domingo, setembro 25, 2011

Requerimento



















Venha a Morte, com sua gadanha, ceifar os tristes e deixe os reis e vencedores do mundo. Que o seu manto negro em farrapos sirva de abrigo, resguardo e consolo aos que se cansaram de existir, aos desistentes, aos derrotados. Que o hálito da vida dos fracassados alimente os fortes e os gloriosos. Que partam os desmerecedores, pela sua fraqueza.
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Que o peso do universo esmague os iludidos e estes, em sufoco, tenham um regalo, o de morrer instantaneamente e sem dor. Suspiro menor ao segundo. Uma graça de justiça.
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Que a minha vida seja uma veloz passagem, sem rasto nem saudade. Que a Morte, com seu manto escuro, limpe a sombra e consuma o corpo. Que a morte, com seu mando desmentível e incontestável, queira ceifar cedo quem lho pede.
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Não há, para quem perde, melhor consolo do que a lâmina fria da gadanha. Que a Morte tenha clemência e higiene. Que deixe os vencedores brilharem em eternidade e permita o célere eclipse aos desistentes.
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Não seja suicídio, mas graça. Não se pede mercê, porque os perdedores não merecem reconhecimento nem laudas. Faça a Morte justiça. Que com sua gadanha leve para onde não há universo para guardar almas, os perdedores.

sábado, setembro 24, 2011

Tédio
















Alívio maior. Alívio adiado. Dentro tenho algo maior do que eu. Não é por isso que estou disformemente inchado.
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Como a maçã de Magritte esmaga a respiração de quem olha, algo em mim transborda dentro, querendo rebentar.
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Mil arrepios, dezenas de bocejos, noites e dias dormindo. Um sono muito grande, sem ter cansaço nenhum. Um cansaço muito grande, sem ter cansaço nenhum.
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Pergunto-me se acabar, sabendo que não acaba, é acabar. Se acabar cedo por vontade é deixar a meio. Se acabar por vontade dá direito a acabar mesmo.
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A maçã de Magritte e o pão a crescer no meu forno. Fermento a mais para tão pequena caixa. 

quarta-feira, setembro 21, 2011

Verbo amar conjugado no tempo merecer












Um coração grande em corpo pequenino é ainda maior. Por isso, o abraço é a obrigação desobrigada. A gratidão de ser, além de estar ao lado. Um sorriso é justo, dois, mais justo será. Um mais, pelo menos, não irá sobrar.
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Um amor numa alma sofrida é ainda maior. De tanto abandono vem a vontade de dar. Quem sabe se ainda mais. Pela bondade dos olhos, menos não será. Gratidão? Não, justiça. Se todos merecem ser amados, os que sofreram justificam uma eternidade beijada.
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A presença após a grande ausência é ainda mais cheia. Não há sombra que resista a tanta luz. Vinda de frente, dos lados, de cima e de baixo, das diagonais, de todos os ângulos, de todas as dimensões, de todos os lados. O amor enche de luz as multidões. Ainda que traga o desejo, paixão da terra e da carne, a vontade despertada ilumina o que o mundano retira dando penumbra.
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As ternuras depois dos gritos são ainda mais doces. Agora, gritos só os do prazer. A tesão há tanto tempo contida… do calor à carência… da carência ao calor. Que se dêem as mãos e os olhos se encandeiem em qualquer sítio, os beijos que nunca fiquem por dar. Todos os abraços e o que mais apetecer, desde que seja por amor.
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Não sei o que é amar. Não diferencio, em perspectiva, o prazer de estar com a eternidade de ser. Numa dimensão bidimensional, só se distinguem as cores, que um cartógrafo pintou. Um sítio, num sítio qualquer, tem sítio para mim, para ti e para todos. Chamemos-lhe amor merecido, amor devido, amor desejado.
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Marimbo-me para as duas dimensões das letras, sei que, em concreto, há um sítio de amar e quem se possa amar. Quem mais deu e mais perdeu tem mais a quem amar.

domingo, setembro 18, 2011

Olhos de água















Há anos que não me revia no espelho de olhos tão límpidos. E há quanto tempo não via chuva nuns. Em ternura dão tudo e as promessas saem verdadeiras pelos lábios. Coração bom e toda a culpa do mundo, a que não tem direito. Voz doce e sorriso de enlevo. Generosa nos abraços, quente nos beijos e sensualmente discreta. As mãos servem para se darem em toda a parte, da cama à rua. Um beijo é um beijo, em qualquer lugar. Escrevo-te estas palavras como um beijo. 

sábado, setembro 10, 2011

Dizer-te o quê?



















Dizer-te o quê? Que me ouvirás, com esses lábios vermelhos? Toda a beleza recatada atrás duma pintura, que mais não faz do que sugerir a beleza que lá está.
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Sim, a curva do pescoço. Sim, os olhos revirando-se. Sim, a sabida pose inocente. A indecorosa postura que convida à alcova.
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Qual fragilidade, quando tem o mundo? Que importa o corpo, quando é mais forte a alma?
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Joguete ajoelhado. Dizer-te o quê? Desarmado pelo desamor… desarmado pelo amor… desarmado nessa luta contigo, em que a frágil sensualidade é mais forte que a força viril.
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Dizer-te o quê? Desarmado por esses lábios vermelhos, armadilha de delícias.
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Esses lábios sugerem beleza e, na verdade, timidamente descarados, disfarçam-na. Caio sempre… criado de mim mesmo, servo de minha senhora e escravo do amor. Dizer-te o quê?

terça-feira, setembro 06, 2011

Bom dia mundo
















Olha, lá fora, o Sol brilha e algo de si é teu. Uma parte de luz e outra de calor. Para que te não veja nem te pense acordada, querendo desassossegar-te, baixo-te a persiana. Dorme como uma menina, que o amor será mais tarde.
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Ao abrires os olhos, espreguiça-te bem, acenando ao astro amigo. Abre bem a janela para que para o quarto não fique migalha de vento por entrar. Deixa-te quieta, para que lentamente a luz faça amor contigo.
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Levita dormitando, até não saber se sonhas. O Sol, já refeito das saudades da noite, irá pegar-te ao colo e a água espera-te na banheira. Lava bem os olhos e as orelhas, para que nada do mundo te escape.

sexta-feira, setembro 02, 2011

Em todas as mulheres, tu



















Jogar contigo jogos de cama. Jogos de sorte, sem azar. Nos lençóis da cama, na bombazina dos sofás, na flanela das cadeiras, na pedra da bancada, na madeira da mesa, no esmalte da banheira, à janela, na varanda.
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Pela fresta da porta, a Juliana nua. Pelo vidro da bandeira, a Gisele nua. Pela cama afora, a Adriana nua. Juro amor à Cláudia. Prometo-me à Daniela. Todos os nomes de mulher te assentam na perfeição quando fazemos amor. Sejas ou não sejas a Juliana Paes nua, a Gisele Bündchen desnuda, a Adriana Lima despida, a Cláudia Vieira sem roupa, a Daniela Ruah mostrando-se natural… sejam portuguesas, brasileiras, espanholas, francesas… todas gritando por mim… serás sempre tu.
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Todas cabem em ti, porque, quando em ti estou, nada há além de ti. Nem mundo, nem outra nudez. Só os nossos beijos. Jogos de cama pela casa fora.
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No Facebook estão todos os nomes de mulher, fotografias de lindas e feias. Das que gostam e das que não. No Orkut guardam-se as mesmas e outras. No Youtube há de tudo. Muito do amor de mulher neles cabem. Mas em mim só tu.
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Nas palavras que me dás em desejo estão as vozes da Paris Hilton mostrando-se, da Justine Joli revelando-se, da Sandra Shine avançando-me… se as desejo na ausência, quando juntos, tu e eu, todas estão em ti e sobra espaço.
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De burca, de lábios vermelhos, de cabelo solto, de pelo curto, de pele quente, de boca molhada. Toda molhada. Nua em amor.
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A nudez de todas as mulheres define-se em ti. Podes ser todos os nomes, serás sempre a mesma mulher. Nua, vestida, abraçada, em amor, na luz, na escuridão, na sombra e na contra-luz.

quinta-feira, setembro 01, 2011

O sabor do leite de Bhopal





















Mãe mata filho, com muito amor e carinho. Com leite de Bhopal e afagos de Chernobyl. Amigo dispara sobre amigo, com palavras de amizade. Com olhos tristes e poucas palavras, na voz cinzenta. Como na guerra de blindados e canhões, ninguém ganha. A amizade está e fica, à espera de quem a abandonou a venha buscar.