quarta-feira, julho 31, 2013

Negrum

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Em cada pulso um túnel entre a alma e a vida. Por cada pulso, vida a caminho da foz. Que o coração pare depressa e não doa respirar.
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O momento de virar o corpo para deixar que o vazio se esvaia, do cheio que foi. 
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O vento que volta e traz as folhas que varrera. Num Outono já ido.
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Cada amor, um caixão. Cada beijo um prego. Enterro-me de novo, esperando não renascer.
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A vida diante dos olhos. A morte diante da vida.

domingo, julho 28, 2013

Möebius - 1938-2012

Aconteceu o destino, nada que não se esperasse. Um dia teria de ser e descobri-o agora. Um admirado perdeu o corpo. Está num outro elemento e a essência ficou, neste espaço quadrado. A luz de Incal ilumina a memória.
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Requiescat in pace Möebius, Jean Giraud. Nesta vida (8 de Maio de 1938 a 10 de Março de 2012)... na próxima, uma quinta essência.

Éter


Éter. O meu nome, Éter. Primo de Hélio e de Escândio. Mas não sei se somos filhos legítimos.
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Pode um filho biológico não ser legítimo? E ao contrário.
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Não é a essência. Nem a vida, nem a essência da vida. É tudo e tudo é a mesma coisa.
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Não fomos nem seremos. E sendo coisas diferentes, seremos sempre. Somos.
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Somos muita coisa. Além de matéria, que não somos. Somos espíritos. E antes de sermos isto, estamos vestidos por perispírito.
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À semelhança do Pai. Que podia ser Mãe. Que é além.
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Aton era único e tangível.
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O Dia da Revelação acontece quando? Não será simultâneo, em nome da justiça e da perfeição.
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Será além do segredo e da dimensão. Será além da essência.
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À semelhança do Pai. Que podia ser Mãe. 
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Será além do segredo. Será além da dimensão. Será além da essência.
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Seja que número for. Somos filhos de quem? Pais de quem?

Comer

Alimentar é comer na cozinha, e comer, neste contexto, é por falta de melhor vocábulo. Comer é uma transcendência, tão meta que só se deveria escrever com minúsculas. A pretensão de alimentar, ou, pior, de bem alimentar é que precisa de maiúsculas e justificações. Comer, beber, água, vinho, rir, amar, respirar, ar... tudo com minúsculas. Alimentar é um tédio! Comer na cozinha? Só de castigo. Gosto da solenidade de comer na sala e da fruição pueril da mesa de festa mesmo sem mesa. Abomino o dia-a-dia, o tem de ser, o come-senão-morres. Um milhão de vezes a mesa curta da taberna. Um milhão de vezes a mesa rica do palácio. Mastigar pode ser penoso e não mastigo em vão. Comer na cozinha é como foder de cuecas e com peúgas de turco. E antes a fome do que a monotonia e o tédio.

quarta-feira, julho 17, 2013

Amén


Dizem que sou engraçadinho, que tenho piada... que sou espirituoso. Não sou espirituoso, sou espiritual, porque as minhas piadas são divinais.
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Nota: Será que não fui bafejado pela virtude da modéstia?

Xô! Pára de me andares sempre a cheirar o rabo...


Embora só tenha quatro patas, o meu cão é uma melga. Na imagem até se vê bem que tem asinhas.

terça-feira, julho 16, 2013

Eis a questão e a resposta





















Quando estava para nascer, os meus pais perguntaram-se: «Tobias ou não Tobias, eis a questão»... depois puseram-me João, porque rima.

Bem vestido, dando um ar de sua graça

Sou uma pessoa feliz... não caibo em mim de contente... por isso é que a roupa quase não me serve...

Jornal das novas que se deram neste Reino de Portugal

Passei o dia fora de casa... o destino não teve sequer a decência de fazer acontecer alguma coisa que me tivesse feito arrepender por não ter ouvido as notícias.

As gatas

Não me deixo dormir. De manhã não me deixo acordar.
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Até lá, um cão possessivo e omnipresente, como um polícia político, dorme ao pé de mim. Tenho saudades das gatas.
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A televisão, confidente e enfermeira, ligada só porque a tenho, como sempre, todas as noites, até adormecer, até de manhã.
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Uma gata tem chorado nas noites, a chamar por mim. Quase todas as noites e outra não se cala quando me vê. A terceira chama à atenção cagando fora da caixa.
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O cão anda atrás de mim, como uma mãe zelosa que persegue a virgindade da filha, primorosa e única.
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A gratidão do cão por o levar à rua é menor do que as saudades que eu e as gatas sentimos. É patético e consolador. Quendera me desse algum ar. Pobre cão, mulher gato-sapato de bêbado e putanheiro.
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Não me posso fechar sem o cão, porque gane e chora, como a mãe que vê o filho emigrar para a estranja. A mãe enlevada no seu filhinho-mais-que-tudo, que não tem mal nem pecado.
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Um cão é um cão e os gatos são pessoas. Gosto mais de pessoas quadrúpedes do que de animais. Mas gosto do cão.
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O cão é o meu carcereiro e sofro de síndrome de Estocolmo.
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Quando lhe vejo os olhos, com a ternura eterna e grata dos cães, e observo o manear de cabeça... meu Deus, como não amar este ser...
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Porém, as gatas e a saudade.

Cão


O meu cão tem a mania que é cão. O meu cão é tão cão.


segunda-feira, julho 15, 2013

Não como Marat

Não tenho mais nada para acontecer aqui. Fico, porque há coisas para me acontecer.

Como o achigã. Como o alabote.

Dizer amor, dizer mentira, dizer mistérios. Dizer dinheiro, dizer saúde, dizer juventude. Dizer Deus e não dizer Diabo. Dizer razão, dizer beijo. Dizer tempo, dizer brevidade, dizer eternidade.
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Não tem nada a ver, mas tem vida. Dizia o Eduardo que andava tudo ligado. Que fazer se somos apenas únicos e cada um não se repete. Dizer vida.
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Dizer para não dizeres. Que me disseram que disseste, que era para o meu bem. Que disseste para não me dizer. Que perguntaste, que perguntei, que perguntei se perguntaste, que perguntaste se perguntei. Não digo mais nada. É pior, é melhor, é o que Deus quiser, é o que seja, nem que seja Buda.
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Um abismo, não há palavras. Nem de amor que unam. Nem que separem. Abismo de cair, de não voltar. Silêncio e uma outra vida.
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A loucura dos beijos, loucura de dias e noites. Acerto de tudo o que não fez sentido. Uma carta de amor por entregar.
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Não expliquem. Não expliques. Não entenderei, só à luz da morte e da renascença. Contas por acertar e vidas para justificar. Tristeza que deu.
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Fiquei de te escrever uma carta de amor. Ficaste de não a receber. Ficámos sem falar. Antes fosse falar por falar. Qualquer coisa que não silêncio.
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Disse que não te dissessem. Disseste para não me dizerem. Não dissemos. A vida ficou a meio e ainda assim continuou.
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A Primavera não tem nada a perdoar. O Inverno perdoa tudo. Entre o Verão e o Outono tudo acontece. Assim aconteceu. Às vezes acontece. E a vida mudou. Mudámos, mudamos.
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Esta não é a carta de amor que fiquei de te escrever. É aquela que prometeste nunca querer receber. No fundo, a vida.
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Como o achigã, não sou daqui. Como o alabote, ninguém sabe. Só podia ser, então. Porém, há as contas. A certeza dum dia, depois da vida.
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Não é fácil de entender. É fácil, não é?
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