenho esse direito. É uma homenagem que um amigo fez ao outro.
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Bonito – como os brincos que a minha prima me atirou à prosápia – o rótulo não é uma ilustração, mas parte integrante dum objecto que se faz também de vinho. O vinho, pretexto para esta crónica, é obra dos enólogos Paulo Laureano, o chefe, e Rita Carvalho, que tenho pena ter deixado de exercer.
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O que é este Siza 2009? É um abraço alentejano, que a casta alicante bouschet deu o corpo e o espírito. É um alentejano verdadeiro. É um vinho escuro, que se reflecte na cor do rótulo e se aviva no branco que Siza Vieira tanto aprecia.
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Não quero falar em descritores, que são coisas a que não dou um valor determinante. Porém sublinho o cacau e a potência educada como se revela na boca.
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Produziram-se apenas 2.500 garrafas. Ainda bem que são poucas, pois acrescentam valor ao desejo de o beber. Álvaro Siza Vieira e Rui Azinhais Nabeiro merecem um vinho destes.
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: Adega Mayor
Nota: X/10