segunda-feira, abril 30, 2007

O moínho

Tenho um moínho de vento de brincar nas mãos. Roda numa ilusão de óptica e faz luz. Tem mais cores do que a natureza, é uma saia de dama antiga.
A janela dá para um prado de toda a luz. Nele vacas felizes pastam sem pressa e árvores de sombra multicor estão absolutamente imóveis. Há vento morno de Oeste e a silhueta longínqua dum castelo.
No beiral da janela finquei pequenos moínhos de vento de brincar, muito coloridos e frágeis. Dão uma festividade diferente à banalidade campestre. São inúteis nas funções práticas, mas muitos úteis para sonhar.

sexta-feira, abril 27, 2007

Santa Apolónia

Uma igreja laica de três naves, a nave maior de muita luz, e todas elas profanas e terrenas. Nada de divino por ali. Chegam animais de ferro donde saem corpos apressados e dores de alma, para onde entram dramas e despedidas. Passos pesados, lugares vazios, trabalhadores, suburbanos, tropas, políticos, emigrantes, viajantes, turistas, carteiristas, proxenetas e pederastas. Tudo. Uma nave de passos pesados, de multidões, de sujidade, de crimes e incompreensão. Por que se chama santa a esta igreja?

quinta-feira, abril 26, 2007

Sem segredo

Já disse tudo o que tinha para dizer. Agora só digo palavras para dizer música e receber o eco das pedras e da madeira. É essa a sina dum solitário. Na verdade descubro palavras e letras que me disseste na palavras que escrevi no ar. Julgava capaz de guardar um segredo: afinal não sou um poço, mas um tubo oco e aberto nas extremidades. Por mim vê-se o céu, o mar e as florestas. Em mim não se guardam segredos.
Só eu sou um segredo. Porém, já disse tudo o que tinha a dizer. estarei revelado como um telhado ao meio-dia. Esperei ser em ti um mar e o desamor fez de mim uma poça ou pouco mais. Sou um charco de água onde se pode mergulhar, estou disponível: guardo alguma coisa, mas nada de importante que valha a pena esconder.
Não guardo segredos. Poderia querer guardá-los todos, mas as minhas mãos largas de dedos abertos e os meus braços franqueados deixam-nos escapar todos como os minutos num relógio. A minha boca não tem passador nem filtro, é uma abóbada celeste onde as palavras se erguem soltas e partem para onde tiverem de ir. Não guardo segredos. Não sei guardar.

quarta-feira, abril 25, 2007

Trapézio indeciso

















Qualquer coisa voa em mim. O meu corpo prende a asa e, essa coisa que em mim voa, volta. Desdobro-me em ida e volta. Não sou corpo nem sou alma, sou um trapézio indeciso.
Há uma toada, uma canção, um encantamento, um desfalecimento. Há um rio que se deixa ir. Sou um borbulhar de mergulho, arrepio de frio e o nadador que vem à tona para respirar.
É a vida que vai e volta muitas vezes. O corpo vai e volta à terra. A alma voa em torno da Terra. Desdobro-me em ida e volta. Não sou só corpo, mas principalmente alma. Por agora sou um trapézio indeciso.

terça-feira, abril 24, 2007

Acontece no sono

Acontece em qualquer sono não ter sono. Acontece acordar a meio da noite suado, com medo de si mesmo, ou não acordar, com medo de se estar acordado, ou com medo de não mais acordar e, contudo, estar consciente. Acontece sonhar que se está a sonhar e, porém, não se acorda nem acaba o pesadelo. Acontece toda a infância fora de época e nada se pode fazer, e assiste-se impotente a todos os constrangimentos passados e vividos por mais uma vez. Acontece que não nos compreendem e nos falam com voz condescendente, enquanto nos dizem que não é nada e dias mais felizes virão, que tudo não passa de invenções da cabeça. Acontece acordar aflito para urinar e em que não se consegue levantar, e apenas se pode mexer os olhos, por aterrado. Acontece tudo, menos aquilo que se queria que acontecesse. Acontece, porra! Acontece. Acontece em qualquer sono não ter sono e, em algumas respirações, parar de respirar: sonha-se em mergulho profundo.

domingo, abril 22, 2007

A risada

Tenho vontade de voltar a fazer todos os poemas que não devia ter escrito e dos entragar novamente às mulheres erradas. Ainda que voltasse a ter pesadelos, voltaria a enamorar-me perdidamente por quem não me quis beijar e me rebentou o coração com granadas. Tenho vontade de surgir medonho nos pesadelos de alguém e de roubar horas de sono. Deixar-lhes latidos sinistros e vir-me embora às gargalhadas. Se pudesse voltava de novo a viver e seria novamente adolescente.

Árvores















As árvores dão sombra e deixam pender as folhas para abrigar as solidões. Doutra forma não seriam quase deusas nem tão belas. Só obedecem à física porque querem e só morrem por sua vontade. Há uma fraternidade sob as árvores, testemunhas silenciosas de tudo. São comedoras de luz e frente delas a frente de vista faz-se diferente. Abraço carente os trocos e sacio-me neles. Encontro a origem da vida e o seu sentido. As árvores dizem-me quase tudo o que tenho para saber, o resto sei pela luz.

sexta-feira, abril 20, 2007

Noite transparente

Lembro-me da noite passada, foi uma noite transparente. Choveu calmamente sem parar, como quem chorar por missão. O ruído da rua abafou-se sob a água e, pela manhã, não houve orvalhada nem os pássaros ousaram cantar. Só agora, que a luz ousa furar a almofada de nuvens, se podem escutar os cantos.
Quanto à noite passada... estiveste triste, a dormir. Descansaste dentro da tua camisa e sonhaste com vida mansa, quase quieta, porque também se deseja o que se tem. O copo de água, meio cheio, ficou à espera de ser todo bebido e no frigorífico o leite arrefeceu em espera de se aquecer.
Não houve uma aurora bureal por manifesta deslocação meridional da posição, mas poderia ter acontecido. Por cá, aconteceu quase tudo na noite passada. Foi uma noite transparente, de chuva mansa sem parar.

quinta-feira, abril 19, 2007

Rosa subtil

Não é por não existirem que as rosas negras têm menos perfume. Na minha cabeça há paisagens feitas de alamedas com roseirais floridos e um perfume subtil e frágil de rosas negras atravessa-se ao caminho.
Vou a caminho do mar. Venho do sítio das pedras grandes e redondas. Estou no alto do vento meigo. Para todos os lugares há caminhos orlados de roseiras bravas e negras. As abelhas pousam-lhes como em qualquer outra flor, como se fossem daltónicas ou insensíveis à raridade da cor.
O toque das pétalas é macio e ao tocar-se-lhes fica-se para sempre impressionado. Mas mais espanto tem o aroma: a coisa nenhuma sentida e a tudo o que se sabe. Mais do que rosa, muito além da cristandade.
Talvez as abelhas saibam que seja apenas uma flor. Apenas uma flor. E por isso lhe pousem distraídas e indiferentes à cor. Rosa negra.

quarta-feira, abril 18, 2007

O meu amor não é florido e isso talvez baste

Não pode haver certeza sem dúvida nem o meu amor é florido, mas feito de pedra negra e xistosa com água viva, transparente, sempre corrente.
Se sei onde estás é porque não te espio os dias. Sei onde estás porque mo dizes. Acredito, não tenho escolhas, confio. Não te vigio e fecho os olhos, sem ciúme ou outra doença. Contudo, na verdade, não sei nada sobre ti.
Não te passo flores pela pele nem te elogio os olhos com a regularidade enamorada dos patetas. Prefiro definir-te os odores todos e conhecer-te os sabores. Não te conto, porque suponho que te conheças. Sou ou tento ser racional e frio. Tão distante quanto tu quando te deitas. Tão frio quanto os teus pés no Inverno.
Entre nós corre um rio de segredos e alguma inveja. Quero-te o ventre e o poder. Tu queres qualquer coisa de mim que não sei o que é. Sou homem e tu és mulher. Formamos um casal absolutamente banal, temos conversas entediantes e segredos normais. Isso talvez baste.

segunda-feira, abril 16, 2007

Jogar ao amor

Quem não tem sorte ao jogo nunca tem sorte ao amor. Aprende-se isso nos filmes do James Bond.

Vidas

Com o tempo ganha-se experiência. A experiência permite melhor discernimento. Então, por que ficam as pessoas mais complicadas com a idade?

domingo, abril 15, 2007

Encontro de medos

A aridez do tempo não é nada quando comparada com a dos sentimentos. Dois minutos sentados frente a frente são meias horas que passam. Quem desiste primeiro de respirar? Um fala compulsivamente e o outro fuma cai vertiginosamente no vício dos cigarros. Entre um e outro uma mesa de medo e de colóquios banais. Tudo é medo. Não há assombro de generosidade nem lembrança das dádivas. As flores não medram no vazio nem as palavras ecoam na planície. Tudo liso e desinfectado. Vagos olhares para que não se cruzem e não chorem. Um fala compulsivamente e outro acende cigarros nos cigarros.

sábado, abril 14, 2007

Mar, amar

A incontável alegria de dizer mar é a minha loucura ou luxo diário, se quiseres. Amo-te porque não te compreendo. Amas-me? Amas no jeito das viúvas. O nosso amor é impronunciável para que vá mais aconchegadinho. Tudo porque há modos de dizer mar e formas ínvias de o ouvir.
haendel - Allegro....

Sábado de infelizes

A televisão ficou ligada toda a noite. Reparo agora que a roupa está arrumada e só o meu corpo ficou a destoar. Dormiu-se sem sem pressas, mas acordou-se em sobressalto. Passaram-se quantos meses? Três? Seis? Seis. Três.
As marcas do sono que fazemos a dormir não são só nossas, são de quem partilhamos a cama. A televisão ficou ligada toda a noite. A garrafa de água de todas as sedes ficou intacta e um velho copo de água amarecele esquecido todos os dias em cima da mesa de cabeceira. O pó volta ao seu lugar.
A solidão repousa nos momentos vagos e nos espaços largos. Não restam luzes de faróis nas noites. Os tempos já não são de evocação e perdeu-se a paciência para esperar e ainda mais para saber contar os dias até ao possível regresso. O pó volta ao seu lugar.
A roupa está arrumada, a água da garrafa toda por beber à espera duma sede que a seque desabrida e o pó assenta nos lugares. O meu corpo faz parte do lugar. Não sei se assim parece a minha alma e os meus olhos, presos a um quadro ou fixos num parapeito duma janela escancarada para dentro. Fecha-se tudo e volta-se a dormir. Ainda hoje será outro dia.
Eric Satie - 1e Gy...

Mortalidade

As árvores especiais dão sombras banais.

quinta-feira, abril 12, 2007

Carta de desamor.

Faz um círculo perfeito e uma semi-recta que te não vejo. O círculo é, obviamente, vermelho e a semi-recta amarela. Neste meu mundo dissonante faria sentido dizer-te que é laranja a espera por ti. Mas nem dissonante foi o tempo nem laranja a sua cor nem redondo é o meu mundo. Não digas que é chato, porque chato sou eu, não o meu mundo. No meu mundo há gatos, muitos gatos, e os gatos nunca são chatos, e tornam tudo divertido. Tudo pode ser interessante para um gato.
Pois é abaulado o meu mundo. Se côncavo ou se convexo já não te sei dizer. Como não sei explicar por que razão te escrevo esta carta quando faz um círculo e uma semi-recta desde a última vez que nos encontrámos. A espera de te ver foi azul, como todas as esperanças: bonita. Bonita espera. Espei ver-te e esperei nunca mais te encontrar. Foi azul como todos os momentos felizes em que estivemos juntos. Azul como todos os momentos felizes em que não estaremos juntos. Azul como todos os momentos felizes em que estaremos com outras pessoas.
Quando dissemos adeus voltei atrás. Julgo que também o fizeste. Fizemos um círculo. Juntamo-nos para dizer as últimas palavras, fazer um ponto de situação e abalar. Marcámos um novo início, dois novos destinos e muitos poemas separados. E se hoje te escrevo uma carta que não mandarei nem lerás é porque cumprimos o pedaço de tempo que é semi-recta: traço com princípio e sem fim. Não mais te verei e jamais me verás.
Azul como esta música e como todos os dias felizes que teremos separados. Além de toda a chuva que nos há-de unir afastados.



Rhapsody In Blue.m...

O lugar

Se a minha janela não dá para lado algum, estarei no lugar todo?

quarta-feira, abril 11, 2007

Três desejos

Riscar o céu com cores finas e dar de beber à sede com vinho de agulhas. Se pudesse abraçava-me a ti, a vós, e deixava-me enlear nos véus de seda e nos risos. Como é bom estar ébrio!... Se pudesse!...
Riscar o céu e lançar-me da sala para o balcão... e do balcão para o jardim. Jogar-me para os teus braços, desfalecer-me em doçuras ao som deste minuete e entornar o Champanhe por cima do vestido. Beijar-te desastradamente para que comentassem com escândalo.
Estalo! Estalo! Estalo! Muitos estalos! Fogo! Fogo! Fogo! Riscar o céu com fogo. Na terra este minuete e eu a arder de desejo por ti. Por ela. Por ela. Como é bom estar ébrio. Se pudesse!...
G.F. Haendel: Ayle...

terça-feira, abril 10, 2007

A rosa e o jasmim

Entre o aromas das rosas, um pouco de jasmim e de algumas outras flores. Os cantares variados dos pássaros do outro lado da vidraça. Toda uma tarde depois da manhã sentida nos ossos. O Sol que bate nas janelas e ilumina de amarelo quente a sala. Uma moldura de quatro ou cinco verdes e alguns tons muitos claros, quase brancos: muitos amores desejados e nenhum por vir. Nenhuma certeza além da incerteza do tempo. Ter as palmas das mãos viradas para cima e desejar-lhes o aroma das rosas, um pouco de jasmim de algumas outras flores.

segunda-feira, abril 09, 2007

O aquífero

Não é música de borbulhagem aquática, é som dum aquífero. A diferença entre um e outro é o balanço dum arco de violoncelo, o mesmo tamanho entre dois pontos antagónicos do diametro da anca duma tágide.
O gotejar permanente não combina com o arrastar triste do arco nas cordas e o seu vibrar dentro da carcaça de madeira. A água fria é diferente se corre sem dono e brutal: As cascatas, os rápidos e as fontes.
As cascatas, os rápidos e as fontes. A pedra fria de qualquer cor e as mãos incolores a travarem a corrente numa concha para darem de beber. A flora em alegria de verde e o frio da pedra, do ar e da água. O fogo solar. A vida toda num momento.
Não é música de borbulhagem aquática, é som dum aquífero. O barulho da vida. O mergulho todo a fazer amor num sítio qualquer e não ter frio. Não ter frio, nunca!

domingo, abril 08, 2007

Retrato

Sou e sou o meu oposto. O direito e ainda o meu inverso ou avesso. Não sou eu que estou errado, mas os outros que o estão a meu respeito. Sou o mesmo inteiro como partido, sólido, líquido ou gasoso. Sou a pele, o golpe, a erupção de sangue e o que nada se vê. Os outros podem até conhecer-me, mas eu limito-me a ser.

One night chunga affair

Numa noite por Lisboa, que poderia ser igual a tantas outras, não fosse ter terminado mais cedo do que o previsto, fui parar a um sítio impensável: o JAMAICA. O local é impróprio para consumidores, apenas para gastadores acéfalos. Aquilo é uma danceteria com uma magedoura onde se bebe de forma decadente e, pelos vistos, onde se peida impunemente. Os gajos são pestilentos, encontram-se a dançar e vestem-se mal. As gajas jamais serão senhoras, caem ou pisam a dançar e vestem-se mal. Tudo cheira mal. Tudo cheira a corpo. Todos estão visivelmente transtornados. A música está audivilmente ultrapassada. Os empregados estão absolutamentamente abusados na confiança. O que faz alguém civilizado ali? Cai por engano ou está solidário ou calibra o gosto. Antes que fosse cedo fugi dali, era demasiada realidade de baixa gama para a minha sensibilidade sensível.

sábado, abril 07, 2007

Luz e negritude

Nunca se está nu no escuro, porque só a luz revela. A luz dá compreensão e aguça a inteligência. Não sei o que é a mais absoluta luminosidade, mas tomo-a por bondade.

Alameda

Não sei a que distância está o sonho da luz do mar. Acordei quando percorria uma alameda de abetos e quase voava sobre as folhas caídas no intervalo entre as árvores. Vinha do mar e ía para o mar. Estava um céu escuro e estava numa península estreita, numa lugar de sereias e outros encantamentos.
Nos sonhos também se sonha e naquele sonhava. Que grande conquista, o direito a não voar. Não sei se me lamentava ou celebrava. Recordo um céu muito escuro quase a partir-se e eu voando numa alameda, coberta de folhas, ladeada por abetos.
Havia sossego. O sossego dos amores antigos e eternos e um ventos morno vindo de frente. De um lado o mar e do outro também. Era uma península estreita e, dum lado ao outro de terra, uma alameda de abetos, sobre ela um céu negro de trovoada. Eu voada e talvez fosse o último a fazê-lo. Sonhava voando, rodopiava com o vento pela frante, entre uma frente de mar e a outra, sobre a alameda de abetos.

Tarde em suspenso

Uma tarde mínima. Horas longas, Sol pequeno. Infinita espera? A tarde é pequena, é quase Inverno. As horas estão esticadas pela espera e pela ânsia. Lá fora está um Sol inquieto, a esconder-se atrás das nuvens. Cá dentro bate uma luz indecisa. Prepara-se um lanche simples: chá, fruta, bolachas sortidas. Uma espera infinita. Logo mais será noite e a gente que tarda, a notícia que não vem. Uma tarde mínima de horas longas e luz esquiva, sem calor. Quase tédio e sem sono nem azáfama. Acontecerá um momento. Até lá, não há pressa para aflições nem alegrias. Só cinzento.

As mãos aos Céus

Mesmo que me amputassem a mão, tê-la-ia sempre, porque ela é mais do que carne, osso, sangue e pele. Com ela afago, amo, odeio e agrido. Ela sou eu a preto e branco e jamais indiferente. Com ela faço preces ao Céu ou bato na terra maldizendo o Inferno em que julgo viver. Com ela o aço é polido e faz-se a arte e chega-se ao fundo do mar e o cimo do azul celeste. A mão alcança mais alto que o meu corpo, porque é o prolongamento mais óbvio da alma e do pensamento. As minhas mãos são macias... quem me dera que o fossem os pensamentos para poder aspirar ao firmamento.

terça-feira, abril 03, 2007

A batalha

Há um convívio na cavalgada batalhadora que só percebem os guerreiros. Uma linguagem poetica dita com palavras com sabor a sangue, algumas delas de vida e outras de morte, que chegam a ter poesia e esperança. Nem todos saem com vida e nem todos se têm de pé todo o tempo. O que importa saber é quem tem nervo para durar na festa e sobreviver-lhe.

Nota: O tríptico da «Batalha de San Romano» vê-se melhor no fim do blogue.

Rosa-vida

A vida é feita de finuras e maneiras delicadas de passar páginas. Os anos passam numa espiral delirante, numa espiral de vertigem: uma rosa de odores mesclados, ora forte ora frágil.
Tinhas os pés a chapinhar numa poça de praia, junto às rochas, com o sorriso da infância e já, num instante, se notava o peito adolescente. Pouco depois as borbulhas da puberdade, as vergonhas, os primeiros beijos, os namoros, os temíveis segredos, o inconfessável segredo, o partilhável leito, as grandes amizades, as intermináveis tardes de Verão, os dissabores amorosos, as distâncias, o amor estável, o casamento, os filhos, as traições, as zangas, as reconciliações, o significado da família e do Natal, o distanciamento, a solidão, a velhice. A infindável rosa da vida.
Desconcertante vida, feita de finura e enternecimento. Sentado o corpo frente a outro parilham-se memórias e sabedorias: as alegrias das tristezas. A vida e suas finuras.

segunda-feira, abril 02, 2007

O reflexo antes do tombo

Estou tão ébrio que mal me detenho de pé. A graça do meu reflexo é esta: vejo-o como um instante. Vejo-me fraccionado. Selecciono a luz e o instante, imobilizo-me e todo eu consigo ser o que não sou e tudo à minha volta consegue disfarçar a decadência em fausto.
Não é loucura nem verdadeiramente fingimento... é bebedeira e superlativa capacidade de parar a luz e o tempo. Um dia um sábio descobrirá que tempo e luz são o mesmo, algo que institivamente sei, embora não saiba explicar.
Tal como a poesia e a arte não se explicam: Só os aborrecidos querem e tentam explicá-las. Para que serve explicá-las? Ambas têm de ser sentidas antes de explicadas. Se não o forem de nada serve a explicação. Se tocarem não precisam de legenda. Por que terei eu de explicar o que instintivamente sei? Sei que luz e tempo são o mesmo.
Não é loucura nem verdadeiramente fingimento... é bebedeira e superlativa capacidade de parar a luz e o tempo. O meu modo não é real, mas apenas um instante e todo o fausto uma encenação decadente que não dura. Antes de expirar desta respiração tombarei ébrio e todo este cenário cairá comigo.

domingo, abril 01, 2007

Margem

Sou uma animal vagamente gregário. Encontro-me na margem. Não sei se ainda estou dentro ou se estou quase a chegar. Não suporto a multidão e assusta-me a solidão. Doi-me o permanente conflito e a indiferença da incompreensão, como se fosse um capricho toda a tristeza involuntária da minha natureza.
Os pequenos poemas de amor que te não escrevi só não aconteceram porque não estavas cá. Possivelmente eu estava no fio da margem, onde a vertigem fere a vista e onde só a coragem do amor resgata. Se não tiveste o teu poema de amor foi porque não fizeste por o mercer. Se não o fiz foi porque, inadvertidamente, me esqueci com toda a dor da melancolia e da sobrevivência.
Sou um animal vagamente gregário e só vivo na margem: na margem da praia e não no abraço que sacia e me tira o ar. Nunca estarei dentro nem fora, mas no fio do brilho e da sombra.