terça-feira, novembro 28, 2006

A chuva lá de fora é uma festa

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Não me peças poesia quando estou a jantar, porque são duas coisas impossíveis de juntar. É como se te pedisse para cantares enquanto degolas e depenas as galinhas.
Hoje chove e há felicidade saltitona no ar. Por isso peço com o meu melhor sorriso e a voz mais mansa para não voltares a pedires poesias nem prosas nem sussuros eróticos quando tenho uma faca na mão e tento descolar a carne do osso.
A minha felicidade passa tanto pelo teu silêncio como pelo odor dos limões na cozinha. Não vivo sem te espreitar a despir quando me julgas ainda na sala nem sem fumar às escondidas. Não sou feliz sem todo o dilúvio de agora nem a perspectiva primaveril dum qualquer amanhã.
Tenho-te perdida entre as minhas mãos. Estás perdida em mim tanto quanto eu não sei o que fazer contigo. Chove lá fora e isso é o que importa. Há uma festa lá fora. Só não vê as cores alegres da estação quem não percebe a vida a saltitar de e para as poças.
Por mim vivia dentro de água e beijava-te sempre. Por favor, guarda algum silêncio quando estivermos a jantar e nunca me peças poesias nem para te explicar um arco em ogiva...

Sol na cara

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Aconteceu há mais dum mês, mas aconteceu. Aconteceu que me esqueci. Acontece que nunca me esqueço ou que não gosto de me esquecer de quem gosto, mas aconteceu. Não me lembro se estávamos zangados, porque nunca me lembro das zangas quando já estão esquecidas. Talvez tenha sido por isso que me esqueci. Tanto faz. Mas acontece que me esqueci e não te dei o beijo devido pelo aniversário.
Há um mês e uns dias fizeste anos. Nesse mesmo dia começou uma rádio de bombar a emitir numa localidadezinha e algures nevou pela primeira vez este Outono. Nesse mesmo dia houve gente feliz, houve corridas de motas e acidentes. Aconteceu no teu dia de anos. Uma banda de putos, chamada Sun, tocou ao vivo numa livraria. Não há alguém que te conhece por Sun? Iluminaste muitas horas da minha vida e ainda assim esqueci-me de te cumprimentar há coisa de um mês. Aconteceu. Desculpa-me.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Avis rara

O problema das aves raras é a sua raridade. Procurei e encontrei mais mulheres do que aves. Descobri panteras, cães, florestas húmidas, rios caudalosos, pinturas bonitinhas que me apertaram o estômago de desgosto, disparates diversos e até aves domésticas ou vagamente selvagens.
A poesia não se encontra só por se procurar, mas só a tem quem sabe nela tropeçar na rua, no campo ou no espaço. A sensibilidade toda não vive se não derem por ela e a alimentarem; e a métrica e a rima, acertadas ou desajustadas, tanto fazem se não forem lavradas. Um número é enamorável se assim se quiser, tal como o sólido e a projecção geométrica, mas nada se pode contra a cegueira.
Queria ter outros olhos e umas mãos finas para saber colher da vida os rios que a atravessam. Não tenho mapa nem ideia para onde possa ir. Tampouco sei para onde quero ir. Todos dizem só quererem ser felizes, mas não sei o que é a felicidade para a desejar.
Por tudo isto comecei, agora, por querer coisas vagamente simples, mas ambiciosas: uma ave rara, para a ouvir cantar e me espantar com as cores das suas plumas. Encontrei mulheres lindas e outras que não o sendo são enamoráveis, porém nem um pássaro vi. Talvez me falte a vista da alma ou não tenha jeito para caçador de aves raras e não saiba distinguir-lhes os cantares. Não há liberdade nos meus quereres ou será o mundo mais livre quando não se tem o todo desejado? Só sei que não vi aves raras!

domingo, novembro 26, 2006

Afinal estás vivo!

Afinal o que importa é estares vivo, mesmo que tenhas morrido hoje!
Lembro-me como se fosse hoje aquela tarde de conversa que tivemos na Brasileira. Tu estavas em casa e eu não era nascido. Mandaste-me educadamente calar e eu virei-me para outro lado qualquer, ainda longe de poder sonhar. Talvez já sonhasse, mas não sonhava em que um dia sonharia contigo e muito menos no dia da tua morte.
Afinal o que importa é estares vivo! Afinal não se morre! Vais continuar a pintar e a dizer a tua poesia com a mesma cruel acutilância dos poetas maiores. Gosto da tua verdade. Gostei de ti na primeira vez que te vi, naquela vez na Brasileira do Chiado, ainda estava eu por nascer.
Afinal o que importa é não se morrer... E agora, lá fora, ri de tudo!

Nota: Este texto é dedicado a Mário de Cesariny.

Cartas de veneno

Escrever cartas com tinta venenosa e proclamar a verdade não torna reais e bondosas as palavras. Tive notícias tuas pela voz de passarinhos que me trouxeram o teu hálito a enxofre.
Prometeste amá-los e quase os mataste de esforço e perfídia. Prometeste amá-los e quase os mataste com as tuas mãos férreas aquecidas, quase em brasa. Prometeste amá-los e quase os mataste com o veneno que querias trouxessem para mim.
Por mim podes escrever todas as cartas com todo o veneno. Podes mete-las nos sobrescritos e enviá-las a quem quiseres e por quem quiseres. Vou abri-las e vou lê-las para conhecer melhor o estado da tua loucura. Depois vou guardá-las e enviar-te um beijo. Um beijo de irmão ou de pai.
Vá, descansa. Descansa de ti, estás cansado de ti e da loucura em que te mergulhaste. Descansa do frenesim insano e paranóico que espreita atrás de todas as cortinas. Volta a sorrir, depois de descansares. Não escrevas mais cartas com veneno nem as mandes por passarinhos... têm coração frágil e já têm muitas penas.

sexta-feira, novembro 24, 2006

O que quero ter

Se pudesse tinha muitas obras de Pedro Proença. Não tenho espaço na casa.
Há amores imperfeitos que me vêm à memória quando tenho diante dos olhos uma obra deste artista. E já vi muitas e tenho muitos amores imperfeitos.
A minha casa é grande e nela cabem muitos quadros, mas infelizmente ainda não tenho parede para um do Pedro Proença. Talvez venha a ter um quando fôr grande e continuar a querer ser pequenino.
Já sou grande e divirto-me com as artes deste artista, viajo com ele e penso muito. Tem excesso quanto baste no traço e ponderação na cor.
Porque não tenho paredes onde pendurar um quadro do Pedro Proença, comprei um livro. Já me fazia falta à alma, à cabeça e ao gozo. Um dia hei-de ter uma parede livre e descomplicar-me para ter.

quarta-feira, novembro 22, 2006

A pomba

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Lembro-me duma manhã, ainda quase madrugada, e dum caminho feito em quase silêncio. Havia nós nos estômagos e apertos nas gargantas, os olhos estavam cheios de água com muita vontade de transbordar e as vozes abafaram-se antes que se exaltassem. Não havia frio nem calor, mas cólicas de alma. Uma vontade de liberdade, de desafogo. Um medo de morte.
O caminho fez-se de olhos postos no cimo, muito acima dos altares, e os lábios a dizer juras de paixões vermelhas e roxas.
A chegada de espera de todas as horas, num tempo sem significado. Um significado maior que o tempo. Um gesto maior do que os homens.
Em silêncio largou-se uma pomba ao céu para que voasse tão alto quanto pudesse e voltou-se ao dia anterior à antevéspera, quando ainda não te conhecia. Desde essa antevéspera que uma pomba voa.
Já não tenho nada, voou tudo nessa manhã. Desse dia não resta nem o passado, tudo me foi levado. Hoje não tenho nada, tudo me é negado. Hoje não tenho nada.

terça-feira, novembro 21, 2006

Lua nova

Não me esqueço de ti nem mesmo na solidão de invernia ou na balbúrdia do Verão ou na noite mais escura.
Lisboa tem um risco de humidade tão mais fino do que as luzes da metrópole. É o único laço deste momento ao Outono. Esta noite faz Lua nova. A ponta mais ocidental da Europa recolheu-se quase silenciosa ainda que o frio não tenha vindo cumprir a tradição do final do Escorpião. Neste silêncio escuro há todo um respeito pela memória e pelo tempo.
As luzes da cidade são um bordado de ouro e prata a enfeitar as serranias de Sintra e da Arrábida e a alegria de águas de rio e do oceano. Hoje tudo está mais escuro pela Lua nova. É um tempo de esperança.
Neste tempo de fino silêncio e manhãs de humidade ligeira sinto a memória afeiçoar-se ao tempo; não à meteorologia, mas às horas e minutos.
Não me esqueço de ti. Tenho respeito pelas horas e pelos anos e vejo nesta Lua nova toda a esperança dos dias antigos. A amizade tece-se com palavras e actos e já faz falta a correria dos felizes e sãos.
Se fosse Verão estriam gafanhotos a cantar laudas ao estio. Se fosse a Primavera haveria mil flores a colorir a paisagem dos campos. Se fosse Inverno haveria um bloco de frio a lembrar o sangue dentro dos corpos. Mas é Outono e as chuvas não vieram e há ainda muito rubor nas faces de todos. É Outono e de noite e a Lua está vazia, mas redonda como sempre, na sua mais enigmática fase. Por mim digo textos de ternura e lembrança, porque é feliz o tempo assim.
As palavras alinham-se e agrupam-se. Fico a vê-las a anicharem-se na página sentado numa cadeira. Na minha casa há sempre um lugar vago para festejares comigo uma Lua nova.
Nota: Dedicado a Calvin.

domingo, novembro 19, 2006

Dorme serenemente no mar

Enquanto dormes não sou capaz de amar outra. Quando despertas só tens olhos para mim. Mas estás invisível e vês-me quando não estou. A luz do dia traz-me intranquilidade e tremem-me as mãos por tremerem as tuas. Não é por os lábios vacilarem que não se dão beijos, mas porque a gravidade é desafiada pelo contra-peso da cabeça.
As nossas cabeças têm mares dentro que se alvoroçam e serenam. Há momentos, por vezes longos, tão sossegados onde um vale verde parece substituir-se ao pequeno oceano pessoal. Ilusão passageira. É toda essa água que nos une e afasta.
O meu corpo deseja, enquanto tu dormes serenamente no mar. Fazes-te à vida já estou eu chão e sem brisa ou corrente. Não é por vacilarem os lábios que não se dão beijos, mas porque as nossas cabeças têm mares dentro, que inundam e ensopam os sentimentos e os desejos.
O meu corpo quer navegar-te como sempre fez. Quero que o teu no meu mergulhe e colha vida. Não sei se basta esperar e quanto basta o tempo para que uma Lua cheia nova acerte os nossos mares, para as nossas cabeças poderem pender para o sítio apropriado ao beijar. Até esse momento incerto, dorme serenamente no teu mar.

sexta-feira, novembro 17, 2006

O amor que lhe tenho

A minha namorada é linda! Gosto do encanto do ar em seu redor e da forma como poisa os pés ao caminhar. Fuma cigarros do tamanho de cigarros, mas alonga-os com os dedos e em modos prolongados de puxar o fumo. A minha amada não precisa de boquilha para se tornar mais chamosa.
O grande segredo da minha namorada é a essência do feminino, embora use cabelo à rapazinho. Pode usá-lo à vontade, porque toda ela é mulher, mesmo com o seu peito pequenino, do tamanho de duas meias laranjas da Baía.
O beijo mais austero deu-mo ela; também o mais doce e o sensual. Não há beijo que não saiba dar e nunca repete tal gesto de carinho nem confunde sentimentos ou mente por compaixão.
Gosto de fazer amor com ela, porque é toda amor, prosa, carne e poesia. Consigo ir-lhe fundo e senti-la por dentro até me desapertar, senti-la desabrida a florir.
Gosto-lhe o cabelo curto em revolução e os olhos a revirarem-se em sintonia com o sorriso e o arfar. Contudo, fico bem tranquilo a ouvi-la falar ou a dizer-lhe coisas de pouco ou muito interesse. Quando estou sozinho do que me lembro é do caminhar suave e dos dedos a alongarem o fumo dos cigarros, porque quando anda ou fuma não estou. Gosto e quero o meu amor pelo que é e não por ser a moldura do meu retrato.

Voar sem trapézio

Algumas pessoas sabem voar. Há quem faça até vida disso: os trapezistas circenses. Uns voam com rede e outros ousam voar despidos de protecção. Mas os que mais aprecio são os amadores, aqueles lançados voluntariamente para o céu. Não sei se se querem apanhar uma estrela da nebulosa de Orion ou apenas sentir o ar a passar-lhes pela pele e carne.
Por mim, se tivesse coragem, também voava sem trapézio. Faço-o quando digo que amo a mulher das minhas insatisfações; caio muito depois de lho dizer e sinto bem quando acabo de mergulhar. Insisto sempre em recuperar, em subir, em lançar-me de novo na frase de amor. Ainda e sempre o mesmo sentimento e a perdição descontrolada, o beijo desamparado. Só esse é o meu vôo sem trapézio.
Se pudesse e tivesse coragem voava mesmo dum penhasco e pelo caminho apanhava uma estrela; faria umas cabriolas no vazio, a meio caminho, se a mulher das minhas insónias estivesse a ver, porque assim de mim se enamoraria e se me aquietariam os sentimentos. Depois voaria com ela sem trapézio e sem rede, porque o amor só o é quando livre e sem condições. Por enquanto vou sonhando com nebulosas de Orion.

quinta-feira, novembro 16, 2006

Relojoaria

Às vezes quando um relógio se desacerta todos os outros desatinam também. Há relógios-mestres. Relógios que comandam o destino e acertam os passos. Relógios-bússola. Relógios apontados à Estrela Polar e ao Cruzeiro do Sul. Relógios que fazem fases da Lua. Relógios que inundam e esvaziam marés. Tempos de lágrimas e doutras aflições, risos e alegrias.
O tempo é uma faixa elástica, tão comprido quanto se queira, tão largo quanto se pretenda. Todo quanto se imagine, quanto se deixe e permita. O limite está na imaginação, na dor e na felicidade. Mas sabe-se que é infinito. Mas sabe-se que a vida é finita. Toda a vida finda. Sabe-se que temos muitas vidas. Temos muitas vidas numa vida e temos muitas vidas além da vida. Quanto vale o tempo? Quanto dura?
Sentei-me durante meia hora da minha vida. Fiz ponto-cruz. Fiz amor com pessoas ausentes. Fiz as pazes e evoquei ódios. Encolhi os ombros. Quase chorei. Fiz arte. Disse poesia. Foi tudo em meia hora da minha vida. Numa meia hora, como uma meia laranja, que foi doce e ácida, colorida e breve. Não sei se tive muitas meias horas assim na minha vida. Daquela lembro-me, porque lhe prestei atenção. Dediquei-a a mim e aos amores perdidos, às meias horas que duraram as minhas relações depois da avaria do meu relógio-mestre.
Não sei se o meu relógio-mestre é um amor ou uma pessoa ou um momento ou o orgulho ou o amor-próprio ou uma promessa a dois ou uma ilusão. Mas sei que desde que se avariou todos os meus amores duram apenas meia hora. Meia hora de intensidade. Meia hora de montanha russa. Meia hora de esplendor. Meia hora de orgia. Meia hora de orgasmos. Uns segundos longos de lágrimas. Uns minutos infindáveis de desilusão.
Estou na praia dos vazios entre a maré alta e a maré baixa, à espera duma Lua cheia ou nova. Não quero os mesmos êxtases, mas um quadro azul de firmamento além de toda a eternidade, onde as meias horas não acabem e passem a horas e os beijos perdurem, para que os lábios permaneçam húmidos. Não faço pedidos além do tempo. Quero apenas que as meias horas perdurem.

terça-feira, novembro 14, 2006

A gaiola

Estou preso do lado de fora da gaiola. Dentro está o meu amor. Não sei se a jaula o protege a ele ou se me defende a mim. Não se procure o meu amor dentro da campânula aberta, pois não se encontrará. O meu amor é invisível. Só eu sei dele e ele de mim. Escondemo-nos de todos e até de nós. Somos esquivos. E não sei o que fazer com ele... tampouco o posso soltar, porque o poderia devorar se passasse por mim.
O amor não é livre. O amor prende. O amor liberta. O amor contradiz. O amor desmente.
Não sei da rapariga dos meus encantos. Não pergunto por ela, porque a quero livre. Não a solto, porque a quero viva. Estará ela tão presa quanto eu? Possivelmente está com os olhos fincados no seu amor, guardado numa gaiola, donde não o pode soltar. Possivelmente estou guardado numa gaiola donde não posso sair para que não me devorem.
Rondo a jaula como um gato vigiaria se lá dentro estivesse um pássaro. Desejo e quero a carne e o sangue, a satisfação precária do sexo. Quero o ar da respiração, o acordar e o último suspiro. Temo o amor. Não sei viver com um bicho tão frágil nas mãos. Tudo nas minhas mãos se parte. Tudo de mim se aparte. Aparto-me da felicidade e fico. Deixo-me preso do lado de fora da gaiola.

Letras e sudoku

Encontrei, ao calhar, a rapariga mais bonita. Descia a rua, olhos postos no caminho, e dei com ela. Tem uns olhos muito grandes e bem vivos. Estava sentada numa pedra a solucionar sopa de letras. Espequei-me embasbacado sem saber o que dizer, apontando sem o dedo o sentimento desperto naquele instante. Não disse palavra alguma por não saber de acerto ou tino. Ela olhou-me de baixo para cima e mostrou um sorriso tão largo e franco e juvenil que o meu coração ficou ainda mais dela. Com o delo indiquei-lhe os enigmas já decifrados, não percebendo que apenas os estava eu a ler como novidade. Todas juntas, as palavras contavam um amor por vir; e eu ali frente à miúda de olhos encadeados uns nos outros e as palavras ditas e por dizer a encaixarem-se nas vidas, em simetrias e sintonias. Uma maravilha escrita numa sopa de letras.
E de letrinha em letrinha percorremos o alfabeto, escrevemos amizade, cama e jantar. No fim da linha encontrámos o «z», de zebra e zulu, no léxico incomum. Chegou ao fim o enigma da sopa de letras. Finou o amor? Depois vieram os números. Ela sentou-se numa pedra a desfazer enigmas de sudoku e eu a olhar para ela com o mesmo espanto de quando a vi pela primeira vez. Faço silêncio e saboreio o momento.

Lembranças

Peixe! Cheiro quase metálico e perfurante, teimoso e rápido. Cheiro agudo, inquietante e insolente. Uma mão atirada veloz à garganta para puxar as costas da língua, arrepanhar a boca do estômago e virá-lo do avesso. O peixe traz-me o vómito à porta e a água aos olhos.
Serei um peixe. Estarei saudoso do mar e cioso do espaço livre. O cheiro é uma evocação da condição antiga. O cheiro a lembrança do sofrimento de quando me tiraram da água.
A água é o líquido do útero! A água é a Terra-Mãe! A água é a vida! Não sou um ponto da reticência posta depois duma exclamativa acertada acerca da vida, mas o tropor de morte e asfixiado dum peixe fora da água. Não do sal, mas do universo, do azul e de tudo e do todo dentro do banho. A minha memória de mar guarda-se no cheiro traumatizado dum peixe aflito por viver.

segunda-feira, novembro 13, 2006

O bolo

Estou desfeito e insatisfeito. Não sou coisa nenhuma, ainda. Sou farinha, fermento e gema, misturados. Adicionei-me açúcar e manteiga derretida. Bati-te todo até ser só uma pasta. Poderia ter-me acrescentado iogurte ou café ou chocolate ou Vinho do Porto ou nozes ou queijo fresco que não me modificava a essência, apenas o humor.
Bem intencionado guardei-me num forno e cresci. Saí homem feito. Depois cobri-me de claras em castelo perpetuadas com açúcar, sem me besuntar. Fiquei bonito.
Estou decepcionante. Tenho saudades de quando ainda não existia e olhava para mim como um vazio no fundo da grande tigela. Agora apetece-me volver ou esconder a cara na forma ou na malga, regressar ao fundo ou ao ventre da mãe.

quarta-feira, novembro 08, 2006

São pessoas!

Os gatos são pessoas! Os gatos são pessoas, embora mais pequenas e diferentes e incapazes de falar. Os gatos ouvem tudo e prestam grande atenção ao que se lhes diz. Todavia fazem só o que lhes interessa ou aquilo a que são obrigados, relutantemente, tal como as pessoas bípedes.
Conheço gente que os julga superiores aos humanos comuns e ditos normais, e atribui aos gatos funções místicas e espirituais na Terra. Reconheço que não acredito e soltei, incrédulo, uma gargalhada quando me contaram tal crença. Contudo, sei da humanidade dos gatos e da animalidade das pessoas.
Um cão é quase pessoa, mas não a chega a ser, porque é servil ao seu dono e tentará obedecer e satisfazer e fazer o que lhe ordenam. Os cães são deliciosos e podem até ser bons amigos dos gatos, desde que tenham inteligência de perceber, ou lhes expliquem, que os felix silvestris são pessoas quadrúpedes.
Um gato é muito diferente dum cão. Com um felino conversa-se e discute-se, diverge-se. Os gatos são artistas. Os gatos têm personalidade... Os cães também, mas não têm vontade independente da do dono quando este está presente. Todos os dias converso com as três gatas cá de casa e elas respondem-me... quando querem.

terça-feira, novembro 07, 2006

O meu futuro

Penso deixar de roer as unhas. E também de as cortar. Quero que as minhas mãos se tornem inúteis, a prazo. Quero que se tornem ridículas, em breve.
No incómodo roçarei com elas em superfícies ásperas e agrestes, mas só a pele e a carne, nunca as unhas, para que cresçam louçãs e se encaracolem. Se tenho o futuro escrito nas mãos, que seja em carne viva. Se está escrito na pele, que se torne ilegível.
Não há dor que não se aguente ou indisposição que não se disfarce nem extravagância que não se orgulhem os tolos e os diletantes. Penso deixar de cortar as unhas e de fazer a barba e tornar-me no mais arrogante indigente de Lisboa, quiçá do país ou de qualquer outra fronteira. Estarei despudoradamente sem futuro para ler nas mãos, só carne para infectar ou morder.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Os meus dias

Noto a passagem dos dias pelas cápsulas dos comprimidos que tomo. De manhã vazo um e digo:
- Estou vivo!
À noite, ao deitar, emborco três e exclamo:
- Tenho de continuar vivo!
Por vezes durante as horas intermédias vai mais um ou dois ou três ou só meio. Aí nem noto, limito-me a sobreviver ou a viver sem notar.
A minha vida baliza-se entre comprimidos, para poder ser normalzinho, para não espumar da boca, para não espancar ninguém, para não dizer impropérios nem ordinarices, para não andar triste, para não andar feliz. Engulo normalidade compactada.
Para mim estar vivo significa cumprir o ritual dos comprimidos, pois doutra forma deixaria de viver ou correria o sério risco de deixar de estar. A minha vida ora é uma espiral ora uma elipse ora uma recta de aceleração ora uma curva apertada de travagem, percursos perigosos para se sobreviver, quanto mais para se viver. Dizem os médicos que a minha vida é perigosa. Por isso, tiram-ma dando-me comprimidos.
Os meus dias são banais quando não são de tédio, no mínimo são desinteressantes. Noto que passam quando esvazio mais um receptáculo de comprimido. Digo:
- Mais um! Mais um dia. Mais um comprimido. Ainda ontem comecei esta lamela e já está no fim, passaram-se, então, dez dias. Daqui a nada, um mês. Não tarda e é Natal.
Os meus dias são banais quando não são de tédio, no mínimo são desinteressantes. Dizem os médicos que a minha vida é perigosa. Por isso, tiram-ma dando-me comprimidos. A minha vida baliza-se entre comprimidos, para poder ser normalzinho. No entanto, não gosto, mas deixo. Até um dia em que me farte e os deixe de tomar.

Sedução

Um pé à frente do outro, um passo adiante, dois à esquerda, um atrás e outro à direira, rodopiar. Sentir a música e fitar, prender os lábios à distância, um beijo pronto a juntar. O peito junto às costas e depois frente a frente. Sedução.
Há a magia do vinho e espirais a subir pelo ar, escadas floridas de perfume impronunciável, indizível. As mãos não tremem, se tivessem consciência suariam de desnorte. Todo o corpo é satélite da vontade do outro corpo.
Olhos e boca um só desejo. Um só calor. A dança. A dança de sempre. A música deixa de ouvir-se e há coreografia improvisada e certa, marcada pelo querer de dois, vincada pela natureza.
Muitos passos dados e voltas, sorrisos e olhares. Volteios e calores de sempre, palpitações de vida e momentos de quase acção, indecisão, decisão implícita. Beijo.

Nota: Há muito para ouvir e dançar aqui mesmo ao lado.

domingo, novembro 05, 2006

Adolescência

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Tenho saudades do Verão! A falta que sinto não é do calor nem do Sol nem dos corpos, mas da liberdade. A liberdade do Verão é desenfreada!
Bem sei que tudo o que é desenfreado é opressivo. Sei! Nada é perfeito neste azul. Sinto falta dos dias de indolência, das tardes de calma, da despreocupação sem horizonte. O Verão é uma adolescência, sem as dependências da infância nem as responsabilidades da idade maior.
Tenho saudades de quando o Verão era o ano todo e dançava noite fora todas as noites e levantava-me quando o sono terminava. A vida acabou-me com o estio e agora sou adulto. Não sei a minha idade, mas devo ser crescido o suficiente para não ter Verão.
Quero dançar até as pernas se movimentarem ritmadas por si e o coração ter a mesma batida escutada pelas orelhas, suar frenético em transe feliz. Feliz porque é Verão e amanhã só significa outro dia e nada mais.
Se tiver alguém perto de mim, melhor. No Verão nunca se está sozinho e estar só não é viver a solidão. Quero dançar na praia, na pista, no campo, no carro, em casa, em toda a parte... levar a vida a dançar e a sorrir. O Verão é a liberdade, a adolescência da vida.

Nota: Este texto é dedicado a Julho e Agosto.

Prantos

Vieram os prantos e tremo que me cheguem. Que me cheguem à casa, ao sono e ao âmago. Não durmo quando chove, não durmo com medo da água.
Vieram os pratos e tremo, se bem que me alegre ver as ruas como rios e lamente não serem perpétuos para os atravessar de barco.
Tenho medo e enervo-me por ver gente aflita com a água transbordante. Só queria rios nas ruas e barcos em vez de eléctricos e automóveis. Gostava de mergulhar da varanda.
Chegou o tempo do Vinho do Porto e está ainda para vir o da lareira. Chove e embaciam-se as vidraças, sinal de que é quase Natal.
Que posso pedrir este ano pelo Natal? Já tenho tudo e nada mais, com sinceridade, posso exigir... Gostava de ruas de águas e rios fixos nas margens para não haver gente com lágrimas por causa das águas.

sábado, novembro 04, 2006

Uma vez na vida

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Dei por mim a pensar o que faço com três gatos em casa (três, logo três). O que penso eu dos gatos? Eu que sempre preferi cães e nunca liguei a gatos!... Dei por mim a pensar com um cachimbo na boca e um copo na mão. Estranhezas na noite e nenhuma resposta.
O que faço eu com três gatos em casa? Naquele momento percebi que não os percebo e que ando iludido quando penso o contrário. Uma vez nos últimos anos fiquei lúcido, mas também calvo e pálido com o horror da descoberta: e agora?! O que fazer?
Naquele momento de gravidade zero no meu pensamento lembrei-me da violência como recurso, no desamor aos animais e àqueles a quem se ama, no conforto da posterior reconciliação e no remorso, na solução impossível e na confiança irremediavelmente quebrada. Pensei mas não fiz. Afinal não enlouqueci. Uma vez na vida, pensei.
Inconformado, acabei por acender o cachimbo inúmeras vezes até o fumar por completo e o deixar, bebi o copo e esqueci-me dos pensamentos. Nada conclui sobre os gatos e não sei por que vivo com três em casa, nem sei o que me encantou neles, sei apenas o quanto aprecio a sua companhia. Uma vez na vida pensei, não estive louco.

Sensação de ser e de fazer falta

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Gosto de causar surpresa e pregar partidas, gosto de rasgar sorrisos e prefiro soltar beijos do que ver carrancas. Não me assustam os abraços e sou mais meigo do que esta distância que finjo ter. Gosto de fazer ricochete com as palavras na superfície lisa duma água e das transformar nas rugosidades de muitas vidas. Tenho segredos que são só meus e outros que apenas partilho contigo, e outros... Deito-me tarde e sonho, sonho muito, deliro, divago. Sonho muito e enterneço-me. Sou mais meigo do que esta distância que finjo ter.
Nos mistérios antigos e segredos posteriores cabem muitas linhas e nelas tantas páginas da inúmeras palavras. Todas elas válidas, com seu sabor e valor. Valem muito quando têm orelhas para serem escutadas ou olhos para serem lidas. Não valem nada, quando o talento fica escondido na escuridão. Sabe-se da força que têm as palavras e que a língua beija como beija a língua duma boca quem a sabe amar. Por isso não temo muito. Por isso, fico triste por não ver textos a nascer. Tenho sede de ler em fonte fresca.
Por não ser muito diferente de coração - pelo menos assim julgo e creio - é que peço ao rio que gosto de ler que volte por aqui a passar, trazendo novidades todas as semanas, com seus requintes frágeis e brinquinhos de encantar.

Nota: Este texto e esta música são dedicados a Calvin, que anda longe da escrita. Apesar de lhe dizerem que os textos e o blogue só lhe pertencem, não é verdade, pertencem a todos nós. Volta depressa, Calvin.

sexta-feira, novembro 03, 2006

Medo do Inferno

Digo-te que tenho medo. O pior de todos é do cheiro. Julgo que pior do que a enxofre o Inferno tresande a peixe podre, a imundices gástricas ou vómitos.
Digo-te que tenho medo. Medo das feições das criaturas perdidas na escuridão. Não há pior medo do que aquele que não vemos e não deixamos de ver, apenas pressentido e vislumbrado. Tenho medo das sombras e dos seus cheiros pestilentos, das suas texturas desconhecidas e humidades.
Espero não coinhecer a luz do Inferno, mas deve ser muito mais escura do que a duma trovoada. Talvez como a duma lua nova no campo. Apenas a suficiente para perceber os corpos dos seres e dos outros, mas já tarde demais, quando não fôr possível evitar os hálitos.
Digo-te que tenho medo do hálito das bocas de quem vive no Inferno, porque lá só haverá imundice e porqueiras para comer e nada de limpo para se lavar o rosto. Tenho repugnância das mãos e certamente haverá uma luz a iluminá-las. Será pouca luz, mas certeira, a certa para se perceber o negrum nas unhas tornadas garras dos enfermos e moribundos andrajosos, de todos os habitantes fétidos do Inferno.
Tenho medo de ir para o Inferno. Digo-te que tenho muito medo do cheiro.

quinta-feira, novembro 02, 2006

A culpa

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Não sei o dia da minha morte nem onde está a minha campa. Hoje reconheço o crime. Não sei se posso chorar. Não sei se tenho o direito de chorar. Quando me vejo tão novo - porque era pouco mais do que uma criança, era um homem - não me reconheço nem percebo como fui capaz de fazer aquilo que tenho vergonha de confessar. Tanta vergonha que é quase um orgulho rejeitar o passado sinistro. Não posso ser eu a mesma pessoa. A culpa perfura-me como uma broca fina, como uma broca grossa, como uma broca quente, como uma doença amarela, como um vómito muito verde. Não sei se mereço poder chorar. Não sei onde tenho campa, ainda bem que não sei dela, porque assim estou a salvo caso tenha uma recaída. Como posso dizer se estou curado se um dia estive doente com um mal tão grande? Tenho medo de mim. Tenho medo dos meus irmãos. Tenho medo da forma como me olhas. Tenho culpa e remorsos. Felizmente não sei quem fui.

Hora zero

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Não quero saber o que andámos a fazer durante o dia. Já é noite e nesta casa ninguém consegue dormir. Todos temos alguma coisa a esconder. Juro desconhecer toda a verdade. Não sabia de ti até te ver e falar-te, e da tua vida nunca fui além daquele recanto antes que me mostrasses as intimidades. Por mim, não imaginavas toda a realidade. Sabemos que sabiamos muita coisa. Sabemos o quanto queremos esquecer e ocultar. O silêncio é a nossa cruz, a factura da cumplicidade ou da cobardia. Contudo não sabiamos tudo e nunca quisemos saber. Agora somos arrependidos do que não fizemos e prisioneiros do que dizemos não saber. É o momento zero do dia e nesta casa não se dorme. Já não sei quem és ou o que fizeste. Por favor não me olhes para as mãos, não sabia o que fazia, não sabia de tudo, vi-me obrigado a muita coisa, só te quis fazer feliz, tive de fazer pela vida, não fiz nada, tenho de passar por isto, não sei de ti nem do vizinho. Por favor, não faças perguntas. Não estou bem aqui, vou para lá, para aquele quarto onde estou outros, e espero compreensão e olhares disfarçados. Não faço perguntas.