segunda-feira, setembro 27, 2010

Diz-me o que dizes aos amores

Diz-me o que dizes aos amores para que saiba se quero que mo digas.
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Dá-me beijos e não palavras, as mãos, a boca e a pele. Dá-me o abraço que se dá quando se quer abraçar. E o olhar de quem não sabe o que vê.
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Toma-me e descansa-me. Afaga-me a cabeça e adormece-me com conversas que não interessam. A sonhar escutar-te-ei poemando o amor que nunca se chega a fazer.
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Não prometo acordar a tempo de ainda ser dia. Nem noite. Não prometo pérolas nem uma vida sobre o mundo. Não prometo a miséria e o amor eterno e infinito. Juro que serei amante e que te prometerei tudo o que queiras, tudo o que se quiser e até mesmo o que prometi não te prometer.
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Uma guerra de almofadas, um sumo de laranja. A cama entornada de suores. A janela aberta e a porta fechada por engano. Podemos inalar a tarde, onde acordamos, o que acordamos fazer. Quando acordarmos.
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Inspirar e soltar um vendaval.
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Jogar o corpo um contra a pele. Teremos a pele viciada. A boca marcada na barriga, nos seios, nas costas, nas pernas, na boca.
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Quando me dou às cartas de amor por ti, quando sonho que te tenho, quando finjo ser correspondido, juro que te amo e sou amado. Não é ilusão. Amo-te e com todas as juras de amor. As juras duram o tempo duma loucura. Nada de falsidade, apenas o pulsar dum quasar.
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Declaro-me assim. Tenho as mãos trémulas e a voz indecisa na força e no tom. O coração bate angustiado e a cabeça pensa muita coisa só tendo uma coisa em mente:
- Diz-me o que dizes aos amores para que saiba se quero que mo digas.

sábado, setembro 11, 2010

Rever o coração





















Em Edimburgo, há dias, revi o meu coração, mas não o trouxe. Deixei-o estar onde é anónimo e onde não tem olhos para poder amar nem boca para poetar. Que viva feliz para sempre.

Na ponte

A miúda intangível está sentada numa ponte com os pés a levitarem no ar. A brisa desenha-lhe os lábios em posição de sorrir. A paisagem ilumina-lhe os olhos e o rio reflecte-se-lhe no nariz e maçãs. Os cabelos como sempre são indisciplinados, mas não insolentes.
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Não passa duma miúda. Tem na cabeça todo o espaço preciso para uma vida. Por enquanto só guarda felicidades simples e descobertas dos primeiros amores.
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Como um rio, já saiu do leito, mas ainda sem as angústias de dilúvio que um só lenço não chega para saciar. Dores talvez, mas não as tem como quem herda afluentes de tristezas.
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Ainda tem o curso tão curto e sóbrio, que um velho navio não o pode navegar. É rio de cascata. Rio de cama. Rio de desejo, semente dispersa em pele e lençóis.
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A vê-la, cá de baixo como quem venera uma deusa, imagino-me tocando-lhe os pés suspensos no ar. A minha boca voa até onde a roupa já não tapa, percorre-lhe pernas e seios e fonte. A sua boca em êxtase que espere pelos beijos e gema pedindo que a tome.
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Não me vê. Não me sente. Não me quer. E eu, contudo, tão perto imaginando-a minha. Tenho inveja do Sol, do vento, da água e de tudo o que lhe toca. Ela voando e eu aterrado.

segunda-feira, setembro 06, 2010

Verbo ter, conjugando sem ter

Tenho na pele e nos lábios a sensação de ter tido por uma noite. Uma só noite. Uma só bastou para que saciasse a curiosidade e me enganasse os afectos. Uma festa de carne pode transformar-se numa ilusão.
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Já noutra noite sonhei-te. Completamente nu perante uma rua de gente anónima. Declamava amor em poemas e tu ainda vestida ouvias-me sem corar. Estava envergonhado e contudo indiferente aos terceiros.
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Aflito percorri caminhos-de-ferro a pé, fugi de hordas que me assaltavam. Fugi para chegar ao pé de ti. Embarquei em comboios por terras estrangeiras, contornando curvas de rio e de nível, vi declives com vinhas. Cheguei a ti numa gare escura, de noite, numa cidade desconhecida. Mas cheguei a ti.
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De tanto te querer… desencarnei por minutos e entrei em ti. Tão profundamente em ti que trago nos cabelos o teu cheiro. Nas costas as marcas das tuas mãos suadas. Amei-te corpo e conheci-te íntima.
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O meu peito não tem coração, mas memória. Marcados a ferro, os monogramas de quem amei. Há arranhões de esgrima dos afectos. As cicatrizes ainda doem. Quero-te em desesperança.
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Como pude ter-te por uma noite se não sei amar? Só faço amor amando. Não me fazem sem mo dar. Não o faço de coração cerrado. Tive-te, porém, denso e quente. Pesado e húmido. Animal em ternura.
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Como pude?

sábado, setembro 04, 2010

A nova musa

















Tenho uma musa nova. É pequenina, porque é pequenina. Tenho um amorzinho pequenino como um bonsai. Um dia a árvore será centenária, mas não sei se será ainda bonsai.
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Quando estou só com ela dou-lhe banho. Embrulho-a numa toalha seca e macia e deito-a confortável na cama. Depois, como antes, envolvo-a num desejo cordato no gesto e infernal na alma.
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Toda a força da minha abstinência está concentrada na fogueira do meu novo amor. Os incêndios nascem das chispas. Os meus do luzir inapropriado e inoportuno, do desassossego. Toda a minha abstinência faz amor com a nova musa.
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Sou feiticeiro aprisionado num corpo que não me deixa voar. Como um vampiro preciso de força vital para viver. Esta minha nova musa, tão tenrinha e feliz, é água doce na torreira do desejo. Mas também gasolina em incêndio.
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Não são suspiros que me traz, mas a fantasia dum namoro e cama. Quero-a como cordeiro sacrificial. Sempre que escrevo tenho-a nua querendo-me, de corpo quente e boca húmida.
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É um amor pequenino. Um prado com mimosas. Nele me estico e adormeço, acordo saciado e penso morrer. Queira um dia o consiga, partilhando os mesmos lençóis.

As musas





















Alimento-me de mulheres. Da pele e da carne. Da voz e do olhar. Das mãos que me amam e do meu desejo. Não escrevo se não tiver uma musa que me entre e me abra ou feche janelas. Sem musa não tenho nem luz nem penumbra nem escuridão. Apenas um vazio, espaço onde o nada consegue existir.
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A musa é alimento. Martiriza-me com desgostos. Anima-me com esperanças. Nada precisa ou pode fazer, basta-lhe estar onde penso que está.
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As musas chegam e também partem. Voltam quando não as espero. Acordam-me de noite. Seduzem-me e desarrumam-me. Doem-me e saciam-me.
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Apaixono-me pelas musas e posso amar mais do que uma. Posso não amar nenhuma. Só querendo as tenho. Não aprisiono, vivem secretamente em mim, mesmo desconhecendo.
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Faço amor com as musas. Desejo-as. E depois de abandonado, pela mulher de carne verdadeira, continuo alimentado por ela. Faço amor com as musas ainda que possa nunca o ter feito com a mulher que traz a inspiração.
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As musas são pessoas importantes. Sem elas não escrevo ou escrevo desinteressadamente. Sem escrever e sem orgasmo não vivo. As musas dão-me tesão. Na escrita e no corpo. São fadas e são fodas. Amo as minhas musas.

A primeira musa

Por ti, densidade, já me apaixonei, amei e desamei tantas vezes que desisti de deixar de te querer. Serás minha para todo o sempre, como em tempos prometemos. Ainda que não me olhes nos olhos, abraças-me todas as noites durante o sono.
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Densidade no olhar e na fala, amor profundo numa fonte. Coração aberto, muito grande, e tantas intimidades. Tantas que se as contasse todas estariam tão secretas como antes.
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Noite a dentro, em vigília, peço a quem pode que nos una. Porque colados andamos nós sem o querermos saber.
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Invento, de vez em quando, artifícios e amores de substituição. Nenhum medra. Morrem de desgosto, morrem de desilusão, morrem de distância, morrem por quase nada.
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O amor vai e vem como as ondas. Mas por ti sinto o mar.

As papoilas

Espero que tenhas gostado destas flores que não te enviei, por saber que a língua das flores fala duas línguas, a de quem manda e a de quem recebe.
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Mandei-as por a paixão inviável mo determinar. Mandei-as sem ter mandado pela certeza de nunca as desembrulhares com o mesmo sentimento de quem as envia.
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As flores não são um espelho da alma, mas o sussurro dum amante que não sabe o que dizer. Se soubesse não mandaria flores, mas escreveria um bilhete.
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Depois há os dândis, que, à falta de cultura, banalizam qualquer coisa e, por não saberem escrever, mandam rosas. Quem diz dândis, diz outra coisa qualquer que signifique o mesmo acerca de quem é embrulho de qualquer coisa sem relevância.
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As flores que não te mandei não têm grande aroma, porque são de estufa. Se ainda o não fossem talvez tas mandasse.
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Prefiro ir um dia contigo mostrar-te as papoilas e, no meio da vegetação, experimentar a origem do mundo.
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Antes e depois um piquenique que retire a animalidade aos animais que se querem. Um arrebatamento de civilização que se pode fazer com um só copo de vinho. Partida e chegada de compostura. Origem de sorrisos e rubores.
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Se me prometeres vir comigo experimentar a suavidade das ervas e os cantares naturais, prometo oferecer-te flores das verdadeiras, das que cheiram bem e mal, apanhadas à beira da cama onde se faz amor.
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Prometo não contar a ninguém que não sabes o que são papoilas. Só direi que conheces rosas.

sexta-feira, setembro 03, 2010

Estrelas





















Se me acreditasses quando te digo o que penso das estrelas olharias o céu com outros olhos. Não te prometo a abóbada celeste, mas apenas uma nesga de luz distante. Há dias em que o azul-negro do céu tem mais luz do que um dia de Sol. Basta acreditar numa revelação. A palavra certa levanta um véu invisível e toda a luz possível ilumina o que há para dizer. Tudo mais selo com a certeza de que as estrelas não caem do céu.

A namorada





















Preciso duma namorada com quem não tenha de namorar.

quarta-feira, setembro 01, 2010

Alma de Sol e chuva





















Alma de Sol e chuva. No ribeiro. As pedras também dormem, mas ao olhar fingem. Entre as ervas verdes e o frio. São seixos, dizem. Às vezes aprisionados em casas sem campo, às vezes secas. São como as águias e as lebres, as pedras. Penso, não juro, que as flores não se chegam perto. Pelo menos as papoilas, não me lembro. Sob as árvores descansa-se bem. Dos pés doridos do andar sobre os seixos, no caminho do banho bravio. No Inverno, com certeza também no Outono, até na Primavera e em alguns dias do Verão, as águas, que lhe vêm, vêm também do céu. Por isso, alma de Sol e chuva. As pedras não mentem; quando estão molhadas, estão mesmo molhadas. Os seixos não choram, mesmo quando aprisionados em casas sem campo, quase sempre secas.