digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

segunda-feira, junho 30, 2014

Salvar o Tua - O meu manifesto

A razão deste texto pode conhecer-se em http://www.salvarotua.org/
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O meu pai sempre disse:
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– As pessoas são capazes de ir ao estrangeiro ver paisagens e museus e do seu país não conhecem nem paisagens nem museus.
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Citando mal, foi isto que sempre disse. O meu pai, que hoje tem 90 anos, nunca quis conduzir nem ter automóvel e não foi por isso que deixámos de visitar o país. Levavam-se horas imensas! Fixei algumas: seis horas de Lisboa a Castro Verde, doze horas de Lisboa a Mirandela.
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Para quem não sabe, o meu pai é (era) artista plástico, concretamente pintor, e absorvia o que lhe entrava pela janela do autocarro ou do comboio, eventualmente do automóvel de alguém com quem partilhávamos o passeio.
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O meu pai via e contava-nos o que via, porque os olhos de pintor viam muito além. Tenho a reprodução do retrato de Dom Sebastião, de Cristóvão de Morais, e lembro-me que esse trabalho – estudo para um outro, de encomenda, e ambos com autorização do Museu Nacional de Arte Antiga, onde o meu pai passou horas a estudar a obra quinhentista – estava com pequenos adesivos a assinalar minúsculas alterações de tom. Onde se via negro, o meu pai via negros.
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Dessas muitas viagens recordo-me da que fizemos até Bragança. Não havia auto-estrada para o Porto, mas da estopinha não tenho ideia. Devia ter onze anos, um para cima ou um para baixo, e adorei ver os tróleis do Porto, onde um dizia que Avintes – achei o nome tão engraçado... e ainda hoje me sorrio a lembrar-me da alegria parva, dum pré-adolescente, de pronunciar Abintes.
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Do Porto fomos em direcção ao Douro, apanhámos o comboio primeiro na Estação de São Bento – ou Sambento, para quem gosta de falares – mudámos em Campanhã. O que tem de bonito a primeira – uma das mais felizes gares portuguesas, com azulejos de Jorge Colaço – tem de feiura a outra, que parece um apeadeiro gigante e encardido – e assim acontece também em Coimbra.
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A vista da linha do Douro enche a alma. Mas o arrebatar da respiração começou no Pocinho, onde se fazia o transbordo para a linha do Tua, que desaguava em Bragança. O comboio era pequenino e lento e trepava, pouca-terra-pouca-terra, até Trás-os-Montes.
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Com os olhos quase virgens, sem medo mas pensativo, enamorei-me pelas paredes de encosta dum lado e com a vertigem do outro, que só parava no fim troço de água, um risco largo de verde escuro, bordado a branco fininho, dos tropeções nos calhaus. Do outro lado vi, como se fosse um espelho, escarpas brutas, babantes de amarelo-alaranjado do enxofre, escorrentes nos cinzentos, com umas pouquíssimas plantas doidas que nesses muros escolheram fixar-se.
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O comboio corria em bitola estreita e os bancos eram de madeira, com alguma ergonomia. Eram de suma-a-pau e não sumaúma, brincava o Manuel Jorge, o pintor. A minha mãe, quase sempre calada, mostrava o enlevo.
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Conversador e activo, o meu pai meteu conversa com quase toda a gente e tanto se falou sobre aquela linha, aqueles povos, as vidas de outrora e da linha e sua vista. Dessas conversações não me lembro, mas fixei uma piada:
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– Este comboio é tão lento que se pode sair, em andamento, pela porta da frente, fazer xixi, apanhar umas flores, esperar um pouco e entrar pela porta de trás.
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Apaixonei-me por Bragança e por Vinhais. A capital de distrito era uma aldeia grande e longínqua e Vinhais tocou-me pela decadência do património medieval. Voltei lá, muitos anos depois, e essas pedras estavam barradas com cimento, uma tragédia de gosto e bom-senso.
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Uns anos mais tarde (talvez oito, nove ou dez) andei a mostrar Portugal à Kerstin e tive de a levar até Bragança pelo caminho mais bravio. A bitola estava ainda reduzida e a máquina uma ternura que arrastava duas carruagens. Entrei e decepcionei-me, porque tinham tirado os bancos de suma-a-pau por uns bancos chatos, duros, desconfortáveis – umas coisas verdes iguais aos que equipavam a linha de Sintra. Moderno não é sempre progresso, os de madeira eram muito mais confortáveis, por se ajustarem ao corpo.
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Mostrei-lhe o século dezanove e ela deu-me o século vinte; a minha namorada alemã vivia em Wuppertal, uma cidade em que o metropolitano tem os carris em cima e se prende às linhas por um braço, causando o balanço que lhe deu a alcunha, ou o nome próprio, de «comboio que levita», Schwebebahn. Cidade que Wim Wenders filmou em «Alice e as cidades». Cidade onde a bailarina e coreografa Pina Bausch fixara a sua companhia de bailado, a Wuppertal Tanztheater. Cidade onde nasceu a poderosa multinacional Bayer, cujo complexo, o primeiro, foi cercado pela cidade, é atravessado pelo bizarro veículo. Cidade que, fora isso, não tem nada de interessante e onde já não vive a minha grandíssima amiga Kerstin e o fantástico marido Markus.
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Regresso à viagem no século dezanove... Desesperados pelo conforto e, sobretudo, pelo cheirete dum velhote, fomos indagar a carruagem seguinte. Parecia ter metade do tamanho, mas havia uma porta ao fundo. Abrimo-la e era espaço de carga – levava o correio, um ou dois pacotes. Tão larga e comprida para tão pouca coisa...
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Pouca coisa? Não! Uma porta larga, para permitir a entrada de cargas volumosas. Mais do que porta, muito mais do que janela, era o portão para a liberdade dum salto ou varanda, aberta e apenas com um ferro para alguém se agarrar caso fosse preciso. Sentámo-nos no chão, com os pés no estribo e bebemos o ar de cheiros que fazia parte da paisagem.
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Em Portugal teima-se na asneira de abandonar as linhas férreas. Não digo apenas as antigas e quase vazias, até as que não nascem... Aos anos que oiço falar numa linha de mercadorias, em bitola europeia, entre o terminal de carga do porto de Sines, de águas profundas, e França, passando sem salto ou transbordo a fronteira dos Pirenéus – entrada privilegiada e óbvia para grandes cargueiros – e nada se faz. Em contrapartida pensou-se em comboios de alta velocidade sem cidade onde parar e fez-se um aeroporto em Beja, meio caminho de duzentos e setenta e sete quilómetros e quinhentos metros entre Lisboa e Faro – infra-estrutura que serve uma área metropolitana de pouco mais de vinte e cinco mil habitantes. Mas houve tantos mais.
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A força dum povo – inculto mas cioso das suas coisas, que no tempo certo consegue reparar nas patifarias que querem fazer ao que é seu – rasgou a barragem do Vale do Côa. Os portugueses compreenderam que aqueles riscos, que ninguém percebia, eram importantes. Juntaram-se intelectuais e paisanos, assinaram-se papéis do abaixo-assinado; do duque de Bragança, representante de oitocentos anos de Reis, a intelectuais e anónimos. O Vinho do Porto, património único e valioso, deu outra ajuda. Nos momentos importantes, há canções que se tornam hinos. Nesse momento foi o nascente hip hop português a bandeira sonora da causa, dos Black Company.
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 – As gravuras não sabem nadar, yô!
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Foi em 1995 e Portugal fartava-se da democracia de voz grossa do Governo de Cavaco Silva, que levou mais uns tabefes na Ponte 25 de Abril.
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A força das ideias tanto bateu, e com tanta força, no betão que a barragem não vingou. Quase vinte anos depois, os portugueses voltam a ter de se mover, agora pelo Tua. Agora é mais difícil argumentar, não há gravuras, mas nem por isso a luta deixa de valer a pena.
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Do que se fala?
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– Fala-se de defesa do meio ambiente. Fala-se de vinho, do Porto e do Douro. Fala-se da paisagem humanizada por gerações de trabalhadores, que permitiram a agricultar-se nas montanhas. Fala-se em todo esse património que a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) classificou, em 2001, como sendo de interesse da humanidade.
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Não é com intervenções artísticas que se faz a ressurreição de bens públicos. Com a lição aprendida a quando do movimento contra a barragem do Vale do Côa, a EDP arrebanha agora artistas consagrados e arquitectos de prestígio... matar ao luar não é menos criminoso do que o fazer na rua à luz do dia – como se fosse um filme negro com detectives.
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Esta luta pelo Tua tem a «virtude» de mostrar o rosto de alguns dos grandes nomes das artes portuguesas e das elites da arquitectura. Não quero fazer juízos de carácter dos artistas Pedro Cabrita Reis, Pedro Calapez e Joana Vasconcelos, que têm sido convidados a criar arte nas infra-estruturas hidroeléctricas. Ficamos a saber que gostam de ouvir o tilintar das moedas nas algibeiras – o que é o que é – mas nunca lhes ouvi discursos altruístas acerca da defesa do património e pode ser que tanto lhes dá como se lhes deu o Douro dos socalcos, o vinho único de classe mundial e as plantinhas e a bicheza.
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Mas Eduardo Souto Moura e Álvaro Siza Vieira dão-me vómitos. Tudo o que disseram afinal tem uma excepção e a excepção é o atentado ao património onde vão poder mexer, a troco duma transferência bancária, que tanto pode ser dum cêntimo como de três mil milhões de euros.
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Siza Vieira mete-me particularmente nojo, pelo que defendeu para o Chiado e pelos bonitos riscos que traçou da obra humana e natural do Douro. Poderão dizer:
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– A assinatura de tão reputados arquitectos, ambos vencedores do Prémio Pritzker, dá garantias de boa integração na paisagem e vai criar um sítio de interesse cultural.
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Cultura que destrói o único e o frágil lembra-me a Santíssima Inquisição e a perseguição ao pensamento divergente, queimando livros e pessoas. Para mais, matar é sempre matar, nunca se mata mais-ou-menos. Se matarem o património com a barragem do Côa, não serão São Álvaro (santo dominicano, nascido em Córdova em 1368 e morrido em 1430) nem os dois São Eduardos (ambos reis de Inglaterra – O Confessor, 1004 a 1066 e O Mártir, 962 a 978) quem irá miracular a aventesma. Muito menos os arquitectos Álvaro e Eduardo quem irá embelezar a besta-fera.
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Não, não acredito em milagres... Acreditando em Deus – num sentido de consciência moral, ético e espiritual, mesmo em agnósticos e ateus – sei que haverá quem, mais ilustrado «lá do outro lado», agasalhe esta luta. Mas se a barragem do Tua for levada numa enxurrada de cidadania, o correr da água irá lavar os maus pensamentos, será por labor dos conscientes, numa batalha na Terra contra o materialismo.
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Digam: são trezentos e cinco milhões de euros. Quanto vale um abutre, quanto vale a fauna e a flora selvagem? São quatro mil empregos, directos e indirectos. Até quando? Até dois mil e dezasseis. Depois disso? Os mesmos sítios ermos e os paisanos que não morrerem nem abalem para onde a vida dá mais uns trocos.
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E se antes se criassem redes de turismo e se embrulhasse todo o Vale do Douro até ao Planalto Transmontano num pacote de beleza, cultura e recreio? Daria mais trabalho, a Câmaras, empresários... Começando no Porto e acabando em... não só de luxo. Muito mais euros e mais trabalhos daria. Não Já, mas mais logo.
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Ainda que lá não vá ao Tua, quero que exista. Tal como quero vivos o lobo e o urso não tencione encontrar-me com eles.
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Pois, a luz. Que luz essa que ensombra?
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Estou-me nas tintas se vamos importar mais electricidade, que vamos pagar mais... só tenho dez dedos na mão e não cortaria nenhum para que as minhas mãos coubessem numa luva com nove entradas feita de prata e ouro – que confortáveis seriam.
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Ah! Já me ia esquecendo... a soalheira Alemanha consumiu, a nove de Junho passado, cinquenta vírgula seis por cento da energia a partir do Sol.
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O número de horas de Sol em Portugal situa-se entre as duas mil e duzentas e as três mil. Na Alemanha, a variação é entre mil e duzentas e as mil e setecentas.
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Nota 1: Por limitação do número de caracteres nas tag, os créditos dos vídeos são expostos aqui:
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Nota 2: A música «As coisas mais bonitas que vi» é o hino pela defesa do Tua e tem a autoria de Márcia e Luísa Sobral. Nela participam também Amélia Muge, André Tentúgal (We Trust), Catarina Salinas (Best Youth), Frankie Chavez, Mafalda Veiga, Marta Ren, Rui Reininho (GNR), Samuel Úria, Selma Uamusse, Susana Travassos e Tiago Bettencourt.  
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Nota 3: Para quem ficou curioso com o Schwebebahn, aqui fica um vídeo que acompanha parte viagem – tentei pôr a viagem toda, mas os quarenta e quatro minutos de filme são demasiados para a capacidade do Blogger.
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domingo, junho 29, 2014

Futebol

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Uns voam loucos como rapinas. Outros são esqueleto de catedral.
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A luz do santuário arrepia e as vozes grandes dos coros – em transe. Marés sonoras que os olhos sentem na luz dos seus e espanto de medo p’los outros.
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Todo o corpo é olhos, boca e coração. E fogo. Fígado!
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Voltarei feliz, voltarei triste.
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Mesmo triste se forem passarinhos e pedras de jogar.
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Nota: A minha Selecção é o Clube de Futebol «Os Belenenses», a outra existe de vez em quando.

Cardo

O  dia do regresso, invisível e insonoro, sem bater para entrar e pronto agarra e espreme o que tenho de mais cansado e frágil. Surge como um morto reerguido da campa que num local aguarda. Não é espírito, digo zumbi.
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Aterrado nem desfaleço nem fujo nem me agarra nem diz nada. Aperta-me o coração a estrangular-me e desfaleço por impossibilidade de morrer. Adormeço cainte, e cainte tento erguer-me e volto a cair. O meu sono de farrapos, em terra de ninguém, um tabuleiro de xadrez, perdido sem viver vivalma. Fraquejando das pernas tentando andar, até ao deitado frágil impotente para mover.
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O tempo das perguntas passou. Não passou a incompreensão. Sei da morte e do desejo, não percebo a ferida que se reabre porque sim. Hoje não é dia para chorar, é de tédio, um dia sem horas. Sem horas é muito mais do que muitas horas, com começo e sem fim, em que cada hora dormida é um pesadelo e outra hora acordado é um pesadelo.
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Solidão talvez um pouco, a solidão é como o sal. Hábito e ora bem e ora mal. Se fosse simples e óbvio. Como dói e limpei a dor com o coração e agora espremido não sente nada além da dor. Cria que era da cabeça e também é.
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Não tenho securas na boca, tenho um amargor dum sinal de vida. Não sinto a jugular nem tenho tigre para a usar. O mal está na ficantura.
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Quando se tem a mala e a vontade aviadas para partir e frente ao bus viajante se deixa que se parta uma e uma e uma e uma e uma... vez. Não são vezes, são muitas uma vez. Inconseguir partir e inconseguir ficar.
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O meu sonho, o que quero agora mesmo, assim de repente?... Não estar não me basta e porque sei que se não estiver, estarei noutro lugar. Não ser. Ser ou não ser não é uma questão é um castigo. Quendera poder desexistir.
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Vou para de escrever. Como um franciscano de deita de braços abertos frente ao altar do Senhor, despejo-me onde tiver espaço e ficarei anestesiando-me com a temperatura do chão e com as vidas abaixo e acima da casa.
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Depois logo se vê.

quarta-feira, junho 25, 2014

O que não como

Estou de dieta e apetece-me um bolo... .
Entro na pastelaria e digo:
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– Bom dia, quero um pastel de nada, por favor.
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– Não será um pastel de nata?
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– Não! É um pastel de nada!
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– Um pastel de nada?
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– Sim, estou de dieta...
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– Não estou a perceber...
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– Oh, senhor... um pastel de nata é como as sardinhas. Ambos são símbolos gastronómicos portugueses... tanto um como o outro não como... um não devo e outro não posso.
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– Ah! Então quer o quê?
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– Uma bica curta em chávena fria.
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– Aqui tem...
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– Obrigado, mas o seu conceito de curto é igual ao meu de meia chávena.
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– Aqui as bicas curtas são como os pastéis de nada... não existem.
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Nota: Não sei como engavetar esta obra na lista dos conceitos... escultura ou pastelaria? Ou escultura em pastelaria. Vou tentar comunicar com o autor, Sérgio Dias.

Quero um Nissan Juke

Não ligo a carros e não gosto da estética dos automóveis japoneses. Mas o Nissan Juke é tão feio que é lindo! Ite-se note a jouque ite-se a Juke.
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Nota: It’s not a joke, it’s a Juke.

Elogio à clínica Dentária de São Paulo – não é publicidade mas seja o que quiserem

Não tenho a certeza se valorizamos a boca, sobretudo por dentro. Desconfio que a boca é como as mães, só nos lembramos quando nos faz falta, por vezes já no outro lado da vida. Tal como uma mãe, a boca alimenta-nos.
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Dentro da boca cabem o doce, o salgado, o amargo, o ácido e o umami, e o prazer que deles se consegue. Mesmo quem não tem prazer ou grande prazer com a mesa tem preferências.
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Supostamente todos os dias lavamos os dentes, pelo menos de manhã e ao deitar. É uma obrigação de higiene e mesmo que não fosse seria de respeito por causa do hálito. Claro que há campeões como o alho ou a cebola, que se guardam e agarram tão bem que nem a pasta mais voraz os consegue retirar completamente.
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Bem, há a obrigação da lavagem, mas lembramo-nos deles quando nos doem e temos de correr para o dentista. Ou quando a velhice nos tira e a mastigação se torna difícil. Há as próteses, pontes, implantes, coroas, aparelhos, a cerâmica, o titânio, o ouro – alguns estarão repetidos, mas de material de boca percebo pouco.
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Por vezes os dentes zangam-se com os alimentos frios e quentes. Dão coices que lançam dores até aos ouvidos.
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Há a língua, que é uma chatice na cadeira do dentista, porque se mexe e dificulta o trabalho ao doutor. Quando a trincamos... ui! Dor tão incomodativa quanto a de morder as paredes da boca.
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A mesa – a boca por arrasto – é uma secretária para negócios vários, seja ela mesmo de tabuleiro e pernas ou seja no chão com os convivas à volta. Julgo que em todos os povos o momento da comida tem alguma solenidade. Do nascimento, ao simbolismo da procriação, que é o casamento, ao falecer.
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Reis e presidentes de república dão recepções em seus palácios em que o banquete é obrigatório quando o convidado é importante e se vai demorar uns dias. Há as chatérrimas conversações para comprar a porcaria dum tapete, supostamente exótico, nos países árabes. As boas-vindas nas tribos de toda a parte. Por aí, por aí e adiante.
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Há o protocolo da mesa, que se divide entre a habilidade de maneio dos apetrechos e o modo de manifestar satisfação ou falta de educação. Mastigar de boca aberta, causando sons pastelados e visões evitáveis, é comum nos portugueses – penso que nem se apercebem ou são procedimentos que estão de tal modo enraizados que não se liga – eu ligo. Há os arrotos que condenamos e outros aplaudem. Há o educado e respeitoso sorver ruidoso e o desagradável sorver ruidoso.
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A boca – se pensarmos bem nela – gosta que as comidas empratadas tenham uma ordem. Não por ritual, mas porque as determinações, convencionadas após experiência, mas porque os sabores vão-se completando e sobem nas intensidades.
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Há bocas que não gostam de vinho e outras que ganham tanto prazer. Alguns bebem de tudo e outros dispensam os aromas e sabores de cartão molhado ou os que lembram estribarias. Quem diz prazer enófilo pode considerar outra bebida.
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Quanto ao álcool existem pessoas que, por segregarem qualquer químico ou não segregarem – não sei – podem beber sem tino, porque o sopro não acusa penalidades nos testes do balão que as polícias efectuam nos auto-stopes ou nos acidentes.
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Quando me nasceram os sisos, os do primeiro andar doeram-me tanto que desejei ser uma ave ou enviar-me para o mundo dos espíritos. Doeram para não dormir uma semana inteira e para chumbar num exame de condução, por ter adormecido ao volante. Não fosse o examinador ter travado e um automóvel bem estacionado teria sido abalroado. Simpático, o senhor engenheiro, como eram conhecidos à época, compreendeu a situação e em vez de me chumbar escreveu que não tinha comparecido ao exame – é que uma reprovação podia (pode) mandar o candidato de volta para as aulas de código da estrada.
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Nessa semana, a do Natal ou do Ano Novo, consegui falar com o meu dentista. Não havia telemóveis nem emails e a clínica estava fechada. Ainda assim dei com ele, que prontamente deixou o descanso para me aliviar. Deu-me uma pirula mágica e a dor desapareceu... até às quatro da manhã, de madrugada, e fiquei em claro. Bem me aconselhou, o doutor, a não fazer exame de condução...
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Foi o meu dentista durante quase trinta anos, mas agora retirou-se. Disse-me, nessa vez, e lembrou-se noutras, que nunca vira sisos tão grandes. Até afirmou que pareciam dentes de burro. Ah pois que doíam como #*£@+$&!
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Desde então que não sei o que é uma dor de dentes. Tenho, por vezes, uns incómodos, umas coceguinhas irritantes... Como dizia, num inquérito televisivo de rua acerca do frio – uma vaga de frio polar, diz-se agora, dantes chamava-se Inverno – um ucraniano:
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– Frio? Frio é na minha terra, na Ucrânia. Isto é talvez fresquinho.
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Assim são as minhas dores de dentes. Doem? Doer foram os nascimentos dos sisos! Apanharam-me a boca, os ouvidos, os olhos, a testa, o humor. Porra! Os de baixo não incomodaram, o que me leva a crer que sou menos burro em baixo do que em cima – não sei se é bom se é mau, mas com a esperteza dos asininos penso que ainda bem, seja o significado o que tiver de ser.
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Bom, não vivo do vinho nem da comida, embora muita gente pense que sim. Ganho a vida a escrever sobre economia e agricultura. Por isso, a boca é-me muito útil. O olfacto também, mas escreverei acerca do nariz quando tiver de ser – só digo que o cheiro a pescado é cicuta e arsénico para nariz e entranhas gástricas.
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O sorriso! O das mães, oh! O das avós, oh oh! O do pai, sem oh! O dos avôs, leve oh! O dos amigos, qual oh?! O do ser amado, oh que dor tão boa! O da sedução, ai! O da auto-estima, hum! O da vaidade, qualquer coisa oh!
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Não me lembrei de escrever sobre a boca porque me olhei ao espelho e conclui o quão belo sou. Tal como os olhos, a boca fala e não me refiro à articulação dos sons, mas ao estado de ânimo.
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Lembrei-me de escrever, há já umas semanas, porque o meu dentista se retirou e eu estava com uma comichão num molar. Segui a sugestão da amiga Sissi e apanhei o metro até ao Cais do Sodré. Atravessei a avenida 24 de Julho, onde a Câmara Municipal de Lisboa se esqueceu de mandar pintar passadeiras para peões e de pôr semáforos, ladeei, pela estrada, a esplanada do Mercado da Ribeira que abusa de todo o espaço, virei à direita e cheguei à Praça ou Largo de São Paulo – acho que é largo, mas na realidade é uma praça e bem simpática, exceptuando o quiosque, onde os empregados são duma antipatia que roça a falta de educação.
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O Largo de São Paulo que, em tempos, frequentei à hora do almoço. Ia porque encontrei paz na Igreja para rezar. Sou cristão não católico e penso que se pode conversar, pedir e agradecer a Deus ou a entidades de superior moral e espiritualidade, mas ali tinha paz e o coração enchia-se.
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A Igreja de São Paulo, de suave barroco, estava a ser restaurada e já conhecia de vista as restauradoras, acho que eram só mulheres. Uma era bem gira, mas não reparava em mim, que estava tão solteiro e carente... ai! Ai, o #*£@+$&! Não gosto de intimidades postas a público e muito menos destas, cruas e verdadeiras.
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De regresso ao passado próximo; estava adiantado na hora e sentei-me nas cadeiras da esplanada do quiosque a beber uma Água das Pedras. Olhava para o número 19 e pensava: que saudades vou ter do meu dentista!... os dentistas são como os mecânicos de automóveis, quando encontramos um que nos satisfaz, mais ninguém nos mete os dedos na boca.
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Chegou a hora, subi ao primeiro andar, puxei a porta no sentido contrário e, como sou burro – confira-se no que disse o meu anterior dentista acerca dos meus sisos – insisti. O material tem sempre razão e cedi à realidade. Entrei e sorriram-me.
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Na mesa de vidro estão dois papéis. Um diz que tem livro de reclamações e outro que tem livro de elogios – tenho de escrever neste.
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Fui intervencionado e voltei. Voltarei até ter uma boca nova.
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Como bem sabeis, nestas crónicas gosto de pôr uma imagem ou um vídeo no blogue joaoamesa.blogspot.com e no infotocopiavel.blogspot.com é obrigatório.
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Não colocarei a imagem referente à clínica, pois seria publicidade e este é um texto de agradecimento aos doutores e à amiga Sissi, que tem um miúdo que conheci desde o berço e hoje é homem feito e alto como o #*£@+$&!
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Não é publicidade, mas devo colocar o linque para o sítio nainternet. É este. Ide, ide quando tiverdes dores ou quando as quereis prevenir.
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Nota: Pintura Bizantina de São Paulo, Escutura de Bernardí Roig, Pintura de Carlo Dolci de Santa Apolónia (padroeira dos dentistas», Vídeo do anúncio à pasta medicinal Couto.

terça-feira, junho 24, 2014

A crónica da Sardinha – Tratado sobre os serviços de inteligência portugueses desde a sua génese medieval até ao presente e prospectiva

Todos os países têm uma história secreta, que não aparece nos manuais escolares e cuja documentação histórica é raríssima. Conhecem-se factos e os momentos, mas o que é sigiloso escondido fica.
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Para começar tem de se ir por algum lado, e vou ao princípio do Reino de Portugal, quando ainda não era do Algarve e muito menos dos Algarves. Reporto-me ao século XII. Na Idade Média a família, ou a «bondade» do seu sangue – os homens bons, os de bom sangue – algumas começaram a traçar um caminho, uns duraram curtas gerações e outros séculos de serviço.
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É tão cedo o texto e já começo com parêntesis... os ilustres Pacheco ocuparam o cargo de mordomo-mor do Reino durante umas gerações. Não fosse o episódio de Dom Pedro, que viria a ser o primeiro Rei a usar o nome, e de Dona Inês de Castro sabe-se lá onde chegariam. Isto porque Diogo Lopes de Pacheco foi incriminado na matança da nobre senhora. Mais tarde veio a conhecer-se a verdade. O «bom» Diogo tinha estado no sítio errado à hora errada. Conseguiu escapar, revelou-se o erro, mas a verdade é que nunca mais um Pacheco voltou ao píncaro da nobreza portuguesa.
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E giro, giro é ser eu Pacheco e ser brincado na escola como o «peixe-seco», logo eu, um gorducho. Tudo passaria despercebido não fosse o caso de não comer peixe... vómito! Até a ver bancas de peixe na televisão fico a respirar pela boca.
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Para mim, os piores cheiros do mundo estão ligados ao peixe. O horrível perfume do lixo, mesmo contendo pescado, é melhor do que vivíssimos animais a saltitar na pedra das bancas dos mercados... sempre está disfarçado.
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Não se riam, porque é sério. Tão sério quanto não ser o primeiro na família. É estranho? Então pensem na quantidade de gente que não suporta o cheiro do queijo e que jamais porá um nico na boca, sob pena de deitar para fora o que tem dentro. É a mesma coisa.
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Bem, explicado que está esta coisa do peixe vem a informação sobre uma família da mais fina nobreza portuguesa. A Sardinha. Aliás, a outra Sardinha – uma que desde o século XII desempenhou funções nos serviços secretos ou de inteligência ou de informações. Para distinguir uma família da outra, Dom Afonso Henriques tratou de as separar heraldicamente.
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Os Sardinha conhecidos têm um brasão constante na totalidade dos armoriais e os outros vivem desde há tantos anos discretos que poucas são as referências à sua marca heráldica. Descansem que já vos mostro.
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Bem, a actuação destes Sardinhas é quase invisível mas, do pouco que se sabe, foi nobre dessa insigne árvore quem levou à mesa real, pela primeira vez, uma sardinha.
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Decorria o século XIII e reinava Dom Afonso II, cognominado de «O Gordo». A alcunha revela que era amigo do garfo, se já existisse tal instrumento auxiliar da alimentação. Passando pela ribeira de Lisboa, durante o mês de Junho, El Rei Dom Afonso II notou um agradável odor de comida, concretamente de peixe grelhado. Indagou o seu fiel espião, que o elucidou acerca do dito: sardinha. Sardinha assada. Quis então o monarca conhecer o peixe no prato. Alguém desastrado e vendo o apetite real disse:
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– Fique Vossa Majestade sabendo que pouco custa, tão pouco que é alimento dos mais pobres.
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Desconsolado, El Rei jurou para nunca mais tocar em sardinha. Para que o episódio não se conhecesse, mandou ao seu agente Sardinha que o fizesse desaparecer... ou melhor, que não o fizesse aparecer em documento algum.
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Porém, o episódio perdurou no boca-a-boca dos fidalgos e de mais gente do paço. Soube-o o Rei Dom Carlos, homem de boa vida, seja de vinho seja de amor sem compromisso com damas do palácio (e talvez outras), de sensibilidade e qualidade artística, e de conhecimento e ciência oceanográfica, sendo descobridor de várias espécies marinhas.
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Soube-o pois El Rei pela boca do seu Sardinha. Porém, o anafado e guloso monarca, decidiu revelar o episódio do seu antepassado. Já se sabe como é: cada pessoa acrescenta algo à estória, também à história, e acabou por ser Dom Carlos o depressiador do peixinho – como se sabe, na Monarquia Constitucional vivia-se com ar bem mais democrático do que viria a sentir-se na Primeira República e na Segunda República e quiçá até nesta Terceira República. Vá de gozarem com o Rei e as suas sardinhas  – incluindo os espirituosos irmãos Bordallo Pinheiro.
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Brincar com as sardinhas do Rei, mas não com o seu fiel conselheiro e agente de informações, o Sardinha, claro – é que nem sonhavam a existência de tal pessoa e função.
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Como se sabe, em todas as culturas, os homens de confiança dos chefes são agraciados com recompensas. Na Europa, entre as várias honrarias, são atribuídos títulos de nobreza. Há variantes, há países com maior quantidade de postos de hierarquia de sangue; em Portugal, e por ordem crescente são barão, visconde, conde, marquês e duque. É claro que um fiel Sardinha foi também agraciado com uma coroa, a de conde. Dom Luís Inácio Francisco João Paulo Pedro Miguel Gabriel Rafael Manuel Carlos Afonso Salvador de Todos os Bens do Morgado de Sardinha foi o primeiro a usar a coroa de ouro de dezasseis braços encimados com pérolas. Sob o coronel o elmo vestido de vermelho, com virol e paquife de azul e branco. O escudo é de azul com uma sardinha de prata apontada à dextra. Como se vê, estas armas nada têm de parecido com as dos outros fidalgos com o mesmo apelido... ide procurar, que não me apetece.
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Foi criador do título o Rei Dom José, por sugestão do conde de Oeiras, mais tarde marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo – os Carvalhos eram mais parcimoniosos na atribuição de antropónimos.
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Puxemos pela cabeça e não será exagero imaginar que Dom Luís de Sardinha agiu secretamente para encontrar os culpados da tentativa de regicídio. Quis Dom José que fosse Conde de Peniche. Porém, o Sardinha sofria do mesmo problema que eu e não suportava o cheirete do pescado e só de pensar em erguer casa naquela vila piscatória tinha ataques contidos de raiva – os agentes secretos não exteriorizam.
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No entanto, Dom Luís de Sardinha apreciava os ares do mar e adquiriu terras ali para Sesimbra. Recaiu então o topónimo Espichel sobre a coroa condal. Já agora fica a nota que Dom João VI fez conde de Peniche Dom Caetano José de Noronha e Albuquerque.
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Mais do que desconhecido dos portugueses, o conde de Espichel figura em muitas casas nobres, nomeadamente em azulejaria. Normalmente são cavalheiros de peruca alta, à moda do século XVIII, que normalmente ladeiam portas. Chamam-lhes figuras de convite, mas a verdade é que serviam de aviso, a todos os que frequentavam a casa, que uma nobre figura os podia estar a espiar e, por isso, ser necessária cautela – ainda que desconhecessem ou desconfiassem que fosse o conde de Espichel.
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Mas bem mais une o Cabo Espichel e Peniche, cuja península termina com o Cabo Carvoeiro. Dizem peixívoros que as sardinhas mudam com a latitude. Porém, não é verdade, determina a ciência.
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As Sardina pilchardus, a europeia, natural do Mediterrâneo – donde tomou o nome à ilha de Sardenha, tal era a abundância nas suas costas – e do Atlântico. É esta a subespécie mais conhecida e mais comum.
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A temperatura da água determina o teor de gordura dos animais, pelo que os apetites dos homens, tal como dos animais, tende a preferir os alimentos mais gordos – além dos doces. São os mais fáceis ou primários.
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Ora dizem alguns entendidos que a sardinha da água a Norte do Cabo Carvoeiro é mais gostosa em relação às que nadam uns paralelos abaixo. Outros põem a fronteira no Cabo Espichel. A mim tanto se me dá como se me deu, pois não tenciono tragar nem uma nem outra, nem qualquer outra subespécie – há bué delas.
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Mais uma nota pessoal. Quase toda a gente que conheço desculpa o cheirete da sardinha pelo prazer que dá. Porém, eu – que tenho náuseas com o fedor dos bichos em cru, estragados ou sujeitos a qualquer confecção – não me perturba o ar das assadas na brasa e mesmo em cru quase não me aborrece especialmente (a pescada é kryptonita para o super-homem). Mistérios! Mistérios que um bom médico Sardinha poderá desvendar se tiver o dom de detective.
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Tal como acontece na sociedade humana, em que há cada vez mais doutores do que senhores, as sardinhas, outrora abundantes, conhecem preços menos plebeus, e nas loucuras das festividades populares de Santo António de Lisboa, São João e São Pedro chegam aos dois euros. Até a mim me dói e nem as como.
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Os portugueses são dados a exageros. Ora temos o melhor do mundo como o pior. Assim acontece com a gastronomia. Podemos não ter a sofisticação doutras cozinhas, mas não é por isso que não temos coisas boas. E é engraçado como um rectângulo comprido, que não deve ter mil quilómetros de cima até ao fundo e quatrocentos da água à fronteira, é tão variado na sua mesa. Esqueçam a dieta mediterrânica, pois que existe por cá, mas somem-lhe a atlântica e a continental.
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Como em tudo, não se consegue qualidade se a matéria base não for boa. Agora não é o oito e o oitenta dos portugueses, essa prova da característica bipolar do povo tuga, é mesmo um facto... as águas nacionais são povoadas pelos melhores peixes. Não é decreto, é sentença dos melhores restaurantes europeus, da costa Leste dos Estados Unidos da América e do exigentíssimo Japão, que vêm comprar peixe. Algum nem chega a ser descarregado no cais ou antes de ser apanhado já está vendido.
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Japoneses a comprar peixe português é mais do que um elogio, é medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. Com todo os seus (entediantes, exagerados irritantes) rituais, vénias, protocolos e códigos – além do doentio apetite voraz que destrói a fauna aquática em todos os mares – os japoneses são os maiores consumidores mundiais de peixe, seguidos dos islandeses e dos portugueses – dependente de quem faz os estudos, há quem diga que os segundos somos nós e até quem garanta que estamos no primeiro lugar. Tirem-me da estatística! Por favor...
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Contam entendidos que os portugueses sabem tanto de peixe que o cozinham de forma minimal e não lhe mascaram as qualidades ou características.

Disseram-me peritos que escalar o peixe – uma moda recente – é um atentado gastronómico, pois o animal perde os seus sucos, torna-se mais seco e menos paladoso. A ser assim, é a preguiça a vencer a gula. Mas cada um sabe de si e se somos livres de não comer peixe somos também livres de o comer como quisermos – o uso da primeira pessoa do plural é só no texto... não se iludam, ok?! É retórica.
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Aíiiiii! Que me ia esquecendo!... Há mais uma coisa a dizer sobre os nobres Sardinha... tal como os homónimos peixes, são de águas fundas e escuras... o bom espião move-se no escuro e na penumbra para resgatar luz.
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Como se come a sardinha? De diversas formas, mas a mais apreciada é a assada na brasa. Só com sal e muita atenção ao estalar da pele e sua cor. Acompanha-se com batata cozida, pimentos e pimentões grelhados e salada de alface, tomate, pepino, cebola, orégãos, azeite e vinagre de vinho (branco?!). De fora está, sem contemplação, a bastardia da cenoura ralada. Quem inventou o acrescento devia ser...
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Atenção que agora é a doer. Protejam as cabeças que vão voar pedregulhos. Há dois lados em contenda: peritos que defendem que se beba vinho branco, à moda francesa, e outros especialistas e mais os amadores que afirmam que é com tinto.
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Alexandre Dumas (pai) era entendido nas coisas da gastronomia, prosador qualificado e que sentenciou que aos produtos dum determinado local se devem servir vinhos do mesmo sítio. É lei, mas as leis também se fazem para se corrompidas, mudadas, abastardadas... o que se entender e viva a liberdade! Se há lei, sou contra!
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A mim faz-me sentido o que escreveu Alexandre Dumas – que se enquadra tão bem nos movimentos do quilómetro zero, da autenticidade gastronómica dos lugares, dos produtos de época e da mastigação lenta (celou fude – slow food) – pelo que sardinha é com vinho tinto, tal como o polvo e o bacalhau. Não, com certeza, néctares de catorze graus, aborrecidos nos dias quentes. Acerca disto há tanto para dizer... olhem, a Real Companhia Velha – a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, aquela criada pelo primeiro marquês de Pombal para delimitar uma das primeiras regiões demarcadas, tal como Tokay e Chianti – lançou um vinho da casta rufete, um tinto leve e pouco corado que liga na perfeição com as sardinhas, e há tantas castas para descobrir... Liga na perfeição... digo porque acredito em quem mo diz.
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Portugal está na moda e a gastronomia, que obrigatoriamente engloba o vinho, virá a estar. A portugalidade moderna seduz a classe média com ideias estéticas contemporâneas... blá, blá, blá... os saquinhos bordados, as andorinhas em faiança, os sabonetes Ach. Brito, a pasta medicinal Couto... blá, blá, blá...
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Ora, a tradicional e, felizmente recuperada nas intenções e produções, a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha lançou um desafio aos artistas: a criação duma sardinha. Os desenhos propostos a concurso tornam-se obras tridimensionais em faiança. Para quem não saiba, esta fábrica foi estabelecida em 1884 pelo ceramista Rafael Bordallo Pinheiro, homem de múltiplas faces e que partilhou a ribalta com o seu irmão Columbano, artista do pincel. Os outros nove irmãos não foram tão célebres.
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A minha querida amiga Isabel Colher, cujo trabalho e vivência artística e artesanal podem apreciar no blogue http://tardoz.wordpress.com/, concorreu com um figurão da nobreza lisboeta do século XVIII.
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Já perceberam quem... o primeiro conde de Espichel, que teve um nome tão grande que nunca ninguém conseguiu fixar na íntegra e ordem certa. Diz a amiga artista na sua definição constante na candidatura:
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– Figurão da nobreza lisboeta do século XVIII, tem gostos requintados e tiques de linguagem como Oh lá lá! ou Et, voilá!, que está sempre a aplicar. Organiza o Salon Musical et Littéraire, recebendo os convidados recostado num leito, ao estilo do século anterior, na Chambre Bleu do seu palacete em Belém.
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No dia Primeiro de Novembro de 1755 – estava um tempo abafado de trovoada, fenómeno que o folclore de Lisboa fixou como prenúncio de sismo – a família real encontrava-se, precisamente, em Belém, concretamente no palácio do conde de Espichel.
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Calcula-se que o abalo, com epicentro a Sudoeste do Cabo de São Vicente, tenha atingido o patamar nove da escala aberta de Richter e entre dez e onze da escala de Mercali. Como se não bastasse, seguiu-se um maremoto, que, de acordo com testemunhos coevos, alcançou os trinta metros de altura e percorreu as ruas da capital com uma voragem celerada e velocidade sobrenatural. Consta que não chegou a subir ao monte de Campo de Ourique, daí aplicar-se a expressão «resvés Campo de Ourique» a algo que por um triz não alcança um determinado ponto previsível.
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Atenção, escrevi maremoto e não essa irritante palavra japonesa tsunami, que podia ser gira se usada com parcimónia. Além da terra e da água veio o fogo. Calcula-se que tenham morrido noventa mil dos duzentos e setenta e cinco mil habitantes de Lisboa.
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O abalo sentiu-se por todo o Sul português, no Norte de África, na Andaluzia (o maremoto subiu o Guadalquivir até Sevilha) destruindo casas, palácios, conventos, igrejas e fortificações. Sentiu-se também na inteligência, estudo e cultura. Vivia-se o Iluminismo e deu-se nascimento à sismologia. François Marie Arouet, conhecido por Voltaire, foi dos que mais se impressionaram com a catástrofe que apagou uma das mais importantes e ricas capitais da Europa.
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Então, o Rei Dom José mandou edificar no alto da Ajuda uma barraca para aquartelar a família e parte da corte, pois o Paço da Ribeira – cujo largo é ainda hoje conhecido por Terreiro do Paço (Praça do Comércio) e o novíssimo e riquíssimo teatro da ópera, inaugurado apenas seis meses antes do sismo – ficou inabitável e pouco aconselhável.
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O Paço de Madeira ou a Real Barraca – não sei se por jocosidade – ficou durante muitos anos. O futuro Dom João VI embora não tivesse vivido o terrível dia, pois nasceu em 1767, apanhou tanto medo com os relatos que nunca quis casa em Lisboa que fosse em alvenaria.
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Bem, ainda príncipe regente, Dom João lá se convenceu a mandar erguer novo palácio, na elevação da Ajuda. A primeira pedra foi colocada em 1795. Todavia, o que hoje resta, do construído e do sobrevivido ao incêndio de 1974, é menos do que um quarto do previsto. A culpa é do Brasil e de França... mas mais do Brasil.
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É que vieram os chatos dos franceses, a mando de Napoleão, por Portugal se manter fiel ao seu aliado (desde 1383 – a mais longa aliança do mundo) e não aderir ao bloqueio marítimo. Foi em 1807, a primeira invasão, comandada pelo general Jean-Andoche Junot, e Dom João e a corte pisgaram-se para o outro lado do Atlântico. Todavia, por cá ficou o conde de Espichel a espiar a favor dos aliados. A segunda invasão ocorreu em 1809, liderada pelo general Nicolas Jean de Dieu Soult, e a terceira e última em 1810, tendo à cabeça o general André Masséna.
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O príncipe Dom João fez da cidade do Rio de Janeiro a capital do Reino Unido de Portugal Brasil e Algarves – Portugal deve ser o único país colonizador que teve a capital numa colónia... e um palácio real que era uma barraca.
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Dom João VI manteve a governação absolutista no Rio de Janeiro, mas deu aberturas à economia e nasceu burguesia. Entretanto, os franceses deixaram sementes liberais e Dom João VI regressa à metrópole em 1820, devido à Revolução Liberal, no Porto. Do outro lado do Atlântico, Dom Pedro, que ficara com a regência, declara a independência do Brasil, em 1822 – já eram muitas as pressões da população. Em 1825, Dom João VI proclama-se primeiro imperador do Brasil. Por pouco tempo usou a coroa imperial, pois faleceu no ano seguinte – só cerca de seis meses.
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Dom Pedro assume as duas coroas, como Pedro IV de Portugal e Pedro I do Brasil, perfilhando do ideário constitucional. Porém, abdica de Portugal a favor da filha, Dona Maria II, nascida no Brasil em 1819 e coroada em 1826. Mas o mano do imperador, Dom Miguel não gostava do liberalismo e proclamou-se Rei de Portugal em 1828.
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Para defender os direitos da filha, Dom Pedro IV abdica do Império do Brasil a favor do seu filho de cinco anos, Dom Pedro II. O usurpador absolutista, que reinaria até 1834, obrigou a Dom Pedro IV a voltar à Europa e a travar uma guerra civil, que viria a vencer. Dom Miguel exilou-se em Itália, Grã-Bretanha e Alemanha. Em 1834, Dona Maria II voltou a usar a coroa.
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Penso que Dom Pedro IV não gostava do peso da coroa pois, em 1826, na conturbada Espanha pós-napoleónica ofereceram-lhe o Reino. Mais tarde propuseram-lhe que se tornasse Imperador da Ibéria. Em 1821 os gregos livraram-se dos turcos otomanos e após alguns governos quiseram constituir um Reino. De quem se lembraram os gregos, em 1832, para se sentar no trono? Exacto! Não quis e o ceptro passou, em 1833, para Otão, segundo filho varão de Luís I da Baviera. Os gregos fartaram-se do Wittelsbach e em 1863 um novo monarca assumiu o país; Jorge I, filho segundo dos Reis da Dinamarca, da dinastia Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg.
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Como se depreende pela passagem dos anos, com invasões francesas, fuga para o Brasil, luta pela independência brasileira e guerra civil, o Paço da Ajuda nunca se concluiu. Primeiro porque da colónia americana já não chegavam naus carregadas de ouro e gemas e, depois, o alemão Rei Consorte, Dom Fernando II, mostrava-se mais interessado nos castelos de Luís II da Baviera, seu primo louco, em estilo romântico, que é muito eclético e variado... o Paço da Ajuda era dum aborrecido e ultrapassado género neo-clássico.
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Com a partida da família real para o Brasil, os condes de Espichel não deixaram nem a companhia real nem a penumbra. Normalizada a vida, uma grande amizade uniu Dom Carlos e o seu agente. Apesar de muito e bem avisado, não apenas pelo conde de Espichel, o monarca quis seguir em carro aberto e por percurso que se previa sobressaltado e na esquina do Terreiro do Paço dispararam contra o Rei e príncipe regente. A Rainha Dona Amélia defendeu o que pode, revelando coragem física e força mental, provando ser digna do estado de Rainha e do dever de mãe.
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A partir daí nada se sabe acerca de novos titulares do condado de Espichel. Porém, recentemente, surgiu uma obra de arte que dá a entender que a linhagem continuou e se mantém atrás das cortinas.
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Mostrou-se de forma subliminar, com inteligência e humor – só para os que sabem e têm cultura. Nem Maçonaria nem Opus Dei nem comunidade homossexual têm pulmões para alcançar as funduras dos Sardinhas de Espichel. Revelam-se a alguns e não chegam a dizer xiu.
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Não é por acaso que, dum momento para o outro, uma família desconhecida e com tão grande presença na governança da causa pública surge numa evocação artística... seria tranquilizador saber que um novo Sardinha conde de Espichel estivesse a mexer-se em Bruxelas.
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Nota 1: Vem este texto a propósito da obra que a minha amiga Isabel Colher apresentou no concurso de sardinhas da Fábrica Bordallo Pinheiro.
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Nota 2: Todas as decisões são discutíveis, mas os júris são soberanos. Para mim a sardinha encerra portugalidade e essa característica é sublimada pelo efeito azulejar do peixe da Isabel Colher. Para mim, deixando de parte a grande amizade, garanto, é a melhor sardinha do cardume ou eventualmente a segunda, pois a sardinha pessoana de Maria Miguel também traduz bem a cultura nacional.
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Nota 3: As sardinhas concorrentes podem ser vistas no site da empresa Faianças Artísticas Bordallo Pinheiros.
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Nota 4: Não sei se não deva pedir uma aclaração ao Tribunal Constitucional.

terça-feira, junho 17, 2014

Idade do ferro - 3/3

Uma bola de chumbo bate na couraça de ferro. Quem cede? Quanto mede, quanto pesa. Números que não sei contar e sei dizer que não sei...
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O peso que isso tem, pois escrevo e pois pergunto. O chumbo derruba ou leva e o sangue férreo esgota-se ou comprime-se. De barro nos fizeram, de barro férreo.
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Onde... ao mesmo sítio. Onde levam os dias de chumbo?
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Por que vêm é como porque vão. Os dias de chumbo têm qualquer cor e são dia ou noite.
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Não respeitam quereres. Não pesam nos olhos, os dias de chumbo – acordam o coração.
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Pesam no corpo que sucumbe a uma força gê invisível e espiritual.
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Onde... do anjo ou da Terra Negra onde o Diabo não está. Onde o Diabo não passa. Onde o Diabo não é, porque o Diabo não é. Ainda assim, anjo ou Terra escura?
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Com barro nos fizeram com ferro nos fizemos com chumbo nos matamos.
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Há que ter medo ou sorrir. Diferente do tempo, se é de ir ou ficar.

Idade do ferro - 2/3

Desceremos um dia, seja por cordas, escadas ou salto. Da varanda da minha vida avisto a terra prometida e penso:
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– O silêncio e das lâmpadas.
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De facto, ali não está ninguém. Mau será se ainda estiver. Oro para que não esteja.
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Já me bastam todos os dias de lama, que quando à lama descer já estarei levitando.
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Se fosse já iria de noite mas tranquilo.
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Se for quando... não sei que cansaço.
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Não só meu.
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Desde já peço desculpa a quem devo.
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Tanto por ir como por ficar.
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A terra prometida é já além e a luz dos candeeiros é pesada e triste como ferro.
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Silêncio.