quinta-feira, abril 30, 2009

Arrumações

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- Ando em arrumações
- Vais deitar fora as tristezas…
- Não deito fora as tristezas, fazem parte de mim e da minha vida
- Ficas com os vazios...
- As tristezas não são vazios, os vazios é que são tristezas.

Guarda-freio perdido

O guarda-freio desgovernado não está descarrilado. Antes, não tem cuidado com o que faz com o dinheiro cobra dos bilhetes. Mais do que caminhos, há muitas maneiras dum homem se perder.
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Nota: Texto resultante do desafio lançado por MS, do Palavras Difíceis.

quarta-feira, abril 29, 2009

O banho





















Achei-lhe graça. Mandei-lhe um piropo; aquelas roupas de estilista estavam a pedir um cumprimento especial. Ficámos à conversa, horas. Ela era linda. Enchi-me de coragem e pedi-lhe que me desse banho. Não se fez rogada, deu-me um duche de água fria. Levei uma banhada.

Amor de mãe





















Quero de novo o colo, como se tivesse morrido. Quero que morra para que deseje sempre colo. Temo que morra e o que quero é colo. Quero o colo de sempre, como se não houvesse morte.

Duche

Não sei por que me lavo se me vou sujar em seguida. Não sei por que me sujo se me lavarei depois.

terça-feira, abril 28, 2009

Gata

Não me deito com ninguém. Não sei quem se deita comigo. Uma namorada avança e entra-me, suave como um gato, e toma-me. Acordo sempre só. Uma noite vou acordar para ver quem está comigo. Lembro-me sempre dos sonhos com elas.

sábado, abril 25, 2009

A revolução dos cravos

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Num país não muito distante, os destinos eram tocados ao piano, por pessoas muito bem intencionadas, mas pouco competentes para o efeito. Um dia, os cravos fizeram uma revolução e os tocadores da outra senhora deram de fuga.
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Nota: A segunda música chama-se «A fuga do gato».

Vinte e cinco do barra quatro





















Bom dia liberdade. Sou livre de não escrever nada hoje.
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Nota: Contra Otelo Saraiva de Carvalho ser promovido a coronel e contra o largo Salazar em Santa Comba Dão.


O facho - Paulo de Carvalho

sexta-feira, abril 24, 2009

Amores pesados





















Nunca estive bem com o meu amor por ti e o teu por mim. São grandes de mais, perderam a escala humana. Agora que acabaram são cargas demasiado pesadas para nós dois, simples humanos... que amaram como Vénus e Marte.
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Nota: Este é o brasão da Frísia. Pela imagem parece tratar-se da terra do amor.








Olà então como vais - Tozé Brito e Paulo Carvalho

Talvez não




















Não admitas que sentes a minha falta, porque o universo diz-me que sim. O teu silêncio imposto e auto-flagelado assim o provam. Não tens desprezo, apenas medo. Silenciosa como um gato escondido, assanhada como um gato assustado. Não admitas, porque sei.


Quizas, Quizas, Quizas, - Nat King Cole

Perhaps - Geri Halliwell

Primaveras

Está a fazer anos das primeiras tristezas de amor. Aconteceram em Maio e Junho, mas escrevo já, porque tenho os fantasmas a espicaçarem-me e os medos de amnésia a chamarem-me. Ou talvez fosse Março, na Páscoa. Ou Abril. Foi por esta altura. Primavera.
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Lembro-me que houve a CB e a Isa. A primeira não me destroçou o coração, mas a segunda sempre feriu. Talvez não tenha feito nada para me magoar. De certeza que não fez, porque nunca me declarei. Acho que não.
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Fui para o Alentejo sofrer pela Isa. No banco dianteiro, à direita, com vista pelo janelão, lambi o primeiro corte. Senti, contudo, uma esperança de que passaria. E passou. Benditas férias, que me saciaram. O amor também não era grande.
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No banco dianteiro, à direita, com vista pelo janelão, sentia no odor do meu champô novo o perfume dela. Evocava-a na fantasia olfactiva. E o cheiro anunciava-me um tempo novo, de esperança, sem a dor, ao mesmo tempo que saboreava consciência novos sentimento e experiência.
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A Rute não chegou a desiludir, mas a essa pedi-lhe namoro. Não deu e ficamos amigos como dantes. Fomos muitas vezes ao Coliseu dos Recreios de música brasileira, principalmente da Simone.
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Todas essas miúdas dos anos oitenta foram suspiradas ao entardecer limpo da primavera, nas águas-furtadas do quarto. O céu de azul aclareando-se e de vermelho escurecendo -se. Experiências reais. Não causam dor, mas ternura.
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O céu quase limpo sobre Lisboa. A brisa e os concertos. Esses, sim, causam ansiedades nas lembranças.
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Nota: Há também quem atribua este »Festa campestre» a Ticiano.


Você é real - Simone

Não é fácil de entender

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- Vais logo ao concerto?
- Não.
- Não gostas?
- Gosto, mas não vou.
- Estás sem dinheiro?
- Também, mas não é por isso.
- Então, é porquê?
- Não gosto de concertos.
- Não gostas?!
- Não.
- És estranho!
- Não! Sou sensível.
- Por que não gostas? Por que dizes isso?
- Por causa de toda a solidão dos entardeceres a ouvir música ao pé de muita gente.
- Mas este é à noite.
- Por causa do imenso prazer egoísta de quem ouve. Não pertenço ali. Os concertos apertam-me o coração e só penso no seu final. Não consigo fruir delicadamente… sofregamente… é complicado. É a vertigem para o fim e a tristeza do fim. Não consigo curtir.
- Não se insiste com os teimosos nem com os loucos.

Paixão e amizade

Mais difícil que um beijo de carne profunda é um à flor da pele.

Palavras virgens





















Não guardes os meus segredos, porque se os partilho, nem que seja só contigo, é porque não quero que sejam secretos. Basta uma palavra de revelação e vai-se. Um segredo é uma virgindade.

quinta-feira, abril 23, 2009

Fantasmas





















É claro que me lembro da casa. Era alta e vasta como o céu e o universos. A minha tia-avó era a rainha, mas a regente era a criada. O sótão, um infinito paralelo. Tudo como nos livros do Tintim. Havia de tudo. Só tenho pena de lá ter ido tão poucas vezes quando tive as portas sempre abertas.
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O estendal da casa, debruçado sobre os telhados, dava para a minha varanda. No caldeirão, muito largo, das traseiras dos prédios havia pombos, por vezes gaivotas, mas raramente gatos. Os bichanos só esporadicamente, duma vizinha esporádica ou um perdido em sonhos exploratórios ou de caçador.
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O Tejo ainda hoje está presente. Lá e nos meus pesadfelos e sonhos obsessivos. Galga as margens e tinge-se de negro. Invariavelmente estou perdido, de pernas teimosamente frágeis e insustentáveis, para os lados de Santa Apolónia, caminhos-de-ferro, noite, táxis, voltas por bairros velhos e sombrios, atalhos de cidade e outras coisas de baú.
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Como o baú da cidade, como o baú que era aquele sótão. A minha vida, como todas, acho, fez-se de muitas coisas. Sonho com elas como sonho com a namorada morta; com aquela que ainda vive por aí. Está também ela num baú, mas desarrumada.
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tenho muito para arrumar: o pai, a mãe, a tal namorada, a outra namorada, uma terceira que insisto em deliciar-me com as suas mamas, as três gatas, as viagens, os vinhos, as casas, os parentescos, as amizades vagas... não sei se é muita coisa ou se é pouca. Sei é que me custa ter coisas por arrumar.
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Às vezes preciso das estórias para me lembrar dos fantasmas. Outras vezes necessito dos espectros para renovar a memória das narrativas.
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Nota: esta música é mesmo fantasmagórica... sim, sei que já foi postada.

Glomd - Koop

Tudo volta sempre ao início.

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A virgindade é um estado mental. Continuo virgem, depois de tantos relacionamentos. Perco-me, perdidamente, de paixão pelas mulheres que apaixono, como se fosse a primeira vez.
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Nota: Por essas e por outras é que eu e o meu coração decidimos seguir rumos diferentes... ou não fosse eu perder a cabeça.

Seu sonho azul

José Sócrates assumiu-se como chefe da cruzada contra o pessimismo. O país já percebeu que ele vê como um surrealista. Se Sócrates fosse Adão, ao ser expulso com Eva do Paraíso diria:
- Não nos estão a mandar embora, só nos pedem que nos cheguemos para lá...
- Mas lá, é lá fora.
- És uma pessimista!


Sonho Azul - Ne Ladeiras

Sonho meu

Não sei se existo ou se sou apenas um sonho meu.

Ao espelho

Não sou eu. Sou apenas a ilustração duma vida.