domingo, fevereiro 27, 2011

Basta querer para se ter uma satisfaçãozinha





















Já fiz e não custa nada. A coragem é maior do que um segundo, mas dura menos do que um instante. Depois de o corpo sair ficará a marca, prensada na memória e na fantasia, de quem viu ou soube. Que palavras poderão ser ditas? Coitado. Teve um dia difícil. A mulher com o outro. Andava a beber. Tinha dívidas de jogo. Uma doença incurável. Perdeu um filho. Desde então que não andava bem. Nada disso, só o prazer de sair daqui.

Lâmina





















Faltam poucos minutos para que o gume me atravesse as veias dos pulsos. Tenho tempo para escrever a banal carta de despedida. Não aguento uma má notícia sem me matar.
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Em alternativa há o estômago… o fígado talvez seja melhor, mas não sei se o consigo encontrar. Para o coração, melhor uma bala. Numa brincadeira, os pulmões para não ter um último suspiro.
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Quero cair só de cabeça. Bater na pedra ou no fim do precipício. Cair sem voltar para trás.
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Doem-me os cornos por me saber separado depois da separação. Rejeitado depois de tantos anos de ausência. Emprenhado e demorado, muito mais que os nove meses. Abandonado na condição de mãe. Só e a parir toda a merda que disse, fiz e vi.
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Não falta quase nada. Quanto tempo durará o escarlate? E o jorro, até onde chegará? Quero cair de joelhos ou afundar-me numa banheira. Ficar com os olhos abertos, para ver a morte chegar.
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Não falta quase nada. Só o tempo de não acreditar.

sábado, fevereiro 19, 2011

Tempo que passou passando





















A tua beleza é a minha esperança. Conheço-a. No escuro daria por ela.
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Numa sala que abafasse o mais suave dos sons saberia onde estaria a tua voz.
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Estou contigo. Nos beijos todos que se deram e na beleza que me agarra à vida. Vida que após vida nos junta. Vida que após vida desperdiçamos.
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Na próxima semana ligo-te. Acabo por não ligar. Escrevo-te uma carta, não mando. Lanço-me num ésse éme ésse como me suicidasse duma grande altura.
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Lanço-me num ésse éme ésse como me suicidasse duma grande altura. Arrependo-me por não ter resposta. Por te pensar embaraçada. Sei lá eu por que te embaraças.
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Se tivesse a certeza que não sofres, não te faria sofrer dizendo que penso em ti. Se não conhecesse os olhos, ainda que distantes e invisíveis… sei que pensas, que talvez te arrependas, que receias recuar. Porque o tempo passou e no tempo que levou a passar muita coisa se passou.
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As feridas sararam. Já se perdoaram as cicatrizes. Não se esqueceram os locais; das feridas e dos que nos fizeram felizes. Nada que um abraço não resolvesse.
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Penso como seria fazermos amor com as gatas por perto. Não que se aproximassem duma cama em delícias. Penso na tua timidez. Será que te zangarias ou aceitarias derretida o mimo que te quisessem dar?
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A tua beleza é a minha esperança. Porque sei que depois da vida vem outra vida. E o tempo que passou não é tempo nenhum.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Jardim, com pássaros, abelhas e gatos

Jardim, rosas multicores e amoras. O chão de ervas muito verdes, uma fonte, um lago e um ribeiro que vai para caudal maior, já fora da vista. Sombra de folhosas e ciprestes como torres de vigia.
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No topo, ervas de cheiro e abelhas, mansas e laboriosas. Melros, pardais e outros, anónimos, por toda a parte. Ao sol e à sombra. Ao vento e no abafo. Na chuva ou na temperança. Todas as estações, todos os dias. Lua cheia, lua nova, lua metade.
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Flores? Margaridas. Fruta? De polpa branca, peras doces e maçãs de frescura verdácea. Abelhas entretidas nas sobras trincadas, caídas, pousadas e descuidadas, enquanto a preguiça manda. Uma manta no chão, por causa da roupa, e outra por cima, porque, dizem, nos constipamos quando deitados ao relento.
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Ramalhete de perfumes e gatos. Daquele lado cebolas. Não, rosas. Dizem, entretanto, que são ranúnculos, flor rara e rara também nas aparições. Ali, mesmo ao lado do canteiro dos morangos.
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Por toda a parte, espalhadas, tulipas, açucenas, mimosas, lírios, violetas e jasmins. Alegria das abelhas. Limoeiros e laranjeiras. Figueiras e romaneiras. Sombras e delírios. Pássaros e gatos, e outros que tenho preguiça de enumerar.
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O ribeiro e os pássaros. O silêncio dos gatos. O vento e as sombras. A preguiça. Um dia todo. Um entardecer com rosado e uma ceia de figos secos, tâmaras melosas e Vinho do Porto Tawnie com anos.
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Pode ser Verão. Com toda esta preguiça só não é Primavera. Com todos os aromas só não é Outono. Com este calor suave só não é Inverno. Pode ser Verão, mas tão ameno… não pode ser. É lua cheia, ainda de dia. É céu estrelado na lua nova.
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À noite só gatos e fantasmas. Flores, jasmim e violetas. Sei lá, tanta coisa. Demasiadas para quem se delicia com tudo, além do Vinho do Porto idoso.
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Amanhã será mais um dia no jardim. Ao acordar, tapado e fora da manta. Apetite de sumo de laranja. Aroma de pão quente e chá verde. Framboesas e mirtilos. Como se tivesse feito amor toda a noite. De certeza.
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Nota: À amiga AA, que também é musa e até tem um número, que nunca sei de cor.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

À namorada morta

Antes que me perguntem, tenho o coração em Edimburgo, assim não dói. Com o corpo cansado de prazeres e aborrecido por se malentender na cabeça, sem corpo para velar. Não namoro há tanto tempo, não sinto falta. Como sentir, se tenho o coração no Norte e a cabeça no Inferno?!
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Juro que não conheço. Nem as que conheci, partiram, morreram, não me lembro. Sem marcas de dedos nas costas ou derrames no pescoço. O fantasma é vivo.
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À noitinha, quando já dormirmos, deito-me contigo. Se puder, nos teus cabelos enrolo os dedos. Cara na cara. Lábios na cara. Quase os beijos. Sem corpos. Além faremos amor.
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Antes que me perguntem, digo que não direi. Depois do corpo, porque esse é malentendido na cabeça. Logo à noite, quando já dormir, faço amor contigo. Mesmo sem cabelo onde enrolar os dedos.
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Nota 1: Para mim, o catorze de Fevereiro só é bonito, porque nasceu uma menina que terá sempre quatro anos.
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Nota 2: a menina de quatro anos não morreu.

sábado, fevereiro 05, 2011

Ilha adjacente

Ao largo do grande amor deixei o desejo de voltar. A esperança de lá encontrar um sinal beijado. Não dos que restaram, não dos que ficaram por dar, mas dos da saudade.
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Quendera o amor da idade primaveril, em que tudo não é nada e o pouco é sempre pouco e o tanto, muito pouco.
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É sabido que não se morre. Morre-se por muita coisa. Morre-se por muita coisa e um dia morre-se duma só vez, para que um dia se renasça e se possa fazer tudo, outra vez.
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Até se morre ao sábado. Nos dias úteis. Quando se morre é sempre domingo. O susto dos tédios torna-se medo das saudades. Morreste para longe, mas não em mim. À noite encontramo-nos. Acordados sozinhos em casas separadas, sem que os corpos se tenham tocado, mesmo quando se fez amor.
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Sei, porque vivo estou morto e, tu, viva és fantasma. Para ti sou outro espectro. Sabemos que não se morre, nem quando se está morto. Mas deixamo-nos mortos, negando estar vivos.
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Ao largo do grande amor está encalhado o que se teve um dia. À noite, quando não nos vemos, visitamo-lo. Sem vontade nem coragem de dar corpo à vontade, de levar a carcaça ao porto da cama.
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Gosto de camas desfeitas, impregnadas de amor. Tu delas feitas, recuperadas da felicidade e preparadas solenes para renascer, em afecto, mais tarde. O que se faz a duas pessoas separadas na vida, unidas aquém e além da morte, queimando a eternidade numa separação infeliz?
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Ao largo do meu corpo está o amor maior. Presente, enfrentando todos os amores que chegaram. Vendo partir todos os que vieram.
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À noite, à socapa, sento-me, na praia em que durmo, e admiro a beleza dos dias que foram. Sinto-te do outro lado da costa, de cabelo entretido pela brisa, contemplando em suspiro o tempo em que se não morrera.
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Sei porque nos vemos à noite, quando estamos mortos. Fazemos amor sem os corpos, distantes, na ilha adjacente às vidas. Terra onde as quedas d’ água são aos soluços e as aves se calam, em saudades, os nossos segredos, que sabemos um do outro.
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Quando estamos mortos ainda sentimos as dores da morte que nos separou em lágrimas. Mas fazemos amor, antes que a manhã ilumine e apague o amor, ao largo.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Pânico

O coração aos sustos e a cabeça florida de fúnebre. Sem vida nem descanso, entre mortes. O querer viver, às vezes, é um querer de morte. Não me recordo nem acordo. Alguma vez me terei perdido num jardim de buchos, fugindo e caçando risinhos de êxtase virginal de mocinhas. Não veio noite nem companhia, todas fugiram para onde não as oiço. Perdido e desistido, desesperado por viver ou morrer. Ficando entre mortes. Sempre o mesmo nome, que ninguém chama nem responderia. Os dedos frenéticos, como se desejassem um cigarro, fumável que a boca recusa. O coração aos sustos, desejoso que algo consuma o que está dentro da cabeça. Será que vale a pena? Será que vale a pena sem interrogação no final. Entre mortes.