sábado, junho 30, 2007

quinta-feira, junho 28, 2007

Circulação artística

A arte corre no sangue. E o maior gozo está em saber que muitas veias não levam a lado nenhum.

Fevereiro e amanhã

Fevereiro foi ontem. O mês não me sai da cabeça. Se pudesse refazia-o todo. Como posso desejar viver amanhã?
Quando a minha loucura se amarra a ti há um naufrágio. Não há farol para avisar a chegada da linha de costa, tão breve e segura, nem a proximidade dos rochedos.
Sinto uma respiração aos pés da cama e outra na cabeceira. Há duas pessoas neste quarto. Vivem-se duas vidas. Por vezes uma só. Por vezes num só corpo. Um corpo feito de suor e gemidos. Agora está cada um separado por um fino muro de indiferença.
Como posso viver amanhã se não sei viver hoje?

Engano do tempo

No tédio dos meus dias encontrei forma de enganar o tempo. Porém enganei-me a mim, pois não deixei de envelhecer.

quarta-feira, junho 27, 2007

Não creio

Não sou dado a fantasias nem a ilusões. Só acredito em pedras. Não acredito em anjos, apenas nos que têm asas azuis. Só nesses, porque as plumas podem desaparecer na beleza do céu e têm a cor mais sublime, a que só um anjo usaria. Quanto a tudo mais, não creio. Sei, porém, que as fadas não vivem nas cidades. Não só não acredito em nada fora do palpável e tangível como desconheço muitos dos mistérios dos sábios obscuros: não faço a mínima ideia de como se reproduzem os gnomos, os duendes e os elfos. Mas o que importa, se neles não creio. Já me bastam os anjos de asas azuis.

terça-feira, junho 26, 2007

Do Estoril

A praia era no Estoril. Trinta anos depois e ainda lá está o mesmo cheiro de mar, iodo, limos e areia. Reencontro com toda a ternura e paciência da mãe.

A beleza

séculos que a beleza de Vénus está imperturbável. O brilho da juventude é divino e talvez não seja fugaz. Sobretudo é real.

Nota: Texto inspirado no post de Beluga no Belogue, que me deu a notícia da proximidade entre a foto de Currin e a pintura de Botticelli.

domingo, junho 24, 2007

Horas inúteis

Os cadernos enchem-se de desenhos inúteis e as palavras são pesadas para voarem com o vento. As horas não tardam em passar e qualquer dia é Natal. Só para arreliar os dias e tornar-nos velhos, qualquer dia é Natal. Agora há vento para contrariar o calor e pode alcançar-se tudo com o olhar. As palavras inúteis juntam-se aos desenhos. Ninguém lhes dará valor nem neles vai reparar. As horas vão rápidas até ao Natal.

Mulher fumando

A mulher à minha esquerda é canhota. Esse facto torna-a quase genial. Parece quase uma miúda, mas é uma mulher. Ri porque não terá razões para chorar, mas fica um silêncio depois de o fazer. Julgava que não fumava: afinal é uma miúda!

Luz e escuridão

A luz esclarece e a verdade toda duma vez encandeia. Não tenho fé na luz. Vejo estrelas e o espaço vazio no céu, não tenho onde projectar sombras. Por isso vivo triste e ignorante.

Eu e as fadas

Atiro pedras às fadas para lhes atrapalhar a vida. Sou um empata-fadas.

sexta-feira, junho 22, 2007

Capitular. Capitulina.





















Deixei de saber escrever e não sei a cor do céu sob o qual me deito. É tarde! É cedo! Dissabor.
Estou sentado num jardim e consigo imaginar que não oiço todos os sons que não quero ouvir. É quase orgásmico. Porém, vem um odor a flores que me perturba. É demasiado agradável para que me tenha todo aqui.
É curioso que se aprecie o odor das flores e se critique o seu sabor. Num vinho, por exemplo. O ramalhete torna-se num velório ou noutra coisa qualquer que não num vinho. O aroma das flores é quase ácido, corrosivo, e faz mal ao estômago.
Por excesso de vinho ou por abstinência sexual, reconheço que vejo as rectas como se fossem curvas ligeiras. Não digam que é ilusão de óptica, pois só tal o afirma quem pode desfazer o equívoco. Apenas noto que muitos afiançam tratar-se duma coisa que teimo ser outra.
Porém há muito que deixei de teimar. Sei ter poderes diferentes dos outros. Ainda há pouco notava o ar incomodado com que me olhavam. Pensavam apenas no sabor. No sabor amargo da cera dos meus ouvidos. Não é escatologia, pois sinto à distância o seu sabor.
Não teimo. Deixei de teimar até as certezas. Com todo este cansaço, não sei mais escrever. Lanço-me no Verão e seja o que vier.

Desamores





















As refeições são eternas. Os amores são perpétuos. Há tremendas e repetidas ilusões. Só as cascatas são abruptas.

Fronteira

Entre um lado e o outro passa um fino fio de fronteira. Espero não pisar uma mina para não ver a Terra Santa do ar.

quinta-feira, junho 21, 2007

Dois vinhos, um só vale

Se o homem consegue milagres, um deles fica em Portugal. O Douro era indomável, feito de cascatas, rápidos e outras traições à navegação. Os portugueses fizeram dele estrada de comércio e domesticaram-no. A íngreme moldura serrana do rio foi esculpida para que as encostas se tornassem produtivas.
A força deste milagre chama-se vinho do Porto. Foi a riqueza que gera que fez com que as encostas fossem escavadas em socalcos... com os primeiros patamares a surgirem no final do século XVIII.
A região duriense foi a primeira região do mundo a ser demarcada . Mas o que importa mesmo são os sabores e os aromas ímpares.
Os ingleses apreciaram este vinho desde que o provaram e por muitos anos foram os seus grandes consumidores, e os homens do Douro fizeram-no ao gosto dos fregueses. Mais tarde, o Brasil tornou-se noutro grande mercado. Hoje este vinho é universal e exportado para todo o mundo.
O vinho do Porto não foi sempre igual... até ao ano em que uma colheita se tornou numa referência. Aconteceu em 1820, segundo João Nicolau de Almeida, responsável da casa Ramos Pinto.
Por ser um produto nascido para a exportação, o vinho do Porto é quase desconhecido dos portugueses, que consomem, sobretudo, os produtos de menor qualidade.
O vinho do Porto tem uma elevada percentagem de álcool. O limite mínimo para os brancos é 16,5%, enquanto para os tintos é de 19%. Os brancos dividem-se em cinco categorias de doçura, do muito-doce ao extra-seco.
Os vinhos do Porto correntes são resultado da mistura de diversas colheitas, são os chamados vinhos de lote: é o caso dos brancos, dos ruby e dos tawnies. Os ruby são avermelhados, porque envelhecem menos tempo em madeira do que os tawnies, que têm uma cor aloirada. Alguns tawnies podem indicar 10, 20, 30 ou 40 anos, ou seja a idade média dos vinhos que compõe em seu lote.
Os melhores vinhos do Porto passam mais anos a envelhecer e são provenientes de uma só vindima, daí designarem-se por vintage, que significa colheita em inglês. Dentro dos vintage existem os garrafeira, que envelhecem em vidro, e os LBV, ou late bottle vintage, colheita engarrafada tardiamente. Quando a produção é originária de uma só quinta, esta pode vir referida no rótulo.
Difícil? O vinho do Porto é assim mesmo, já no século XIX se dizia que há tantos tipos de vinho do Porto quanto os tons das fitas à venda num retroseiro...
O vinho do Porto tem associada uma imagem de glamour... é o que emana do prestígio das suas caves e do charme das suas quintas fidalgas. Mas a realidade é diferente...
A vinha total ocupa quase 39 mil hectares e o grosso da produção vem de pequenas parcelas. A propriedade média tem pouco mais de um hectar. A produtividade por hectar é de 30 hectolitros ou 4100 quilos.
O Douro vinhateiro espalha-se por quatro distritos e divide-se nas subregiões do Baixo Corgo, Cima Corgo e Douro Superior. É uma área variada, com diferentes exposições solares e altitudes que vão dos 60 aos mil metros.
Embora na actualidade existam cinco castas preferenciais, nas vinhas velhas do Douro há perto de uma centena de variedades. O solo de xisto é o traço de união e agente fundamental para o Vinho do Porto. É desta imensidão de factores que resulta a grande complexidade dos vinhos. Até 1986, o envelhecimento fazia-se obrigatoriamente em Gaia, onde vinha respirar ar mais húmido. A montante estavam as quintas e junto ao Porto as caves dos exportadores.
Hoje, o vinho já não desce o rio em barcos rabelos, que outrora demoravam três dias e três noites para fazer os 150 quilómetros que distam entre o Pinhão e a ribeira de Gaia. As embarcações são agora património cultura das duas cidades irmãs da foz do Douro.
Mas o vinho do Porto continua a ser tradição e ritual, e sinónimo de acontecimento. Num edifício portuense com clara traça britânica do século XVIII fica a Feitoria Inglesa. De grémio comercial tornou-se num verdadeiro clube, que hoje ainda mantém os almoços de quarta-feira.
Ao vinho do Porto pode também chamar-se remédio. Nos trópicos bebia-se o Quinado: o Porto com quinino era usado contra a malária. Mas a sua maior eficácia sente-se no coração, nos afectos...
Tim Bergqvist, da Quinta de La Rosa, lembra a vez em que o seu avô, o exportador Alberto Feuerheerd, juntou à mesa dois amigos desavindos... O repasto terminou com a tradicional garrafa de vintage. Quando se esvaziou eram novamente todos amigos. Um ano mais tarde, os amigos outrora desavindos ofereceram ao apaziguador uma garrafa em cristal da Irlanda, ainda hoje na Quinta de La Rosa, com capacidade para três garrafas de Porto, uma por cada um dos amigos. «O vinho do Porto cura tudo menos a morte». O Porto é um remédio santo ou um vinho imortal.
Douro é uma palavra céltica de significado desconhecido, mas com um vinho de fama mundial e um outro a fazer-se de excelência, bem se pode dizer que é de ouro este vale e este rio.
Há quem diga que todos os vinhos seriam do Porto se pudessem ... mas talvez não todos. No mesmo vale do Douro nasce também num vinho natural, um vinho de pasto que em tempos lutou pela existência. O Porto e o Douro são dois irmãos separados à nascença.
O vinho do Douro renasceu, mas até há uns anos poucas casas se atreviam a avançar. O mosto das uvas que não gerava vinho do Porto ia quase todo para destilação. Mas uma revolução soprou pelo vale, multiplicando os investimentos e as ousadias. Os lavradores do Douro já não têm receio de dar hoje a beber os seus vinhos de mesa. É um verdadeiro regresso às origens.
O vinho português nem sempre é bem visto fora de portas. Por isso, os lavradores durienses sabem que o futuro passa pela qualidade e por muito trabalho, e há a esperança de que o Porto ajude o Douro no estrangeiro, com a sua notoriedade e a fama.
A região duriense é talvez a mais aristocrática das regiões vinhateiras portuguesas. Não apenas por ser o berço do Porto, mas pela massa crítica que se dedica às vinhas. É uma terra de visionários, de gente à frente do seu tempo, desde a célebre Ferreirinha ao barão de Forrester, contrário à aguardentação dos vinhos. Mais recentemente de Fernando Nicolau de Almeida, criador do Barca Velha, ou José Ramos Pinto Rosas, que modernizou a viticultura duriense.
O vale do Douro é um encanto para os olhos. A natureza tem ali uma força diferente e a acção do homem é de espanto. Contudo, fazer vinho nestes fortes declives tem custos elevados. Num mundo em que a concorrência é global, a sabedoria e a inteligência têm de trabalhar juntas para que haja futuro.
Quem gosta de bom vinho não passa sem um Porto e os que provam um bom Douro não lhe ficam indiferentes. A região é grande, diversa e generosa o suficiente para nela caberem dois vinhos de excelência e sem um ensombrar a vida do outro.
Na região há mais do que tradição. Uma nova geração chegou às vinhas, depois de ter visto o mundo. É sangue novo que traz ideias e dá atenção à qualidade e à personalidade... É uma gente que quer mudanças e aproveitar o que de melhor outras gerações deram ao Douro.O tempo passa em todo o lado, mas no Douro o futuro nunca se esquece do passado.

Nota: Texto adaptado da reportagem que escrevi para o programa «Da Terra Ao Mar» da RTP 2.

quarta-feira, junho 20, 2007

terça-feira, junho 19, 2007

Árvore de Verão














A magia das árvores está na noite. Nelas se deitam os braços e deleitam os olhos. É Verão. Num jardim, uma maria-rapaz sobe pelo tronco e fica-se sob a copa a sonhar namoros. O luar enfeitiça-lhe os olhos e desaperta-lhe a blusa. É Verão. Por mais maria-rapaz que seja não vão passar muitos dias até se ir de amores e corar. Acontecerá à luz do dia, mas à noite virá suspirar encostada à madeira sagrada das árvores e, quem sabe, se algo mais se irá passar. É Verão.

Tempo rápido

O tempo por vezes acelera-se e a cabeça pende para a frente. As vozes dos espectros alvoroçam-se e há uma música doida que se escuta na alma e quer fazer dançar e festejar o corpo. Não importa se o tempo corre feliz ou triste, há momentos onde vai mais depressa.
Sim, é loucura. É de loucura o tempo que perde a medida. Sim, há sempre dor, mesmo quando há felicidade no momento, pois virá ardor do descontrolo e pela perda do prazer. E ainda há a ira, toda de vermelho.
É sempre de dançar o momento em que o tempo muda a forma. Há um endoidecer pelo corpo e a alma que não se desapega e cega pelos ouvidos. Sim, será dor. Será sempre dor.

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domingo, junho 17, 2007

O compasso





















Na oficina havia uns compassos de cobre feitos de duas meias-luas postas de modo oposto. Já sonhei muito e ainda não se me revelou para que pudessem servir tão belos objectos. Ainda bem, assim vivem mais tempo em mim.
Tinham odor de metal que se transportava para os dedos como o dos bailarinos passa para os espectadores do palco para a plateia. Prendiam-me os dedos e faziam-me doer se eu quisesse... Exactamente como um bailado faz às emoções de quem vê.
Ainda hoje estou para perceber para que serve um bailado.

Uf!

O trabalho só impressiona os ociosos:
- são esses que o glorificam!

Pausa



















Falta ingenuidade para a felicidade. Entra-se na febril procura da novidade e fica-se confuso. Reconheço:
- Não sei distinguir uma fotografia duma pintura.
Questiono-me frente a objectos e desafio-me em conceitos e cantigas.
- O que é afinal a felicidade? Nada vai restar dos corpos depois desta vida e haverá, talvez, uma lembrança.
Depois de muito tempo o universo irá encarregar-se de mandar toda a arte para o lixo. Falta ingenuidade para a felicidade.

sexta-feira, junho 15, 2007

O afecto e a sopa

Tu és muito bonita. Eu tenho muito sono e como a sopa toda. Tenho sempre muito sono e nem sempre como a sopa toda. Tu és sempre muito bonita.
Não me lembro deste mono-diálogo, mas passado todos estes anos continua a ser verdade. Como sempre sopa e tu estás sempre bonita.

Nota: Este texto é dedicado à Bolacha.

quinta-feira, junho 14, 2007

Homofobia





















O Inferno é uma orgia homossexual.

À espera da luz

Não há medo na chuva nem ódio na luz. Há uma janela sobre os ventos e as tempestades e vontade de declamar pensamentos frente às auroras bureais.
A noite nunca foi mais escura nem o dia nasceu tão tarde. Os primeiros pássaros vão começar a cantar dentro de, precisamente, três horas. Está um frio que chega aos ossos e uma humidade miudinha e levá-lo ainda mais fundo. O odor feliz das flores garante-me a madrugada. Esta madrugada.
Faltam, precisamente, três horas para o alvorecer. Está um negrum teatral e um silêncio de solidão... nem pássaros ou murmúrios. O céu em quietude e vontade de declamar sem fôlego. Não há medo na chuva nem ódio na luz. Na janela sobre a tempestade debruçam-se os audazes, enfrentado, de frente, a espera de toda a luz.

quarta-feira, junho 13, 2007

Chá e vinho

Quem não bebeu chá em pequenino não pode, na idade adulta, dissertar sobre o vinho.
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Dia feriado de Lisboa

Não sou sem Lisboa e ela é mesmo sem mim. As cidades não são ingratas, só as pessoas o são, ainda que as praças precisem de muita gente para se fazerem. Mergulho nas ruas desta quase na foz do Tejo e desapareço e estou em toda a parte e todas as partes podem saber de mim.
Lisboa é um salpico e nada é só a aparência. Entro pelo espelho e piso o chão de Alfama ou sento-me numa mesa à espera do vento no Chiado e levanto voo em Santa Catarina, mas não desdenho as Avenidas Novas nem Benfica. Porquê? Porque são compartimentos duma mesma casa.
Os corredores da casa vão dar a todos os quartos onde dormem e trabalham todos os que tornam viva Lisboa. Uns trabalham na cidade maior outros fazem por que outros vivam ou trabalhem na maior das cidades. Tudo mexe e há até tempo para os pardais.
Não sou sem Lisboa e ela é mesmo sem mim. Não me importo. As pedras não cantam pessoas, são estas que as glorificam e talham e dão vida. Por mim fico feliz por aqui passar um rio e haver ruas e largos como estes. Por haver gente diferente, uma rica e outra pobre, e haver tudo o que há, para poder amar e amaldiçoar o dia-a-dia.

Nota: Os corredores da casa vão dar a Almada, Alcochete, Amadora, Azambuja, Barreiro, Cascais, Loures, Mafra, Moita, Montijo, Odivelas, Oeiras, Palmela, Seixal, Sesimbra, Sintra e Vila Franca. Uf! É grande a casa!

Maluqueiras e outros pânicos

Que não se confunda a loucura da noite de Santo António com as tentações de Santo Antão.

terça-feira, junho 12, 2007

Qualquer outra flor, uma que arda



















Não quero estrelícias nem outras flores de canto, pois reneguei todas as de fino recorte e quero apenas as que se pareçam com frescura e virgindade.
Da estrelícia recuso o canto fino e esguio como um sopro insuportável e o fingimento de objecto escultural, metálico e frio, perfurante quase como uma arma.
Não quero estrelícias, porque cantam demasiado. Não nego que sejam belas, essas flores. Reconheço a musicalidade do seu lamento. Mas, estrelícias não quero!
Dêem-me uma outra qualquer flor, mesmo não apreciada, mesmo feia e desajeitada, e tê-la-ei na casa do casaco. Uma outra flor qualquer que não brilhe de braços abertos como uma estrela viva. Quero uma flor que arda, não uma que cante! Uma outra flor qualquer, uma estrelícia é que não!

Amizades

A amizade existe ainda que os olhos não vejam e os ouvidos não oiçam... Nem nunca se tenha sabido do corpo.

Nota: Esta afirmação é dedicada à Manel, à Raquel e à Soukha.

Oh!

A arte não tem a ver com o bom gosto nem com o bom senso. Aliás, nem sequer são, necessariamente, conceitos irmãos.

segunda-feira, junho 11, 2007

Mundo

Passo dum país para outro com a normalidade dos passos distraídos. Não quero conhecer as fronteiras e por mim todos os Estados são iguais, feitos de paisagens e pessoas diferentes.
O mundo faz-se de pouca gente, não vale a pena pensar que somos muitos. É mais difícil enumerar os países, que são menos.
Tenho uma namorada linda que não me acompanha nas viagens. Tenho uma namorada tão bela qunato a outra que me espera em todas as chegadas. O mundo não tem fronteiras, apenas linhas imaginárias e inúteis aos passos distraídos.
Do mundo não se passa. Da fronteira do mundo não se passa enquanto se está com os pés na Terra. Nem mesmo os astronautas que vão à Lua, pois espreitam sempre pela janela para a casa.
A Terra é plana e redonda e quadrada e cúbica e da forma que der mais jeito para atravessar as fronteiras com passos normais de quem vai distraidamente percorrendo-a. Passo dum país para outro indiferente à viagens. Não viajo! Não sou aventureiro nem turista, apenas me desloco indiferente às fronteiras: como um bicho migratório, mas errante.

domingo, junho 10, 2007

sábado, junho 09, 2007

Sou, tenho e devia

Tenho sempre nuvens no Sol. A minha vida está demasiado arrumada para que a viva feliz. Preciso de ouvir mais vezes os conselhos dos gatos. A natureza é sábia e eu muito prosaico: só sei aquilo que me ensinam os livros certos e desprezo os errados. Corro muitos riscos ao não correr risco nenhum. Tento fazer tudo como deve de ser, o que é o primeiro passo para não o fazer. Devia aprender malabarismos, a cuspir fogo, a não temer andar descalço. Sou, tenho e devia.

sexta-feira, junho 08, 2007

O megafone

Tenho uma grande tropa em casa. Não a posso escutar toda. É um regimento que não se cala e se ultrapassa e atropela aflito. Tenho uma loucura precisada de falar. Se abro a boca, toda a tropa fala, por mim, desalinhada e leva-me toda a força até ficar desfeito e sem sangue. Há dor no disciplinar de tanto desalinho. Sou o seu alimento e garganta.

Sonhar

Sonhar não é o mesmo que estar vivo. É melhor!

Amar

Não sei amar diferente, só sei amar igual. Amo-te igual ao que me amas. Ainda que me queiras tão pouco quero-te muitíssimo. Amo igual às pedras, às árvores e aos rios. Amo igual a toda a gente numa banalidade confrangedora. Amo-te igual à tua mãe num desconforto duma camisola de lã grosseira sobre a pele despida e húmida. Amo-te igual e destintamente. A diferença do meu amor está na parecença que tem com todos os que amamos e com tudo o que se pode amar, mesmo que ninguém me ame. Amo como uma mãe quer o seu recém-nascido. Amo por amar. Amo por só saber amar e disso precisar... por de ti precisar. É igual.

Pequenos amores

Os amores pequeninos são maiores, porque resistem a tudo. A adversidade passa-lhe por cima ou não os vê. Os amores pequeninos resistem, não têm compromissos nem grandes sonhos e, por isso, podem ir mais longe. Os grandes amores desejam muito e partem-se em dores e desilusões. Os grandes amores são frágeis e quebradiços. Tudo o que é não é o que parece nem o que a vontade deseja. Os meus amores nascem todos grandes e aspiram ao divino. Nenhum medra e morrem jovens, imaturos, sem glória nem brilho. Desejo menos, desejo nada, mas acontece sempre grande. Por mim não amaria vez nenhuma nem teria amado, para ser virgem toda a vida, para não conhecer o doce nem o amargo ou a amplitude. Tudo em mim se parte e falece. Talvez um dia nasça para mim o mais minúsculo amor para que tenha a mais ampla alegria.

Peixe-homem

Quero ser um peixe numa piscina. Evoco a herança numa piscina nos incontáveis percursos na piscina, nos repetivos caminhos de vinte e cinco metros, na monotonia de azul claro e nas voltas ao sinal dos tês. Quero ser um peixe e não um cetáceo, apesar de respirar fora de água. Quero ser o único peixe que nada em crawl. Nado indefinidamente em crawl... cinquenta piscinas a respirar para a direita e cinquenta piscinas a fazê-lo para a esquerda. Quero ser o único peixe que respira fora de água. Não tenho guelras nem escamas. Tenho pulmões e nado crawl. Nado nu e nada em mim se parece com um peixe, apenas a vontade de ser peixe.

quinta-feira, junho 07, 2007

Elisa

Pela Elisa gostaria de aprender piano. A Elisa está morta. Quem é a Elisa? O piano tem três pedais e nenhum serve para acelerar ou travar ou para engatilhar um mecanismo de selecção de força e velocidade. Sou um bruto! Percebo tanto de música como de pêssegos maduros e hortênsias.
Hoje na rua cheirou-me a rosmaninho e, por momentos, tive a sensação de que poderia tocar piano. Lembrei-me do aroma do mel, o odor recordou-me o perfume enjoativo do mel. Nesse instante julguei que talvez houvesse uma esperança de poder aprender a tocar piano.
Um veículo percorreu a rua e um bafo a diesel trouxe-me à realidade. Sou feito de matéria e insensibilidade. Não sei apreciar a finura das flores nem o toque das teclas dum piano. Gostaria de ter conhecido a Elisa, mas sou incapaz de perceber a razão que terá levado Beethoven a escrever-lhe música. Porém, Elisa está morta.













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quarta-feira, junho 06, 2007

A mentira

A mentira é a mais incompreendida forma de criação artística!

A cozinha

Dá-me sempre a pressa depois do amor, como tocassem à campaínha e fosse uma carta urgente que não pudesse esperar e abalasse em breve. Fica comigo o teu cheiro forte, depois do amor, como perdura na boca o aroma das bolachas maria e do leite a seguir ao lanche. A cozinha será sempre um local de correria: para a porta, na ânsia higiénica pós-coito, na confusão seguinte à refeição e na insignificância inútil de todos os outros momentos. Também se faz amor na cozinha... faz-se a correr.

Nota: Sim, bem sei que a personagem desta pintura digital não está numa cozinha, mas dirige-se para lá.

segunda-feira, junho 04, 2007

A viagem

Os olhos fundos são a passagem para o outro lado do universo. Não há coragem para os enfrentar nem jogo mais angustiante de sedução. Como evitá-los?
A noite avança como um comboio rápido. Insensível a todos os receios e à luz das carruagens. Um gesto brusco, muito brusto e brutal, pela negritude. O ruído do metal rolante e a ausência do silvo.
Na noite, na carruagem de luz amarela, lê-se o jornal e fuma-se um charuto. A noite é um pano negro do outro lado da janela suja. Os olhos encontram-se no espelho da abertura e desiludem-se na intranquilidade da noite.
Fora do comboio há uma paisagem. No cimo há céu. Dentro do compartimento só pensamentos e a orquestração da ferrovia. De olhos bem fechados contemplam-se os dias anteriores e a eternidade.
Na evocação do passageiro, os anjos cercam o seu corpo jacente. Os olhos fundos são a passagem para o outro lado do universo. Não há como voltar para trás nem tempo para despedidas. O momento é de ficar ali mesmo: a cinza do charuto caindo sob o jornal. O olhar fica perpétuo.

Anjos

Os anjos que vi não precisavam de braços nem de pernas e ainda menos de asas, deslocavam-se por pensamento e porque sim. Por que haveriam de ter seis membros como um insecto?
Os anjos que vi não estavam vestidos nem despidos, eram feitos de luz e não de materia. Nem de carne nem de metal. Por que haveriam de ser uma planta ou uma pedra?
Não há anjos caídos, porque da sabedoria não se cai. Os anjos que vi eram todos feitos de bondade e nisso eram o que se espera dos anjos.

domingo, junho 03, 2007

Junho

Não sei se o céu de Junho é como o de antigamente. Os meus olhos estão diferentes, disso tenho a certeza. O coração não se comove, está guardado em Edimburgo, e a cabeça fundiu-se e parou. Não sei se o céu de Junho é como o de antigamente ou se apenas o vejo e sinto diferente.
A noite de Santo António só podia acontecer em Junho. Não por causa do santo, mas por causa da loucura. O mesmo para a do São João. As noites de Junho são especiais como a luz das tardes de Maio.
Junho é contentamento e lembrança. Deve ser por saudades que as pessoas se matam mais no princípio do Verão. Não compreendo, porque há uma brisa capaz de levar toda a tristeza e trazer do mar as fantasias de sal e espuma.
As noites de Junho são um burburinho ao longe e o passado é um rumor de revolução ouvido ao longe, que entontece. É por isso que se deve olhar o céu à noite em Junho. É tempo para estar à janela ou sair em camisa. O ano começa em Junho.
A felicidade é a memória dum Verão distante. O eco da música do transistor e os salpicos entre gargalhadas. O meu contentamento é feito de muitos anos compactados num só, um só Junho nas areias do Estoril. O ano começa em Junho.

sábado, junho 02, 2007

Insanidade resumida

A minha loucura não está na soma de diferentes personalidades, mas na síntese de pessoas que há em mim. As muitas vozes que tenho na cabeça resumem-se a um só estrondo.

sexta-feira, junho 01, 2007

Sempre as mesmas outras dúvidas

A matéria é palpável. O espírito é impalpável e quase indefinivel com palavras. Deus é espírito. O Espírito Santo é espírito. Os cristãos não se entendem quanto à natureza do Cristo: espírito, matéria, espírito e matéria. Cristo era homem ou era também homem? Os cristãos não se entendem quanto à forma e dimensão de Deus. Credo! Um católico romano: «Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não criado, consubstancial ao Pai». Credo! Credo de Niceia e Constantinopla.
Os Cristãos não se entendem quanto à alma: pre-existente ao nascimento, existente com o nascimento, falecente com a morte, eterna e imortal. Os homens não se entendem quanto à natureza do homem: só corpo, só alma, corpo e alma.
E quanto à arte: é matéria ou é espírito ou é matéria e espírito? Ainda e sempre, a mesma pergunta mantém-se: O que é a arte?
Com tanta semelhança na permanência das dúvidas e teima na litigância, quererá isto dizer que a arte é humana ou é divina? Um reflexo.

Museu eterno

Para onde vão as obras de arte depois de mortas, esquecidas ou destruídas? Gosto de pensar num paraíso onde repousarão imortalmente, imóveis as quietas e evolutivas as que tiverem essa essência.

Sabedorias



















Há questões tão complexas que nem as minhas gatas conseguem responder.