quarta-feira, março 28, 2012

Horas assimétricas

Tenho dias maiores do que outros e as noites nunca me chegam. É ainda tarde para acordar. Quando for cedo adormeço, para que o sono não se gaste acordado.
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Sem janela e sem sombra. Tédio meu me dás hoje. Pai nosso de dúvida e de desesperança. Limbo acabado, Purgatório escondido, nem Inferno nem Céu. Dias de coisa nenhuma, sem apetite nenhum para coisa alguma, em momento concreto.
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Relógio de horas assimétricas, de minutos vagos, de instantes incertos. Dias de nostalgias, noites de sono insuficiente, dias de noites nostálgicas, dias de dia de sono, sono de todos os dias, sono todo o dia. Noite finita de sono infinito. Quendera partir.
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Quendera partir para onde o sono é vida. Toda a vida de todos os minutos. Seja escura ou clara a noite, sempre noite, a milímetro do abismo de todas as vidas, as novas e as repetidas. Em qualquer lugar do outro lugar.
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Não há segredos além do segredo de viver. Resume-se a vida aos minutos passados e aos que hão-de vir. Viver um presente é impossível, pelos momentos de infinita imprecisão e constante movimento, do futuro para o passado.
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Sim, sono. Todas as horas do dia, incluindo as da noite. Ainda que durma, é noite. A casa de Deus. Deus que duvido, na fé verdadeira de quem quer amar e não sabe.
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Dias de horas imprecisas. Sonos a milímetro dum abismo, como o que Orfeu perdeu Eurídice. Sem o talento, mas a sorte. Sem o amor cego, mas cego pelo amor- morto na desconfiança e na conjura. Esperança morta pela estupidez sem tempo. A tal vontade de cair no remoinho, de braços abertos à espera do fim da queda.
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O meu amor é vago, posso amar quem quiser. Amor que não vê Deus e nem a sua infinita invisibilidade. Prosto-me perante a derrota, capitulo. Descreio de Deus e dos homens e dos dias. Quero dormir para que acorde na terra que me espera.
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Tem muitas horas, o dia. Despeço-me dos dias quase todos os dias, quase a cada hora, acordado. Adormecido estou morto, nesse país sem tempo.
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Sem força, nem para partir, deixo escoar a areia pelo estreito da ampulheta imprecisa. Morto de tédio e morrendo a cada instante, em que o tédio é ainda mais entediante. É uma coisa estranha sem presente, o presente.
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Calço os sapatos e faço-me à vida. O caminho levar-me-á a outro lado. Que seja a esse sem tempo. Mais hora, menos hora. Incerta e imprecisa.

terça-feira, março 27, 2012

Não fazer falta

Levitando num charco profundo, com um peso nos pés, à beira do destino que o destino reservou. Mergulho de boca aberta, bêbado e imortal. Quendera não estar vivo. Nunca fazer perguntas para não saber respostas, nunca fazer afirmações sem questões. Fazer tudo como se fosse o primeiro, o dia e o beijo. Nunca desisto da queda, nem mesmo durante a queda. Ainda com a pouca sorte de cair onde o charco tem fundo e os pés não me afogam. Nem fantasma nem estátua. Ainda por cima levitando, nem voando nem morrendo.

sábado, março 24, 2012

Seis

O que faço aqui há seis anos? Desde, o mesmo amor, a mesma proibição, a mesma doença, a mesma impaciência, o mesmo tédio. As mesmas diferentes paixões. Quanto tempo terei e quanto já estive. Tenho um suicídio de letras, para que o corpo não sofra. Na verdade, na mentira e na ilusão, a desesperança. Mais seis? Nem sei se amanhã vou trabalhar.

quinta-feira, março 08, 2012