digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Desistências


Sou preguiçoso por ser pobre. Sou preguiçoso para ficar rico. Não faço um esforço para fazer esforço.

Caminheiro


Não vou além da estrada. Que depois a estrada me leve, não estou disposto a andar.

Nostalgia


De Israel recordo a fronteira libanesa e São João de Acre. Talvez a luz e a temperatura de Haifa, o ruído do Santo Sepulcro, a confusão das ruas de Jerusalém, a paz do Monte das Oliveiras e a pobreza de Belém junto à Igreja da Natividade. De todo não me guardo no Monte Carmelo e muito menos nos jardins do Templo Baha’i. Mas não foi lá que perdi o coração, encontrei-o antes de ir.

Estados


Os trópicos são um estado de espírito. Nunca lá estive, pelo que não me estranha a depressão.

Incredível


Se não fosse tão parecida e talvez acreditasse que és tu. Todavia já não me falas nem eu te conheço.

Consequência

Estou preso a ti e isso agita-me. Essa é uma das razões, a causa original, das minhas pernas, por vezes, não andarem e mal me ter de pé.

Consequências


Estou preso a ti e isso agita-me. Essa é uma das razões, a causa original, das minhas pernas por vezes não andarem e mal me ter de pé.

Acidente

Não caí, a vida é que fugiu dos meus pés… por isso, voltar a ter chão para pisar implica muito mais esforço.

Quebranto


Se deixei o coração em Edimburgo, como me pode o sangue correr nas veias? O facto é que as minhas pernas, às vezes, não andam.

Antecâmaras


Se o sono é a antecâmara da morte, a que corresponderá a antecâmara da vida?

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Closing time


Já vieste. Já foste. Já não vens. Já estiveste. Já foste. Agora fecho-te a porta. Fico por minha conta dentro do quarto, dentro de casa. É hoje. É amanhã. É um dia destes. Com ressentimentos, claro... é uma porta a fechar-se. Algumas saudades... é uma despedida. Fico dentro de casa.

Nota: A partir desta posta, o blog está fechado ao público em geral.

Vida

Ainda agora é Janeiro e quem me dera fosse outra vez Janeiro... uma e outra e outra vez, até à hora inevitável.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Às voltas na cabeça

Quando se pensa muito numa coisa, é porque se está carente dessa coisa. Por acaso não penso nada, a minha cabeça não pensa nada. Satisfeito de tudo.

Desejo temerário

Queria que um pássaro-mulher me levasse a voar. A mulher-terra prende-me há demasiado tempo. A possível e previsível queda não seria maior daquela em que me vejo. Agora sou um homem-água.

O céu

Quando tinha um vulcão na cabeça desconhecia a parecença entre o jorro vermelho e o caule da flor. Agora arrefeceram-me a loucura e vejo além do visto. Ai se houvesse um céu para cada um e uma terra para todos... uma tenda de fantasia. Para quem quisesse ficar a contemplar a sua vida, esquecido da multidão exterior.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Sina

Não sei se está tudo bem; não controlo a minha vida... nem ela a mim. Seja o que for e assim se quiser.

Deixar ficar

A pedra barroca é a paz sólida e feita de vida. Importa o toque e a cor.
Deitado frente à parede, toda a altura sagrada verte sobre o corpo. É claro que há o frio a abraçar as costas, mas a magnífica visão inebria envolvendo.
Um quase desmaio, um transe: a alma sai do corpo em suave despejo, uniforme mancha incolor e impossível e vontade indeterminada.
Banalmente chama-se viagem, mas poderá ser sonho. Transe é a melhor definição. Elevação e vertigem, queda do pano rochoso e esculpido até aos olhos, que se fecham em delírio tranquilo.A pedra barroca é. Na indefinição dos momentos, é o tempo do possível em período finito e esquecido da dor passada. Uma memória dos passos e de toda a vida passada. Um segmento de recta.

Ponderação

Tudo pode querer dizer tudo. Uma resposta não significa nada. Um silêncio é assunto de mistério e incerteza.

Todos os dias - vanitas

Todos os dias virão. Tudo se consegue. É só uma questão de tempo e de vidas

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Duas coisas

Definitivamente, o amor e a poesia não são o mesmo. Ninguém morre de poesia. Um é predador do outro.

Cármen


Todo o dia a mesma tourada. A mesma música. A mesma musa.
Baco e Eros. Eros e Narciso. Narciso e Apolo. Apolo e Afrodite. A pena de Eco. Narciso preso no olhar-sorriso. Olhar-Sorriso fruto de Apolo.
O toureiro e o soldado. O toureiro, o soldado e o amável. A mesma ansiedade. A colhida, a bala e a esperança na esperança. Sempre a dor. A ansiedade.
Não é Carmen. mas sempre o soldado-toureiro. Não é Carmen. Evocação da santa das causas desesperadas. Desesperança? Esperança na esperança.
Ao fim do dia, o acto limite. O primeiro passo. O último passo? O primeiro passo. O acto limite. Ansiedade. Eco. Sem palavras não há eco. Esperança na esperança.
Todo o dia a mesma tourada. O acto limite. Todo o dia a musa. A mesma música.

Lux

Não estou cá, mas adiante, a três pares de horas. Pudesse e sentava-me na varanda fronteira ao Cais da Pedra ainda de dia. Um ou dois ou três gatos ao colo. Espaço da preguiça e azul. Dormitar à espera de não esperar nada. Uma Lisboa perto do Lux. Se pudesse.

O vaso diferente

Um vaso de guerra carmesim com uma bandeira escarlate. Um comandante de farda escarlate e tripulação de azul-windsor.
As palavras ditas da ponte, suspensas na água, como argolas floridas e tiros de canhão. É como um domingo azul tranquilo, de mar chão e silêncio de nostalgia.
Tudo de todo. O domingo inteiro. O Sol baixo. O Sol alto. O dia todo. Azul mansinho, lavado pelo vento sereno e refrescado na humidade do mar.
Anjo da guarda. Anjo da guarda que me ouves quando digo. Que me ouves antes de te dizer. Que percebes quando me ponho no fio do horizonte, ainda mais além do vaso carmesim.
Sobre o vaso carmesim voo e voa o anjo da guarda. Como um sonho. Como um colar de flores e tiros de canhão. O silêncio das palavras. Um sono profundo frente ao céu e mar de azul mansinho.Voo sobre o vaso carmesim de tripulação azul-windsor. Um sono profundo e um abraço do anjo da guarda.

domingo, janeiro 13, 2008

A obra-mulher

O cilindro entra por onde se dá à luz. Por isso, um lustre. Uma orgia feminina. Duvido que os homens a entendam. Mas desejam. Em nada o desejo e o entendimento têm de acertar. Não basta desejar? Não está aí todo o sentimento feminino? Não está toda a insensibilidade masculina? Brutal! As mulheres podem odiar, já os homens devem permanecer no seu papel de marionetas.
Não me importo que sejam elas a mandar. Detesto é que se insinuem, em vez de chegarem frontais. Importo-me com a mentira - saída fininha ou redonda e gorda pelos lábios - de ser o homem o decisor.
O desejo é legítimo nas mulheres, mas obsceno nos homens. As mulheres têm direito à sensibilidade e à insensibilidade. Aos homens é lhes negado o lugar da vítima. Há que aguentar. Não faz mal, os homens não se importam. Importar é coisa de gaja.
Todavia é impossivel não boqueabrir-se ao vislumbrar o lustre de tampões. Não é a mulher, é a força. O feminino inteligente e desenvolto. Não me canso de olhar. O que se não diria se fosse obra dum homem? O que se não diria se fosse um objecto paralelo produzido por um homem? Contudo, nenhum homem se importa. Ainda bem, porque importar é coisa de gaja.

Continuo a escrever no diário





















Continuo a pensar nos rododendros, mas agora de forma menos obsessiva. Já esqueci a rima com coentros. Porém, a miúda dos ímanes - olhos de cor incerta - ainda está em mim. É um sonho acordado. Sonhei com revistas eróticas e com outras que não o sendo, eram.
A miúda tem o nome da outra, o que é uma chatice. Não me lembro se já aqui escrevi acerca de não falar à outra. Teve o seu tempo, agora não importa muito. Ou importa, porque a a miúda dos ímanes tem o seu nome.
Ainda não foi hoje que limpei a piscina. Já me disseram que não deve ficar despejada muito tempo. Um problema de pressão, dilatação dos materiais e outros assuntos que não sei nem quero saber. O tanque vai continuar a encher-se de água da chuva.
Há umas gerações teria sido importante por nascimento, agora tenho de me esforçar. A minha situação agrava-se por ter de fazer alguma coisa bem feita e de útil. Com tanto inútil no mundo, por que me pedem a mim para não ser?
O sonho e a miúda dos olhos de íman devem ser o rododendro. Não sei como esta palavra me apanhou. Ela sei, foi na rua e com o olhar-sorriso. O sonho aconteceu esta noite ou esta manhã. Parece-me que é tudo a mesma coisa.
É tarde e estou cansado. Não fiz nada de útil - o agradável que é! A piscina tem chuva e a miúda é um rododendro. Um sonho.

Querido diário

O que se pode querer mais duma frase publicitária? Todavia nunca ninguém irá compreender as mulheres e muito menos os seus jogos de sedução.
A minha vida seria boa se não fosse esta. Aguardo há semanas o Euromilhões e já ando a comer nos sítios indesejáveis. Continuo a pensar nela.
Acordei a pensar como rododendro rima com coentro. O tempo que se passa à procura duma palavra é pura poluição. As palavras devem estar prontas e a ignorância calada.
Vi-me livre duma gaja e fiquei a suspirar por outra. Não há emenda, um gajo há-de ser sempre um gajo. E as gajas sempre gajas. Pensava estar curado.
Tarefas para o ano novo: não aturar as gajas dos amigos e, quase tão importante quanto isso, ficar rico. Já devia ter acontecido no ano passado.
Preocupa-me pouco, e assim vai continuar, que a piscina tenha pouca água. Só lá vou para foder. Confesso que estou farto e ainda sem perceber a diferença entre foder e fazer amor. Deve ser porque umas gajas bazam no dia seguinte e outras têm de se aturar mais dias. Deve ser isso.
A piscina vai continuar vazia, rododentros a rimar com coentros e eu rico.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Número de porta

Com o nervo desligado não se sofre. Sem cabeça não se sofre. Para mais, sem cabeça não se sofre da cabeça.
E se a vida for uma ilusão de óptica? Um troço para ir e outro para voltar, uma rua, um número de porta e as idas e as vindas, sempre no sentido de ir. No sentido de ir para o fim.
E quando se vai sente-se menos. O caminho sopra ressentimentos e o tempo traz esquecimentos. Há quem não vá muito longe da porta e quem se esqueça dela.
Com o nervo desligado não se sofre e a dor da porta para dentro só assim não se sente. A outra perde-se pelo caminho.

domingo, janeiro 06, 2008

Infotocopiável, paradoxo e fumo

Neste blog não se fuma. O único fumo é o do hálito, o que vem da outra boca. Neste blog não se fuma, mas todos aqui são livres de fumar. Ainda. Ainda que esteja presente. Não se fuma, porque quase sempre não tem ninguém e quando tem sou eu. Ainda. Porque todos são livre de trazer o fumo para dentro e ficar a ver-ler, por vezes ouvir também. Fumo, só o do hálito. Todavia, aqui não se fuma.

A mesma obsessão

Há as namoradas de sempre. Há as ex-namoradas de sempre. Qualquer uma delas é uma obsessão.

Momentos e duas vidas

Momento primeiro: dois desconhecidos conhecem-se desde sempre.
Momento segundo: dois velhos conhecidos não se conhecem de lado nenhum.
Momento terceiro: o juízo.
Momento quarto: o reencontro.

Confissão

Um dia perdido. Mais um dia perdido. Um dia a circular entre sonos. O desperdício da luz e, porém, aproveitou-se bem a noite. No fim do escuro. Uma manhã de silêncio. Uma tarde raptada por extraterrestres. Um dia circular entre sonos. Um dia perdido de remorsos.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

A luz





















É da natureza da luz. É da natureza do negro. A luz quando chega não se vai a escuridão. A escuridão ao chegar despeja a luz.
Sou apenas um homem. Tenho olhos grandes para um homem. tenho olhos pequenos para um bicho. Não tenho olhos para aceitar a luz toda. Tenho medo da escuridão absoluta. Sei onde quero chegar, mas custa-me ir.
A luz é tolerante. A escuridão uma tirania. Já vi a luz. Não sei o que fazer com ela.