sexta-feira, maio 23, 2014

Dentro da minha cabecinha pequenina

Dentro da minha cabeça tenho muitas palavras. Algumas estão soltas, outras presas, umas crescem e outras fenecem. As piores são as vadias porque entram e saem quando querem. Mas as que me cansam são as petulantes, palavras mimadas, que se vão sem rasto para que a memória as siga. Algumas só vivem nos sonhos, como bebés por nascer. As preferidas são as que digo baixinho, segredando-me, para que não as diga. 

domingo, maio 18, 2014

Carta ao Pai Natal

O que quero para o Natal.
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Querido Pai Natal, escrevo-te agora para teres tempo.
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Há quem queria ser rico – eu, por exemplo.
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Há quem queira flores.
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Brinquedos, para os mais legítimos.
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Paz, a mais merecida.
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Não te peço que me acalmes a cabeça.
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Não te peço para me ensinares a calar.
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Não te peço para deixar de ser bobo.
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Não peço para deixar de ser tolo.
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Querido Pai Natal...
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Continuo a acreditar em ti, embora na segunda classe tivesse aprendido que não existes.
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Que te peço?
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Peço-te para saber escrever, não te peço para saber dizer.
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Peço-te que João Villaret me declame e Mário Viegas me diga.
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Peço-te o respeito de brilho e altura de João Villaret e que Mário Viegas me desconstrua com todo o seu brilho, me desrespeite.
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Duas vezes, três vezes, brilho. Quendera ter brilho.
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Se não for este Natal, que se um dia.
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Não diga quem não sabe

Os poetas não sabem dizer poesia.
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Os poetas não sabem dizer poesia.
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Repitam todos comigo:
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- Os poetas não sabem dizer poesia.
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Modelos não são actores.
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Os actores nem sempre sabem dizer poesia.
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Poesia é difícil.
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A poesia é difícil de ouvir fora da voz interior.
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A poesia às vezes é difícil de ouvir pelo que diz.
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A poesia às vezes é ainda mais difícil pelo que sugere.
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Os poetas não deviam destruir o que escrevem.
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Os poetas deviam resistir ao apelo do pecado do brilho da voz.
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Os poetas fazem poesia.
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Os sapateiros consertam sapatos.
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Nota 1: Vem isto a propósito das declamações de José Luís Peixoto no sítio do Jornal de Notícias. É clicar aqui para se ouvir. É doloroso. Dá vergonha alheia. Não me pronuncio pela qualidade dos poemas.
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Nota 2: Todas as excepções têm regras, tal como as regras têm excepções. Façam o favor de pôr em marcha o não-vídeo, em que o que talvez seja o maior poeta português vivo pronuncia com toda a alma e conteúdo o seu poema. O bicho-do-mato Herberto Helder, no poema «A minha cabeça estremece», completado com a música de Rodrigo Leão - não é ilustração ou acompanhamento, não é poema musicado, é uma obra de arte feita por dois artistas de ofícios diferentes.
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MANIFESTO POLÍTICO - POR QUE NÃO VOTAREI EM FRANCISCO ASSIS NAS ELEIÇÕES EUROPEIAS











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Não é hábito escrever de política no infotocopiável. Sem jornal para escrever, desmerecendo o Facebook e sem tinta e trincha para pintar no muro do cemitério...
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Resta-me sujar a página negra com um manifesto político. Vai já a seguir.
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Os portugueses sabem de tudo, têm opinião sobre tudo. Pelo grau de literacia conhecido, concluímos o que se sabe desde há milénios:
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Só os ignorantes têm certezas. A dúvida pertence aos sábios.
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Eu permito-me falar de futebol, quando o que sei sobre futebol se resume a: Clube de Futebol «Os Belenenses» e pouco mais... e que tenho uma simpatia «bairrista» (não é do bairro é do lado da cidade), pelo Clube Oriental de Lisboa.
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Há pois quem saiba muito mais de futebol do que eu. Somos dez milhões e quinhentos mil, desses só trezentos (três centenas, não são trezentos mil) sabem menos de bola do que eu.
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Por muitos estúpidos que existam, a média estará sempre assim desse patamar. O mesmo acontece com os génios... portugueses só há dois no activo: Cristiano Ronaldo, António Lobo Antunes... acima está o «Adiantado Mental», alcunha de Jorge Braga de Macedo, que acumula o título do maior arrogante português... nem o EGO do Lobo Antunes ou a «cegueira» do António José Saraiva, director do Sol, acompanham.
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Pois, a sabedoria do português pode ser baixa, ou alta, conforme queiram. Mas uma coisa é certa:
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- Os portugueses sabem fazer contas.
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Se não soubessem fazer contas não teriam aguentado esta austeridade de folha de cálculo.
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Sim, a austeridade era necessária. Sim, vamos precisar de continuar a ter austeridade por muitos anos. Mas tinha de ser «ESTA» austeridade... «ESTA» e «DESTA» forma?
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Como cidadão que se lembra duma Europa europeia, de alternância entre humanismo social-democrata ou socialista (conforme a latitude) e a democracia cristã... estamos na merda, ou se não estamos, estamos quase.
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Somos genericamente ignorantes, tipo noventa por cento, mas não somos estúpidos. Fazemos o que podemos e estamos a sobreviver... à rasca!
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A canção dos ricos estarem mais ricos e dos pobres estarem mais pobres é imagem que não me interessa pintar. É cantiga de que não gosto do refrão... É maniqueísta, tem processos-de-intenção, de demagogia e de invejazinha (não é inveja)... ainda que possa ser verdade. Esse fado não cantarei.
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O que me interessa é saber como estamos a viver... e por que estamos a viver como estamos a viver.
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Os portugueses podem ser ignorantes, mas não são estúpidos. E sabem de contas, pelo menos as de mercearia, que são aquelas que lhe espelham a algibeira.
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O meu medo não é a ignorância, mas a memória.
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Qualquer português que saiba fazer contas, mesmo que não saiba gerir o cartão de crédito ou nunca tenha visto uma nota de quinhentos euros, se lhe mostrarem os números da economia, os GRANDES MESMO GRANDES, percebe. Mesmo que não saiba o que é a balança de transacções correntes ou O VAB.
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Qualquer português com quociente de inteligência de vinte (e que seja honesto, mesmo só para si, para a sua consciência, podendo dizer o contrário do que pensa e sabe) percebe o que se passou no país se vir os números à frente.
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Pois entre doze de Março de dois mil e cinco e vinte e um de Junho de dois mil e onze... não quero falar de justiça nem de Alcochete... só sobre esse espaço de tempo...
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Portugal estoirou o ordenado, a conta ordenado, o cartão de crédito do BES, o cartão de crédito da CGD, os cartões de todos os bancos e ainda foi pedir dinheiro à Cetelem e à Cofidis, reconhecidas empresas de agiotagem.
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Portugal foi às putas e apanhou sífilis...
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Devia haver o oposto da estátua, uma espécie de estátua invertida.
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Os portugueses que só saibam fazer apenas contas de mercearia não poderão votar em quem se deixa acompanhar por José Sócrates.
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Quem o faz ou sofre de clubite política, ou não tem memória, ou não sabe fazer contas ou tem um quociente de inteligência abaixo de vinte.
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Se for esse o caso, então mereceu sofrer a austeridade brutal, em que os ítens da despesa do Estado estavam ilegíveis, para nas Finanças só vissem os números, para poderem cortar na despesa sem lhes doer a consciência... mereceu o aumento brutal da carga fiscal... mereceu o Tribunal Constitucional que temos.
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Pois, leitor (amigo ou não, português ou não, eleitor ou não)... Francisco Assis perdeu o meu voto ao permitir que José Sócrates entrasse na sua campanha...
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Todos temos passado. Todos fizemos coisas boas e coisas más. As boas pomos no currículo, as más escrevem-nas no cadastro.
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E agora vou ao carácter, à justiça e à moral... cadastro. Escreve-se com as sílabas Al-co-che-te.
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Mas!... O que fez ao dinheiro já nem me importa. Se foi ou é corrupto (quanto a mim, é)... caguei de alto. Há tantos, que já nem chocam...
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Mas de doze de Março de dois mil e cinco e vinte e um de Junho de dois mil e onze...
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Aprendi com Sócrates que só sei que nada sei... ou sei, que com Sócrates, com Assis não irei..
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Quanto ao resto, sei de bola e aprendo muito com a sabedoria tosca dos taxistas.
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Sou do Belenenses. Ponto! É o que sei de futebol.
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Nota 1: Sabedoria não tem nada a ver com educação formal, grau académico, situação financeira, posição social, com honestidade ou até mesmo com inteligência. Tanto sabem tantos velhos e têm tanto para dizer e não têm mais que instrução primária.
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Nota 2: Fizeram-me testes de inteligência por quatros vezes, em três o resultado ou idêntico e num outro desviou-se mais. Acredito?... Sinceramente, acho que não sou particularmente inteligente... Mas isso ou é vaidade ou falsa modéstia? Não.
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Nota 3: É um desabafo... apesar de tudo, ainda poderia votar na coligação de centro/direita e direita... mas... sou democrata cristão, não sou da direita popular. Se em Portugal ainda resta alguma democracia cristã ao CDS (PP – foi acrescento em que me não revejo), na Europa senta-se na mesma bancada do PSD (PPD era outra coisa), e tenho memória do Cavaquismo. E o socialismo de Sócrates não tem nada a ver com Olof Palme ou Willy Brandt. A Europa de Angela Merkel não tem nada a ver com a de Helmut Kohl... não tem a ver com o tempo ou com a época (ou terá)! Tem a ver com carácter.
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Nota 4: O banco da quadrilha cavaquista foi nacionalizado pelo PS. E bem caro nos sai. Bem dizia Louçã... nacionaliza-se o prejuízo e deixa-se privado o lucro... e eu não sou trotskista!

terça-feira, maio 13, 2014

Poema de ar

Tantos dias de noite. Respira.
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Tantos dias de noite.
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Tantos dias de noite. Respira.
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O ar da madrugada não limpa a melancolia.
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O raiar hesita-me.
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Aguento a falsa esperança  da luz queimar a tristeza.
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Aguento mascarado. Aguento. Que faria eu se não aguentasse?
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Deito-me para dormir. Levanto-me. Deito-me. Levanto-me e ligo a televisão. Agarro o comando da televisão e zapo duas e três e quatro vezes. Tédio. Levanto-me e desligo o televisor.
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Dormir é querer. Em mim.
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É um eufemismo, o verbo é esconder – estou por tudo, digo tudo como os malucos.
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Afinal, nascemos nus, vivemos nus sob a roupa e será a nossa nudez uma memória da vida na Terra.
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(Momento de silêncio. Parar para pensar o caminho a seguir – é difícil chegar sem mapa e não ter a quem perguntar).
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Ai!
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(Suspiro de tédio).
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Por vezes penso que voar e mergulhar são a mesma coisa...
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Diz-me o instinto.
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Nu e tenho alguma vergonha.
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... O que se perde com a verdade e o que se ganha com a ilusão?
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(Pensar vazio).
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O que dirão da minha nudez? – os amigos, os outros e o mundo.
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(Muitas dúvidas, muitas dúvidas, muitas dúvidas. Um turbilhão de confusões de dúvidas).
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Maquilho-me e pareço que estou.
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A nudez é um acto arriscado que poderá libertar do tédio.
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É isso. Talvez seja. A nudez assusta o tédio, além de assustar a alma. Quanto tempo dura? O tempo do regresso, como um eco.
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(Evoco memórias de sonhos antes de continuar. Há vários ou são os mesmos que continuam num estado diferente? Muitas noites, muitos sonos e os mesmos sonhos).
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Ai!
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(Paro. Sonhos não servem para nada e não acrescentam nudez – o que é um contra-senso, visto a nudez resultar da subtracção da roupa).
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Ando nu na minha cidade – uma cidade estranha, que reconheço vagamente, em incertezas, intranquilidades, como se tivesse havido um tempo em que não existi e chego agora, à noitinha, à noite alta, para me confundir. Uma cidade de continuação, de espaços e tempos.
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Tantos dias de noite, até no aconchego.
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O tédio é um frio quente, que fura os tecidos corporais e alcança a alma.
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(Respirar devagar e profundamente. Pensar na pequenez humana e nos treze mil milhões de anos do universo... nos quatro mil e oitocentos milhões de anos da Terra. Pensar na quantidade de espermatozóides inutilizados diariamente ao longo de milénios).
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(Pensar vazio)
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(A meditação não resulta e os meus Ooms são falsos. Nunca farei ioga e deverei passar a vida a agir antes de pensar).
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O tédio sou eu ou está colado de modo em que não se distinga a alma?
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Vale-me o vento. Não me leva a tristeza, mas refresca-se a cara e as orelhas – odeio ter as orelhas quentes.
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(Momento para lembrar o Inverno com seu vento).
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Será que estou nu, tão banalmente nu que.
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Ou serei transparente ou translúcido? Escuridões mínimas para tapar as vergonhas, sim, porque a transparência é o esconder da luz, um manto invisível.
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Talvez por não ter espessura...
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(Pausa para meditar).
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Se morresse agora...
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Mergulhar, voar, dormir.
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As janelas, a água, a caixa dos sorrisos.
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Indo, para que a morte não me apanhe de surpresa...
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Tão impossível como as minhas viagens sem nexo... nu, descalço, rastejante, sofrido, perdido, confuso, esquecido, desconfiado, intranquilo, amedrontado.
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Quero respirar antes de abrir os olhos.
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Se quero morrer? Quero. Já? Tanto faz.
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Se quero dormir? Quero. Já? Para sempre.
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(Paro para ver as brincadeiras duma gata, à falta duma brisa imaterial para me soprar na testa, como o sentir do bater das asas dum anjo).
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(A casa está parada e eu acordado).
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Voar é mergulhar.
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Em sonhos o céu pode fazer-se de cortinas de flanela negra.
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Na vida há noites que duram dias.
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Sim, tenho vergonha mostrar a nudez. Uma vergonha maior do que a vontade de a esconder.
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Ninguém pode aceitar as dores do tédio e não tenho ouvidos para os meus ais.
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Serei memória ainda em vida.
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Tristeza, a minha...
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Se me for? Chorará a mãe e alguém dirá o meu nome umas quantas vezes, cada vez menos, até ao silêncio.
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Que não me agarrem. Que não me abracem.
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Sou denso, compacto. Pesado é a palavra certa – refiro-me ao ânimo.
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(Reflexão acerca do vazio).
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Metade de mim, ri.
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Metade de mim, mente.
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A outra metade tem vontade de saber quanto pesa o ar.
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É mais pesado do que o tédio.
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Mergulhar, voar. É a mesma coisa.
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(Ponderar as palavras).
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Há uma diferença entre querer não saber e a certeza de não querer.
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É um fiozinho de ar que escapa e arrefece as costas.
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(Dirijo a palavra ao Futuro, coisa que por vezes penso ser tão existente quanto o Diabo – que se existisse seria o filho adolescente problemático de Deus).
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Que tenho para dizer ao futuro? Só palavras de passado. Como se sabe, o presente é um tempo que só existe quando.
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(... silêncio ... suspiro vagaroso ... indecisão).
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Esqueçamos a luz do dia, que é a parte menos interessante do dia, e quando acontece quase tudo.
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O interesse da noite é o vazio ou o quase vazio de gente. Das luzes, das ruas negras, das pedras provavelmente molhadas, das evocações de passados por viver – essa noite que desistiu em Lisboa.
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A noite. Uma outra noite. Uma noite que sirva no Equador e nos pólos. Uma noite em abstracto...
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Esqueçamos a noite.
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Avancemos céu acima, para lá do tempo, para depois da luz.
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Mergulhar ou voar.
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(Penso enquanto lavo os dentes, cumpro as obrigações do escondido debaixo do nu e deito-me, baixo o estore, apago a luz, tapo os olhos com a almofada, que se molda ao rosto com o peso dos meus braços que a abraçam – quase negro, graal de luz).
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Antes do sonho, o sonho acordado.
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Tanto para fazer se pudesse...
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Entre o mergulho e o voo deixo-me ir por hoje.
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Se o tédio não me acordar. Se a nudez não me atormentar.
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Tantos dias de noite. E o dia que tem mais horas do que a noite. Tem mais e são todas de noite.
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Penso por inércia. Não o faço por hábito. Penso muito, porque sou veloz – corro a fugir do tédio e dum exército de demónios que vivem na minha cabeça, coração e fígado.
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Mergulhar e voar é a mesma coisa.
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(Vou dormir).
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Para quê, se não me traz nem alegria nem tristeza.
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Amanhã carregarei todo o tédio que preguiçou em mim enquanto dormia e mais o devido às horas úteis de luz.
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(Suspiro de exaustão pouco convincente e penso em tudo o que escrevi e penso).
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Tão importante quanto o peso é saber quanto aguenta o ar.
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Ar frio nas orelhas é tão bom.
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(Já durmo).
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Ressono.

Da língua e da mecânica

Esquece por momentos a mecânica.
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Esquece por momentos o que ias dizer.
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Ouve-me apenas.
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Não serei egoísta, mas quero dar-te todas as palavras que venham e duma só vez, para que não me arrependa nem me perca.
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Esquece o atrito da língua quando fala com o coração na boca, que seca por a água fugir toda para os olhos.
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Pensa no que significa Babel.
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Torre de todas as línguas.
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Também da minha e da tua se quiserem beijar-se.
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Pensa em Babel.
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Pensa em bárbaro... o que fala outra língua.
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Esquece a mecânica e suas rodas dentadas.
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É o tempo e o momento que propulsionam a vida.
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Língua bárbara, a que soa a tua?
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Escuta a minha, escuta.
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Diz que Babel não existe.

quinta-feira, maio 08, 2014

Oito horas de sono

Amanhã é dia oito. Pelas oito horas estarei acordado, recomposto dum sono de oito horas, dormidas em apenas três.
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Porque o tempo passa mais depressa?
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Não. Porque não o sinto a passar.
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Sentimos com corpo e com espírito, não sentimos o tempo.
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O tempo não existe.
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Pelas oito horas da manhã pensarei no tempo que perdi sem dormir e no que ganhei por estar acordado.
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Nasci a oito e gosto do oito.
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Em cada dia temos quatro vezes oito horas.
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Sendo quatro metade de oito e tu metade de mim.
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Somos vinte e quatro de amor.
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E porém, ninguém acorda por nós.

quarta-feira, maio 07, 2014

( ....................... ) / Lapso

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Os dias são maiores do que o dinheiro.
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O número de identificação bancária tem vinte e um algarismos.
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O dia tem vinte e três horas cinquenta e seis minutos e quatro segundos.
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Podes ter mais contas bancárias.
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Podes ter muito dinheiro.
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Terás sempre vinte e três horas cinquenta e seis minutos e quatro segundos por dia.
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Nota: Este poema tem dois títulos. Para que conste, o número de pontinhos é de vinte e três.

( ........................ ) / Ou qualquer coisa assim

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Tenho mais sono além dos sonhos.
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Nota: Este nanopoema tem dois títulos. Para que conste, o número de pontinhos é de vinte e quatro, um por cada hora do dia, óbvio

Carta dum lugar distante

Se aqui estivesses – e contigo a nudez que imagino – beijaria belo como nos filmes e intenso como na carne.
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Antevejo-te os seios. Não há fotografia em que te veja que não te espreite à descoberta.
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Se estivesses, beijar-te-ia como se fotografasse. Bem poderia a memória mentir, que a prova estaria impressa.
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Se te fotografasse nua haverias de mostrar.
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A pele branca, o ondulado suave.
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Fora da tela, o meu carinho a molhar-te.
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Fora de cena, fotografaria a pele alagadiça, com finos ribeiros e pêlos arrepiados como ervas primaveris.
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Sei que o preto e branco mente como um poema.
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O preto e branco é mais dramático.
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A fotografia só é verdade no momento.
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Mentira por mentira, seria a cores. Ninguém acredita na cor.
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O que em ti vejo, ninguém acreditará que é um nu.
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Sei-o eu. Não sei se percebes a nudez que a roupa mostra.
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Esquece os artifícios das mulheres. Uma mulher vestida é sempre nua, quando o querer é.
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Se existimos nas fotografias.
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Por que é tão difícil entender que se consegue ver para depois da roupa?
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Qual é o mal da roupa? Já fiz amor de amor vestido. O mesmo carinho, a mesma maldade.
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Não sei se diga... talvez saibas, por intuição.
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Sentiste? Presta atenção ao que te diz o corpo. Não o da carne, mas o que te veste o espírito.
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Arrepia, não arrepia? Não digas nada, sente. Sentes-me?
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É aí que te vejo.
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Entre o sexo e o amor. Um lugar com vista para dois lados.
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Sentes? Presta atenção. A minha mão.
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Aí.
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Onde ainda te sinto a carne e antevejo a alma.
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Atenção à minha mão. Presta atenção. Esquece tudo o resto. Sente.
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Não falei em sexo. Não falei de amor.
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Disse fotografia, aquela coisa que não existe depois do momento.
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É nessa dimensão que fazemos amor, ao pensar do olhar.
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Onde sentes?
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Aí. Aí mesmo.
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Antes do momento.
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Aí mesmo.
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Nota 1: Por coincidência ou não, esta obra de arte tem o título que pretendia dar ao poema. Pesquisei por imagem e encontrei esta como certeira, achei certeiro o título que tem, o mesmo que queria para o meu. Giro!
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Nota 2: Não consigo perceber se se trata duma fotografia ou duma pintura ou duma colagem. É provavelmente uma obra de técnica mista, daí no descritor estar catologada como «Arte visual».

Aqui daí aqui

































Quando te poemo não sei se to devo dizer ou se mo sentes na respiração. O teu corpo, mesmo que esteja a mais dum palmo do meu, é aqui. De longe de mim não sai. Por isso, posso-te dar um beijo onde quer que esteja, pois os teus lábios são com os meus.

segunda-feira, maio 05, 2014

Ensaio sobre a cabeça e a boca – e mais os portugueses

Os portugueses são dados aos exageros. Estamos sempre entre a euforia e o desânimo, o que nos torna bipolares. Temos o maior número de loiça lavada com uma garrafa de detergente (Fairy – 1998 – feijoada na ponte Vasco da Gama, a maior do mundo – dois em um) e não faltam portugueses candidatos a aparecer no livro de recordes da Guinness.
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Para quem não sabe, o livro da Guinness nasceu para pôr termo às discussões intermináveis dos bebedolas nos bares da Irlanda. Não me parece elogioso trabalhar propositadamente para aparecer... é a versão escrita do «Emplastro» do Futebol Clube do Porto.
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Pouco viajados e pouco exigentes, deslumbramo-nos com facilidade. Se tivéssemos «mundo»... e «ter mundo» não implica só viajar. Ter «mundo» é cultura, conhecimento, sensibilidade e relativisação, a cultura e a relativização.
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Há portugueses por todo o planeta e todos partilham um orgulho meio bacoco acerca do que é nosso. São os portugueses do mercado da saudade, que consomem o que vem do rectângulo e ilhas adjacentes, só por virem do rectângulo e autonomias. Por isso, vi espumante Raposeira à venda numa loja em Reims.
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Um aspecto que se prolonga até aos jornalistas, que, muitas vezes, não fazem o que estão obrigados. Saber mais, perguntar mais, falar com mais gente. Em 2008, um vinho português passou a ser «o melhor do mundo».
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Passou? Não, não passou. Mas o comunicado, escrito por um ignorante ou cínico, da Câmara de Palmela, incendiou as redacções: o Casa Ermelinda Freitas Syrah 2005 venceu o Grande Prémio Especial do Júri (ou algo assim – foi o mais pontuado) no concurso Vinalies Internacionales de Paris.
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É um bom concurso, mas colocá-lo-ia no fim da lista dos melhores certames. Ganhar é sempre bom, mas aquele vinho, em concreto, não era o melhor do mundo. Porquê? Porque em concurso não estavam todos os vinhos do mundo. E quem é quem para dizer o que quer que seja... um júri são pessoas, todas elas falíveis e que, estatisticamente, podem estar todas erradas. Não vou por aí e o vinho era bom, sim senhores.
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Há vinhos que nem vão a concursos, ou porque não precisam ou porque poderiam sair-se mal e lá cairia a aura de santo príncipe dos néctares de Baco. Com o palmelense Syrah 2005, tão inchados, os portugueses correram às prateleiras das lojas para comprar «o melhor vinho do mundo».
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Assisti a conversas e vi, com estes dois que tenho abertos para a alma, à demanda dos curiosos... e diverti-me quando, na ausência do 2005, outro qualquer ano servia. E quando já não havia Syrah, marchava outro, como que se «o melhor do mundo» passasse por osmose a toda a obra do enólogo Jaime Quendera, na vinícola Casa Ermelinda Freitas.
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Não sei de preços, mas aposto que os 8,50 euros de preço recomendado pelo produtor se tenham multiplicado, para contentamento dos comerciantes. O português, que quer vinho barato, não se importou de pagar mais, só para experimentar e perceber o que é ser-se «o melhor do mundo».
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Este é um exemplo de falta de «mundo». Um outro é acreditar que a marca comercial «O melhor bolo de chocolate do mundo» é um facto real, que traduz uma sentença dada por alguém com poder para tal. O bolo nem é nada de especial, e falta «mundo» aos portugueses.
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Por isso, temos o melhor vinho do mundo... o melhor queijo... a melhor comida... Certo, certo. Também é verdade especialistas mundiais da cozinha gostam de se abastecer de peixe da nossa costa. Esse facto, que não resulta de concurso, e é formado por gente não concertada ou formada em júri, pode traduzir-se no «”melhor”» peixe do mundo? Pode? Não! Mas é um excelente reconhecimento ter alguns dos mais reputados chefes de cozinha do mundo a comprar peixe português.
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Portugal salazarento era a preto e branco, silenciado, fechado na mesquinhez duma ditadura que considerava que aos portugueses bastava saber ler e contar. Havia miséria e subdesenvolvimento.
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O que foi a vaga da emigração? Poucos se lembram ou sabem das condições deploráveis em que viviam os portugueses na cintura de Paris, nos bidonville. Podia haver miséria, mas tinham bacalhau e couves penca, garrafão de tinto da aldeia. Sim, levaram Portugal atrás. Como fizeram os italianos nos Estados Unidos ou os japoneses no Brasil.
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A pobreza provinciana trouxe a Lisboa (e a outras cidades) esses rurais em busca de melhores condições de vida. O país rural é quase urbano e as auto-estradas «encolheram» o território. Hoje, 2,9 milhões de pessoas vivem em torno de Lisboa e quase 2,3 milhões ao redor do Porto.
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Os pais vão à terra e a segunda geração na cidade passeia-se nos centros comerciais, com bonés americanos e/ou fato de treino. As segundas e terceiras gerações nas cidades têm «vergonha» das suas origens campestres.
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Os portugueses papam tudo! Uns patinhos! Comprámos o Dia de São Valentim e o Halloween, um carnaval fora de época. E no Entrudo adoptamos o tropical samba... com suas miúdas descascadas, em pleno Inverno, habitualmente frio e chuvoso.
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Há décadas fritámos em óleo e temperámos com caldos salgados, em cubos. Desenganem-se, esses produtos ainda se vendem e muito. Outro dia espantei-me ao ver temperar uma salada com óleo, sei lá se de girassol, amendoim, sésamo ou milho. Óleo?
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As gerações que vieram procurar uma oportunidade de vida nas cidades ou na estranjas usavam azeite oxidado, talvez lampante... depois renderam-se aos óleos industrias, de sabor quase neutro. O azeite fazia mal, dizia uma indústria, alguns médicos e vários comerciantes.
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A desruralização quebrou agriculturas. Uma amiga italiana disse-me chocada que, quando veio a primeira vez a Portugal, se admirou com as poucas variedades de hortícolas... Falta? Temos imensas! Mas não chegam à cidade ou desapareceram.
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Não me fico pelos ingredientes, mas pelas comidas. Além dos bifes com batata frita (que entretanto perdeu o dito «ovo a cavalo»), a variedade de receitas tradicionais resume-se a uma vintena, se tanto.
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Depois, a boçalidade e a errónea genialidade faz com que proliferem coisas que têm nomes de coisas concretas, mas que não são a mesma coisa. Exemplos: amêijoas à Bulhão Pato já comi com manteiga, cerveja, vinho branco e mostarda – até talvez com tudo ao mesmo tempo; leitão à Bairrada com batata frita, iscas com batata frita, alheira frita com batata frita e ovo frito. Vegetais, hortícolas? Não sei onde comem os meus leitores, mas caso isto que escrevo seja desconhecido, vede os cafés (!), cada prédio tem um.
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Se querem fazer essas, e outras coisas, que lhe chamem outras coisas. Um burro é um burro e um cavalo é um cavalo e não é por deixar que lhe dêem festas que um gato se torna num cão.
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Nas portas que dão para as ruas, verduras, comida abundante durante séculos resumem-se a alface, tomate, às vezes cebola e raspas de cenoira. E o pimento? E o pepino? E os orégãos? Não sei onde comem, mas vejam.
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Já escrevi (no infotocopiavel.blogspot.com) que esta crise veio provar que adormecemos europeus e acordámos portugueses. Nos tempos em que o dinheiro brotava e o crédito era barato, graças a estarmos no euro – aliás, começou no cavaquismo – viajámos e vimos mundo, mas aprendemos algumas coisas? Fomos para a praia e fizemos bem. Só isso ou pouco mais que isso.
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Lembro-me quando andar de avião implicava vestir melhor e pagar caro. Com o dinheiro do crédito, os portugueses passaram a gritar, nos autocarros, nas ruas, que tinham ido a Cuba, Brasil, México, República Dominicana... gritavam, como gritavam os emigrantes quando vinham de férias «à terra» e mostravam a bagnole e começavam a construir as suas maisons com janelas tipo fenêtre.
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Uns, mais urbanizados, descobriram que havia um país aqui ao lado... lá havia (há) uma sopa que se come fria, chamada gaspazo... pois, da Beira Baixa ao Algarve sempre esteve (esquecido) o gaspacho. Estes tugas urbanizados deliciam-se com rúcula, porque desconhecem a eruca. E por aí fora...
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Estes são exemplos de falta de cultura. Cultura não é só literatura, cinema e pintura. Nada há de mais nobre do que comer (incluindo beber). Há outro tipo de incultos, os que se fecham às massificações... o mundo não pára e, tal como nas antiguidades, há bom e mau. Que mal tem o MacDonald’s e a Coca-Cola? Cabemos todos, mas uma só coisa, não.
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Voltando às peneiras do melhor do mundo... somos incongruentes. Temos o melhor vinho do mundo (e não me refiro àquele syrah de atrás), mas 90% dos vinhos vendidos em Portugal têm um preço até cinco euros. E 80% até três euros.
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O vinho, pura e simplesmente, não tem valor. Não lhe damos valor. A questão não pode ser vista no ângulo do bom é sempre caro. Todavia, o bom não pode nem deve ser barato.
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Os portugueses, que acham uma fortuna dar cinco euros por um vinho, pagam 1,10 euros por uma água engarrafa (0,25 litros), 1,50 euros por uma Coca-Cola (0,33 litros), 0,60 euros por um café (30 mililitros) ou sete euros por um copo de vodka corrente (atestado, porque é para bater) quando saem à noite.
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Depois há a mania (compreensível) de fazer o cálculo entre a relação a qualidade e o preço. Para mim vale quase nada, pois o mau será sempre mau e prefiro não ter. Há uns anos a esta parte que deixei de ir jantar fora... e não foi por causa da relação entre a qualidade e o preço, mas por causa da falta de dinheiro para pagar o bom.
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Numa crónica antiga (2006 – ainda hoje é dos textos no top dos mais lidos no blogue) disse mal dum restaurante, o Mal-amanhado. Choveram-me impropérios em cima, discussãoinfindável até ameaças, mais ou menos óbvias, de me quererem bater – por acaso o cozinheiro chamava-se Barbosa; somos danados. A dada altura, uma defensora do restaurante justificou que (não ipsis verbis) o restaurante era bom, se olhássemos para o preço.
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Só que preço e qualidade são coisas diferentes. Ou se consegue ter, comprando, recebendo, roubando, ou... o mau nunca será bom nem sofrível. Ah! Mas gostos, tal como a arte, discutem-se. Respeitem-se as opiniões, mas discutem-se. Já a qualidade é mais difícil de debater e aceitar... luta que exige conhecimento, cultura, «mundo».
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Um dia tinha marcado um jantar no Tavares, provavelmente o mais antigo restaurante português. O emblemático e aristocrático Tavares, na rua da Misericórdia (outrora rua do Mundo – por lá se situar a redacção desse jornal de referência da viragem dos séculos anteriores). Passeando pelo Bairro Alto, cruzei-me com o Fulano, proprietário do restaurante O-Í-Ó-Ai (invenção), que estava com o seu filho Cicrano.
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Em adolescente e mancebo costumava frequentar a casa. A mina de ouro em que se transformou o Bairro Alto fez-lhe subir os preços além das minhas posses... não é bem assim, mas não quero explicar. Perguntaram-me:
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– É hoje que finalmente vens cá jantar?
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Respondi-lhes que não, que ia ao Tavares. Fizeram um esgar...
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– Ao Tavares? Não vale nada ...
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– Já alguma vez lá comeram?
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Não. Mas sabiam que não era bom. Tinha a discutível Estrela Michelin, mas isso não importava (e talvez não importe mesmo). Isto traduz é o sentido português em que só o popular (popularucho) é que é bom. Mesmo que seja apenas, e tão só, barato.
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Calcular a relação entre a qualidade e o preço é legítima, não o nego, mas a mim interessa-me muito pouco. É claro que por vezes também faço esse raciocínio. Dou dois exemplos:
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Em 1999, fui com a minha namorada a um tasco no Bairro Alto. Grelhados bem-feitos e gente trabalhadora e simpática. Custou a refeição 4.700 escudos e fez-se de manteiga, pão, prato, vinho (popular), sobremesa e café. Na semana seguinte fui à Bica do Sapato e o pão, manteiga, prato, vinho (popular), sobremesa e café custaram-me 5.100 escudos. Já naquela altura a diferença de preço era mínima, mas não a confecção, o empratamento, o serviço, a decoração, a luz... Em 2006, almocei com a minha namorada (outra) na Portugália, no Cais do Sodré. Manteiga, patês industriais, pão industrial e mau, bife da vazia com batata frita, duas imperiais e café custaram-me pouco mais de 15 euros. No dia seguinte fui com Raul Durão (referência do jornalismo televisivo, já falecido) ao Magano, em Campo de Ourique. Vieram entradinhas boas, da «terrinha alentejana», bom pão alentejano, prato, vinho (acessível) e café... 16 euros.
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O que há de errado? A falta de cultura e de critério. Achamos caro um vinho de cinco euros, mas aceitamos ser «roubados» numa cervejaria industrial.
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Ao contrário das certezas dos analfabetos, os «sábios» têm mais dúvidas, por isso procuram mais. Nessas buscas encontram respostas, mas também mais dúvidas. É disso que se faz «o mundo». Não apenas na gastronomia, em tudo.
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É feio, mas vou auto-citar-me ou fazer pior: plagiar-me. Escrevi há poucos dias, num texto acerca de José Bento dos Santos, proprietário da Quinta do Monte d’Oiro, gastrónomo sábio.
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Abro aspas: «Aparte. Contaram-me uma vez que um famoso financeiro (não me recordo do nome) fazia as entrevistas finais aos candidatos a um emprego qualificado. Uma equipa já teria questionado, passado por testes de vária ordem e ficando «licenciados» teriam de ir à oral com o banqueiro.
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Certamente nervosos, do que iriam falar? Do óbvio, cifrões, parcelas, margens, taxas de juro, spreads... ou... música, desporto, gastronomia, ciência, banda desenhada ou outra arte... e era aqui que entrava a decisão. Gente que sabe fazer contas e tem olho para o negócio até abunda, mas quem tem «mundo» tem a vantagem de saber usar microscópios e telescópios, transmitindo esse conhecimento transformado em cultura. Quem tinha «mundo» era quem ficava com o lugar, ainda que tivesse conversado acerca dos lacraus do Saara e o banqueiro disse não soubesse. O financeiro lia os olhos, a expressão da boca, a dança do corpo, a vivacidade, as vistas largas».
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Agora os marketeers (estrategas de mercado) agarraram o vocábulo francês gourmet. Julgo que só não há pastilhas elásticas gourmet. Qualquer banalidade pode ascender à categoria de gourmet. Hão-de cansar a palavra – porque o povo pode ser ignorante, mas não é estúpido. Um dia dizer gourmet será o mesmo que dizer fécula de batata.
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Quando um português diz que «ali se come bem» quer dizer que «ali as doses são bem servidas», ou seja: têm muita comida. Por tudo o que já escrevi, já se percebeu que considero que o português não é gourmet (gastrónomo), mas gourmand (comilão).
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Vou parar com a comida. Tentando mostrar que tenho algum (quiçá mínimo) «mundo» vou escrever acerca de coisas que andam à volta da comida e não são de se comer, ou apenas isso.
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Comer tem algo de sagrado. Não é por acaso que em todas (palavra perigosa – arrisco-me) as culturas a mesa é o corolário. Podem variar no género, no momento... são sempre simbólicas. À mesa fechamos um negócio, à mesa seduzimos, à mesa somos aceites numa tribo...
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Compreendo perfeitamente os vegetarianos (de todo o género), aceito argumentos. Mas há um que lhes falha e é intrínseco à espécie humana: dentes caninos. Comemos animais, criaturas de Deus ou apenas viventes, devemos-lhe respeito e agradecimento por nos alimentarem. Não devemos matar animais para comer, mas sacrificá-los, num sentido religioso, de fé ou de sagrado. Devemos ter presente que nos vão dar vida.
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Comer é um acto da maior importância. E é pena que em Portugal não existam tantas recolhas etnográficas acerca do que comemos e como comemos, como as há sobre os trajes, a música ou o trabalho (etc).
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Homem que buscou nas raízes musicais populares portuguesas argumentos de trabalho falhou ao desprezar o alimento que lhes sustentou as vozes e mãos. Mesmo os génios têm lados negros. Fernando Lopes Graça (1906 – 1994), um dos maiores compositores eruditos portugueses do século XX, e com reconhecimento mundial (pelas elites cultas, provavelmente), desprezava a comida – ou, pelo menos, assim me parece.
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Afirmo-o por saber que quem o recebia em sua casa estava «proibido» (literalmente) de pôr música a acompanhar a refeição. Lopes Graça não considerava tão nobre o alimento do corpo quanto aquela comida para a alma.
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Um outro exemplo, assisti (horrorizado) a José Duarte (que só aceita como perito em jazz, em Portugal, cinco pessoas, embora só fale a três ou não fale a três – ouviu-o afirmar isto numa entrevista na rádio, numa arrogância incomodativa) a espancar o vinho, qual fanático maometano. Num interessante debate sobre música e vinho – uma iniciativa descontinuada pela Adega Mayor, que reunia à arte do vinho uma outra actividade cultural – José Duarte, de cátedra de Inquisidor do Santo Ofício, arrogante e insuportável, destratou o vinho, coisa de alcoólicos. Não disse, mas pensou, que nem admitia que pudesse ser arte. Música no alto e jazz no topo, tudo o resto é para mortais imbecis, deve pensar.
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Com uma falta de educação deplorável, admoestou um presente por ter tropeçado, na boca, no nome de Ella Fitzgerald. Como era possível?! O senhor, que é um senhor sorriu. Apenas tropeçara no nome, não no seu conhecimento.
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Ao contrário de Lopes Graça e José Duarte há quem tenha maior flexibilidade de espírito (é forçado, mas referir «cultura» seria totalmente estúpido da minha parte). Há dias, no 25 de Abril, o hotel Conrad Algarve, em Almancil, promoveu uma harmonização entre música clássica, vinho e comida, do chefe Andrew Macgie. Lopes Graça não gostaria e José Duarte não conta, não ficará na História, apenas nas sebentas da Universidade de Aveiro, entidade a quem cedeu a sua vastíssima colecção de jazz.
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Pois, o vinho é muita coisa. Além do industrial, do de autor e do popular, o vinho é alimento, é objecto religioso, é droga (social no Ocidente), é divertimento... e pode um excelente vinho ser mau por se deixar contaminar por ambiente hostil e vice-versa. Além do mais, como qualquer arte, tem momentos... a praia, o churrasco, a tasca, o salão nobre, é história, o Natal, o fim de ano, o casamento, o nascimento dum filho, o médico que nos salvou a vida, a apresentação ao sogro, tradição e história... além do mais, o vinho é vida. O vinho é arte viva. E as três categorias que elenquei no início podem ser todas estas coisas.
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O vinho é a liberdade que se quiser!
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Com mais visão que Lopes Graça ou José Duarte, os proprietários do Château Mouton Rothschild têm vindo a pedir (e pagar) a artistas que pintem propositadamente para os seus rótulos. E à lama não caíram as almas de Miró, Picasso, Kandinsky, Tàpies, Warhol, Francis Bacon, Chagall, Delvaux, Keith Haring, Arman, Henry Moore, Dali, Braque, etc... ecletismo e consonância com épocas. José Duarte é quem?
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Por cá, felizmente, também há visão do casamento entre o vinho e as artes plásticas. Não tem a aura nem a antiguidade da referida vinícola de Bordéus, mas mostra o que fazem os nossos artistas. Desde o lançamento do seu primeiro vinho, em 1985, são já 24 os artistas que iluminaram os rótulos do Esporão.
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Bual, Costa Pinheiro, Dórdio Gomes, Graça Morais, José Pedro Croft, Guilherme Parente, João Hogan, Julião Sarmento, Júlio Pomar, Pedro Cabrita Reis, Pedro Proença (o meu preferido), Pedro Calapez... E para a Quinta dos Murças, no Douro, o Esporão dá a conhecer fotógrafos. A propósito de Pedro Proença: ilustrou a colheita de 1999, comercializada em 2001. Um homem de turbante deliciava-se com uma taça de vinho – o 11 de Setembro obrigou ao arrebanhar das garrafas e voltar a rotulá-las. Hoje, essas «proibidas» serão objectos de colecção e provavelmente terão preço superior. José Duarte é quem?
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Ao Esporão só critico uma coisa: não promover mais mediaticamente os duetos. Não sou pago para ter ideias, não sou publicista, fui gestor de comunicação... nem me quero meter onde não devo, no caso a política da vinícola e da sua assessoria mediática... ainda assim, atrevo-me: Por que não uma festa (vernissage está démodé e só dá para poucos)... uma festa multi-artes. Pelo menos, exposição no sítio da internet, com memória escrita e visão do artista.
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Tenho de ser justo... se há quem na intelectualidade despreze o vinho há também quem no vinho não veja mais do que produto e comércio. A Comissão Vitivinícola Regional do Alentejo censurou uma obra de Paula Rego, provavelmente a mais conceituada artista plástica portuguesa, que iria iluminar o Esporão. A CVRA será sempre uma repartição, cinzenta e anónima, e a artista um capítulo ou um livro. A arte é eterna e divina, ou resto são folhas de Excel.
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Nem Mouton Rothschild nem o Esporão são casos únicos. Certamente que, num planeta habitado por mais de sete mil milhões de pessoas, haverá outras adegas, maiores ou menores, com um relacionamento com as artes. Não contabilizo o banal patrocínio.
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João Barbosa, um homónimo simpático e educadíssimo. Que saibamos não temos parentela... talvez os nossos sangues só se cruzem na origem, no primeiro que tomou o vocábulo toponímico. Sancho Nunes de Barbosa (1070 – 1130) que se casou com Teresa Afonso, filha ilegítima de Dom Afonso Henriques. Este produtor das regiões do Tejo e Alentejo escolheu para emblema uma Graal do reino vegetal... um dos dois (que eu saiba) na botânica: a Rosa Azul e a Tulipa Negra.
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Mas isto, assim a cru, é pouco do que tem para contar João Barbosa (adoro o pinot noir deste senhor)... acrescentou ao seu Graal uns degraus de dificuldade: sólidos impossíveis. As artes são de António Quintas, que se baseou na obra do arquitecto e artista visual Maurits Cornelis Escher. Confesso que quem me assaltou a memória foi o húngaro Victor Vasarely, autor do sólido impossível que serviu a Renault durante décadas.
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Outro senhor, muito dito por aqui.
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Conversar ou apenas ouvir falar José Bento dos Santos é um duche de conhecimento, mais do que conhecimento, sabedoria, de tudo o que vai à mesa e tanta coisa que anda à sua volta e mais uma tanta que anda à volta da que anda à volta. Benditos programas tinha na televisão – serviço público – embora criticando o formato, mas isso é técnica, ofício, não é conteúdo.
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O novo milénio, tenha ele começado em 2000 ou 2001, trouxe (o novo milénio começou antes, em contextos) coisas novas, como o fenómeno dos DJ. Antigamente gostava-se de músicos, agora apreciam-se também os homens dos pratos de discos, dos efeitos musicais. Novas danças.
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A essa vida junta-se a jovem arte urbana, outrora apenas clandestina, ganhou estatuto e hoje tem artistas reconhecidos. Nesses referidos encontros das artes com o vinho, a Adega Mayor convidou vários a interagirem com garrafas (tenho uma) e fez-se um debate.
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Quem se apresenta novo sucede. Sucede a maneirismos, uns vivos, outros moribundos e outros mortos. Os cerimoniais das mesas, as hierarquias do sentar, o lado em que se põe o guardanapo (sigo a tradição portuguesa de o colocar à direita), do servir, da sequência dos copos, da chegada do queijo, da vizinhança da salada. Dos talheres de ferro, de prata, de madeira, de «christofle» e das mãos.
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As mãos? Há melhor forma de abrir um pão? O pão é «o» alimento e é sagrado. Com as mãos, abrimo-lo como a carcaça dum animal, gesto ancestral, primordial. O pão que, para Pablo Neruda, é o mais nobre dos alimentos.
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A Portugal chegou tarde o fenómeno do chefe de cozinha, embora tenha existido sempre gente capaz de orar acerca de alimentos e como olhos abertos além fronteiras. Não quero ser injusto por presunção, mas Portugal era Maria de Lurdes Modesto (grande senhora e sábia da comida) e o chefe Silva (grande profissional «doutro tempo»)... mas também do Michel, do Capote, da Vacondeus... com os devidos respeitos, não têm o mesmo substrato que os primeiros.
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A minha memória de 44 anos situa no novo milénio (que começou antes) o culto dos chefes em Portugal. Gastrónomos acompanham as obras como os melómanos os seus compositores...
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Falei aqui no sábio José Bento dos Santos... foi um dos responsáveis para que (o estrelado Michelin) Joachim Koerper viesse para Lisboa, para o Eleven, no topo do Parque Eduardo VII; em Lisboa.
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Gostos discutem-se! Respeitam-se, mas discutem-se... não gosto da comida de Joachim Koerper, como não gosto de Verdi. Quanto a mim falta-lhe alma, ao músico sobra-lhe. «Venero» José Avillez (também estrelado Michelin) e Wim Mertens, pela força, temperamento, subtileza...
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E o mundo de Avillez não está só na cozinha... ele e o seu prato Pollock – nele brilha a carne da raia, apesar de pollock ser escamudo, peixe que, na década de 80, imitava o bacalhau, rarefeito pelo preço... sim, o Fundo Monetário Internacional não esteve só agora em Portugal, embora Mário Soares se tenha esquecido e apele a revoltas e «ao por muito menos do que isto mataram o Rei Dom Carlos»... Vem isto a propósito? Vem, vem a propósito, vem, porque se tratou de fome e este é um texto de gastronomia... nesses idos, havia um «bispo vermelho», Manuel da Silva Martins, em Setúbal, epicentro da crise, que criticava a situação do país, em particular do seu distrito...
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Quantas vezes a fome não criou iguarias... cultura de almanaque: a cozinha alentejana, as suas muitas ervas, o cação e as amêijoas que não pagavam impostos e a carne de porco. Isso, isso, isso... e a cavala, quem diria há uns anos, elevada à alta cozinha, por José Avillez. E com falta de «mundo», profissionais bem capacitados, mas sem estrela (de iluminação de espírito), rosnam por Avillez ser menino queque e não um proletário.
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Regressando ao vinho... a arquitectura teve sempre uma relação mais óbvia com o vinho. O vinho tem de ser feito em algum lugar, exige elementos funcionais e industriais, por mais pequena que seja a vinícola.
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Em Espanha, temos fábricas de Santiago Calatrava, Frank Gehry, Philippe Mazieres ou Herzog & de Meuron. Por cá, com renome internacional, temos (que me lembre) Álvaro Siza Vieira na Adega Mayor, na Quinta do Portal – confesso que não aprecio a arquitectura (genericamente) de Álvaro Siza, aborrece-me tanto branco, que chega a induzir melancolia. Tive acesso a desenhos (e é fácil encontrar numa pesquisa na internet) de Siza Vieira e que traço! Que força simples e quase frágil, em que muito pouco mostra muito.
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A 30 de Abril, no Porto, a Adega Mayor ofereceu a Álvaro Siza Vieira o seu vinho, um alicante bouschet rico e complexo (terá crónica em breve aqui no blogue), bem alentejano. Não é caso único, Pedro Abrunhosa também tem o seu, lavrado pelo duriense Dirk Niepoort.
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Enquanto cá coleccionamos saca-rolhas (com devido respeito pelo indispensável apetrecho e seus ajuntadores), em Espanha mostra-se um incrível museu, reconhecido como valoroso no seu ano de abertura, em 2004, pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura).
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O Museu Dinastia Vivanco, além dos saca-rolhas, tem para mostrar peças egípcias, gregas, romanas, moçárabes, medievais... contemporâneas. À entrada vi uma exposição sobre o vinho e a mulher, no espaço das mostras temporárias. Desde hilariantes saca-rolhas em «T», em que cada parte era uma perna e, sobre o sem-fim, uma vulva, a capas da Playboy ou uma pintura de Paula Rego. Lá dentro, prensas das várias regiões espanholas, objectos de trabalho e arte. Apaixonei-me por um Sorolla.
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Não sei como viveria em ditadura. Sou muito afirmativo, a roçar o autoritário... como o meu cão, que ladra e rosna, mas abana sempre o couto de cauda (fizeram-lhe essa maldade). Para mim, podem dizer que tudo o que escrevi acima é mentira ou mais-ou-menos mentira. Podem discordar de gostos, podem criticar-me o tom, certamente mais manso se dito cara-a-cara...
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Como qualquer pessoa (como de alguma forma fiz – justa ou injustamente – no começo deste texto) não gosto que me insultem ou, pior, que pensem por mim. Há uns tempos, há mais dum ano zanguei-me com a revista Wine – não com ninguém, que sou homem de paz.
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A Wine valia (vale) pelos colunistas. Comprava-a para ler mestres e com eles aprendi alguma coisa. Um dia saiu um texto que me fez sentir insultado. O influente José Peñin dissertou sobre o que é saber beber vinho... uma coisa de escol, que eles (e poucos) conseguiam, que era beber (bebericar, como passarinho – certamente) vinhos... diferentes aos bárbaros, imbecis, bruta-montes... ele e seu escol sentiam a sedução do álcool e não se deixavam cair em tentação.
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A embriaguez, para Peñin, é uma espécie de doença de pobre de espírito. Como se os vapores de Baco não tivessem inspirado tantos artistas... embora não fosse com vinho, que musa acompanhou Henri de Toulouse-Lautrec? O álcool, sob a forma de absinto.
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Se Peñin tivesse pensado um bocadinho talvez percebesse que foi o álcool que manteve o vinho vivo. O álcool e a higiene da bebida, quando a água podia envenenar. Sim, o álcool é um tóxico e está integrado na cultura de quase todos os povos dos velhos continentes. E só aí, sendo tão danoso para as vidas e saúde pública de comunidades onde era desconhecido até à chegada de europeus, nomeadamente entre os ameríndios. Tóxico como heroína ou crack! Literalmente. Aparte: O National Geographic Channell emitiu um documentário impressionante sobre o alcoolismo no Alasca. Sim, naquele Alasca o álcool é degradação total, incluindo criminalidade.
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Sentir o cantar das musas, quando se fica de pé a flutuar dez centímetros acima da realidade, é divinal. Ajuda a criar e a pensar. Talvez, por estar absolutamente sóbrio, este texto não me tenha saído tão bem.
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Em acto de contracção, digo: talvez tenha exagerado na tareia que dei aos portugueses numa boa parte do texto. Tenho direito de o pensar, mas talvez me tenha faltado o engenho da delicadeza. Snob ou sem nobreza.
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Nada disto tem a ver com sofisticação ou popularidade. Com aristocracia e povo. Bom é bom e mau é mau. Sim, a tascas onde se cultiva a comida melhor que num palácio. Haja sabedoria.
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Em, «O clube dos anjos», Luís Fernando Veríssimo (filho de Eurico Veríssimo) narra um policial à volta da mesa. Um grupo de amigos, entrados no mundo da gastronomia pela porta do picadinho à mineira, foi evoluindo na exigência. O círculo definhou com o falecimento do seu motor. Um dia, surge um cozinheiro genial e o clube regressa à vida. Contudo, um a um, os membros foram morrendo. Morrendo envenenados pela gula. Morriam ao saborear a comida predilecta. Perceberam quem era o homicida e ainda assim deixavam-se morrer. Neste policial, o picante está no «porquê», que só se sabe no fim. Pois a minha iguaria favorita são pezinhos de coentrada e os melhores que traguei foram do simpático mestre José Avillez. Morreria, de homicídio-suicídio, se fosse ele o carrasco do livro e eu membro do clube.
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Tudo se discute, sobretudo o gosto.
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Música (por ordem de entrada):
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Fernando Lopes Graça – Acordai – pela Tuna Académica da Universidade de Coimbra
DJ Patife – ao vivo no Sumol Summer Fest
Wim Mertens – Struggle for pleasure
Pedro Abrunhosa – Se fosse um dia o teu olhar
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Artes visuais (por ordem de entrada):
Vicky Neumann – Picnic Fastfood
Richard Lippold
António Quintas
Maurits Cornelis Escher
Victor Vasarely
Jackson Pollock
Álvaro Siza Vieira