sábado, fevereiro 22, 2014

sexta-feira, fevereiro 21, 2014

Do escuro à claridade

O que é o escuro? Como vejo se sinto. Toco os seios e desço a mão, enquanto a outra sofre, por engano, sob o meu corpo, por deitado precipitado, quase adolescente.
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O escuro é descer a mão livre, acariciar em torno do umbigo, subir, descer, criar expectativa acerca da certeza. Descer, mas antes enganar.
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No escuro o beijo que vem antes de muitos. A boca adivinha caminhos e pára sempre nos sítios do leite e prolonga-se lenta e quente no ventre.
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Meia-luz, escuro, amanhecer, até as palavras aguentarem tanto quanto os corpos. Uma mão, travando a minha, rendeu-se e toco... seja gruta de musgo ou rocha aberta aos regatos.
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A boca volta à boca. A outra mão aceita o castigo de permanecer quieta. Terá um prémio, com certeza. Tocará as costas, afagará onde houver prazer a querer nascer.
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A boca beija e a mão faz-se onda. As tuas... boca e mãos... finalmente aceitam o que já tinham aceitado.
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A boca onde sou homem e os dedos ajudando a erguer o prazer.
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Engolido. Todo homem. Onde a mulher quiser, por quanto tempo quiser. Enquanto lhe der palavras de suor e calor.
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No escuro, o homem sabe onde fica a mulher. A mulher sabe sempre onde está. Fingindo-se presa caça.
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O tempo é o tempo e o escuro é o que deixa a persiana.
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Seja a noite toda ou mera visita... será sagrada.
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Sagrada como o pão. Sagrada como o vinho. Sagrada como o azeite.
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A Luz. A que vem e a que fica. A que se deixa entrar, e voltar.
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O homem quer ser um rio, bebe-o o quanto puder. A mulher é um império.
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O sono, fingimento da morte, acolhe-o. Nela, o pensamento é o triunfo da beleza, a luz manda no mundo.

segunda-feira, fevereiro 17, 2014

A fruta proibida

Se a maçã fosse o fruto da árvore-da-ciência-do-bem-e-do-mal os dias seriam todos aborrecidos.
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É certo que foi uma maçã que fez Newton elaborar acerca da lei da gravidade... mas isso foi um acidente que Deus tocou.
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Se fosse o figo... é uma fruta que se come tão sofregamente que nunca daria luz.
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É certo que há guerras, mas o mundo também tem paz.
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Para mim foi a uva. Não percebemos quase nada de Deus e por isso erramos...
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A videira não é uma árvore, mas dá fruta de cores e arco-iris de aromas.
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Qualquer serpente se dissimula melhor numa trepadeira do que num tronco largo.
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Deus fez-nos inteligentes e deu-nos o direito do vinho.
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Da alegria ao desacato.
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A uva tem a alma do homem.
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Nota: Lúcifer caiu porque estava bêbado...

Jardim de amores calados

Um jardim de sombras com ventos, baixos para não interromperem a respiração. Água tépida cainte, fruta de cheiro e enclaves de terra no corpo.
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Desnuda? Embrulhada no lençol da noite de insónia de amor, com a respiração suspirada pela gratidão e o arrependimento. Por sorte não há cigarros. Por azar fazem falta ao pensamento.
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A árvore é uma oliveira e a sombra prolonga-se e vive um tempo que não se mede, por imprecisão, por não precisão. Mexe-se, quando? Não se sente, o tempo revela-a e não importa.
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O lençol não aquece e a caneca de café aguado solta vapores exaustos. Os corpos refugiados nos pudores, envergonhados pelo prazer, ainda quentes tremem de frio e querenças.
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Insónia de amor, sem juras. O plano é ter tempo. A estratégia de avançar. Táctica de beijo sem recuo. Invasão antes do convite, e rodopiar de yin e yang... tudo no mesmo patamar de julgamento.
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O universo chega para todos e é numa planície agitada que se morre em glória e esforço. Nunca se terá o fim e há caminhos para se ir perdendo indo. Ela incendiada e encharcada, ele sangrado e sufocando-se de alegria. Ainda assim abraçam-se. Ainda assim repelem-se.
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Rastejante, no frio húmido da terra... não se percebe onde acaba a natureza e começa o homem. O que é pensado e agido ou o que é agido por vontade de escrito iniciático.
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Porque  a natureza é natureza e a natureza do homem é a natureza do homem. A natureza do homem é desrespeitar a natureza e assim a realiza respeitosamente. Amén. Nunca basta. E sempre. Aleluia.
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Não há quem ensine a loucura a ser branda. Não há moral que derrube o desejo, nem desejo que não se castre. Pior do que o remorso é o remorso de não ter feito. Pior, só se sabido.
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Manhã fresca que pede maçãs, lençóis espojados que desejam cama, corpos ardentes, ardidos, perdidos por chamas. As palavras não servem nem promessa válida.
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O que acontece na casa do jardim das sombras não é soprado pelos ventos e desfaz-se, sem ilusão, com o pragmatismo belo do que é simples e verdadeiro.
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O que foi dele marca o branco e o suor dela perfuma a manhã, tenha maçãs ou cigarros, pólen, plasma, orvalho, formigas ou calor.
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Encostada à oliveira, desvestida num lençol, aos pés, exausto, possuído pelo prazer, um fauno-poeta olha-a como se ele fosse o Demónio.
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Arrependimento? Não haverá tempo para isso. O silêncio fecha as bocas e o vento baixinho, junto ao chão, encalha nas raízes e arbustos.
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Pã encobre Príapo. Ela, de raminho de oliveira, distrai-se com o verde-pardo das folhas compridas. Evitando dizer, deseja calando, e vendo fora do mundo permite a chegada dos lábios, que lhe contarão o que já sabe, o que os corpos querem.
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Moral e nudez? É quase dia, ainda sem Sol erguido... fresquinho até fora das sombras ténues do jardim de semi-silêncios. Olhos que vêem... corações que sentem... pressentem?
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Mais perigoso é o sono, que pode proibir o que a alma, o coração e a cabeça querem. Daí a nada é outro dia e o Deus tem-nos noutros lugares.
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O mundo só parou por instantes, em alguns sítios. Pára tão certo à noite como no pino da luz.
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Que se recomece o cansaço, para que a força renasça do lume da exaustão e as vozes cantem.
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Não há calma que segure, quando os olhos encalham na pele que se revela por distracção ou veneno.
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Não há tempo quando os seios deslizam para o espaço. A distância encurta-se entre bocas. E a pele alimenta-se de pele.
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O que importa não é estar dentro, é entrar sem pedir, quando o pedido é pedido sem dizer.
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Mais bonito do que entrar é o gesto. Maior tremor, o primeiro toque, no lugar do corpo onde a alma se refugia.
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Qualquer dia, numa semana qualquer.
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E dito e feito, soprado por caninhas, ninguém ouvirá se delas fizerem flautas.
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A Terra é redonda, mesmo quando é lisa como uma cama.

domingo, fevereiro 16, 2014

Comida de Santo - o que é que a Baía tem em Lisboa

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Se não foi o primeiro, terá sido o segundo restaurante brasileiro em Lisboa. A minha estreia foi noutro. Mas neste, o do Príncipe Real, que me recebeu barrigadamente. Do outro tenho memórias de sangue; deste, memória de leveza na vida.
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O Comida de Santo abriu as portas em 1981... tinha 11 anos e Lisboa estava a modernizar-se. Os bigodes rapavam-se, as calças à boca-de-sino tornaram-se roupa para fazer esfregões... os brados da revolução democrática já não pesavam tanto na vida e na música.
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Mil novecentos e oitenta e um mexemo-nos com os Heróis do Mar, a primeira banda com estética na roupa, fardas de músico, evocação nacionalista, que irritou a malta mais à esquerda, que lhes chamava fascista.
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Mil novecentos e oitenta e um, um agitador, de visual fora-de-tudo, arrasou a televisão, num programa para toda a família, em que Júlio Isidro juntava o que hoje é inconciliável. De macacão amarelo, com bolas ou nódoas de tinta, barba farta, cabelo oxigenado, uma força tremenda...
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Mil novecentos e oitenta e um quase ninguém tinha televisão a cores... António Variações... desde 1978 que andava a cantar e ninguém lhe ligava. Nem os Heróis do Mar, quando estes fizeram um casting para vocalista.
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Mil novecentos e oitenta e um era tudo novo, não era só eu. Saía-se do país com mais facilidade, descobria-se a Europa, vinha roupa de marca e de formatos diferentes. A Guerra Fria estava no auge e havia algum medo. Ah! e a paranóia da sida, que matava pelo sexo... logo quando a revolução sexual da pílula tinha posto o mundo a amar-se, libertar-se e abusar-se.
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Mil novecentos e oitenta e um e não existia o bar Frágil no Bairro Alto. Aqueles quarteirões tinham tabernas, tascos, putas e dancings, tinham jornais e jornalistas... Um ano depois surgiu um dos mais icónicos bares (dançantes) da capital.
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Quem ia à frente, ia ao Frágil. Era gay friendly, numa época em que muito pouco já dava direito a ser chamado de maricas e paneleiro. Ali havia outra música e pensamentos novos. Havia ânsia de viver, de sair e respirar.
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Mil novecentos e oitenta e um e a móvida (movida, em espanhol) de Madrid estava no auge, farol de toda a Europa, excepto Londres. Com Espanha já ao lado... artistas, jornalistas, comerciantes de arte... romperam Lisboa.
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Todos os anos, Manuel Reis, Rei do Frágil e desde 1998 Rei do Lux, mudava o cenário das duas salas onde se dançava e conversava. Gente gira, gente diferente, onde se podia ser tudo. E eu na escola a ouvir Heróis do Mar.
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Em Madrid, a lua da móvida estava cheia e em Lisboa em quarto crescente. Misturava-se gente, conceitos, as novas tendências juntavam-se mais do que se afastavam... e eu entrei no Lux com o meu pai, não sei bem porquê, em 1982... talvez.
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Nessa onda de novidade, quando a casa se arrumava e redecorava, quando havia tanto cotão para limpar que surgiu, também na comida, uma estrelinha: o Comida de Santo. No Príncipe Real, na Calçada Engenheiro Miguel Pais, concretamente no número 39.
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Eu, com 11 anos, comia na cantina da escola. Quando me deram liberdade para sair sozinho à noite, em 1986, tinha 16 anos, pouco dinheiro guardava para jantares. Não sei quando entrei pela primeira vez na Comida de Santo, mas deve ter sido por volta de 1990, quando já trabalhava, no novíssimo Diário Económico, e não tinha de cravar os pais... ganhava 450 euros (em formato actual, tradução literal). Na altura dava para pouco e agora tem de sobrar.
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Que exotismo aquela comida... às vezes próxima e outras distante. Comida da Baía, trazida, e sem tradução, por António Pinto Coelho. Com o oceano pelo meio, a mesa põe-se sempre à moda da terra das negras gordas, que rodam as ancas, com enfeites nos cabelos e alegres e cheios peitos guardados em vestidos coloridos.
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Para mim... era tudo novo... ter dinheiro mesmo meu, comer fora sem paizinhos, namoradas, o glamour da noite (vestíamo-nos para sair, perfumávamo-nos, sorriamos muito bem encantados, pela e para a sedução), o cosmopolitismo pequenino alegrava tanto... e eu não sabia nada da Baía, nem via telenovelas.
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Sei, que é autêntico o sítio. Só a honestidade da mesa faz com que uma casa se aguente. Imagino que pela cozinha da Comida de Santo tenham passado muitos artesãos, enquadrados por Pinto Coelho.
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Dois mil e catorze cabe tanta coisa em Lisboa e, ou estou velho, que a novidade fica de fora. O que é bom, o colo da mãe, o colo da mesa que se aprendeu a gostar, nunca parte – haja saúde e alegria.
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Houve uma época em que ia com frequência ao Comida de Santo... não deixei lá dinheiro para Pinto Coelho comprar um Porsche, mas as caipirinhas (ui, que boas) impediram-me de pegar num volante.
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Marisco, peixe, carne, fruta... tudo à moda da Baía. Até vinho brasileiro (da portuguesa Dão Sul)... fui sempre feliz ali. E agora que conheci Pinto Coelho leio uma paixão, sábia de deixar falar e ouvir.
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Quando há quem diga que tem «o melhor bolo de chocolate do mundo»... ah! O pagode!... Pinto Coelho diz, rindo-se, mas com trunfos na manga, de brasileiros profissionais da crítica, ter o melhor quindim do mundo. Afirma-o aos amigos e aos comensais... e talvez seja verdade.
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Em 2007 escrevi isto sobre o Comida de Santo... ora leiam.
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Local: Calçada Engenheiro Miguel Pais, 39 (Príncipe Real – Lisboa)
Telefone: 21 396 33 39
Aberto: De quarta-feira a segunda-feira
Horário: 12h30 às 15h30 e das 19h30 à 1h00.

domingo, fevereiro 09, 2014

Queda

Tenho tanto azar que se me defenestrasse haveria de passar um tapete voador no momento em que o tempo passa parado.

Um tempo que não deixa

Fazer da vida o quê? Não me custa envelhecer, custa-me perder a paciência, que, aliás, nunca tive. Faltou drogar-me, e drogar-me até o vício ser um túnel sugador e psicadélico. Faltam-me danças por seduzir e muitas vodkas para enganar a luz do dia.
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Nunca tendo tido paciência nem medo da morte, pergunto-me se ao falhar a morte não falhei a vida. Devo ter tido medo de arreliar a mãe e alguns amigos.
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Faltam-me beijos. Sobram-me asneiras no jogo com as mulheres. Contudo, triste não me sentiria agora... devia ter feito pior. Cair fundo até ao suicídio involuntário. Até à guerra. A cocaína ou merda mais abjecta que satisfaz a vontade do Diabo, pessoa que não existe.
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Fazer ou não sentido? Hoje como à noite, como todos os dias. De excitante tenho as unhas das mãos para cortar. As dos pés precisam de tempo que me tira o tesão para o fazer.
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Vale a pena? Valerá como toda a alienação inútil, só que em mais chato.
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Nunca tive coragem para chegar perto do bordo. Sonhei com a espiral multicor, sentindo mais nojo da droga do que medo. Mais medo do sermão da mãe do que das suas lágrimas.
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Morra agora ou daqui por cem anos, não deixo nada. Nem genes, não valem nada.
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A amizade é tudo, menos a morte. Porém morre e às vezes consome-se depressa. Morre-se por amizade.
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Devia ter tido todas as mulheres que quis, além daquelas de que me arrependo ter acordado ao lado ou fugido numa distracção. Devia tê-las tido todas. Até daquelas cuja tentativa me teriam valido um estalo.
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Seria uma vitória de espuma, que não daria valor à vida. Tenho pena de ter perdido tantas, mas as que deixei, ou deixaram-me, deram-me tempo para outras que consumi e algumas dores para me queixar, alimento calórico para quem quer engordar as hortas das campas.
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Sim, estúpido. Vazio e oco. Inútil e indeciso, nem consigo que esta seja uma carta de despedida.
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A minha tristeza tem felicidade a mais para que salte. A minha vida tem tempo a mais para que queira ficar.
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Digo: a luz da luz, a flor de luz da flor de luz, brilha com sorriso de anjo. Só isso prova que transmitir os genes vale tanto quanto uma fatia de torrada barrada com manteiga virada caída no chão.
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A vida é tão bela como o tédio angustiante do cheiro do galão claro, num cubículo feio, de azulejos, alumínio e mediocridade.
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Sem isso... talvez conseguisse escrever essa carta que faria com que a minha vida tivesse um sentido.
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Consumo ar e corto as unhas das mãos uma vez por semana, julgo eu.
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O resto é respirar. Andar por aí não conta. Nunca estou sozinho. Só a respiração faço sem aquelas sombras.
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Contenta-me respirar o vento, ter as orelhas e o nariz frio. E isso serve para quê?
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Dentro o tédio e a aridez duma floresta de dores, muitas por conhecer.
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Viver dói. Não pelos desgostos, mas por viver.
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Sem mais nada para fazer, faço qualquer coisa. Respiro e corto as unhas. Durmo o que posso e me deixam, porque sonho que cá não ando.
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A alegria, sobretudo a alegria contagiante, deprime-me. Não de inveja, porque não quero isso para mim. Entristece-me saber que alguém possa estar contente num mundo em que existe tudo e do qual não quero saber.
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Até digo que acredito em Deus para ocupar tempo. Calo-me a respeito para não ter de mostrar que acredito. Sobretudo que a minha fé é de lógica, não de amor de coração nem de desinteresse de alma.
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Vale a pena? Tudo isto? Nem um texto de comiseração, de justificação dum não acontecimento.
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Respiro e isso mantém-me vivo. Respiro contra o vento e gosto.
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Preferia ser mais leve e só sentir o vento. Não preciso de nada do que tenho para ser feliz. Nem infeliz. As unhas são apenas dez.
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As linhas da mão desaguam no mesmo mar vazio. Sem iodo, nem cheiro a peixe nem nada de que me queixar.
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Quem me dera ter a sorte de ter razão para ir, determinação sem remorso e uma saudade para morrer novamente.

sábado, fevereiro 08, 2014

O sacrifício dos «Outros»





















A primeira vez que enfrentei a palavra utilizada por quem se farta fiquei com um vazio de inteligência para perceber o que pensaria a família, matemática doutras contas. Não senti dor, nem uma comichão sem nome que afecta quando o falecido é jovem e aparenta saúde. Não falo no assunto, a menos que o tragam. É lâmina comprida.

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Um dia vi uma tia deitada. Ouvira-a entrar pouco antes. Ela preparou o almoço e deitou-se. O meu pai chegou uns minutos mais tarde, perguntou por ela e tocou-lhe à porta; e ninguém respondeu. Enquanto pôs ao lume um cozido à portuguesa, sussurra-me a memória, deitou-se beijando comprimidos.
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Descobri-a deitada e serena, tranquila por nada esperar, porque se cansou de esperar. Depois, no tempo, espaçadamente, alternava entre a bênção à salvação e a praga pelo contra-golpe.
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Uma prima tentou e encolhi os ombros. Gostava e gosto muito dela. Uma outra consegui-o e nutro por ela equivalente afecto.
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Um dia foi o «Outro» e uns anos mais tarde um «Outro». Em 2013 juntou-se-lhes «Outro». Sento-me a pensar e pergunto-me se não faz todo o sentido.
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Não posso afirmar que a morte não dói nem que as saudades não ferem... nunca tive medo da morte. Respeito-a. Gosto tanto dela quanto da vida, sem desrespeito por nenhuma. Tenho os instintos de sobrevivência alertados e prontos, protejo-me, evito riscos, mas viver não me assusta. Atormenta-me. Quantas vezes?
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Talvez nem goste da morte. Abomino tanto a vida que não quero morrer, quero deixar de existir... mas sobre as dores: sim, comovo-me, com os que ficam e choram. Converso com quem parte e assisto, bastas vezes, ao momento em que despem os últimos liames de união entre os planos. Sim, chorei em funerais, talvez mais por histeria juvenil ou para disfarçar a pouca apoquentação... não sei.
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Hoje que creio, rezo. E rezo todos os dias. Mais do que uma vez ao dia. Orgulhoso ou distraído, julgando-me diferente, esqueço-me de orar por mim. Alguém o fará. Mas os «Outros» têm sempre o meu sopro de palavra, para que. Seja.
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Isto de ir pode ser curiosidade, o que é parvo ou infantil. Mas é, quase sempre, a dor de alma, que às vezes são dores no corpo, alterações fisiológicas... chatices que acabam por pesar à volta, como esfera de aço em lençol de seda quase solto.
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Pensei muitas vezes. Suficientes para não ter medo e ganhar respeito. Ah! Mas há uma grande diferença: o querer ir e o mandarem-nos ir. Uma vez entornei um copo de cerveja sobre um amigo, porque me dirigiu essa zanga; sabendo ele que sofria.
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Quando namorada quis deixar de ser, foi-se sem zanga, sem loiça partida nem casa desarrumada. Uma casa como uma campânula de museu: baça, triste, esquecida, sombria e esquecida. Esquecida assim, só numa sala por arrumar. Um jazigo.
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Os dias puxaram a vontade e cada dia enleou mais determinação ao novelo do queixume. Quanto mais pensava escuro, mais claro via. Porém, o «Outro» fê-lo primeiro. Doeu-me muito, incomodou-me e incomoda-me.
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Não quero enumerar personagens, avaliar afectos e importâncias. A morte deste «Outro» é uma das três que mais me custou. No entanto... a outra, que me esqueço tantas vezes nem se pôde defender. No entanto... dizia...
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Não porque fosse meu amigo, mas por ser o maior amigo dum grande amigo. O vazio que deixou levou-me a oportunidade. Uma dor clara, de claridade. O «Outro» fez o que ninguém podia fazer por ele quando o que precisava lhe era vedado – tenha sido o que se quiser.
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Entre saltinhos de anos-minutos... perdi um amigo, que queria, quero e quererei como um bom irmão mais velho. Para quem não tem coração que se emocione com as perdas de morte, o seixo é a definição mais exacta para relicário. Dizem-me as relíquias aí guardadas que a maior razão para alguém se matar é a perda dum amigo.
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Esse suicidou-me a amizade, brusco, inexplicável, súbito... mulheres (homens) há muitas e o dinheiro deve-se. As perdas que dão solidão são de trato áspero. Por vezes, passa-se a linha entre o que sei e não gosto e o que não sei se gosto, mas prefiro sentir.
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Tantas coisas cabem na palavra amigo. Uma palavra tão boa que até nos esquecemos que nela cabem também os nossos disparates. Nem a traição a mata; essa dá raiva, gana de matar, mas remorso de perda. Amigo é um amor escolhido antes de nascer.
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Não muitos dias de luto sem cadáver, cismava em encontrar a porta para. Aninhado na cama, fantasiava com as formas, escolhera e projectava de esperança e leveza a que chegaria. Falsamente alegre, recebi a chamada triste. Mais «Outro». Jogou-se, deixando Natal e Ano Novo vazios depois de cheios.
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Em vez de ir, fiquei. No que pude amparei o amigo que mais o chorou.
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Quando o amigo me deixou de mal feita no cais a ver o comboio partir, como uma noiva patética dum romance de meados do século (dum qualquer) nunca parei de engendrar, nem mesmo o amigo que tanto padecia pela partida do «Outro».
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Faltando apenas a data certa, descobria-a numa manhã de tédio e silêncio. Tomei e arrependi-me, voltei a tomar e arrepender-me, e outra vez, e outra... mais de dez. Na inconstância foi para as urgências. Sozinho e porque fiz tudo sem ajuda de ninguém. Nas dificuldades da entubagem pedia a médicos e enfermeiros que não se maçassem e me deixassem ir. Se o tubo não entrava e me fazia engasgar, não valia a pena insistir... até porque até no hospital continuava indeciso.
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Não sei se foram oito ou doze horas que estive entubado, deitado numa maca, partilhando o ar com gemidos de doentes a sério. Todos tão indiferentes quanto o tempo. Não dei por nada, entrei de manhã e saí. Pedi ao senhor doutor que me deixasse ir ao bar comer uma sandes e fez-me prometer que voltaria.
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Voltei e fui-me embora. Pedi a ajuda daquela a que, por isso, desse dia, será sempre a amiga maior do que o Terreiro do Paço. Voltei a casa, tive mimo e dormi.
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Acordei com as mesmas dores. Em desespero, parti vidros com murros, esmurrei paredes e pregos, cabeceei azulejos, arranhei-me esperando tirar carne, bati muito e com força com os punhos na cabeça, encarnicei-me nos três lados de mim. Comi menos, enjoei.
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Fizeram-me uma festa de anos e fingimos todos ter um ar feliz.
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Desde então, a morte convida-me mais vezes, mais cordata, discreta, rara e suave
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 A nostalgia do macambúzio encontra consolo no escuro-todo do manto da velha-esqueletada que anda de gadanha a ceifar almas. Taciturno, obrigado a rir. Forçado a explicar tudo, enquanto dizem que não é assim, que não pode ser, que é psicológico, que preciso de sexo, que o Sol faz bem (matam-se mais no Verão), que preciso de amigos, de sair, de espairecer. Comprimidos não são precisos, pois há uns chás fantásticos no Celeiro ou na casa da tribo urbana que construiu uma sociedade alternativa baseada em nada e assente em tudo o que dizem pretender combater. Há remédio para tudo! E depois há os outros, os que simpáticos e ingénuos que dizem:
– Não há nenhum comprimido para isso?
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Há! E se tomados em versão festa de do Viagra ou da espuma, preferencialmente com um álcool forte... ui, a diversão é tão fixe, que o remédio fez aquilo para o qual estava destinado a não servir.
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Há isso. Há o 605 Forte. Há os detergentes para a casa de banho, a electrocutado, há a injecção de ar numa veia, o clássico número dos pulsos serrados ou do tiro na cabeça. Tubinhos com cianeto são difíceis de encontrar.
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Qualquer coisa serve. O lençol onde se faz amor, onde o casal engendrou serve para acabar com o abafo quente e escuro da colónia de bicheza feia que come o ânimo. E sempre assim foi. Enquanto escrevo este textos sobre mim e os «Outros».
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Dos meus «Outros» falta-ma falar daquele que ria e tinha piada, sempre uma graçola, um apontamento, boa disposição com o Alka Seltzer e a quem prometia, olhando-o enquanto ele me sorria, que haveríamos de ir almoçar. Um dia, num sonho repreendi-o, por se ter ido embora sem se despedir de mim. Riu-se e disse:
– Estavas à espera de quê?
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Certamente lançou os seus avisos, deu os seus sinais. Há quem se esconda e os que se agitam náufragos, esperando ser içados para o mundo onde a alma não dói.
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Este «Outro» teve razão: Eu estava à espera de quê? Gostei de o ver ir. Estava feliz. Deixou saudades? Certamente. Agora vai seguir para onde tiver de ser. Tal como cá... reconheço que é uma hipótese.
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Na verdade, não sei. O suicídio é um sacrifício. Uma oferenda para formulação dum pedido
 – Leva-me esta dor ou leva-me.
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Na soberba dos mortais ameaçamos:
– Se não me tirares o peso nem me levares, vou sozinho.
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O suicídio é última esperança. De todas as coisas que lhe podem pôr em cima como significado, só há uma que é certa: a derradeira esperança.
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Ando mais calmo, vendo comprimidos onde estão apenas comprimidos. Vejo-os pouco e até os tenho amado como remédios.
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É a cair. Depressa é o mínimo e pesado é pouco. Irrespirável e angustiante. A Ida... o que se escreveu e diz sobre a ida... Não é coragem nem falta dela, espera-se por um momento de surdez, num ruído zangado, e de cegueira, para não os ouvir dizer: mãe, filho, animal, amigo. É um instante e decide-se a vida
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Um dia, já adulto, comprei uma pista de comboios. Acrescentei-a e ficou tão grande e complexa que ninguém a consegue montar ou tem espaço para a pôr a trabalhar. Comprei catálogos das marcas que fazem as miniaturas... não são baratos. Os comboios que gosto mais são os mais feios.
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Trabalhava junto à estação de Santos e tantas vezes me sentei a pensar no mergulho. Nem todos param ali, pelo que o embate é fulminante. Pensei tantas vezes. Espero a passagem do comboio com o mesmo desejo de quando me atirei para a piscina da prancha, com não sei quantos metros, para impressionar as miúdas.
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Não se pense nem em coragem nem em falta dela. Há determinação sem oportunidade e hesitação por distracção ou palavra. No fundo é como na selva: entre arbustos, lianas árvores de grande porte, calor e humidade, bicheza vária... ninguém pede licença para passar ou autorização para sair da mesa.
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Creio por razões lógicas – oro com fé de pensamento e pouco de coração, ofereço da alma, que é onde tenho mais de dar, mas é de pouco valor... Sei que os «Outros», estes e outros têm abrigo e bom conselho. Deus só pode amar, porque é essa a perfeição: ama os «Outros», aos que querem sair e aos que não são, foram nem serão «Outros».
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Eu, que creio por razões lógicas, garanto a existência de anjos. Homens sem asas nem resplendores, amigos das horas e companheiro, irmão e professores de todos. Dum qualquer modo, agarram, antes que se torne n’«Outro».
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Uma dor sem remédio e medicamento para outra dor. Fui despido, só de pijama para o Rossio, figuradamente, atarantar-me, com os pés a puxarem-me para Santos e seu apeadeiro. Faltavam cinco segundos para a bilheteira fechar. Cinco segundos para saltar ou perder a viagem. Atrasei o passo e fui às urgências.
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Vim de lá como entrei: indiferente à vida. Mas prometi, que cuidaria de mim e não abrace o mudo dos «Outros». Tomo os remédios e a retroescavadora está sossegada.
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Não há pessoas perfeitas. Nem nós nem os «Outros»... nem quem gosta de nós. Pudesse agora e abraçaria alguma gente.

terça-feira, fevereiro 04, 2014

Telefone-revólver

Um dia, pode ser um qualquer, mas dá-me jeito que seja ontem. Das alegrias e couberam os anteontens. Hoje, pela manhã, ou talvez ainda ontem, houve alegrias, pelo menos esperanças.
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Acreditei e foram morrendo luzes. Nos pensamentos infantis não se morre, ou longe e velhinho, num sítio. Com mais de idade duvidei que existisse além de mim. Não por ego, mas de infantil dúvida:  o que sentimos e compreendemos existe ou é apenas algo que brota de dentro e faz as partes?
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Com a inerente soberba, ganância de vida e arrogância fiz-me homem. Acreditando em tudo, jurei que quase nada, com inteligência com visão de lince. Vi morrer insignificâncias, cego quanto a mim.
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E morrendo não entendi que esvaziava-me. Percebendo-me poucochinho. Perdendo e orando a Deus, que é de lógica como de bondade, dizendo vazios.
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Ainda sem perceber, ofuscado pela luz da infância, acreditei nos amores. Cada um, suas chagas, uma morte e a descoberta de insignificâncias.
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Infantil, bati-me como se fosse a última luta... ter uma importância. Podia ser pequenina. Podia até ser a insignificância mais insignificante. Mas sou mais insignificante do que alguém.
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Ah, sim! Os outros existem. Não me apetece que não existam. Sem eles, como posso justificar a dor negra.
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Não me matam e ressuscito. Implacável como a impotência. Triste numa solidão de chuva. Patético um palhaço viúvo, tigre emocional, incapaz de esquecer.
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Peço a Deus que me desexista. Não quero viver depois de morto. Nem vivo-morto. Nem ser objecto de tempo.
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Devia haver uma cicuta que destruísse ou uma estricnina que anulasse, do antes e do depois da carne, do antes e do depois do espírito.
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Os números dizem tudo na sua frieza. Que pena não terem alma para se arrependerem. Disto tudo quanto sobra?
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Não percebo de contas e asneio nos afectos. Gostava que Deus me desfizesse. E tanto me faz que fique memória ou sombra.
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Vida de sonhos tristes. Dias que passam por passar. Dias que se contam até à libertação, duma pena sem cúmulo conhecido.
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Amigos que foram, que se foram. Amigos que nos esquecemos. Amigos de lábios. Relógios parados e estilhaços-facas de espelho, cinzentos e baços, onde o pó não deixa alcançar o tecto de memórias.
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Amigos que se mataram. Amigos que mataram-me com tempo e quase duma vez só. Amigos dos sonoros silêncios, surdos de dor.
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Tivesse agora a coragem que já tive...e não tivesse um que me agarrasse na queda, nem outro que me fez o mesmo. Tivesse agora a coragem que já tive... não fossem as gatas... não fosse o coiso.
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Tivesse agora a arrogância juvenil e o cinismo dos inexperientes. Se pensasse menos.
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Mais um na estatística. Não se escapa da estatística. Quando não se está do lado de lá, é porque se está noutro lugar de números.
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Se... se... se... se... se... se... se...coragem para um salto, esforço para um empurrão uma goela para passar uísqui. Se...
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Apontar o revólver à têmpora e não marcar qualquer número. Não ligar, ser o super-herói inaudível aos inaudíveis e invisíveis.
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Só com sonhos de miséria e os mesmos dias de merda com sorrisos.
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Tenho a certeza. Habito um corpo vivo que está morto, e os olhos contemplam as mortes inalcansáveis.
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Um suicídio possível, como um parto sem dor. Ainda a dor dos aflitos.