domingo, novembro 30, 2014

Deus, as ideias, a física teórica e a arte na cabeça de quem toma sete cafés por dia

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Estou cheio de ideias. Tantas que é melhor ficar quieto e esperar que saiam por falta de espaço. Entre feridas e orgasmos tenho tempo para mandriar, faltam condições para escrever o sustento da prosa, poesia, pintura, gastronomia, outros folguedos.
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Há tanta arte na construção como na desconstrução ou na destruição. Vale a pena começar do princípio? Sim, se for com os escombros como alicerces.
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– Oh, pá! Faz como quiseres e não me chateies. Quero lá saber. Tu sabes de ti e eu de mim. Provavelmente estou errado, mas não quero saber nem pensar nisso.
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Ler é uma chatice e já li demasiado, esqueci-me de quase tudo, pelo que ler não serve para nada. Prefiro ir para a leitaria dos senhores simpáticos e esperar as marés, beber seis ou sete cafés, encornar o psiquiatra; sou maluco e não posso beber mais do que um.
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Não sei onde vivo o tempo. Outro dia vi um documentário sobre o universo, coisas da física teórica, em que se pode ultrapassar a velocidade da luz através duns tubos, em que as pontas parecem bocas de corneta.
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Fiquei na mesma. Pode ser verdade, além dos universos paralelos ou do viajar para trás, matar o avô, casar com a mãe e não ter nascido.
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Toda a gente sabe – se não sabe, devia saber – que a velocidade de Deus é!
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– Ah! Não acredito em Deus! Nunca o vi!
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– Claro, ele passa sempre tão depressa! Dâh!...
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– Ah, não! Deus está em toda a parte!
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– Ai, sim?! Então por que o buscas?
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– Deus é tudo! As árvores, as pedras, os animaizinhos fofinhos!
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– Olha, tomamos café para a semana e metemos a conversa em dia.
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Não sei nada acerca de Deus, a minha cabecinha é pequenininha – sim, atafulhada de diminutivos – para o perceber. Ainda assim, a sua velocidade é.
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A vantagem dos computadores é que, se tivesse escrito este texto em papel, estava todo gatafunhado. Se o deitasse fora, estaria perdido. Como o escrevi no computador, posso refaze-lo, apagá-lo e ir buscá-lo ao caixote do lixo informático.
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Se o computador se partir, encho-me de fé, para que tenha arranjo, já que Deus não faz milagres. Fez as regras do universo e já não é coisa pouca.

Desejos para a vida que vem

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Não próxima encarnação quero ser o Herberto Hélder e ter o mau feitio do António Lobo Antunes.
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Ou então:
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Na próxima encarnação quero ser a Florbela Espanca e ter a força da Natália Correia.
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Seja qual for a realidade da próxima vida, penso que continuarei a precisar de comprimidos.

Queixume das peúgas

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Há muitos, muitos anos, numa galáxia muito distante, o Natal e o aniversário, que acontece oito dias depois, era um tempo de felicidade, alegria, brincadeiras e surpresas. Algumas surpresas eram demasiado estúpidas para um miúdo.
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Havia sempre uma tia, a madrinha (em parte), um parente e uns amigos dos pais que ofertavam lenços de assoar, peúgas, meias, camisolas interiores, cuecas, luvas, cachecóis, barretes e abafos. Umas alminhas mais práticas entregavam envelopes com dinheiro; podia ir para as despesas infantis ou para o mealheiro.
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Por que raio haviam de me dar coisas com as quais não se podia brincar nem ter qualquer tipo de gozo? As ofertas eram, de facto para mim, mas eram, absolutamente, para os meus pais. Era uma coisa tão entediante, quase vomitante, por não termos necessidades económicas, uma típica família de classe média.
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Não sei se figura na Lista dos Direitos da Criança, elaborada no seio da UNICEF, não receber outra coisa que não brinquedos, livros para a idade, discos ou filmes. Claro, que nas sociedades carenciadas a premissas são diferentes, ainda assim, os presentes chatos são para os pais, ainda que quem beneficie sejam os miúdos. Todavia, não podem, ou não deviam, deixar de merecer a cangalhada de festarola.
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Hoje, com quase quarenta e cinco anos, aproveito para comunicar que peúgas, meias, camisolas interiores, cuecas, luvas, cachecóis, barretes e abafos são muito benvindos. É uma chatice andar às compras! Dispenso os lenços de assoar.
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O dinheiro é sempre uma boa prenda, que não irá para o mealheiro, mas para as horríveis entidades que se saciam com o vil metal: companhia da água, empresa de electricidade, o fornecedor do gás, a gasolina, o seguro do carro, a prestação da casa ao banco, o seguro da casa, médicos (a idade já obriga a variedade), dentista, tralha útil para a casa, comida para o cão, comida para as gatas, areia para as gatas, vacinas, desparasitantes, mata-pulgas, veterinário, o Fisco – nas suas muitas facetas e nomes, que são ainda mais do que os nomes do Diabo e que está em toda a parte a sugar –, e o kafkiano imposto da Segurança Social (SS), que é quase tão terrível quanto o foi a Schutzstaffel (SS) – afirmam ser uma comparticipação solidária entre gerações, mas tanto quanto sei a solidariedade é um acto voluntário e não obrigatório.
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Obviamente que não estou a queixar-me para me oferecerem no Natal e/ou no aniversário peúgas, meias, camisolas interiores, cuecas, luvas, cachecóis, barretes e abafos… Não estou a pedir dinheiro… não, nada disso! Mas se quiserem, se fizerem mesmo muita questão, posso indicar o número de identificação bancária, para o caso de terem uns trocos que não precisem.
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Ah! E podem fazê-lo em qualquer dia do ano, incluindo os bissextos.
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Nota: Teimo no benvindo, porque bem-vindo não tem qualquer lógica.

sexta-feira, novembro 28, 2014

Deixei de mim

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Despedi-me e disse uma das palavras proibidas. Uma carta de despedida com tudo o que deve ter uma carta de despedida. Escrevi tristeza. Não neguei alegrias antigas. Escrevi mágoa. Não escrevi rancor. Sublinhei injustiça. Recusei vingança. Escrevi libertação. Reconheci as saudades. Escrevi suspiro de lágrima. Escrevi suspiro de desafogo. Molhei o papel com lágrimas de alegria e tristeza. Expliquei e disse o que devia dizer. Disse tudo. Não disse tudo como os malucos. Expliquei tudo, até onde se pode ir sem entrar na ofensa. Deixei abraço e votos de felicidades.
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Nota 1: Não é uma despedida duma relação amorosa, não é uma despedida do trabalho, não é uma carta de suicídio.
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Nota 2: Este poema de Sérgio Godinho está na minha arca de invejas.

A inutilidade da poesia

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– Para que serve a poesia?
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– Para nada!
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– Então, por que a escreves?
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– Para a tirar de mim.

Amnésia

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Enquanto dormes, nem sonhas que sonhas comigo.
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Se sabes, não mo disseste.
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Em sonhos estou-me contigo-te.
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Em nós. Encaixados frenéticos e suaves, lentos e intensos.
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No êxtase, a queda.
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Sobressaltamos, acordamos, regressamos para dormir.
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Amnésicos acordamos.
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Em nheengatu nos entendemos

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Hoje fiz um telefone. A telefonista deu-me os bons dias e prosseguiu dizendo qualquer coisa que tanto podia ser ucraniano, mandê, aparai ou basco…
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Português, é que não pareceu. Com as devidas desculpas, pedi-lhe que repetisse.
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Repetiu-me em macuxi, korku, gaélico escocês ou grego antigo…
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Nem sei… avancei dizendo ao que ia, respondeu-me e entendi, entendia-a.
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Era gaga, não cantava nem entoava.
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Com voz doce encantou.
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Quem queria não estava, apontou o recado e desejou-me um bom fim-de-semana…
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Em wororan.
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Nota: Se alguém souber que é o autor ou quais são os autores deste fado, agradeço que mo comunique, para que possa atribuir os créditos.
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Pétala a pétala

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Desnudada, sim. Sem te ter visto, vi-te tantas vezes no desejo, que te conheço a pele e os segredos do prazer.
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Pétala a pétala, farei contigo. Gomo a gomo, nos faremos. Do escuro à luz e da luz ao escuro.
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Saberás dos meus beijos que passam da carne à alma.
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Saberei dos teus.
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Pelas frestas da luz para a escuridão.
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Do vidro do escuro para a luminescência.
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Da nascente ao fogo-de-artifício.

quinta-feira, novembro 27, 2014

Engenheiro José Sousa Veloso – 1926 – 2014

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Há dias para ir e dias para voltar. Hoje partiu e num amanhã voltará, com outro nome, identidade e novas provas a realizar na vida.
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Num tempo em que, e bem, se deixam cair os títulos académicos dos discursos verbais e escritos, José Sousa Veloso será sempre o ENGENHEIRO SOUSA VELOSO.
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Na morte todos somos bestiais. Aos mortos nega-se-lhes as críticas. O Engenheiro Sousa Veloso não precisou de morrer para ser uma pessoa querida e por quem os portugueses nutriam simpatia e que, depois do fim do seu mítico programa na RTP, perdurou na memória de todos.
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Em quase 24 anos de jornalismo, muitos deles ligados à agricultura, nunca ouvi uma crítica ao Engenheiro Sousa Veloso. Antes pelo contrário, escutei bondades e reconhecimentos.
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Nasci em 1970. Na década de 70, a televisão era a preto e branco e o espaço para as crianças resumia-se a poucos minutos ao sábado de manhã e um pouco mais ao Domingo.
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Quem foi menino no meu tempo de menino lembra-se… o TV Rural ou era a maçada que se tinha de aturar antes dos desenhos animados ou era a chatice que interrompia a bonecada.
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Não me lembro se era antes ou depois do espaço infantil, mas sei que gostava muito de ver o TV Rural e o senhor que falava pelo nariz e se «despedia com amizade até ao próximo programa».
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O Engenheiro Sousa Veloso está agora com Vasco Granja, o seu vizinho de programação, pessoa também muito acarinhada por todos.
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Sou urbanita, sou lisboeta e gostava de ser alentejano ao mesmo tempo. A ruralidade não me passou ao lado, mas sou da cidade. Alentejano do Campo Grande. Esse sítio quase meu – o campo – acabou por me agarrar profissionalmente.
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Depois do TV Rural, julgo que só houve dois programas de agricultura na RTP e uma coisa apalhaçada na SIC e que passava, felizmente, a altas horas. O primeiro magazine foi a Terra e os Homens – se não erro – e era apresentado por Armando Sevinate Pinto e era eu quem fazia as reportagens. O outro foi o Da Terra Ao Mar, em que fui repórter, coordenador e pivô.
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O Terra e os Homens durou os sacramentais 13 programas. O Da Terra Ao Mar durou de (Agosto ou Setembro) de 2004 a (…) de 2009. O TV Rural foi emitido entre 6 de Dezembro de 1960 até 15 de Setembro de 1990, décadas de informação e pedagogia, de simpatia natural.
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No primeiro programa que apresentei – provavelmente não o viu ou soube – fiz-lhe uma respeitosa homenagem no fim do programa:
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– Despeço-me com amizade até ao próximo programa.
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Chegou a hora em que o Engenheiro Sousa Veloso se despediu com amizade desta vida.
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O Alentejo todo deste mundo –

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Sempre ouvi dizer «o canto alentejano», «os cantares alentejanos», mas de há uns anos a esta parte que só me chega às orelhas «o cante alentejano».
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Não gosto de «cante alentejano»… é como dizer não «goste», em vez de não «gosto».
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Talvez seja um regionalismo e que alguém de reconhecido mérito e poder de influência tenha ateado e que agora é fogo descontrolado.
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É um bocado como a discussão bizantina acerca do doce típico «sericá» ou «sericaia». Sendo ambas muito comuns, digo que são as duas válidas. Contudo, há gente que não concorda e o manifeste categoricamente. Quase a meter medo.
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Uma vez disseram-me que era «sericá» – estava atento para saber a justificação –, os de Elvas é que dizem «sericaia», por causa do rio Caia, que passa no concelho, e também por causa do acrescento duma ameixa em conserva de açúcar.
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Em Elvas há muitos que dizem que é «sericaia», porque é iguaria natural do concelho – com ameixa. «E não se fala mais nisso»!
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Pois, seja «cante»… sou teimoso direito «canto».
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Hoje o canto alentejano foi reconhecido pela UNESCO como «Património Cultural Imaterial da Humanidade». Saúdo!
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Porém, tenho uma dúvida:
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– Os responsáveis da UNESCO tiveram conhecimento que há mulheres em grupos corais? Os grupos corais, aqueles cantados por homens abraçados e oscilando com vagar, são – ou deviam ser – só de homens.
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Não é uma questão de machismo, mas de tradição. Não há mal de lesa-majestade, mas não deixa de ser uma incorrecção ao costume que se quer preservar e valorizar.
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No Alentejo sempre se cantou muito. Os cantares das ceifeiras, das mondadeiras… basta(va) juntar duas alentejanas e começa(va) logo uma cantoria. Basta(va) juntar dois alentejanos e começa(va) logo uma cantoria.
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Cantava-se nas tabernas, bêbados… as mulheres ali não entravam. Por isso, com eles não cantavam. Cantavam nos tanques comuns a lavar a roupa e nos trabalhos de campo, certamente em casa, à lareira, vizinhas e amigas davam de sua graça.
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Fico muito feliz por o canto alentejano seja agora de todo o mundo. Espero que esteja nem incluído os cantares das mulheres e os cantares dos homens. Espero que se acabe com ou coros mistos.
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E agora, uns amigos da Córsega.
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terça-feira, novembro 25, 2014

Ceia de Natal Vermelho

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O melhor do Natal são as crianças!… Assim o garantem os comunistas, que não as dispensam nas suas mesas natalícias.
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Nota 1: Politicamente, estou nos antípodas democráticos dos comunistas. Porém, a acusação de que os comunistas comem criancinhas ao pequeno-almoço é do riso mais hilariante e duradouro.
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Nota 2: Se alguém souber quem é o autor da imagem, a gerência agradece ser informada, de modo a atribuir os créditos autorais.

Galeria de retratos dos antepassados – 10

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Anakin Skywalker – em 1604, aos trinta e três anos – Monteiro-Mor.

Galeria de retratos dos antepassados – 9

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Charles Victor Szasz – em 1567, aos vinte e seis anos – Escrivão da Câmara.

Galeria de retratos dos antepassados – 8

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Jack Napier – em 1540, aos cinquenta e um anos – Bobo.

Galeria de retratos dos antepassados – 7

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Peter Benjamin Parker – em 1562, aos dezassete anos – Reposteiro-Mor.

Galeria de retratos dos antepassados – 6

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Selina Kyle – em 1540, aos dezanove anos – Amante do Rei.

Galeria de retratos dos antepassados – 5

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Diana de Themyscira – em 1541, aos dezasseis anos – Camareira-Mor da Rainha.

Galeria de retratos dos antepassados – 4

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Steve Rogers – em 1541, aos dezoito anos – Guarda-Mor.

Galeria de retratos dos antepassados – 3

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Bruce Banner – em 1562, aos vinte e cinco anos – Capitão General das Ordenanças.

Galeria de retratos dos antepassados – 2

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Bruce Wayne e Jason Todd – em 1583, aos quarenta e cinco anos e aos doze anos – Mordomo-Mor e Sumiler.

Galeria de retratos dos antepassados – 1

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Clark Kent – em 1539, aos vinte e dois anos – Condestável.

Pota que a pariu

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Hoje ia morrendo, virando as vísceras como um saco. Vomitando e no nojo vomitando mais. Um cefalópode marítimo voou e perfurou-me como o alien, de «O oitavo passageiro». Não importa que seja molusco, tem naifas afiadas, iradas, nas mãos de marinheiros bêbados. Vi o coveiro fazer-me o leito. Vi o túnel e a luz-branca, pareceu-me ouvir Deus. Não foi dia de morrer.

Dos olhos a luz

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Qualquer luz te inveja e todos os olhos desejam ser teus. Um sopro te levanta e o sorriso faz-se como o passar da brisa. És a doçura e a calma do leite. E o regato que salpica em felicidade. É tanto e basta-me.

Os olhos comem e os meus também bebem

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Revelado ou escondido, um Sandeman será sempre noite. O Don tem mistério suficiente. Podia ser um dos fantasmas de minha casa. Dá o abraço das coisas antigas, como uma avó, se avó fosse coisa. Andou com os meus olhos ao colo. Os olhos comem e os meus também bebem. O conforto do belo.

Não gosto de jazz ou quase

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Tens uma voz quente.
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Tens uma voz poderosa.
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Abro a janela, não pelo calor, não para que toda a força seja libertada.
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Porque me cansei do jazz.
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E o azul é bonito demais para que lhe chamem blues.
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É morticínio dizerem que azul é triste.
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Ainda querem mais razões pra não ouvir jazz?

Lua de almanaque

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Já passa do dia. Mas volta, está a voltar.
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Fora de casa, espero voltar.
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Se não estás, espero que voltes.
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Quanto tempo tem um minuto e quantos fazem uma hora?
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Vendo de longe, sessenta cada – segundos pró primeiro, minutos prá segunda.
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Ao perto é diferente. Coração e alma não sabem do tempo.
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A barriga sabe. Os pulmões talvez, pois se fechados sentem-se doridos e após precisam inchar-se e soltar o ar, grosso e abrupto como a água duma barragem que se quebrou.
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Dizia, então. Voltará, mas quando?
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Não nas voltas das marés, que traz e leva.
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Quantos dias até se encher? Quantos dias e quantas horas tem um?
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– Ao perto ou ao longe?
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Perguntas-me brincando.
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Não sei. Agora é tempo para beijar-te.
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Quanto tempo dura um beijo?
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– Ao perto ou ao longe?
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Perguntas-me pra impacientar.
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Tanto faz, coração e alma não sabem do tempo nem conhecem distância.
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A isso se chama espaço-tempo.
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A Lua estará cheia no dia seis de Dezembro.
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– Às dez horas, vinte e sete minutos e treze segundos.
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Especificas depois de espreitares um almanaque.
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Não seria preciso tanto.
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Se dá sempre luz, sua criança nascerá na escuridão da lua nova?
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– Será a vinte e um de Dezembro, às vinte e três horas, trinta e seis minutos e quinze segundos.
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Especificas depois de espreitares um almanaque.

terça-feira, novembro 18, 2014

Vício

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Há em mim um fantasma. Não pesa no peso morto, é chumbo na alma. Seja a alma ou seja eu.
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Nos dias do sangue triste, é mercúrio o que corre nas veias. Pregado no leito esperando a morte, como as crianças anseiam pelo Natal. Pregado no leito chamando a morte.
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Indolente ou procrastino, sonho e desejo a banheira como mar onde desagua o sangue, de ferro ou mercúrio.
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Palhaço patético, agarrado às promessas que faz – credulidade das crianças – de que amanhã será melhor do que hoje.
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O amanhã volta com hoje, ontem, anteontem, antes de anteontem, espiral de dias em vertigem. Dias iguais e memória, talvez falsa, de que se foi feliz.
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Em mim navega – navego – um navio espectral, cortando a dor das lágrimas secas.
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É o mar que dói. As feridas da água curam-se, reúnem-se e apagam-se. É infinito o espaço e o tempo em que a nave rompe em dor.
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Ainda o Sol, é noite de Lua Nova e destino antigo – promessa-castigo abraço firmemente, com a força dos miúdos a segurarem o urso de peluche.
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Vício de tristeza saciado de dor. Fugisse eu.
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Fugisse eu, pregado no leito. Não fugisse eu da fuga, em indolência e procrastinação, pregado no leito.

sexta-feira, novembro 14, 2014

Burro

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Que se saiba nenhum burro foi burro ao ponto de se tornar humano.

Batom esborratado

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Queria ser bela. Sinistramente bela. Hipocritamente bela. Mortalmente bela.
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Queria ter a estupidez dos inteligentes, nunca me reconhecessem préstimo.
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Queria conseguir falar muito, que me julgassem frívola, disfarce de quem está calado.
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Queria ouvir sem ter de olhar e fingir engolir e fingir não entender, sem ter de vomitar.
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A meio da vida só tenho estrada. Para trás não se volta e a frente não é caminho.
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Pudesse mudar o tempo e pudesse acertar.
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Na dúvida, o que se abdica é mais luminoso.
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Queria ter coragem para ficar imóvel e que se a vida quisesse que me mexesse que a empurrasse ela.
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Não sou dono do meu destino, se tiver destino.
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Queria ter medo do escuro e chamar pela mãe ou deitar a cabeça no colo da avó.
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Para que serve a esperança quando o sonho não é de esperar?...
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Não tenho mais do que incertezas e dores na alma. Até as lágrimas estão secas.
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Queria ser bela e saber vender-me. Calar-me quando falei, calar-me quando não falei.
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Destinei-me não ter destino. Não sei se terei de esperar. Não sei se saberei ter de esperar. Não gosto de esperar. Para trás não se volta e para a frente não é caminho.
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Abri as pernas por amor, fecharam-me portas. Se não as tivesse aberto?
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Puta triste, puta dorida, puta parida.
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Só me falta o absinto e o Toulouse-Latrec.

Vénus

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Vénus parece plural e é um só corpo.

Por aí

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Não escondo nada, nem o coração. Dum lado ao outro do tronco há um tubo, quem espreitar verá que não vive lá um coração.
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Não escondo nada, nem o fígado. As histórias que tem para contar são meia dúzia, aventuras que na adolescência nos fazem muito grandes e na maturidade nos iludem com uma vida que não conhecemos.
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Não escondo as pernas nem disfarço a vontade de não as mexer. Não escondo o falar, porque os olhos já contaram.
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Não escondo os temores e as incertezas, é tanto o ruído que fazem que só um surdo não escutará.
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Não escondo nada, nem o pensamento. Se me tirarem a tampa do crânio, como se fosse um chapéu, verão um brique-a-braque de banalidades e estupidez, que tudo mostram e nada escondem.
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Não escondo nada? Escondo alguém. Nu numa praça cheia, suspiro e gritos.

domingo, novembro 02, 2014

Quero Brasil

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Tenho receio de que quando for ao Brasil a fotografia que levarei para reconhecer o anfitrião seja dum rosto inventado. Nem todos os portugueses se chamam José, Manuel e António e usam bigode. Nem todo o Brasil de Ary Barroso é o Brasil todo.

Estiraçado

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O tédio é um desassossego preguiçoso.

Viagra de palco e outra canção

«Eu não quero ser a luz que já não sou. Não quero ser primeiro, sou o tempo que acabou».
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A primeira metade da década de noventa foi-me muito especial. Além das intimidades, que ficarão de fora, lembro-me de dois marcos nesses cinco anos iniciais: a luta pelas gravuras de Foz Côa e o furacão Pedro Abrunhosa.
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Pedro Abrunhosa não surgiu do nada. Músico ligado ao jazz há muitos anos, quis ganhar dinheiro – com todo o direito. Prince estava a apagar-se, poucos notaram (não notei), e a sua banda de metais electrizou o álbum «Viagens», desse músico do Porto.
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Ainda comprei o segundo álbum, mas senti uma coisa mole, chata e que nem me agarrava pelas orelhas por um instante. Já o célebre tema «Talvez foder» achara um despropósito. Não por pudor, mas por gratuitidade e indigência.
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Em casa de amigos ouvi, de passagem, Pedro Abrunhosa e confirmei o que achara com o segundo disco: mole.
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Ontem, sentado a trabalhar, propus-me a ouvir Pedro Abrunhosa em espectáculo. Para saber se a minha convicção estava errada. Pois, não estava. O homem é um animal de palco, tem imensa pica. Mas…
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Pedro Abrunhosa em palco continua a ser uma coisa mole, mais mole do que em disco. Todavia, está cheio de pica. Para mim, é Viagra. O concerto que está no youtube, gravado ao vivo no Coliseu do Porto em 2011, dura duas horas de moleza de picha tesa. Viagra!
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Já se sabia que Pedro Abrunhosa não sabe cantar. Não é novidade e esse não é o defeito. O defeito é às vezes já não conseguir entoar. À moleza soma-se mais do mesmo, tanto faz a melodia ou a harmonia, é chapa quatro. Não consegue dar mais.
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As letras consumíveis – sobretudo devido aos metais do Prince – tornaram-se quase sempre em repetições, delas mesmas e dos seus lugares-comuns. As letras de Pedro Abrunhosa são duma banalidade preguiçosa, muitas, se lhe tirarmos a música, são mesmo pirosas. As letras de Pedro Abrunhosa são como as de João Pedro Pais, mas em vez de adolescentes, são de jovens adultos.
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Ao ver e ouvir as mais de duas horas de concerto, percebi que Pedro Abrunhosa é um boneco. Não é uma caricatura, nem hoje é uma reinvenção. Pedro Abrunhosa é uma mistura dele mesmo com ele próprio. Depois junta uma pitada de Paulo Gonzo – artista cuja carreira não entendo – e de azeiteiro.
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Azeiteiro? Sim, azeiteiro. Todos sabemos que no palco se dizem coisas como na cama:
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– Tu és maravilhosa, nunca estive com ninguém como tu.
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Os elogios ao público, os piropos que manda para a plateia e as declarações de amor à cidade não chegam a tolas, são azeiteiras. A este respeito refiro que as reacções do público não seguiram totalmente o esperado. Felizmente, havia mesmo muita gente inteligente naquela noite no Coliseu do Porto.
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A crítica de música não é a minha actividade. Não é, não foi e duvido mesmo muito que alguma vez seja. Por isso, para não escrever mais um texto a zurzir num artista de palco, aproveito este para apresentar uma revelação. Comentarei muito pouco, pois deixarei o vídeo, porque «fala» muito melhor do que eu.
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David Fonseca tem um ar simpático, parece-me ser um tipo fixe e sempre ouvi dizer bem dele como pessoa. Ouvi-o primeiro, como a generalidade dos portugueses, com os Silence 4 e depois a solo. Aqui há dois reparos e uma consideração: as letras são péssimas e não gosto do modo como canta. Mas ressalvo, que isso é meramente uma questão de gosto.
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Porém, numa infelicidade qualquer, fui parar, no youtube, a um dueto entre David Fonseca e Luís Represas. O que o produtor consegue maquilhar no estúpido surge cru numa actuação ao vivo!
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David Fonseca não sabe cantar. Tem um timbre bonito e ainda que não goste do modo, não deixará de não saber cantar. É doloroso e causa vergonha alheia. Aguenta-se uns instantes e desaba ribanceira abaixo.
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Nota 1: Continuo a gostar muito do álbum «Viagens», do Pedro Abrunhosa.
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Nota 2: Para os curiosos – dos mórbidos aos preguiçosos – fica a dica: No livrinho do álbum «Viagens» há uma fotografia de Pedro Abrunhosa com os olhos a nu.
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