segunda-feira, novembro 05, 2012

Frio ou sopas

Não gosto de artistas e não tenho paciência para poetas. Os distraídos irritam-me e enfurecem-me opiniões divergentes. Gosto do sossego do-que-nada-muda. Gosto da arrumação e da autoridade.
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Posso tolerar tudo e abdicar que quase tudo. Mas não perdoo a atrasados.
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Quanto ao resto… tenho pouca paciência para mim.

Dias que são noites

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A minha fé é egoísta e a minha dúvida não se acalma com uma igreja. A alma espera a luz, mas o ânimo cede ao peso do granito do templo, o corpo confunde-se indeciso. Nos dias tristes, a luz não passa nos vitrais e Deus está ocupado. Não há acalmação da melancolia, pasta pegajosa de indolência, lentidão e desânimo.
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Há dias em que se é cigarro que a vida fuma; pior: cinza que a chuva leva. Dias de natureza morta e quartos de sombra. Dias de passado. Dias de lonjura.
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Não quero ser peixe, mas também não quero isto. Deus não quer saber das minhas birras e eu perdi a confiança. Nem canário. As gaiolas são tristes, tiram luz aos olhos.
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Há um sufoco que entontece e derruba. O sangue aquece-se na frieza da vida e transborda das veias, em fúria. O corpo cede ao seu peso e a alma perde-se nos escombros.
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O azul não paga portagem e o negrume é luz que não se apaga. A sombra não tem burburinho, esse está no lusco-fusco. Mas as auroras e os entardeceres estão encostados à noite, onde o silêncio assassina. Os dias… se tivessem luz, eu acreditaria em Deus.

É tão verdade

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Tristeza e melancolia


Rua

A rua é onde as intimidades se ocultam e as personalidades se misturam. A rua é castanha e tem barulho. Até na calada há eco de passos e se nada se passa, então a rua não existe. A rua não é uma praça, onde as vozes se unem e se fazem multidões. As praças são os olhos das cidades, mas as ruas são as mãos. Há ruas tristes, dos bairros sossegados. Há ruas luminosas, que têm vistas. Há ruas feias, de gente feia. Há ruas lindas, de lojas lindas. Há ruas falsas, de gente perigosa. Há ruas de e para tudo. E gente de toda a espécie em todas as ruas, como nas praças. Agora que deixo a minha fica-me um amargor por amar e a incerteza dos amores novos. Como em pequenino, tenho medo do escuro.

Calor





















O Sol que chapeia a minha fachada só me aquece o corpo. Sou um burburinho de cascalho rolante, rio sem água.
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Quem olha a monotonia do chão não vê a transcendência do manto e desconhece que o fresco do enterramento dá, mais abaixo, lugar a um calor de suor.
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A memória da água é mais longínqua que a boa vontade da minha imaginação. Onde distraidamente se passa em diante houve um rio, antes um glaciar e antes princípios de mundo.
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O Sol seca e a chuva ilumina dos seixos. Pedras que apedrejam por dentro quando o Sol apenas bate sem pensar.
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Sei que se me deitar e me esquecer só a terra me saberá. Um dia, uns palmos frescos, dormirá o corpo. A alma vagueará à procura de calor.