quarta-feira, outubro 31, 2007

Infidelidade maior

A infidelidade maior. A infidelidade maior é a fidelidade ao passado. Os dias que passaram são já tantos quantos os passados antes deles.
O passado vive. O passado é presente. Ainda há dias desses que acabaram. Não servem as promessas feitas antes. Não valem as promessas feitas depois. Não valem as promessas feitas agora. Nenhum dos dois pode prometer, nem o outro acreditar.
O passado vive nela. O passado vive nele. Sem presente para conjugar, fecham os olhos para não enfrentar o futuro. Um futuro qualquer. Nenhum dos dois pode prometer, nem o outro acreditar.
Acontece tudo nas viagens noturnas. O presente só acontece depois dos corpos se deitarem e deles o espírito se libertar. No espaço sideral vê-se o futuro. Acordados não vêem. Acordada está a dor.
Quem dera aos dois que um não vivesse o outro. Que a memória não corroesse tudo o que existe depois do passado. Nos dois vive nostalgia ácida e saudades escondidas. Só à noite, quando os corpos adormecem, há encontros como os dantes. Acontece tudo à noite. Há mais memória, à noite. Há mais do que memória, à noite.
A separação une-os. A tristeza une-os. A solidão une-os. A nostalgia une-os. A vida separa-os. A infidelidade maior. A infidelidade maior é a fidelidade ao passado. A infidelidade maior contraria a verdade.
O que quer que seja a verdade. Não se fazem mais promessas. Não se acredita. Não se ouve. Só há silêncio e a infidelidade maior.
Quem dera a ele qualquer outra coisa. Quem dera a ela qualquer outra coisa. Que ele não vivesse com ela em separado. Que ela não vivesse com ele em separado. Que não houvesse passado. O que quer que seja a verdade, não se fazem promessas.

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Sala de barbaridade

A indefinível linha. A que prende um cão a duas paredes. Todos os sentimentos dum quadrúpede esbugalhados pela fome e abandono. A barbaridade não é justificação para a barbaridade. A barbaridade não um farol a iluminar os lados negros dos homens. A morte não é grito de socorro para a morte.
A linha que prende um cão a duas paredes é uma maldade concreta. A arte não tem de ser bela e só tem a vida como limite. A indiferença não desculpa a maldade. O animal faminto a pouca distância do letreiro desenhado com comida para cão.
Diz o bárbaro criador que ninguém na sala de exposições manifestou indignação, soltou o cão ou o alimentou. A maldade devia romper a indiferença.
Ainda que tenha só desaparecido. Ainda que seja verdade. A dignidade da vida não é para uma montra de arrogância. Ainda que tenha só desaparecido. A fome e o desamor não são objecto de arte. De arte viva.
O bárbaro, a arte e todos nós. Há um só limite para a arte: a vida. A verdade absoluta. Não a discuto nem desculpo.

sexta-feira, outubro 26, 2007

A casa

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A mãe, o pai e a casa. A infância. A confusão dos dias longos, a insaciável insegurança. As madrugadas lilases. Os entardeceres negros.
Quero outra vez os teus braços e colo. Os teus silêncios. A nossa cumplicidade. O Natal.
A avó. O pai. Os tios. Os manos. O sistema solar. As manhãs curtas. O longo dia de Natal. O fim do Natal.
O verde das paredes e a luz espigada do quarto. A infância. A adolescência. Os segredos.
Quero outra vez os abraços a três. Havia os teus silêncios. A comoção. A dor. O terror. Havia os teus silêncios.
Não quero mais. Lembro-me. Não quero mais. Quero os teus abraços. Havia cumplicidade. Os dias longos e as noites de Inverno.
O modelo. A comoção. A dor. O terror. Os teus silêncios.

Versão para dançar dos Booka Shade.

A verdade sobre a palavra matemática






















Se a matemática fosse uma coisa boa, não seria má temática.

Nota: Tenho um trauma desde o liceu.

quarta-feira, outubro 24, 2007

terça-feira, outubro 23, 2007

Desamores 2

Fazer festas a gatos é coisa suficiente para se fazer na vida!

Vida

A minha vida tem vida própria e só faz o que quer.

Não sei se

Disse-me uma amiga que não sei onde ficam os limites. Respondi-lhe que as fronteiras são linhas imaginárias.
Disse-me uma amiga que confundo as cores. Respondi-lhe que têm os nomes que se quiserem e para mim são tão verdadeiras quanto o são para os outros.
Disse-me uma amiga que baralho as situações. Respondi-lhe que as situações me confundem a mim.
Disse à amiga que em sonhos nada se confunde, que tudo vale e é verdadeiro dentro desse território. Respondeu-me a amiga com o pragmatismo de quem não sonha.
A questão é: ama-se ou não se corresponde.
Às escuras, mesmo entre fantasmas, as almas descolam-se dos corpos. Só há susto na vigília e no despertar. Não dos fantasmas, mas de quem não se encontra fora do sonho.
Não sei se amo. Não sei se amo. Não sei se faço amor.
Às escuras, mesmo entre fantasmas, ama-se. Quem está e os ausentes são amáveis e desejáveis. Às escuras, mesmo entre fantasmas, ama-se quem tem de se amar e tudo é verdadeiro, ainda que em sonhos.
Não sei se amo. Não sei se amo. Não sei se faço amor. Não sei se a ame.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Caminho

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Festa é ficar. O caminho é ir. Festa em caminho é ir para ficar. Caminho em festa é tempo sem horas. saber onde se põem os pés e onde se deixa ficar. Não saber o fim é festa. Saber o fim significa caminho. Saber o fim da festa é tristeza. Não saber o fim do caminho é outra coisa qualquer.

Festa

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Poderia ser água. Poderia ser luz. Não poderia haver chuva. Festa é junto ao limite. Não se sabe onde está o limite.
Poderia ser luz. Era luz. Não era água... poderia ser água desde que não fosse chuva.
Teria de haver música? Teria de haver um limite para que fosse festa.
- O que há além da festa?
- Negro!
Teria de haver Sol, teria. Poderia ser luz. Poderia ser noite. Poderia ser água. Teria de haver um desregramento e um limite.
- Se não houver limite?
- Não sei.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Arrumos

Há um texto novo para ler aqui ao lado... n'o cavalo de dom josé.

A minha vida pela dum gato

Tenho uma mínima ideia. Tenho a vida toda por diante para fazer caso dela. Agora não tenciono saber ou me lembrar dela. Fico satisfeito por saber que tenho uma mínima ideia e que, provavelmente, nunca lhe darei importância.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Três ou quatro dias

Três a quatro dias depois estou no mesmo lugar. Três a quatro dias depois fui e voltei. Três a quatro dias depois abalei para não voltar. Três a quatro dias depois. Que sejam uns dias quaisquer e ninguém dê por isso.

Há-de passar

Este dia há-de passar, ainda que eu fique um dia mais velho. Sinceramente, não sei se estou vivo ou se tenho apenas uma miragem diante.
Ali há uma porta para aqui e na parede está uma janela, uma nesga de vidro e madeira aos quadradinho, apenas duas fileira, que deixa passar a luz para a noite neste ermo. Não fosse o vento e diria que já não vivo.
Que vida haverá atrás da janela dali que dá para aqui? Quem lá vive e que palavras se dizem? A parede visível da casa mostra-se envelhecida, esburacada, desfazendo-se continuadamente. Aquela luz é um vislumbre do Natal.
É a luz da esperança e do calor ténue. É luz da solidão. Tal e qual a luz do Natal. E Outubro não chegou a meio. A parede frágil trava o vento e a luz fraca combate a escuridão. Há uma porta dali para aqui. Quem a quer passar? Quem a atravessa para este ermo? Digo que os degraus não servem para vir, porque ninguém dali vem para aqui.
Vou para outro lado qualquer, porque aqui só há noite e uma visão precoce do Natal. Como me sinto só!... Este dia há-de passar, ainda que eu fique um dia mais velho.

quinta-feira, outubro 04, 2007

A musa

Tenho uma musa. Com esta minha idade, já pouco a vejo, mas à noite encontro-a quase sempre. Ainda que esteja morta, a sua ideia vive em mim, ora dourada ora enegrecida. A minha musa faz-se de memórias e de projecções de desejo, muito carinho e igual dose de incompreensão.
Sou mortal na carne e imortal no espírito, tal como ela - flor vermelha e tocha incandescente. Se o meu corpo, mesmo que morto, possa deixar uma impressão de sua vida, mesmo que apenas na mortalha, deixará também a imagem da musa, que sem ela não seria quem sou.
Todos os dias espero um sinal e todos os dias os recebo. Todos os dias escrevo, e quando não escrevo ela não deixa de me ditar. Se não for de dia, é à noite. Nada do que escrevo é só meu e revelo agora a parceria para que nunca se diga que sou uma fraude.
Tenho uma musa, tenho sim senhores! Com esta minha idade já não a vejo. Encontro-me quase sempre com ela, e, quando não acontece, dita-me ela as palavras à distância. Seja bonita ou deselegante, a mim serve-me bem.

terça-feira, outubro 02, 2007

Pode Deus

Rezas por mim. Rezo por ti. Fora da fé não há qualquer amor entre nós. Nem medo nem hipocrisia, indiferença e uma espécie de desejo. Rezo por ti e lembro-me do passado. Rezas por mim para fugires-me do presente e do futuro, para te salvares. Pode Deus servir a dois antigos amantes?

Vida, minha vida

Cansado da vida que levava, mudei para uma que me é indiferente. Depressa senti saudades da antiga. Mas a vida que levo hoje ainda não se cansou de mim.

Pergunta a Deus
















Meu Deus, que faço eu aqui?
.
.
.
Vives aqui.

Dia daquela música

É quando os dias têm o escuro precoce, e ao ouvir aquela música que não sei definir ou catalogar, que me lembro mais de ti. Não chega a ser uma evocação das madrugas em que te procurava, com desejo e receio, na sala de dança do Lux. Não chega a ser, mas foi a lembrança que me veio.
A minha solidão já vive bem sem ti, já não és a sua companhia nas horas dolorosas. A minha vida ainda não existe sem o passado. Só com passado há um futuro sábio e perdão.
Não sei se já te perdoei. Não sei se já me perdoaste. Não importa. Que importa o perdão no tempo de ausência. Não há ódio. Há silêncio. Nem um murmúrio. Nem escuro nem claridade. Espaço sem som e de branca sombra.
Haveria um silêncio em mim se não fosse aquela música que não sei definir nem arrumar. Este é um dia de escuro precoce, é de Outono. Os dias são maduros, porque não sabem, infelizmente, ser infantis. O futuro é mais feliz sem alguma memória. Hoje é um dia de escuro precoce e daquela música.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Saudade e memória

Tínhamos prometido ser sempre amigos, mas nunca vi as fotografias das tuas viagens. Tudo passou como um sonho, um número mágico em anos.
As noites são longas. As noites passam-se em claro. As noites não têm claridade. É uma saudade e a tristeza dos momentos que não se quiseram. Resta o mesmo desejo de amizade e a lembrança do brilho no olhar.
Tínhamos prometido ser sempre amigos, mas um de nós teve medo. Mas um de nós morreu precipitado. Os dois chorámos, em separado, mas chorámos. Chorámos, por razões diferentes, mas chorámos. Chorámos por razões quase iguais.
Tínhamos prometido tanta coisa... tínhamos prometido tanta coisa e agora, agora é uma mágoa no passado, uma incomodação, um desejo de esquecimento. Tínhamos prometido tanta coisa e ninguém, além de nós, nos ouviu.
Quem somos hoje? Tens a tua viuvez e eu os meus remorsos. Há um tempo de lágrimas que nos separou e todas as dores e medos a soprar contra. Tínhamos prometido ser sempre amigos. Tínhamos prometido tanta coisa. Hoje talvez nada reste de cada um no outro.