quarta-feira, janeiro 30, 2013

Em nós

Tens os olhos mais doces. Ainda que escondidos ao dormir, vêem-se doces do outro lado das pálpebras. À minha volta, tuas mãos despem-me e despimo-nos o desejo e beijamos as juras que sabemos. Dou-te a minha almofada e roubas-me o lençol, aqueces-te em mim. Só não tenho frio por causa dos teus olhos doces. Num beijo partilhas a cama toda, adormeço. 

A odalisca calada, pela calada

Quando te vejo sonho em que nunca ninguém me quis tanto dizendo não querer com a boca e querendo com os olhos. Ainda que os lábios não digam palavras, o teu peito chama por mim. Vou onde me mandares e estarei enquanto não adormeceres.

Não faças isso

Não durmas enquanto sonhas comigo.

O suspiro da odalisca


Sim, agora dormes. Não dorme o meu desejo. Em ti estou. Antes e depois de acordar.

Odalisca acordando

Acorda. Estou há tempo demais a contemplar a beleza descuidada. Temo que sofras por me veres. Sei que é falso pudor, porque há muito despertaste. E despertando assim despertas-me a vontade de a teu lado dormir.

Vendo

Faz de conta que não me vez, que farei de conta que não te vejo. Faz de conta que não me vez a vontade. Fazes-te a vontade do prazer de comigo judiares. Não te cubras, porque maior será a proibição e mais preste o apogeu, no medo que tudo perca de ver.

Episódica Odalisca

































Quero ser o teu califa. Por uma noite, episódica odalisca. Surges em sonhos e partes antes de chegares.

Odalisca recatada





















Disseste-me que não, não podia. Fizeste-me segredo, o teu peito de flores. Sou abelha e nele quero poisar e saborear o doce, depois o salgado, depois do amor.

Sonho com odalisca

Nua atrás de cortinas de seda. Surges como um fantasma. Sem te ter evocado. Acordo sem saber se sonhei.

Água de odalisca

Beijo-te mais íntimo. E tu onde me matas. Inalo-te e bebo. Água doce da vida.

Odalisca captora

Bem que me olhas. Sou eu quem está prisioneiro e tu quem guarda. Fera contida, gata feliz, brincando com a presa. E quando assim me olhas, dou vida e desmaio.

quinta-feira, janeiro 24, 2013

Que não se lembre

Não tenho como ver o que não quero ver. Sei que não sei se deva ter o que não sei se há. Por retórica olho para baixo para ver o céu e espero que Deus não me veja. Espero que Deus não se lembre. Julgo que Deus se esqueceu. Quer sair e que se me virem pensem que não os vi. Quero ser autista se não puder estar morto.

Atrás dos tempos vêm tempos e nada de bom há-de vir

Nos locais deslumbre, as conversas importantes. As linhas impressas, as salas do fumo. O vinho e o uísque. Frente à secretária, ao telefone. Pensando que não partiria. Que se partisse não voltava. Uma bicicleta só de subir e o amor. Muito amor que era sexo e um amor que era cego. Tudo o que poderia ter sido.
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Já me ri de fumar. Já me arrependi. Já dei graças a Deus. Já me esqueci de dar. O que julgava saber e o que não sabia que não sabia. Depois de adivinhar o futuro nas mãos li a vida nas cartas. Nunca me cheguei a arrepender. Nem o medo. Tudo o que fui.
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Andei à chuva em dias de sol. Abriguei-me em solidão junto ao mar, e não fui. Sepultei-me e ressuscitei morto. Chorei de amor e chorei de mim. Desejei ser canalha. Quis uma vida banal. Renasci sonhos grandes. Bati com os dentes na realidade. Deitei-me atrasado. Dormi adiantado e eterno. Desejei apenas dormir. Tudo o que tenho sido.
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Se o amor não falta, sobra a dor rija. Não levo a vida para frente. Não volto atrás. Peço que a parede não me esmague devagar. Volto aos locais antigos. Como nunca soubesse que haveria de voltar. Ainda não sei se quero. Recordo as músicas e evoco as noites. Evoco caras. Choro as esperanças e angustio-me nas desilusões. Batem-me na memória frases dolorosas e coisas de que me envergonho. Tudo o que sou.
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Atrás dos tempos vêm tempos. Da tristeza à esperança. Da desesperança nada sobra para andar. De joelhos inconformado, impotente, quase morto. O que tenho de ser.

Beijo

Beijo-te onde menos queres, porque é onde mais desejas.

quarta-feira, janeiro 23, 2013

O Chuqui e elas

O refilão cá de casa… o que se julga grande, mas só pesa sete quilos, que se atira a pastores-alemães… esse que ladra a todos, com o rabo a dar, para brincar… que adivinha quando vão tocar à campainha na porta da rua… o saco das pulgas… hoje olhava vivaço para a Lioz, mais alta dois palmos. Ela recolheu as orelhas, como um caça supersónico. Ele baixou-se das pernas, fez um ar infeliz e soltou um leve e envergonhado ganido, partindo-se dali. Ele manda em casa, mas já percebeu que um gato é um gato.

Bandeira de água






















O homem não é acrobata, ela é quem voa. Ele, a segurança, e ela a essência. Ela bela e ele músculo. Ela arte e ele engenharia. Ele cavalo e ela a flor. Ele pedra, ela água. Ele resiste, ela vence.

Abracadabra

Abracadabra. Abre as pernas, minha cabra. Nada como dizer buceta, que todos acorrem à procura de ninfeta. E se escrever cona, não se espera que seja matrona. Certo é sabido que cona e buceta abrem mais portas que abracadabra.

Vem cá, vem

Quero-te a vida toda. Não disse: quero-te para a vida toda. Se for drácula, é o mesmo… ora, chega aqui o pescoço, se fazes favor.

A casa dos sete

Três gatas carentes e um saco-de-pulgas que se julga cão. Depois ele. Depois tu e só depois eu.

Fogo-preso


Tens aí um beijo preste a cair e não me pedes para o apanhar. Prestes a despenhar-se e eu sem o poder salvar.
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Tiro-te a roupa como quem dá um beijo. Mãos quentes em pele fria de corpo em brasa. O peito erguido, a colina do ventre, o vale das pernas e o cofre do tesouro, onde aromas férreos, de caramelo e sal, sobressaltam como uma fonte.
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Sim, as mãos. Que pegam e quase saciam. A boca que fica perto do clímax. As mãos que se dão nas mãos, o ventre com ventre. O homem dentro da mulher.
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Sonho com a tua almofada e com silêncios de palavras de arrependimento e fúria de cair novamente no abismo do prazer.
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Não partilho a cama, partilho o corpo. Quero-me em ti e que me dês a tua humidade. Dou-te calor e dás-me sussurros.
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Quero-te já. Com mãos, boca e revelação. Dentro de ti. Adormecer, ir e voltar.

domingo, janeiro 20, 2013

Tu, que estás lá no alto, divindade

Deita-me o abraço, porque é escada para a tua altura. Beija-me, porque é foguetão para a tua alma. Vem-te, porque é luz no meu coração. Dou-te tudo, porque te dás. Deitas-te a meu lado e dizes boa noite. É até já, porque acordados ou longe, juntos ou dormindo, estamos e estando, estamos mais. E por tudo, beijos e promessas. Certezas.

Gostava


Gostava de te ver nua. Que as minhas palavras escritas te despissem. Que os teus dedos te amassem. Que a tua boca me chamasse. Que as minhas palavras ditas te abrissem. Que a tua boca me amasse e a minha também beijasse.
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Gostava de te descobrir e a ti voltar e não me perder. Que te não perdesses, mas quisesses. Que desses de beber às minhas frases. Que as minhas mãos te lavrassem. Que a tua árvore me desse a maçã de Eva e Adão. Que o teu suor se juntasse ao meu.
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Gostava de me explodir em ti. E tu te iluminasses comigo.
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Gostava que fosse já. Gostava que fosse proibido para nos transgredirmos. Que uma noite fosse a primeira e outra a última. Que fosse sempre despedida. Que estivesses sempre despida. E eu amante capaz.
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Gostava de tremer as mãos. Que as tuas seguras me tremessem. Que as línguas conversassem pelos corpos. Que me acolhesses. Para explodir em ti e te dares comigo.

sábado, janeiro 19, 2013

Ascendente no décimo terceiro signo do zodíaco


Quero agora. Porque agora o zodíaco está com alguma coisa no apogeu e um planeta em retrógrado. Agora, porque vejo no céu a mulher. Talvez a que sempre quis, nua e em mentira distraída.
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Agora que a luz abafa as estrelas. Nem assim o zodíaco diz outra coisa.
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Quendera ter a sorte q‘uma escada que me ascendesse. Que um ufo me subisse. Que ela lá estivesse e me esperasse. Que quisesse o meu desejo.
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Corpo concentrado. Essência de abraço e suor destilado. À frente de todos, escondidos nas nebulosas. Eu e a deusa da fantasia e do desejo.
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Depois, espreguiçados na Via Láctea, imprudentes deixando verter o lençol, sugerindo ao mundo o que se passou.
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Envergonhada, dissipada. Abandonado e sem transporte.
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Está escrito nas estrelas que um dia.

Como se fosse um filme

Acordei com vontade que algo acontecesse. Que o vento trouxesse a mulher invisível que também transpusesse o vidro e, numa operação relâmpago, tomasse conta do meu corpo e abusasse da minha boca.
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Acordei. Finalmente e com uma saudade prenhe de qualquer coisa que não quero dizer com todas as letras. Suspiro profundo e quente.
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Por mim, o frio está bem. O que mais quero é a noite e a cama e não a manhã. O segredo de coisas importantes sem espessura.
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Conhecer a pele e a boca. Segredar coisas sem importância e não ficar até ser luz.
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Luz-penumbra que não revela toda a beleza. Brevidade de amor que, não sendo a amor, lhe toma a vez. Por minutos de intenso calor e loucura.
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Mais do que lençóis amarfanhados, uma noite incerta. Memorável pela incerteza dum regresso.
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Acordei e sonhei. Agora não consigo tirar da cabeça quem não entra no corpo. Saudade de qualquer coisa que não sei.

sexta-feira, janeiro 18, 2013

O pinot noir de João Barbosa

Ando para aqui com o blogue atrasado e cometo outra gafe… não foi o senhor Cunha que me veio pedir, sou mesmo eu quem laborou a coisa. Textos vínicos em bicha de espera e este entra logo. Pareço eu no Lux! À frente de toda a gente e sem pagar. Diga-se que aqui também ninguém paga nada.
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Entrevistei (profissionalmente) o meu homónimo dos vinhos Ninfa e Lapa dos Gaivões. Estava marcado nas estrelas que «João» e «Barbosa» quando se juntam dão pessoas fantásticas. Ele e eu (!!!) somos pessoas fantásticas… eu, principalmente sou belo e gracioso, apesar dos cento e alguns quilos. Além do mais, sou do Belenenses!
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Contei-lhe que um dia hei-de fazer um vinho: lote de baga, ramisco e touriga franca. Ainda lhe disse que ia ter um problema com ele, por causa da marca, mas João Barbosa continuou simpático. Bolas!
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Brincadeira à parte, o senhor é uma simpatia e atenciosidade (existe?) que cativam. Como escrevi e disse (é feio fazer autocitações, mas eu posso) muitas vezes, a paixão, trabalho e empenho traduzem-se no final. O amor que damos reverte. É a lei do retorno…  quem faz com pouco gosto nunca fará bem feito. É por isso que a comida das mães é sempre a melhor do mundo…
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Ora, seis vezes três: dezoito… vinho do Tejo? Pois, não é o que se pensa quando se fala em grandes vinhos, ainda que se saiba que a qualidade cresceu muito de há uns (poucos) anos a esta parte.
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Grandes vinhos? João Barbosa tem vinhos de qualidade inquestionável, mas tem um que é absolutamente fora de série… fora do sério. Vim do Alto da Serra (Rio Maior) excitadíssimo para escrever este texto. Há muito tempo que não me comovia assim e poucas foram as vezes em que me empolguei desta maneira.
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O vinho ainda não está engarrafado e só será descoberto daqui por uns meses. Entretanto, João Barbosa deu-mo a provar. Fantástico! Ou fazendo um trocadilho com as línguas portuguesa e inglesa: funtástico!
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Trata-se dum pinot noir como haverá poucos, quiçá nenhum, em Portugal. Tem cor de pinot noir e é elegante como um bom Borgonha. Suave e macio; não é veludo, é seda. Seda, mesmo. Uma acidez de ressuscitar. Um ataque de coração pelo melhor. Emoção, vida, personalidade e carácter. Um vinho único, que um enófilo tem de provar.
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A colheita é de 2011 e, como só acontece com os grandes vinhos, tem séculos pela frente. E irá em crescendo. Dez anos? Espero voltar a ele dentro de dez, vinte e trinta anos. Um colosso!
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Desculpem-me tantos elogios, mas estou nervoso de contente. Ganda pinta de vinho!
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Tenho, no livrinho do coração, alguns vinhos portugueses que me conquistam ano após ano, os meus Grand Cru, que não dispenso e que ponho as mãos no fogo pela sua qualidade. Quero bebê-los até morrer e a eles voltar na próxima encarnação: Quinta do Vale Meão, Quinta de Foz de Arouce Vinhas Velhas de Santa Maria e Cavalo Maluco, nos tintos, e Maritávora Grande Reserva Branco.
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O meu pensar do que quem faz por gosto, ou quem acarinha o que é seu, sangra amor e deleite é válido para Francisco Olazabal, conde de Foz de Arouce, José Mota Capitão e Manuel Gomes Mota… além dos respectivos enólogos (Francisco Olazabal, João Portugal Ramos, Paulo Laureano/Mota Capitão e Jorge Serôdio Borges), penso eu (de que, como terá dito aqueloutro senhor do Porto). Isso mesmo se pode dizer de João Barbosa e do alquimista júnior, que já não é nenhuma promessa, Pedro Pereira Gonçalves… o tal que, quando estava em Vale d’Algares, me prometeu uma prova cega de tintos…
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Bem, dessas minhas referências portuguesas de eleição nenhuma leva nota abaixo de nove… sendo que (já me cansa escrever isto tantas vezes) a classificação não é nem óbvia nem proporcional… o três é positivo e não é nem metade, nem um terço nem um quarto de quatro… é três. E o dez é uma nota aberta, que vai do dez até ao infinito antes de onze.
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Este pinot noir de 2011, que João Barbosa irá um dia mostrar ao mundo, terá, pelo menos, um nove. E tenho quase a certeza que assim será para sempre. Como o amor.

terça-feira, janeiro 15, 2013

Da janela


























O cinzento-lilás do céu e o verde-clorofila da placa luminosa do hotel. A janela sobre a rua de carros e o frio que nela embate.
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Sim, o coração salta e o tédio anseia o que não quer para amanhã; acordar cedo para trabalhar. Pudesse o tédio ser ócio e a vida só abundância.
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Habituado a uma rua de bairro, vivo junto ao movimento constante acelerado, numa rua quase suburbana e no centro. O que gostava mais na outra casa era o bairro. Neste bairro gosto mais da casa.
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Neste Inverno: Madeira doce. Tão desejável que não me imagino a beber outra coisa no Verão. Figo seco, amêndoa, noz, caramelizado, finíssima canela e um fio quase invisível de pimenta preta. Digo: Há algo mais maravilhoso do que um Madeira doce?
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As gatas, feridas no mimo, e o cão, que às vezes se julga gato, tem ciúmes das irmãs felinas. Já lhes ladra menos, mas elas sopram-lhe. Hão de se dar bem. Que assim seja! Que Deus o queira! E que haja sempre Madeira doce.
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Por baixo do quarto há um vizinho que ressona fragante. O que diriam os de cima se dormissem sobre o meu quarto. Esses, doutores em palermice, acordam e deitam-se e nada mais fazem do que existir, entre a imbecilidade, a mediocridade e a imbecilidade.
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Quero ver o céu no Verão. Se ainda aqui estiver e com o coração apertado de afecto e descoberta. Se não estiver, que tenha o peito como agora.
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Por agora contemplo o céu cinzento-lilás e acalmo-me e contenho-me, para que tome um outro cálice de Madeira doce.

Sim, sim, siiiiimmm...

Tenho cócegas nos teus pés.

terça-feira, janeiro 01, 2013

Mao

(suspiro)


Partilho-te o sonho e durmo-te. Ainda hoje acordo ensonhado para te ver ao lado, para acreditar. Ainda mais: o abraço e o beijo. Tu, delicada, com turquês, tenaz e ferro em brasa arrancas-me a dor de burro do coração, cauterizas e deixas viver.
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Quando me afogo, são os teus beijos que me acordam. A pele das tuas mãos que me sacia a carne. A fina película da boca que me injecta luz.
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Não te posso falhar. 

Promessa

Não posso falhar. No primeiro dia da vida. Ainda que só a queda me alegre o pensamento e me dê alma à alma.