sexta-feira, novembro 30, 2007

Faz sol

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É sexta-feira e eu aqui fechado. Lá fora pode ser Verão. E eu aqui fechado. As horas demoram-se. O dia está de sol. Cercado. Cercado por orelhas e olhas. Bisbilhotado. Uma enorme vontade. Vulcão. Uma gargalhada. Um desejo. O verbo ir. Lá fora está sol.

Ir e voltar a amar

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Amei-te outrora. Desamámos. Amei-te depois. Morremos separados em sangue. Amei-te ainda há pouco. Desamaste-me. Amarei-te um dia. Amar-me-ás novamente. Um dia. Entre os dias de trás e os da frente não sei o que devo sentir.

A casa (2)

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Construi a casa num sonho. O ruído entrou no sonho. O sonho ficou vazio. A água entrou no sonho. A loucura entrou no sonho. Quando ia a sair do sonho, sonhei que ficava e sonhava novamente. Sonhei e fiquei.

Antes assim

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Não tivesse deixado o coração em Edimburgo talvez ingressa-se na caravana. Fico de pé à espera que passe para, então, subir a bordo. Vivo preso na liberdade. Antes isso do que livre numa prisão. Antes de pé em dor do que suplicante de joelhos. O que importa? Tenho o coração em Edimburgo.

Demasiado

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Já aconteceu. Passou. A vida sem um ou sem o outro é insonsa. Noites de sono. Noites de insónia. Dor de cabeça. Dor de corpo. Muita água para depois. Que um não atrapalhe o outro.

Dancing with myself

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Estou quase a conseguir. Daqui a nada já está. No final destas palavras. Dançarei sozinho. Dançarei e só saberei porquê. A vantagem dos trinta. Trinta e tal passos. Não está cá para dançar comigo. Mesmo sem ela danço. Estou quase a conseguir. Já danço. Consegui.

Passos perdidos

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Se não tivesse já ido, dizia para ficares. Se tivesse ficado, dizia para ires. Na verdade, se estivesses, dizia para ficares. Entra-me pela vida ou sai-me da cabeça.

Love will tear us apart


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É fatal que um dia nos havemos de nos entender. Então haverá novamente lágrimas. A separação une-nos. Há um amor prometido.


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O teu Deus é melhor que o meu. Tens tudo e eu quase nada. Temos o mesmo Deus. Um só criador. A fé dum é maior que a do outro. Fé íntima. Um dia dormiremos. Um aprenderá a ter mais fé e o outro mais ainda. No novo acordar talvez tenhas menos e eu mais. Haveremos de ir e voltar, mas só no sono saberemos. Memória transitória e instrumental. Deus só justiça e bondade. Deus inteligente e amoroso. Fé íntima.

Natalidade

Jesus é filho de Deus. Jesus é filho de José. O Pai Natal é pai e vem no Natal. Quantos pais tem afinal o Menino?
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quinta-feira, novembro 29, 2007

Quatro elementos

O Fogo vive na Terra. Como a Água vive na Terra. Como o Ar circunda a Terra. Só a Terra é a Terra e não conhece outro sítio que não a si própria.

Terra

A Terra-esfera é plana. Assim me dizem os olhos. Os meus olhos são esféricos e vêem em voo planado. O olhar flutua sobre as copas e mergulha nos rios. Tudo cabe no plano redondo da Terra.

Magia e sortilégio

Não fosses tu a rainha da Noite, das minhas noites em claro, e não estaria agora a carpir as dores da solidão.
Avanças com os passos de tristeza duma alma penada, perfuras a sombra e a escuridão, para me resfriares o corpo, cortar-me o sono, assustares-me com surpresa e tremeres-me a voz e o jeito com a antítese da esperança.
Algumas vezes vi o teu sorriso no rosto austero. Foi antes de te ires. Um dia foste. Foste no dia seguinte ao repouso. Foste numa tarde e levaste a luz do dia. É desse dia que me lembro quando me quero esquecer de ti.
Vejo-te mais do que queria, quando sonhas. Quando sonho. Vejo-te em sonhos. Como todos os sonhos. Chegas-te como alma penada, um fantasma escondido da luz. Vens como a miragem da memória feliz.
Há qualquer coisa de alegria na minha tristeza de ti. Uma centelha de luz. A luz bastante para te recortar o corpo e revelar o rosto sério. Há uma felicidade feita de tempo e algumas certezas. Um luto de veludo negro e escarlate.
Ainda que me doas, há hoje uma felicidade. Canto-te, porque és rainha da Noite, das minhas noites de insónia. Canto-te, porque a alvorada não tarda e delas fugirás como todos os fantasmas.
Sim, canto-te. Canto-te. Porque um fantasma vive. Vives em mim. Nas aparições frias e súbitas. Canto-te feliz, porque sou capaz de cantar. Canto-te com a alegria de quem não ama, mas sabe do amor eterno do passado.
Há alegria no luto. A carne arrancada é carne que já não dói. Sente-se a ferida da ausência. Tudo vai e carne perdida é pedaço dos outros. Por isso há estrelas.
O Sol um dia será uma anã. Um dia voltarei à Terra. Um dia deixarei de ser o teu fantasma. Quiçá um dia tomaremos do outro o amor negado. Não fosses tu a rainha da Noite, das minhas noites ébrias, não seria eu o papagaio dos mesmos dias de amor passados.


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quarta-feira, novembro 21, 2007

O jardim

Até ali há uma sebe bem aparada. Depois começa o verde natural e ao fundo de tudo o lago, a poça grande, há quem prefira dizer assim. O jardim tem o jeito negligente e chique, despenteado a modo que se entenda o charme.
Desalinhados são os passos pensativos. De vez em quando, os olhos atiram-se para o chão e vão seguindo o caminho de areia escassa e raras pedrinhas.
Não se deve olhar o chão. Ver onde se põem os pés. O velho, o rapaz e o burro. Pensa-se melhor com os olhos confortáveis, estejam fixos, fechados ou em voo, rasante ou celestial. Quando se pensa quase nem se repara no horizonte da vista.
Sobre as sebes, sob as árvores, sobre tudo, as aves fazem tangentes e secantes, mas nunca intersecções. Parece que o odor tem ruído e o som tem aroma. Distraídas passam as mãos pela sebe, mais do que os olhos.
Distraídas passam as mãos pela sebe. Mais concretos são os passos. Os passos não têm objectivo. Há uma música muda. Há uma música só na memória. E há a música do envolvimento.Depois do que fica depois do verde natural e do lago há um muro, depois da barreira de árvores grandes. Talvez plátanos. Talvez tílias. Depois do que fica depois, depois das últimas árvores e do muro, fica o que não interessa.
Moby - Porcelain.w...

terça-feira, novembro 20, 2007

Movimento

Quanto falta para chegar? A paisagem chega pela frente e deforma-se na vista de quem a vê passar. No carro. No carro, a rádio e a solidão inquieta. Pressa. Desejo de chegar e usufruto do prazer indefinível de ir.
A vingança. O corte do ar e dos sítios como uma faca. Metal opaco. Sem uma gota de sangue. Gotas de chuva no pára-brisas. Suor da natureza. Metal sensível. Desejo de chegar e usufruto do prazer indefinível de ir.
A carnificina de insectos só cessa no fim. No último rodado. Foge lebre. Foge cão. Foge gato. Fujo para a frente. Fujo sabendo do que fujo. Fujo sabendo do que não sei. Desejo de chegar e usufruto do prazer indefinível de ir.
Quanto falta para chegar. Distância igual à de partir.

segunda-feira, novembro 19, 2007

Hugo Chávez 0 x Juan Carlos 5

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Enquanto mandas outros desobedecem. Se te enfrentam feres. A tua boca infame morde naqueles que acusas de atitudes como as tuas. A tua desfaçatez não engana. Já todos sabem da besta que és. Ainda assim continuas a falar.

domingo, novembro 18, 2007

Pelo vinho

Por que há-de a família ser feliz se a felicidade não vem dos genes? Para isso há o vinho. Por que há-de a família ser infeliz se viver não é triste? para isso há o vinho.

Uma luz em particular

A luz de Alice é a dum país de maravilhas. A luz da memória. Quando o passado é luminoso o presente é de sombra. O futuro é a noite. A noite fica além da vida e Alice sabe-o. À noite reza-se. À noite vai-se. A noite é tempo de consciência. À noite acertam-se as contas. À noite fazem-se novas promessas para que haja esperança pela manhã. Volta-se pela manhã. A luz de Alice faz sombras profundas, é uma janela para a noite.
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Ir e ficar

Enquanto voas para sítios de deslumbre, vou para onde não há interesse nenhum.

terça-feira, novembro 13, 2007

Afinal

Deus está no céu. Deus está em toda a parte. Deus está em nós. Alguém se decide onde está?
Deus é Pai. Deus é Filho. Deus é Espírito Santo. Afinal, quem é Deus? O rementente, o correio ou a encomenda?
Sei as respostas, mas não as digo.
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segunda-feira, novembro 12, 2007

Já dei

Já dei. Para ti e para todas. As outras não interessam. Agora. Para esta conversa.
Já dei. Para ti. Agora vivo na ilha. Há outra ilha, aquela onde nos encontraremos um dia. Uma noite.
Antes era um e um. Depois fomos dois. Agora somos um e um. Um dia outras contas serão. Um dia faremos contas. Um dia. Um dia. Saudade. Raiva. Saudade.

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Ainda que seja só uma miragem

Sinto que o mundo foi feito para mim. Não para reinar. Sinto-me a carregar todas as dores do mundo. Porque há pessoas com sina e outras acessórias. Porque para uns tudo sorri e alegra. Porque para outros só vem tristeza. Carrego com o mundo, sinto-o. A minha vida é uma mentira ou aparência.
Sinto o meu corpo fraco para carregar o peso do mundo. Mas há uma ilha. Uma miragem. No esforço do penar faço a desistência. Porque agora encolho os ombros e esqueço-me. Na ilha. Curto a bom curtir como se não houvesse amanhã.
Na ilha. Há a música. A adição da música. O mundo cabe na ilha. Na ilha há a música. Há droga alucinogénica. Há placebo. Curto a bom curtir como se não houvesse amanhã.
Amanhã não carrego com o mundo. Acredito. Acredito na ilha eterna. Lugar de música e sem amanhãs. Não carrego com o mundo e dali não vou sair. Não há dores. Há placebo.
Canteloupe Island ...

Até lá

Ontem contemplávamos o horizonte. Era amor. Agora estamos sem horizonte. Cada um olha por si. Olhássemos para diante. Olhamos para Poente. Onde esteve o horizonte há uma ilha, a outra vida. Encontraremos-nos lá.
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A vida é um círculo

Não há improvável. Não é provável que Deus se tenha esquecido de algo.
Ben Charest - Bach...

A Bica

Mandei-os a todos passear. Segui rua a baixo cantarolando para dentro. A Bica é assim. Tem janelas e varandas. E de dia é um bairro. À noite há a esplanada. Há de tudo, e quase sempre em bom. Quando a chuva vier verei o êxodo. O brilho nas pedras escuras e o metal paralelo rua abaixo, rua acima. O amarelo parado nos extremos. A Bica é um caminho. Segui o meu cantarolando para dentro.
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Ide-vos

Se me dói é porque devo. Porque tenho. Tenho os pés pesados e cabeça também. Não acredito que possa partilhar os segredos íntimos nem dançar feliz como antes. Fico a ver e não acredito. Não acredito no que sou nem que os outros se possam divertir quanto eu em tempos. Se me fazem doer é porque mereço e deixo. Afinal, não é por se amar anjos que a bondade se estende os gestos.
Um dia destes começo à bofetada e só paro em Cacilhas. Pelas ruas com passos apressados e a mão decidida a estranhar todos. Assim talvez me contente. A dor começa onde começo. Se me dói é porque devo.
Os dias não são um pesadelo. O pesadelo é a vida. Já não levanto os pés, porque os tenho pesados. A cabeça não tem vista sobre a ribeira da cidade e eu, de corpo todo, não vou ao castelo.
O horizonte não é o meu limite. Fico-me por Cacilhas. À bofetada até Cacilhas. Nem mais um dia. Nem mais um dia para ser feliz. Agora fico só por estar em casa e por saber que os telhados são, genericamente, vermelhos. Há a música. Há a colecção de arte e a garrafeira.
Se me dói é porque devo. Mas há a música, a colecção de arte e a garrafeira. Fico a ver os outros divertirem-se. Não acredito que possam ser felizes como o fui. Não é por amar os anjos que o gesto têm bondade. Se me dói é porque mereço. Já só tenho a música, a arte e a colecção de arte.
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Fugir daqui

Apanhava já um clipper. Que estivesse nas Caraíbas e sem tempo para ter o tempo todo. Ser feliz com mojitos e charutos é uma ambição. Pudesse, amarava. Mambo e cha-cha-cha pela tarde e fato de linho ou fato de linho e uma esplanada frente a piscina. Pela noite, pollo ahumado a la criolla. À noite o ar da rua pelas portadas de frestas. A ventoinha e o sono feliz. Pudesse apanhava já um clipper e amarava nas Caraíbas.
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Dualidade

O meu drama é querer conhecer o fim da história e sofrer com a rápida passagem do tempo.
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terça-feira, novembro 06, 2007

Dançar sozinho

A nuvem voltou. Cinzento-negro sobre o campo de flores púrpura e escarlates. No ar do meio flutuam os corpos, estendidos e desmaiados.
Não chove. Não parece que vá chover. Sobre o campo florido passa um ar quente. Um silêncio de sonho.
A bruxa do Oriente vive no seu castelo. As dos outros pontos cardeais estão nos seus sítios. Não se vêem fadas. Saltam coelhos na verdura.
As cores são vivas e sobre o chão verde, púrpura e vermelho passa um ar quente. Ao longe ficam os castelos das bruxas. Não se chega a ter medo.
A nuvem voltou. Há um silêncio de sonho. Não se chega a ter medo. Há fadas que não se vêem. Pode ser que o vento quente a leve para longe, novamente.
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segunda-feira, novembro 05, 2007

Universo

O tudo expande-se para o todo.

Nota: Não percebo o big bang nem a expansão do Universo. Não percebo o antes do início nem como pode o infinito expandir-se nem que espaço existe além do espaço. Embora acredite em Deus nunca o vi nem o compreendo em plenitude.

sexta-feira, novembro 02, 2007

Os dois cavalos


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Amor mais alto

O meu amor foi o mais alto do mundo. O meu amor é uma fotografia. Amor preso numa imagem. O amor é o balanço dum barco, umas vezes vai e outras vem. Um doce salgado, que alegra e agride. O meu amor é o mais alto, distante e frio. Tão alto, inacessível.

Verde esporádico





















Ninguém viu o meu verde como Erva. Se verde é esperança é também desilusão. Verde foi. Os meus olhos esporádicos. Os meus olhos verdes. Os olhos verdes da Erva. Os lábios vermelhos e os beijos, a cama de amor e a esperança entornada. Ninguém viu os meus olhos de verde esporádico, mas os olhos que os viram esqueceram o meu coração.