terça-feira, julho 31, 2012

A palavra que falta

























Amo-te até inventarem melhor palavra. Desenho dias à janela, aguarelo alguns e outras vezes apenas olho debruçado a rua.
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Às vezes estás em casa e ficamos fechados um no outro. Tenho a janela aberta quando não estás. Com os olhos esticados na luz de Lisboa e a esperança no parapeito. O canto mudo do telefone angustia-me.
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Não gosto de falar ao telefone. Deito-me à tarde, desejoso que as horas tenham Sol e a nostalgia chuva. Não oiço música, mas deixo aberta a porta da varanda para ver a cortina mexer-se e para deixar que o mundo da rua pense que sou normal, que uso t-shirts e calças claras. Na verdade ando descalço.
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O Verão não chega a ser silencioso. O Sol pede azul da água e o vento algum sal. Não consigo que as aguarelas tenham o azul português. Mas consigo olvidar a nostalgia.
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Ainda não consegui inventar uma palavra só tua. Durmo com a ideia do dia novo e sinto o passar das horas planas e pálido ruído na rua.
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Na falta de férias, o Verão de Lisboa e seu azul celeste, que é denso e forte. Na falta de férias, a solidão morna e o lamento de ainda não te ter inventado uma palavra. Se ao menos te soubesse desenhar.
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Em azul, as três gatas são três luzes. O telefone não toca. Felizmente há quase ruído. Passam mornas, as horas, até que seja Outono.
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Vou deitar-me com a porta da varanda aberta, como um feliz solitário. Na boca a doce vontade de te saber desenhar, vestido e com os pés nus. Não cheira a flores.
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A janela de Deus

























Será que Deus tem Sol? Uma casa com janela e uma paisagem? Ou vive só com sua omnipotência na imensidão infinita e angustiante do universo?

domingo, julho 22, 2012

Contadora de estórias








Li um texto de seda e cristal, com palavras-gotas de luz e aroma. Pétalas de rosa na pele, vinho entornado no chão numa noite quente. Amor no chão de madeira e vento que levanta uma fina cortina e mostra a quem vê o mundo que fazer amor é mais do que sexo.
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Nota: Dedico este texto à Lia Na’In, que escreveu um sorriso delicado, sensual e feminino na sua página do Facebook.
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TEXTO DA LIA NA'IN

dos amores inteiros.

se os amores inteiros tivessem músicas para os "contar" esta poderia ser uma das que seria banda sonora...

Não dos "amores" da novidade nem do tesão nem da conquista e do sexo desvairado, fortuito, bom ou não, mas terminal. Não. 

Daqueles de viver juntos há anos. Desses. Dos que duram anos e beijos ao acordar sem os dentes lavados.

Dos amores inteiros, em que depois de anos há amor e sexo e carinho e ...

é domingo à noite. e não vão sair. e na tv não há programação de jeito.

e ele no sofá em zapping.

e ela apenas de camisa levezinha, a meio da coxa, e de cuecas. descalça.

e calor.

e janelas abertas e cortinas leves numa dança que deixa adivinhar o que se segue.

e ela que vai à cozinha.

e ela que volta com uma garrafa de vinho tinto... e em pontas de pés, no soalho de madeira vivida.

e ela que desliga a televisão.

e ela que põe esta a tocar: http://www.youtube.com/watch?v=wHVBqIiV7mA

e ela que se vira de frente para ele no sofá.

e que põe o pé direito dela em cima do sofá, do lado esquerdo do corpo dele.

e que põe o pé esquerdo dela em cima do sofá, do lado direito do corpo dele.

e ela que o olha de cima.

e ele que a olha de baixo.

e ela que bebe um pouco de vinho da garrafa.

e ele que toca suavemente a barriga dela, por baixo da camisa.

e ela que se senta nele.

e ele que lhe pede vinho.

e ela que lho dá a beber do corpo dela.

e ela que o bebe do corpo dele.

e eles que se amam numa mistura de desejo e amor e um saber que assim se é completo. 

mais coisa menos coisa.

É branca no estardalhaço

























A cor do mar cinzento é o vento das vozes que a água diluiu. Quanto mais mar mais viagem, foguetão. Cair de tão alto mergulho é um segundo de dor. O resto é fama, se alguém vir. Respirar sempre sob a água. Se alguém vir é fama. Se alguém houver é dor. 

Azul

Quem te disse que o céu cinzento não é azul? Quem te disse que azul é bom?

Carta de intenções




















Há quem queira mudar o mundo. Eu quero mudar tudo. Depois irei para outro lado.

Desencarnando




















Após um dia feliz há outro de silêncio. Antes da cada chegada, uma tristeza. Antes da morte, a ansiedade do desejo e o medo do medo. Pudesse a alma trocar de corpo e o corpo mudar de vida. Ficando vou, querendo ir mais longe e livre. Levito-me no que consigo.

sábado, julho 21, 2012

Tu

Amar o proibido, é fácil. Amar o amor, é difícil. Amar a transgressão, é fodido.

Aguenta



















Estou? Estás em casa? Estás só? Estás nua? Não adormeças, que tenho interesse enquanto estiver bêbado, mas ligo-te quando chegar para me dizeres o andar. É o 25, não é?!

Que fossem

Gostava que todas as mulheres fossem castas e seus homens reservados. Que todos vivessem felizes, mas que eu pudesse ser a transgressão, embora sofrendo do genuíno amor de amar e faltando ao tudo o que o amor pede para dar, lhes desse o beijo que os maridos se esquecessem de dar.

Aparição

























Não me obrigues a desadormecer só pelo prazer de te sonhar nua.

Xuaca-me


Não sei se serei capaz de conter o beijo quando te vir nua. Vai-te despindo.

sexta-feira, julho 20, 2012

Dança-te práqui


Não dancei de ti. Regressas-me e dou-te beijos. Abraçados, dançamos na cama. Pé ali, corpo aqui, uma perna que sobe e uma mão que desce. Aproximam-se os passos, juntam-se as bocas. Comemos à mesa, bebemos e depois dançamos e voltamos para a cama.

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Desenhar dançar
















Fixar a dança sem ser infantil ou foleiro não é fácil. Nem acredito que estou a usar uma das poucas imagens que tenho sobre o tema num desabafo. É que são quase todas de vómito… então em escultura até vem o fedor aos olhos.

Podia ser hoje










Há azul e o negro que são o fim do mundo feliz. A noite de silêncio e o raiar em aproximação ao burburinho. Se fossem eternos seriam o outro mundo. Como não se vive tudo duma só fez, quero aproveitá-los para fazer amor contigo. Azul e negro acontecem todos os dias, mas nem sempre se pode amar.

Quem não janta não vive

A vida que fique lá fora, que aqui hoje é pra viver.

Casa-mundo
















O meu lugar é onde não há ninguém. Não quero o mundo, que fiquem com ele. Bastam-me as paredes, as coisas, o tédio e o tempo de sobra. Lá chove e aqui há vinho. Lá faz Sol e aqui há vinho. Quando é Inverno há sono. Quando é Verão há gin. Nos outros tempos há dias incertos, mas dias de incerteza são todos os dias. Vivo na casa, nos outros dias estou como o mundo. Lá fora há calor e aqui janelas abertas. Tanto cá como lá, calor e frio, noite e dia, música e tédio. Na verdade não se passa nada, tanto cá como lá. Até a agitação da rua é igual à agitação doutro lado qualquer. Como tudo, já aconteceu em algum lugar. É uma das poucas certezas.

Tédio





















A janela separa a vida da vida do outro lado.

Casa














A casa é uma fonte. A casa da revolução e do tédio. A casa da serenidade e da inveja. Casa escreve-se com todas as letras, tal como ódio, amor e mãe. A casa guarda e um cão guarda a casa. Os gatos vivem a casa e o cão vive o dono. Na casa durmo, na casa como, na casa faço amor, na casa sofro, na casa quero morrer, na casa vivo. Da janela para lá há o mundo. Do vidro para dentro sou eu.

Que tal sorte
















Antes que a velhice esqueça, prefiro esquecer-me da velhice, melhor será que a vida dela não se lembre.

Lembra-me as nazarenas na praia


















Não são viúvas, são virgens. Umas esperam os pescadores e outras os homens que as amem.

Dormitar



















O meu amor não vem e as palavras para distracção abafam-se na leitura dos pensamentos. É tarde e está Sol, há uma cidade lá fora e tempo para não fazer nada. Podia sair e ver o dia, mas a luz filtrada do quarto e o quase tédio do silêncio abraçam-me, numa resignada prisão.

Céu





















Os olhos gordos de beijo descrevem uma elipse, fogo de artifício, fogo caínte. O céu de cima estrelado, aberto e generoso, como um pai. Afecto denso como uma mãe e seu abraço. Mãos dadas e apertadas, ternura perante o infinito e nas dúvidas no Deus, se existe, se nos vê, se nos ama, se é ou apenas está. O céu é uma abóbada e por momentos um dedo apontado é engenharia, pilar quase único que o sustenta. Todo o momento de luz e escuro é de música que se faz em ausência. O quase nada é tudo e é muito o pouco que se entende. Aí faz sentido o amor, os reencontros e a reencarnação, o tempo banal e finito, a alma única, se a houver, a irrepetição do tempo e tudo o que não caiba na boca e venha ao ar pelos lábios ou tão pequeno que não chegue a ter ar para se ouvir; tudo cabe sob o céu da noite. Tudo, pouco ou quase nada é quase tudo quando os olhos se vidram para um beijo.

quarta-feira, julho 18, 2012

Tágide














É com a boca que me vences. Com a boca te bebo, com as mãos me alimento do teu corpo. Sei-te ninfa e escolhi-te musa. Em ti me banho e contigo faço amor. Que um beijo seja um poema e o final não tenha remorsos.

segunda-feira, julho 16, 2012

Dias

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Uma canção pode salvar o dia. Um sítio pode mudar a vida. Pode ir-se a sítio que não existe ou que existindo não existe. Pode-se ir a um sítio e não estar. Uma canção pode salvar o dia.
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O salto para o sofá pode salvar uma vida. Uma troca de olhares, um esse-éme-ésse, uns vodkas e um sofá podem salvar a vida.
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Mas a vida não acontece.
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Piscina




















Sou um vencido. Não amo chefes nem venero mestres. Nem sei se chego a querer Deus na vida. Tenho a vida que me permitem. Tenho a vida que faço e não culpo ninguém por esta não ser a vida que sonhei.
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Um dia de azul-roxo e Sol amarelo-laranja. O azul do fundo da piscina e água vazia, ter coragem de deixar cair para trás, mas que seja de braços abertos, de olhos abertos. Ter coragem de não ser um salto, de braços fechados, de pé e olhos abertos. Em surdina um hit da pop com memórias e o burburinho indiferente de vozes e vida. Ébrio e zonzo. Uma queda, uma forma de arte. Que seja breve esse infinito e que seja já.
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Que vá na viagem. Que vá ao chegar. Que não chegue ao instante a seguir ao chegar. O Sol forte num dia de água azul.

domingo, julho 15, 2012

O dia

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Doem-me as veias como se não tivesse mãe. Tenho a vida presa entre o queixo e a cova do pescoço, um certo aperto estrangulador.
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Não é só tédio, são dias a mais, dias rápidos na vida, dias longos para o dia. Agora volta o mundo e não tenho saudades.
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O doloroso dia, de sono e desistência, de medo e birra. Quero adiar. Um dia longo numa semana curta, que já parece longa. E a vida passa a correr.
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Não é só tédio, nem melancolia, nem tristeza, nem nostalgia, nem saudade, nem ciúme, nem impotência, nem desânimo, nem falta de vontade, nem desistência, nem contrariedade… é a vida e a filha-da-puta duma vontade de gritar.
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Opá! Quero amar e ser amado. Quero um amor como o da Bela Adormecida. Uma casa com piscina, uma vinha, um olival e vista para o rio e sem vizinhos. Quero esta mas outra cidade. Preciso de céu azul e nuvens de tempestade. Não dispenso o vento.
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Não preciso que me empurrem. Tenho regresso. Não sei para onde, mas sei que será a gritar. Nem que fossem cem anos, esta sesta é curta. Ao acordar, o sentimento duma vida estúpida.

sábado, julho 14, 2012

Por favor















Poupa-me à tua beleza, que os beijos que se me impulsam podem desfeiar-te. Ou então chega-te aqui, onde a proximidade não me deixa ver-te e os lábios não têm distância.

sexta-feira, julho 13, 2012

Acudam















A sensualidade está entre o amor e o piroso.

Como vinho





















Quero ver-te nua e que mais alguém te ame, para que te possa perder ou nunca ter. Não quero ganhar, quero saborear. Quero a bebedeira e sei que esquecerei a breve ressaca. O mundo é tão novo, a vida tão breve, a vida eterna, para que se possa ter ou não ter alguém. Um beijo não me chega.

O que nunca farei



















Prometo-te vento na janela quando já deveríamos estar a dormir. A rua ainda em silêncio e o Sol nascido. O Verão fez-se para os amores breves e paixões eternas. A loucura do Inferno é precisa antes da calma melancólica do Outono e da ternura do Inverno.
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O calor da água fresca, que aviva o hálito, revitaliza a língua e exige beijo com os olhos nos olhos. O Verão é para o Verão dos sentidos. Para a sensualidade da melancia, para a gulodice da meloa. Para a pele e para a carne.
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Sim, desejo. Como se só uma virgem não soubesse. Não sei se as sereias falam coisa que se entenda ou falando mo queiram dizer. Tenho contudo a esperança e medo de ouvir.
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O Verão fez-se para tremer antes do primeiro beijo. Para sair de mansinho pela janela, na quase manhã, em segredo mas com vontade de gritar o prazer que se teve e quer mais.
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O Verão é para transgredir. O recato tem mais graça quando o vento voltar húmido. O Verão é para guardar segredo, do que se fez e não se chegou a fazer.
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Não sei mas sonho. Imagino querido por Vénus. Desejo o abandono depois da loucura. Porque o mundo tem de voltar para quando vida regressar de viagem.

Vénus imaterial















Imagino-te com o peito de Eva e a boca de Vénus. O monte da Lua na mão direita bem desenhado e na esquerda invisível, escondido. Imagino uma dança oriental no leito de espertina e suor. Ventre quente e segredo profundo. O abraço da dádiva egoísta que recebe dando. A loucura como uma onda salgada. Prazer sem descanso e repouso inquieto do cansaço e do desejo. A boca da sabedoria de Vénus e o peito do pecado primeiro por cometer.

Noite clara de Vénus
















Magnífica como num quadro. O cabelo escuro, os olhos em descanso, o rosto claro e tudo à volta branco: lençóis, almofada e aura. Cupido matreiro destapou-lhe o ombro e começaram a tocar clarins; o céu azuleceu e abriu-se entre as alvas nuvens. Enxame de querubins e faunos brincando e dando risinhos. Dei-lhe um beijo. Não acordou.

quinta-feira, julho 05, 2012

Espero que esteja bom tempo

Estou preocupado. Não tenho dinheiro para os programas giros que quero fazer antes do fim do mundo. Nem tenho nada previsto para o caso de haver 22 de Dezembro.

quarta-feira, julho 04, 2012

Sob

Conquistando-te conquisto o mundo, toco no tecto do céu. Depois acordo do meu sonho de olhos abertos, em que me oiço e escuto o mundo, interpretando o universo.
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Tenho a certeza que nos pontos de luz vive gente. No entanto está-se só quando apenas se tem por companhia os milhares de milhões de estrelas da Via Láctea.
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Não sei muitos nomes de estrelas. Aldebarã soa-me bem: fortaleza, barbacã. Guardiã de parte do céu. Digo eu. É aquela que se segue, chamaram-lhe os árabes.
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Quem nos olha atrás da Via Láctea? Ou se dissimula numa multidão de estrelas… Deus vê ou Deus sabe?
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Sei que o céu é já aqui, quando nus sob ele. Num leito de chão, amor feito. Conquistada, toquei-lhe no tecto.