sexta-feira, junho 30, 2006

Uma questão de datas

O Infotocopiavel nasceu há exactamente três meses e seis dias. Não me parece ter sido ontem. Passou uma enormidade de tempo! Por ser uma efeméride devo escrever qualquer coisa.
Em tom formal e e voz redonda digo:
- Senhoras e senhores, este blog nasceu há exactamente três meses e seis dias. Quando o iniciei estava cheio de esperança em mudar o mundo com ele. Hoje posso clamar, bem alto, o quanto estava jovem e verde, e como eram ainda pequenas aquelas árvores que, lá fora, hoje conhecemos frondosas.
Isto tudo porque passam, exactamente, três meses e seis dias desde a fundação do blog. Não é uma dada certinha, é uma efeméride angulosa. Uma amiga sugeriu-me que escrevesse qualquer coisa quando chegasse ao texto trezentos. Mas os centos são tão correctos, que preferi os três meses e seis dias.
Este blog nasceu em Março, tem o Sol em Carneiro e a Lua em Aquário. Consultei os tratantes melhores que conheço para lhe fazerem a carta astral, mas não quiseram. Os charlatães só enganam pessoas e recusam-se a aldrabar um espaço na internet. Ainda argumentei que o Infotocopiavel tem vida própria e uma personalidade vincada, que me obriga, inclusivamente, a escrever quase todos os dias desde que surgiu, que o veja periodicamente, o leia e releia, esteja atento e responda aos comentários; quase como um bebé obriga a que lhe mudem as fraldas ou dêem de comer. Nada disso serviu aos astrólogos para que lhe desenhassem uma carta astral.
- Volte dentro de seis anos - disseram-me.
Malvadez! Sou um bloguista interessado desde a primeira hora, há já duas mil trezentas e cinquenta e duas horas. Não me podiam ter feito isto!

quinta-feira, junho 29, 2006

Animais

A Lupi era o meu cão. Era o meu cão, apesar de ser uma cadela e não ser minha. Tinha tudo o que se pede a um cão e era mais inteligente do que muitas pessoas que conheço. Não vale a pena cinismos nem franzires de sobrolhos a contestar a afirmação da superioridade intelectual dum cão face a elementos da espécie humana. Se fôr necessário grito, para ter mais razão, que alguns canis familiaris são profundamente mais inteligentes e sociáveis do que muitos homo sapiens sapiens. E não são só canis familiaris; a verdade é extensível a felis silvestris e alguns outros mammalia. Alguns humanos são tão estúpidos quanto as ovelhas (ovis aries).
A Lupi era o meu cão. Era o meu cão, apesar de ser uma cadela e não ser minha. Ao que se sabe, os cães organizam-se em matilha, como os lobos em alcateia, e, tal como os seus parentes, manda em todos um macho alfa. Pois no grupo da Lupi quem mandava era ela; era quem ladrava mais alto, mais grosso e por último. Era uma pastrora-alemã e impunha o respeito aos restantes canídeos. Eu era miúdo e comigo era doce, meiga, tolerante e brincalhona. Já escrevi que era uma das cadelas mais inteligentes à face da Terra? Era mesmo! Não tenho de provar nada, e por isso nem explico por que afirmo isto.
Sempre gostei muito mais de cães do que de gatos. Aliás, quase ignorei os gatos... eles estavam ali e eu aqui. Raramente um felídeo veio para o meu colo ronronar. Reconhecia a beleza e a agilidade, apreciava a ternura quando a davam, mas não ligava muito. Esta temperatura morna durou até conhecer melhor a Ginja e a Enê... que me convenceram dos encantos e insinuaram segredos. Dei um pulo de gato! Devorei uns livros de gaticultura e decidi ser pai de duas felis silvestris criteriosamente escolhidas. Já têm dois anos e continuo babado e não passo um dia que não me ria com os disparates e ternurices das ditas. O gato é o único animal domesticado que não é servo do ser humano. E isso dá-lhe uma grande dignidade. Os gatos estão connosco porque querem. É bom sabe-lo. Julgo... acho... espero... sei que as minhas são felizes comigo. Sou feliz com elas.
Já com o género humano sou um pouco mais desastrado, mas isso não vem a propósito... Aliás, a espécie humana na idade adulta não se dá para adopção. Porque se desse... Eu queria ser adoptado pela Paris Hilton... ou assim...

Nota: Este texto é dedicado à Alfacinha, que deixou escrito no meu blog que vai adoptar um gato, à Isabel Colher e suas gatas e à prima Carolina que me emprestava a Lupi e a deixava ser minha.

Desabafo sem máscara

Hoje não vou pôr máscara nem usar metáforas nem parábolas. Só vou escrever um texto. Não quero escrever mais nada, apenas o que me tocou o coração e o encheu de ternura: Hoje acordei com mais sono do que antes. Tinha alguém na cama, mas não me incomodou, nada pediu, nada disse... estava apenas a olhar para mim enquanto eu dormia. Ainda estremunhado vi dois olhos azuis muito grandes, como que a pedir perdão, mas não estavam. Dois olhos muito meigos... tanta ternura me deu aquele olhar. Aquele azul doce fez-me sorrir e abrir à luz os meus castanhos e sorrir, num imenso apetite de abraçar. Cada vez gosto mais da minha gata Lioz!

quarta-feira, junho 28, 2006

Sempre!

Há calores! Uma piscina, uma praia, um jacto de água, uma guerra de gelo... Não, não é preciso calor, basta apetecer... o organismo pede, trata-se de instinto. Há momentos em que não quero vinho branco nem rosé e tinto, então, nem sonhar. Com a toalha estendida na areia, na manhã sonolenta, no dia seguinte à festa, na tarde sufocante na esplanada, na praça cheia de gente, à espera sob uma chuva miudinha, o que apetece é mesmo algo que cole um sorriso à vida ou fixe o momento ao todo o sempre. Uma cola fresca! Já! Com limão e gelo... muito gelo!

Toledo

Ainda fui feliz em Toledo. Não fui à pergunta de espadas e levei o meu amor. Há uma praça com arcadas e pedras antigas sobrepostas e abertas com janelas. Era a capital de Espanha, até Espanha querer ser mesmo Espanha e terem inventado o centro geográfico da península: Madrid! É um monte escarpado sobre o rio, um povoado eriçado onde apetece estar. É pequenina e não chega a ser arisca. Ali o Tejo não é grande, mas apenas rio. Está apertado pelos montes e os homens fazem pontes quase à vontade. Lá de cima vê-se como uma fita verde a enfeitar o cerro. Ainda fui feliz em Toledo. Hoje se voltasse seria feliz novamente. Mas hoje com outras calmas. Nesta preguiça dos meus dias deixava-me ficar numa canoa e ia pelo curso até chegar a Lisboa.

terça-feira, junho 27, 2006

As minhas preguiças

Tenho um dragão dentro de mim: é a preguiça. Hoje nada surge. Por favor, não liguem nem telefonem. Não estou. Nem sei se vou indo ou se repouso a cabeça. Não é do calor nem do capacete de nuvens impaciente no céu. É preguiça pura. O corpo arde baixinho e as pálpebras pesam-me. Tudo pesa. Santa indolência... bendita sois entre os pecados. Não resisto nem contesto. Desconheço a razão por que me explico e publico. Ainda há uma réstia de pachorra e respeito para o fazer. Tenho este dragão dentro de mim, que dorme a sesta e aquece-me o corpo. Tenho o sangue em lume brando e quase suo. Vou repousar a cabeça, enfim, descansar.

segunda-feira, junho 26, 2006

Um dia

A vida continua. Continua sempre. A minha não tem índice. Se tivesse teria gastas algumas folhas e outras estariam por ler. Hoje não me apetece. Quero a mão da minha mãe e passear. Tarde de Sol. Correr e não saber das horas. Hoje não me apetece o que tenho pela frente nem a ansiedade nem o resto. Depois há as saudades de quem não vou dizer. Apetece-me o colo da mãe ou da minha avó, correr sem saber das horas e passear de mão dada. A vida continua, continua sempre. Não sei se me habitue. Um dia farto-me. Será num dia como este... ou na véspera dum dia como este. A vida continua e apetece-me correr sem sentido. A vida corre sem sentido em muitos dias. Uns dias farto-me. Um dia farto-me. Será num dia como este ou na véspera dum dia destes.

domingo, junho 25, 2006

No outro lado

Tenho algumas lembranças da minha outra vida. Foi há alguns anos. Recordo-me de nevões e de manchas de árvores, de pegadas perdidas na alvura, da dificuldade em correr na neve em pequeno... depois houve outro tempo... cresci e a vida armadilhou-me o caminho. Amei e fui desamado. Aconteceu qualquer coisa.
Por despeito, tratei de facilitar a vida. A vida facilitou-se. Nevava no Inverno e no Outono. Penso que não me importava com o frio dos outros nem com o vermelho sobre o branco, nem com muita coisa além de mim.
A vida complicou-se. Sei de névoas, de fumo e pó, de ruído, de gritos e talvez vinganças. Não sei, não me lembro. Não sei ao certo. Sei que as aves negras voam também no Inverno.
Tenho saudades das minha infância. Dessa e desta. Tenho saudades da infância. A vida trata sempre de me complicar os dias. O meu amor vai-se sempre embora e acabo a fazer disparates. Tenho saudades do colo das mães e das minhas infâncias, das que me lembro.

Pelo amor que te tenho

Nas horas obscuras da minha vida tenho-me dedicado aos encantamentos e aos sussuros, leio em voz baixa as palavras que juntas em tempos se liam como blasfémias e valiam interrogatórios e fogueiras.
Perscutei na minha alma os sentimentos e consultei os sentidos e tudo me disse que amo e sou amado, sem que eu ou ela disso tenha consciência.
Nas horas tardias das noites, ainda a medo, li nos antigos livros amaldiçoados as sabedorias e as experiências de pedras filosofais. Hoje, nestes minutos de pensamento lembrei-me das buscas por uma rosa azul e uma tulipa negra.
Sem ter nada pela frente além de minutos de tédio e um amor por desvendar, sentei-me na escrivaninha dos mistérios e desenhei a estrutura do pensamento, fiz cálculos e previ fórmulas. Para espanto meu, antes dum bocejo consegui uma rosa negra para oferecer à mulher amada.
Agora tenho minutos de sossego para sonhar a quem a dar. Vou perguntar aos sentimentos e aos sentidos e sei que me dirão quem é. O coração irá ordenar-me avisadamente o que fazer e então farei o gesto de dar.

Nota: Dedico este texto aos amores da minha vida, aos passados e aos futuros.

O meu quarto com azul

Como uma pantera avanças em silêncio e, antes dum gesto meu, estou beijado. Esticada na cama finges-te nua, mas está vestida de pele. Sais com ela para caçar. Onde vais levas a pele à mostra, à fresca. Como um vampiro invertido: esperas que te mordam. Enganas, és um isco e o predador. Entras silenciosa pelo quarto e mesmo que durma, tocas-me onde me excitas e faze-me vir contigo. Comes-me com beijos-mordidos. Quero ser mau, acabo arranhado e sempre rendido. Nem por um momento mando na minha cama. Só não sei como ainda não pintei uma parede ou o tecto de azul como me ordenaste. Onde encontro eu força para te resistir. Devo gostar de sofrer!...

Aquele primeiro carro

O meu primeiro carro foi um Renault 5 cinzento metalizado, da segunda série. Bem, o primeiro foi um Volkswagen carocha 1500 que o meu pai me deu, mas consegui convence-lo de que não tinha bolsos para o abastecer de gasolina. O meu pai não percebe nada de carros!
O meu primeiro carro foi um Renault 5 cinzento metalizado, da segunda série. Foi engraçado, porque a minha namorada tinha um Renault 5 cinzento metalizado, mas do modelo anterior. O dela ficou «Carlos Alberto», por causa das letras da matrícula, o meu «Joana», em homenagem aos livros de Hergé das aventuras de «Joana, João e o macaco Simão». Eu sou o João, o carro era a Joana e o macaco Simão o pendura que ia ao lado. Nesta estória excluía-se a namorada... ela não achava graça à gracinha.
Foi uma época gira, aquela do carro. No espaço de poucos dias, talvez uma semana, consegui um carro, um belo emprego e uma namorada. O ano de 1993 entrou fabulosamente! Se fosse Vinho do Porto tinha declarado Vintage!
Não sei em qual dos Renaults 5 demos o primeiro beijo, mas sei que as viaturas valeram belos momentos. O dela era uma chasso! À época eu vivia com os meus pais, por isso o pára-brisas foi a janela do meu quarto para o mundo, onde a abracei, comecei e aprendi a amar.
Depois, a «Joana» começou a dar cada vez mais despesas e aflições: pneus, suspenções, amortecedores, bateria, travões e contratempos a desoras. Chegou um dia em que triste tive de me desfazer dela. Comprei a «Gigi», que nunca me encantou como a viatura anterior e que acabei por a vender depois de ter dado uma cambalhota com ela, quando um camião TIR a beijou na estrada. Hoje tenho a «Sílvia» e gosto muito dela! Por mim, hei-de tê-la até ser muito velhinha, porque os carros são bens de consumo moderado e duradouro, não montras de vaidade e exibição. Gosto muito da «Sílvia», mas tenho saudades da «Joana»!

Três tormentas pela frente

Os meus problemas maiores são três: dinheiro e amor. Até parece que me esqueci dum ou não sei contar, mas não, porque a alínea do amor é dupla.
Quanto ao dinheiro a coisa está mais ou menos resolvida, porque não tem resolução: faço o que gosto e o que quero, pelo que não mudaria de bom ânimo para um emprego mais rendível e menos realizador. Tenho de me conformar aos bolsos vazios. Aliás, é dá um certo estatuto ser, pelo menos, a quinta geração da família a baixar o estatuto económico. Os novos pobres ainda se constituem em associação... é uma questão de tempo.
Os dois outros estorvos só dependem de mim e são mais complicados, porque mexem com sentimentos e nos amores e humores não mandamos tão facilmente. Por vezes, até, os amores e os humores fazem conluios e tramam-nos a vida. Piora as coisas não estar resignado. Quando vim ao mundo não pensei em trazer esse extra e agora impaciento-me e exaspero.
Tenho pesadelos em que as duas borrascas amorosas se abatem ao mesmo tempo sobre mim. Não, não se trata de amores cruzados ou de indecisão de escolha. Não é uma adolescência tardia. Explico: o amor maior da minha vida (porque mais longo, mais intenso e mais significativo) é a pessoa por quem mais sinto amizade, mas por razões mútiplas e que não vêm ao caso não usufruimos desse sentimento, o que me faz lamentar a sorte e revoltar algumas vezes, mesmo sabendo que ela terá as suas razões, feridas e dores. A minha última namorada deixou-me uma confusão de afectos e não sei o que sinto por ela, se só amizade ou se algo mais.
Confesso não saber como resolver as tempestades, mas na verdade, as borrascas não se resolvem, enfrentam-se. Para ser sincero, vivo numa zona sísmica e não penso nisso. Todavia, vou manter os votos de celibato e de abstinência!... Não vá nascer outra tempestade a prazo...

sábado, junho 24, 2006

Questão cardíaca

Quando se está ferido morde-se sem ver.
- O que fazer com um amor antigo?
- Recicla-se em amizade.
- E se não fôr possível?...
Eu, cancro, me confesso em estado de voragem: escrevi um texto de raiva. Estava tão sedento de sangue que atirei letras a ferir alguém que tanto amo (não há outro verbo) e há tantos anos.
Agora choro e compadeço-me. Tenho pena de mim e lamento tudo o que não fiz. Olho para as vísceras desenhadas e penso nas minhas a palpitar e nas dela e no quanto já bateram juntas e acertadas, no quanto andaram zangadas e no silêncio fingido de frio em que estão hoje.
Hoje não jantei com uma ex-namorada... tardiamente sentei-me triste e lembrei-me de todas as outras antes dela até encravar naquela, na única, de quem não estou amigo. Desatei a puxar dos pontos, atrás deles saquei das feridas, das infecções e das dores, estiquei a pele, escarafunchei a carne e raspei o osso, quase ao vómito medonho. Quando sentia o ardor acre a doer-me jorrei agressões pelos dedos, vomitei ciúmes antigos, novos, razoáveis e delirantes... consporquei-me de cio fétido até chorar.
Depois de chorar... depois de lavar os olhos e a cara. Lembrei-me de todas as palavras bonitas que ela me disse já depois da nossa relação ter terminado. Limpei os olhos e apaguei o texto. Deixei ficar a imagem e o título. Fui muito bruto e injusto. Gosto tanto dela!

Nota: Este texto é dedicado a quem pensa que lhe é dedicado...

A noite azul...

Acabei por não jantar com a ex-namorada... razões aceitáveis. A noite foi divertidíssima! Fiz uma amizade improvável, desfiz um equívoco (ainda bem) com machão homossexual e cocainómano, encontrei uma putéfia intriguista do pior que vive com um ex-grande amigo, encarei uma antiga quase paixão e uma miúda linda de quem me lembrei do nome (mais nada), deslumbrei-me e deixei fugir a rapariga que, por momentos, me iluminou. Só por esta última razão, porque ela fugiu, a noite foi uma catástrofe... de resto foi cinco estrelas: vários problemas resolvidos e um grande jantar com o Pedro e a Raquel. Todavia, que pena não ter jantado com a ex-namorada, mesmo que em acumulação, tinha poupado o meu coração, e eu gosto tanto dela!

sexta-feira, junho 23, 2006

Hoje será azul

Um dia de azul é sempre especial, porque não há tristeza que pegue no azul. O azul é escorregadio para a lamúria e a dor e nesta cor só cabe alegria, felicidade e bem estar.
Por mais que se não queira, o céu limpo é sempre azul, mesmo quando a noite parece de breu profundo. Quando não há nuvens sobre a Terra há apenas uma azul escuro ou luminoso com uma estrela visível ou muitas.
Hoje decidi que será azul a minha noite. Combinei retemperar forças com alegria. Haverá vinho, talvez música e pasto do bom... e muitas saudades para matar.
Se por um azar, um acaso triste, se tingir com outra cor esta noite, sei que não deixará de ser azul e num outro dia brindarei aos amores antigos.

Arrumices

Isto ponho aqui, aquilo está também aqui. Ali vai aquilo e aquilo. Neste bolsinho cabe isto e isto e mais isto. No outro logo se vê. Depois práqui vai o coiso ou então... zuca! Zás! Deste lado cabe... cabe? Cabe! Já está! (Trautear uma música ou assobiar). Continuar as tarefas de arrumar e concluí-las.
Às vezes é bom arrumar coisas. É bom arrumar coisas em malas novas. É bom ponsar alto quando se está bem disposto. Gosto de esquemas bem desenhados e bem descritos. Detesto gente arrumadinha. Não gosto de malas de levar pelo ombro. Gosto de algumas mochilas.
- Para onde se vai com tanta tralha?
- Para a montanha.
- Fazer?
- Vamos caminhar e ver as vistas.
- Hum?!
- Levo um termo com café.
- Então, vou!

Só mais um cafézinho!...

Gosto tanto de café que até estou proibido de o beber. Ainda assim tomo dois por dia... às vezes três. Não posso, não devo, nem quero... mas quando dou por mim... Não é por vício, nem por necessidade, mas por um amor tresloucado ao sabor e ao odor do café. Nunca fui viciado em café, mas aparentei.
Com o café tenho uma longa e profunda relação. A minha mais longa e duradoura relação de amor. Não sei quem é o homem ou a mulher ou se a relação é homossexual. Lembro-me que desde miúdo a minha mãe me tirar a chávena da boca e de me flagrar a tomar café. Não era bebida para a minha idade!
Trata-se mesmo de uma relação amorosa, com ciúmes e tudo. Quem me lê sabe o quanto aprecio vinho. Pois, vinho e café na minha boca não se dão. Engalfinham-se e zangam-se os sabores em que nenhum se valoriza nem elogia o outro, mas apenas se prejudicam.
É evidente que há cafés que gosto mais e outros menos, mas não tenho opinião se prefiro as variedades arábica ou robusta. A arte está no fazer dos lotes, isso ensinou-me o Raul, que é o pai da minha primeira namorada. O Raul e a Rosinda tinham muitos cafés, de vários tipos e muitas proveniências e deixaram-me de brincar de alquimista uma vez que lá jantei. Na casa da Rusa iniciei-me na feitura dos lotes e fabriquei duas beberagens intragáveis. Já nessa época bebia sem açúcar para melhor saborear o amargor. Aprendi mais sobre café com a família R do que nos livros.
Não sei se aconteceu a mais alguém ou se é sina de família. Aconteceu ao meu pai e a mim: bebedeira de café. Aconteceu-me três vezes, quando bebi 16, 15 e 13 bicas. Garanto que é do pior. As pernas tremem, os braços bamboleiam, os músculos parecem não querer corresponder ao mando, há algo que falha à vontade e tudo com uma enorme lucidez. Ao mesmo tempo dá-se uma espécie de ressaca. É horrível.
Ultimamente andava mais calmo e não passava das seis bicas, mas os médicos cortaram-me a direito: zero! Nem um café. Nem unzinho! Um horror! Resisti, é claro! Felizmente não é vício. Ando a beber imitações com sabor químico... descafeínados. Enfim!... Recentemente deram-me uma feliz notícia: um ou dois cafés por dia já pode ser. Uf! Por isso, digo: Só mais um cafézinho, preciso do que eu quero...

Nota: Este texto é dedicado ao Turco, porque o texto é todo verdadeiro e real (ai do gajo que se meta comigo outra vez), ao Guillaz, porque a frase «só mais um cafézinho» é inspirada no refrão da canção «Mata-me de novo» (ando tantas vezes a cantá-la), que é da banda do miúdo, que me dá muito prazer ouvir, à Rusa, à Rosinda e ao Raul, pelas boas recordações.

quinta-feira, junho 22, 2006

Quando era novo

Quando era novo acreditava em amanhãs que cantam, em que no lugar do Sol estava uma estrela vermelha e um ideal revolucionário justo e superior. Por essa mesma época gostava dos quadros de Salvador Dalí e cria tratar-se de um surrealista.
(...)
No entanto, houve coisas que, desde novo, em mim não mudaram. A minha crença na hipótese dum mundo melhor (mudei de caminho, mas não de objectivo) e o gosto por este quadro: «Seis aparições de Lenine num Piano de cauda». Talvez as duas coisas estejam ligadas.

Versão completa em O Caderno

Cores complexas

A minha cabeça é um caleidoscópio. Nada está no lugar. Mesmo assim, julgo que consigo encontrar o que quero, mas na maior parte das vezes encontro tudo por mero acaso. Sou vagamente daltónico e tenho muita dificuldade em distinguir onde começa o verde e acaba o amarelo, onde findam os vermelhos e os azuis e se iniciam os violáceos, e há amarelos, laranjas e vermelhos muito parecidos a meus olhos. As minhas mãos têm a habilidade de fingir traços e com uma ponta grossa faço traços finos e repito as finuras até obter larguras. A minha mente vive em caos e tenho de pensar algumas vezes e experimentar antes de tingir alguém com a cor da sua pele. A volumetria e a ergonomia por vezes são difíceis e um atum por vezes parece-se com uma sardinha. Rascunho antes de aceitar o desenho final e acabo por aceitar males menores. Na verdade, devia dedicar-me mais, fazer ginástica de dedos. O esforço custa e a habilidade é apenas um consolo. De toda a forma, gosto de caleidoscópios.

Cores simples

Tenho tudo simples na cabeça, sei onde ir buscar. Quando preciso, coço a testa e com as unhas como que arranco as cores da pele. As ideias, os traços e as cores saem-me pela ponta dos dedos. Tenho tudo em separado: traços muito finos, finos, quase finos, médios, engrossados, entroncados e grossos, tintas do branco ao negro. Se penso em matéria, tenho as básicas: amarelo, ciano e carmesim. Se penso em luz tenho, azul, verde e vermelho. Na minha cabeça há água, fogo, terra, ar, quinta essência e imaginação, algum engenho e vontade. Está tudo separado. As minhas mãos obedecem-me e desenho o que quero, como quero e sai quase como quero, para que não me envaideça e continue tentando e jamais me satisfaça. Está tudo em estado simples na minha cabeça.

Pecado

Não tenho mulher! Não tenho paixão! Como é possível mesmo assim pecar? Malditas hormonas que me desassossegam!... Se soubesse que era assim nunca teria desistido de te amar nem de te mandar flores nem de te escrever poemas nem de te fazer surpresas nem de te comprar joias nem de te oferecer bombons nem de te sorrir à janela, mesmo que de ti apenas recebesse indiferença ou compaixão.
Jurei celibato e aranho-me na solidão. Cá me arranjo todos os dias à hora do jantar, sofro no serão e tropeço na cama quando de dormir. Mas porquê o sofrimento de ter de pecar quando fiz o voto da abstinência? Peco todos os dias, porque a serpente é invisível e é doce o perfume da fruta e igual ao odor que elas têm quando querem o que querem aquilo que se sabe que sabe bem. Peco todos os dias e em toda a parte. É um sofrimento aparentemente indolor e invisível. Quanto mais tempo passa mais determinado estou nos meus votos e mais perto de fraquejar aos desejos. Peco na mente. E na carne? É tão difícil viver sem pecar...

quarta-feira, junho 21, 2006

Uma enorme confusão

Há uma enorme confusão, que mete sentimentos, substantivos comuns, história e até livros sagrados. Não sei ao certo como começou nem de quem é a culpa, mas sei que anda muita coisa errada. Sei até que tem de haver mais do que um culpado. Depois de se ler este pequeno texto vai perceber-se porquê.
Não sei por que haveria a Eva de tentar Adão com uma maçã se tinha as uvas. As uvas tentam muito mais do que a pomódea, por mais verde e perfumada que pudesse ser... ou mesmo que fosse de vermelho diabólico. Não tem sentido. Depois de espremida, massacrada e processada, da maçã faz-se sidra. Alguém compôs poemas de amor à sidra? Alguém jurou fidelidade a esta bebida? Quantas princesas por ela desmaiaram ou quantos poetas morreram com ela envenenados e enebriados?
Das uvas faz-se vinho. Não é preciso usar muitas palavras a argumentar. Mesmo que houvesse renitentes a teimar ainda na perversão da maçã, bastaria dizer: Champanhe, Vinho do Porto e Tokay. Três passos mágicos para desfazer qualquer argumento. Mas se a teimosia se tornar em má índole capaz de tornar uma discussão em algo de bravio, negando a abastança destes três pilares da razão, e se contra-argumentarem na genialidade do Calvados, então, desplicentemente, faz-se um sorriso com doçura e profere-se: Armagnac e Cognac.
Não! O fruto da tentação não foi a maçã, mas a uva!
Mais tarde, certamente mais tarde, alguém chamou ao maracujá de fruto da paixão. O que tem de apaixonante um fruto que se deixa domesticar em estufa? Só esse facto desmente a essência do cognome. Já para não falar do seu sabor... mas quanto a isso... respeita-se, aceita-se, embora se dicuta. Tudo se dicute nesta vida! Haverá algo mais sensual do que partilhar um cacho com a pessoa amada? Dois corpos deitados e um braço segurando os bagos... talvez cerejas, talvez morangos, nunca maracujá! Mas é das uvas que se faz o vinho, que liberta os corpos, solta as línguas, tenta os gestos, seduz as mentes... o fruto da paixão é a uva!
Uvas há as bravias, as de mesa, as de vinho, que são mais doces e pequenas. Tanto umas como outras têm muitos nomes, mais do que as variedades. Por mim, as do paraíso eram de vinho... porque dão para comer e delas se fazem bebidas da tentação. Tudo mais não sei. Sei que gosto de uvas.

terça-feira, junho 20, 2006

A minha tempestade

Uma tempestade só minha seria diferente de todas as outras tempestades. Teria ao mesmo tempo papoilas e orvalhos e joaninhas a combinar na cor das flores. Ao mesmo tempo uma atmosfera de azul fraquinho haveria de misturar-se com feixes de luz solar desmaiada de amarelo muito claro para criar uma estranha luz esverdeada. Nesse entretanto, umas nuvens correriam no céu, outras aquietar-se-iam e algumas desfazer-se-iam quasi geladas. Poderia haver relâmpagos, mas aconteceria um absurdo com mais trovões do que faíscas e estas aconteceriam apenas onde a terra se cobrisse de lavanda, para que o dourado do fogo melhor contrastasse com os lilases herbáceos. Um cheiro de terra molhado misturar-se-ia complicado e depressa com o da terra a molhar-se e com o da erva sempre fresca e com o das coisas onde a água não toca. Martas, corujas e formigas estariam secas e encharcadas e todas as árvores teriam folhas, menos aquelas que já as tivessem perdido. Os meus pés secos pertenceriam ao mesmo corpo dos ombros molhados e dos olhos felizes de espanto. Duraria todo um dia, enquanto houvesse luz para festejar, até ir para o quarto fazer amor contigo. Se eu pudesse, seria assim a minha tempestade.

A bola tapa o Sol

O disco solar é quente e é meigo o sorriso do teu brincar. Não sei de ti sem ser com uma bola e com ela és mais feliz e livre. Vejo-te correr com ela esteja sol ou chova e nem a fome te tira o ânimo. O disco solar é um Deus à espera dum altar e tu prontificas-te para ser um seu sacerdote. Se algum dia faltar a luz, sei que não te vai faltar o riso nem tremer de medo as pernas. És um menino rico de alegria. És um menino feito de luz no sorriso, no gingar e no correr com a bola. Se um dia faltar a luz, não será por a Lua tapar o Sol, mas porque o tapaste com a alfaia do teu credo.
Quando o mundo se encandeia no mundial, tu brincas na mesma rua ao Sol, com a mesma bola dos outros dias. Um dia talvez sejas tu a estrela e brilhes nesses palcos de luxo. Se esse dia não acontecer, não deixarás de ser sacerdote do mesmo Deus Sol. Nunca deixes de correr nem de sorrir.

Nota: Roubei esta foto no blog da Moonlover e de lá tirei inspiração.

Carta a uma bailarina desconhecida

O ataque da surpresa às vezes é um sufoco outras um festival de flores sem cheiro. Conheço o sabor das memórias. Tenho medo. Atrás duma doce palavra podem esconder-se adagas cortantes e o ardor da ferida jovem.
Li entre o teus papéis que encontraste um vestido. Já nem te lembravas dele nos dias corridos. Vieram-te os prantos e os gestos e os gracejos de há dez anos quando o reencontraste. Quantas coisas bonitas fizeste com ele e quantos corações destroçaste? Também importa! Quanto tempo passa e de que são feitas as recordações? Não têm a espessura do fumo e na maior parte do tempo nem as sentimos presentes.
Encontraste um vestidos e despiste uma parte de ti à frente de toda a gente. Trocaste emoções por palavras e tocaste-me num nervo pequenino. Tenho saudades de ti, mesmo não te conhecendo.

Afogar o sono

Gostava de nadar no mar todos os dias e não ter este ardor nos olhos. Gostava de não ter sono. Os peixes não dormem. Nunca vi um peixe dormir. Teria sal no corpo, mas também água à volta. Respiraria sem cessar e manobraria rápido sem pensar. Gostava de nadar todos os dias no mar e não ter este tédio nos dias nem a doença da cabeça. Viveria sem perspectiva doutra coisa que não existir sem saber pensar no que é a vida. Gostava de nadar todos os dias sem pensar nos olhos nem no sal nem no tédio. Se fosse como sou hoje seria um peixe pelágico, nadando em profundezas frias não abissais nem muito escuras. Seria talvez um carapau bizarro, porque queria antes um coral de cor e gente de escamas à volta e não um cardume, mas jamais viveria numa toca como uma moreia. Queria ser peixe para não ter sono nem este ardor nos olhos nem a doença da cabeça.

segunda-feira, junho 19, 2006

Correria

Tenho uma correria dentro de mim. Venho de correr. Venho a correr. Sinto-me a correr. Sento-me a correr. Desespero. Desespero-me nas horas que tardam e na tarde que não passa. Tudo passa a correr menos o tempo.
A vida é uma monotonia. A correria um fenómeno abominável que não acelera o tempo nem distrai. Não tenho sangue, tenho agulhas nas veias a picarem-me de dentrom para fora e a impelirem-me a correr. Sufoco do esforço de tanto correr. Não morro, nem assim, nem se me desmaiam ou tropeçam os pés.
A noite de dormida passa a correr. Não devia. Devia ser eterna, definitiva, final e justa. Desespero-me nos dias. Todas as horas são de correr. Não gosto de correr. Não sei viver sem ser a correr. Quem me dera parar. Não sei o que faria se parasse... talvez recomessasse a correr. Hei-de morrer a correr. Só tenho pena se não passar pela vida a correr. Se pudesse ia-me já, a correr.

sábado, junho 17, 2006

Jantar para duas meninas

Ontem fiquei a suar em bica com a ansiedade, a correria pela cozinha e o calor dos fogos. Neste fingimento de Primavera e ameaço de Verão resolvi dar um jantar de espelhos, ou seja enganos às estações, que, além de tudo, andam fugidias. Pois foi de frescos e de quentes, tanto nos bebentes como nos trincantes.
Duas belas e sábias amigas (a Suspinha e a Nanda) vieram cá jantar e sem cerimónia ornamentei a mesa, mas preocupei-me com a ementa, tal é a reputação de suas barrigas e a exigência e a sabedoria dos apetites. Fui às compras sem pressas e atarefei-me nas lides da cozinha, o que sempre me rejuvenesce. Tratadas as tarefas foi tempo de jantar.
Veio primeiro, antes de tudo, um branco Monte da Peceguina 2005 (regional alentejano) para afugentar os calores, distrair os convidados e reanimar o cozinheiro enquanto a comida se aprontava. Estava escorreito o vinho, bem feito, mas continuo a lamentar a sorte dos brancos vindos do Alentejo, por causa do açúcar residual a tapar tudo o resto... enjoam-me.
A estreia à mesa foi um gaspacho a puxar ao vinagre para que maior fosse o refresco, acompanhado com atum, em salada de cebola e ovo para cortar o peixum. Isto serviu-se com um Muros Antigos Alvarinho 2005 (Vinho Verde - sub-região de Monção) que não podia estar mais fresco, seivoso e apetecível.
Depois vieram cogumelos portobello, que são quase tão grandes como meia laranja, recheados com foi-gras e chévre gratinados, justamente acompanhados com Aureus de Sauternes 2003 (Sauternes). Emborna não seja o Sauternes que mais me impressionou, o vinho escoltou muito bem os fungos e fez eleger esta como a combinação gastronómica da noite.
O terceiro prato ligou-se mais à quase invernia dos últimos dias e foi talvez um pouco quente e não fosse estarmos tão saturados e teria sido degustado em maior quantidade. A saber: carne de barrosã em cubinhos frita em azeite com morcela de Trancoso e cogumelos seta fritos em azeite. À parte fritaram-se uns cogumelos (vulgares) laminados com presunto de pato, temperos e colorantes do arroz que acompanhou a carne. Esta confecção foi apresentada com Emergente Crianza 2002 (Navarra), um vinho que não deslumbrando criou vontade de o provar mais vezes e sobretudo de o testar daqui por um par de anos.
Com este vinho com toque de frutos vermelhos avançou-se improvisando para umas cerejas do Fundão. Não sei se alguém reparou, mas este ano as cerejas andam divinais!... A ligação com o vinho foi estupenda.
Quando se julgava não poder mais veio a estocada final, com alguma malvadez. Bombons All Dark Selection da Godiva e H.M. Borges Colheita 1995 Boal (Vinho da Madeira). Este foi o melhor vinho da noite e os chocolates estavam num ponto de pecado que fazem os comensais agora precisar de abstinência, suplício santo e ginásio.

sexta-feira, junho 16, 2006

Trovoada

A trovoada causa tremores e temores. Há quem tenha muito medo dos trovões. Há quem se esqueça dos relâmpagos. Gosto do estardalhaço das borrascas. Gosto de ouvir o céu arrastar móveis. Gosto de ver a luz passear no céu. Gosto de ver as meninas com medo. Gosto de rir dos homens com medo. Gosto de sossegar as minhas gatas e de as ver espantadas. Não gosto que chova em casa de ninguém. Não gosto de castigos. Não gosto de sofrimentos. Gosto do tom grave que vem do alto, do altíssimo, das nuvens escuras, da noite, dos medos, dos segredos e dos enredos da mente. Gosto da luz bonita, do seu aparente deslize sem destino, da sua velocidade, da sua ferocidade, da sua brevidade e da surpresa. Gosto paz, do silêncio e do cheiro no final da tempestade. Gosto dos tremores e dos temores da trovoada. Agora está uma lá fora e tenho vontade de dançar na rua e de me molhar. Nem parece que é quase Verão!... Daqui a pouco já passa... fica um eco na memória e a recordação da luz, ficam os sustos de quem os tem. Gosto de trovoadas. É quase Verão, parece Inverno e apetece-me molhar a roupa a dançar à chuva ao ritmo grave dos trovões.

Nota: Este texto é dedicado à Gisela Amieira.

Uns grandes prazeres

Com os pés enterrados na areia ou com as plantas e os dedos a sentirem a sílica sobre a madeira e as partes restantes do corpo salgadas, não há muitos prazeres como os da carne de tunídeo. Garanto e tenho autoridade maior, por causa da minha intolerância ao peixe.
O atum, para o conseguir tragar, tem de vir em lata e nadando em azeite. As conservas serviam para a comida aguentar longos períodos antes de haver móveis de frio. Hoje, porque há frigorífricos, as conservas são guloseimas, prazeres e tradições, memórias. Por tudo isso só há razões para que o atum venha em azeite e não em óleo de qualquer outro vegetal, e que seja virgem extra, proveniente de azeitonas apanhadas no ponto ideal de maturação e transportadas rapidamente para lagares asseados. Se assim acontecer fica mais rico o peixe. As latas são bonitas, mas como reluziriam as postas se viessem acomodadas em vidro escuro e sempre protegido da luz e dos calores?! Mil cuidados.
O atum, para o conseguir tragar, tem de vir em lata e nadando em azeite. Não pode ser sangacho, porque esse agride-me as goelas com o sabor que tem o cheiro do peixe e revolta-se-me o estômago e reviram-se-me as entranhas e a agonia transforma-se em vómito. O atum, para o conseguir tragar, tem de vir em lata e nadando em azeite e tem de ser claro.
As postas desfazem-se, desfiam-se suavemente, e misturam-se com cebola picadinha e feijão-frade cozido. O azeite da conserva melhora os humores do farináceo e ao tocar o bolbo faz soltar um perfume comovente. Não há maior delícia para se provar com a areia nos pés e com o mar nos olhos. Para desafiar o gosto vai bem um vinho branco sem estágio em madeira, bem fresco e vivo. Aí não imagino muito mais do que um bom Vinho Verde, de preferência da casta alvarinho, nascido na sub-região de Monção.
Agora que sonhei já não preciso de mentir. Lembro-me tão bem da praia de Tavira, fico com saudades do azul da ria Formosa, bem perto de Faro, e lembro-me das tardes da Meia-Praia, em Lagos. Ai, Algarve!...

Mentir

Apetece-me mentir, porque a mentira parece não ter fundo. Mais profunda é a fantasia. Parecem-se, mas não são a mesma coisa. O poço mais comprido é o do delírio. E sem fim é a realidade. Mas a realidade é chata e quase sempre plana e sem sobressaltos... por isso é que surpreende e ultrapassa a ficção.
Apetece-me mentir sem dó nem piedade nem remorsos. Apetece-me mentir, porque estou triste e ressabiado. Mentir e encostar a cabeça antes de dormir e não ter pesadelos é o meu desejo. Um derradeiro desejo. Um feitiço. Apetece-me mentir, mas estou consciente. Não me engano. Não será fantasia, será, então crueldade. Não me engano. Não será delírio. Apetece-me mentir e se o fizer vou sofrer. Sofre-se sempre quando se mente. Que enjôo! Vou vomitar-me... Estou tão feio! Apetece-me mentir, mas o espelho não deixa. Quem me dera fechar os olhos para não ver, mas vejo-me ainda às escuras e dói-me o coração. Não me engano. Sei que me apetece dormir e mentir. Hoje o dia vai ser longo. Vou partir o espelho e mentir-lhe. Pode ser que resulte.

quinta-feira, junho 15, 2006

O Diabo

Que não se diga mal do Diabo, porque ele aparece logo a correr. Que não se diga mal do Diabo, porque isso fá-lo mais forte. Que nunca se faça a vontade ao Diabo! Que não se diga mal do Diabo, porque é um coitado dum enganado. Um dia vai ver o seu erro e querer voltar atrás. O Diabo vai sofrer e precisar de ajuda. Mais do que ninguém, o Diabo precisa de uma oração e que o amem e lhe estendam a mão para o ajudar.

Zzzzz

Gosto muito das minhas almofadas e quando as gatas me fogem... quando me dão tampa... abraço-me às almofadas. Beijo-as e confesso-me. Durmo e sonho. A noite correu muito bem. Serenamente bem: das 10h da manhã até às 17h. Foi uma boa e descansada noite. O meu dia durou muito mais e agora: Zzzz! Adoro almofadas. A minha relação é tão forte que as gatas não ousam usufrui-las. Agora: Zzzz! Só mais um bocadinho!...

quarta-feira, junho 14, 2006

A martelo

Não sei onde Thor deixou o martelo... se soubesse!... Entre cispas e sem pudor. Ferisse quem ferisse e fulminasse quem fulminasse. Não malho as palavras em bigorna, porque aguentam mais do que o aço e não se vergam nem moldam à custa de calores. Não desisti de lhes dar porradas, mas as palavras não mudam porque se lhes dê com força com o martelo. O som férreo da batida do maço no tais pode ser erótico para mamíferos e répteis susceptíveis... humanos, claro está. Sem jeito nada se faz e há martelos para vários usos. Para as palavras desaconselho-os... não dão resultados. Já nos autores de algumas prosas e versos podem ser úteis, caso os façam deixar de escrever definitivamente. Embora não lhes deseje a morte, mas apenas uma incapacidade física, já que não são dotados de discernimento suficiente para deixarem a escrita antes duma martelada. Hoje não se faz vinho a martelo, porque sai mais caro do que fazer vinho honesto. Ainda bem! Não sei onde Thor deixou o martelo... se soubesse!... Estava capaz de lá ir buscá-lo e de usá-lo como divertimento!...

Dedico este texto ao meu amigo Turco.

Simples

Gosto de coisas simples. Sem ironia! Sei que causo náuseas a quem me quer presentear, porque tenho tudo e sou complicado... dizem até que sou rebuscado. Não sou! E não vou pelo cinismo irónico de Oscar Wilde plagiado por Winston Churchill de que tinha gosto simples e se satisfazia com o melhor. Nada disso: tenho mesmo gostos simples!
Gosto de malmequeres. Gosto de vinho tinto. Gosto de lápis. Gosto de livros de história. Gosto de vinho branco. Gosto de filmes policiais. Gosto de ténis da Adidas. Gosto de poesia. Gosto de vinho rosé. Gosto do cheiro da borracha. Gosto de prosa poética. Gosto de canetas de tinta permanente. Gosto de rosas. Gosto de brasões autocolantes. Gosto de espumante. Gosto de livros temáticos ilustrados. Gosto de sinetes para lacre. Gosto de charutos havanos. Gosto de Vinho do Porto. Gosto de charutos dominicanos. Gosto de papel colorido. Gosto de tulipas. Gosto de Vinho da Madeira. Gosto de filmes para rir. Gosto de tabaco inglês para cachimbo. Gosto de livros de culinária. Gosto de vinhos de colheita tardia. Gosto de presunto. Gosto de guardanapos de papel coloridos.
Depois gosto de coisas complicadas e de formas complexas de amar estas coisas simples...
Simples!

Piranesi

Todos os dias lavo os olhos na obra de Giovanni Battista Piranesi (1770-1778), um artista neo-clássico muito fascinado pelos ambientes decadentes das ruínas e tenebroso das prisões. Marco os meus dias a ver-lhe os traços, a imaginar o Império Romano, Roma e o século XVIII. A imaginação voa nas gravuras a preto e branco... chego a ouvir-lhes ruídos, burburinhos e conversas. Benditos foram os teus olhos e as tuas mãos, Piranesi!

Sou uma garoupa

Tenho as mãos nos bolsos da cabeça e, quando posso, encosto-me às paredes deitado dias a fio. Ando de cá para lá na cama à espera que aconteça o milagre da aparição do que quer que seja para agitar o ar morno dentro de mim e que confundo com aquele que respiro. Sonolento e estiraçado, entre o sonâbulo e o adormecido, sou um peixe a viver fora de água. Sou uma garoupa gorda com uma grade boca aberta e a ameaçar tragar. Sou um enorme trofeu de pesca e uma iguaria. Mas ninguém me pesca, porque o meu mar é fechado e vivo deitado e fora de água. Dói-me a cabeça e a alma e só respirar já é um tédio. O meu quarto está decorado com fastio e tem penduradas lascas de aborrecimento que me prendem a ilusões entorpecentes. Custa-me existir fora da cama e a preguiça e o medo de sair tornam-se num susto. Sou uma garoupa assustada. Não quero ir para o mar, porque temo que a água salgada arranhe as escamas. Este aquário de água limpa, mas com muito tédio e fastio, que é o meu quarto, é um refúgio seguro para viver estúpido. Daqui não saio e se daqui não sair não terei mais desilusões nem desencantamentos. Visto daqui, o mundo e os mares são como os imagino e ficarão como estavam na última vez em que os vi e nadei. Sou uma garoupa amaldiçoada. Ninguém me pesca na minha cama de medos.

Vou cumprindo

Vou. Vou indo. Vou por um caminho curvo... que também pode ser recto... não tenho distanciamento para saber. Penso que sei para onde vou e não penso no caminho, tal a certeza do destino. Contudo, se penso não sei onde estou e duvido para onde vou. Ao certo desconheço o tempo da viagem. Ao certo e em abstracto sei que o fim é só um. Às tantas tenho vontade de me sentar. Posso, mas não quero e não sei se deva. Algumas vezes penso em desistir. Sei que, em abstracto e em definitivo, o fim é só um. Se desistisse voltaria ao princípio. Repetidamente tenho a sensação de estar a repetir os locais por onde passo... talvez já tenha passado ou seja apenas uma parecença ou mesmo uma repetição ou uma premonição realizada. Vou. Vou indo. O caminho é curvo, mas não o noto, porque é longo... tão longo que se torna doloroso... tão longo que os pés ganham calos e já nem doem. Vou. Vou indo. Repito passos. Sei qual o meu destino e julgo saber o caminho. Sei o destino, em abstracto, mas desconheço a sorte e da estrada nada sei. Sei que um dia hei-de chegar.

terça-feira, junho 13, 2006

Protesto em branco

Quero protestar! Tenho motivos para isso. Não as vou os escrever por não ser este um espaço de desabafos. Que explicação posso dar? Que há enganos na minha cabeça... e outros tantos nas outras... que a dor não conhece idades nem momentos. De resto, está tudo bem, vai tudo andando. Amanhã talvez não me lembre da ingratidão nem do esquecimento. Provavelmente fiz o mesmo. Hoje é dia de Santo António. Estou em Lisboa. O Santo está em toda a parte e também nesta sua cidade, a sua verdadeira cidade e casa. Hoje o mundo vai continuar esquecido com os olhos a perseguir uma bola ou na praia ou a festejar outras conversas. Amanhã, com sorte, já não me lembro das afrontas que me fizeram... e espero que não se lembrem das que fiz. A vida continua amanhã... e sempre. Amanhã e em próximas vidas. A ingratidão e o esquecimento também merecem perdão.

segunda-feira, junho 12, 2006

Santantoninho

Tenho até receio de escrever por causa das minhas aleivosias peremptórias tantas vezes mal-entendidas. Não gosto do Santo António! Não é do Santo, é da noite! Quero dizer, gosto da noite, não gosto é da multidão da noite de Santo António em Lisboa. Gosto do Santo, pois então. Sei quando está para chegar o dia, pois é quando tenho de ligar uma ventoínha no quarto para poder dormir. Não há calor mais sufocante do que este de princípio e meados de Junho... Este ano até nem vai mal, porque veio mais cedo e partiu-se, e agora vai-se estando. Ai, meu Santo Antoninho!... Em Itália e noutros países dizem que és de Pádua, mas só podes ser de Lisboa - ignorantes! Porquê? Porque nasceste aqui, tiveste nome português e só isso basta! Se não fores só de Lisboa és do mundo inteiro, de Pádua é que não és! Logo há marchas na avenida, patuscadas de febras e sardinhas na rua, multidões e bebedeiras. Já todos se esqueceram que o teu dia é amanhã, o que querem é folguedo e bacanal carnavalesco na noite que antecede o feriado. Até nem sabem que o padroeiro de Lisboa é São Vicente e desconhecem que todos os Santos são amigos. Festejam-te os cristãos e os ateus... faz sentido? Faz porque a festa lisboeta é pagã e celebra o solestício de Verão... A Igreja sabe, mas ninguém repara! O que se quer é tosga! E na Igreja, no dia 13, casam-se crentes, descrentes e negligentes... pois há tanta gente que só quer os rituais e as aparências!... acho triste, enfim! No dia de Santo António casam-se muitos, porque o Santo de Lisboa é casamenteiro... e se um dia vier um divórcio não sei a que Santo irão pedir contas... Pronto, já chega! Não escrevo mais. Hoje nem Santo António me vale!

domingo, junho 11, 2006

Época de caça

Abriu a época de caça aos caracóis... pelo menos para mim. Hoje devorei o meu primeiro pratinho. E para provar que há mais de beber no mundo do que água e vinho dei uma oportunidade a essa sub-bebida chamada cerveja. Estava boa, fresquinha. Os caracóis são uma coisa estúpida que não sacia a fome, mas que satisfaz muito e alegra. É uma das poucas alegrias do Verão. A outra é a praia. Beber cerveja até doer a cabeça é outra para algumas pessoas. Amanhã não vou trabalhar! Já decidi que vou estar doente. Pode ser que me arrependa ou não me lembre. Os caracóis estavam tão gostosos! A cerveja era apenas cerveja... um líquido fresco e com gás que conjuga o verbo ir-à-casa-de-banho com grande frequência. Então, até às próximas letras e que os bichinhos se repitam... e como são coisa estúpida e de difícil classificação, que se aproximem com cerveja!

sábado, junho 10, 2006

Camões

Já cá faltava este! Tenho-lhe uma inveja e uma raiva!... É Dez de Junho e só é pena a bandeira ser verde e vermelha e não azul e branca... mesmo sem coroa!... Viva o Camões!

Muñeca

Esta é uma boneca. Muñeca em castelhano - dá jeito em crises de identidade e afins. Princípio: Esta é uma boneca e representa-te. Brinco-te. Olá! Estás bem?
Neste texto não há presente sem passado! Nem futuro sem presente! Nem futuro sem passado! Nem sei se és completamente passado! Sei que o nosso futuro tem presente que é passado!... Mas não o que fazer contigo! Juro que no dia-a-dia não me lembro da tua vida. Não sei se existes, se respiras, se és feliz ou sofres... Não sei de ti, mas lembrei-me passado este tempo...
Muñeca en castellano nas cheganças de quem não quero nem lembrar. Lembrei-me de ti a estas horas tardias em que me podes comprovar e não sei bem nem quero explicar... Lembrei-me e não te quero ouvir justificar.
Sabes, sinto muito a tua falta como sinto a de todos os grandes amigos ausentes. Não fazes sintido «morta» e ainda menos estando viva e próxima de mim. Gosto tanto de ti e só quero abraçar-te e dizer-te o quanto sinto a tua falta... patifória! Amiga!

sexta-feira, junho 09, 2006

O Turco

Tenho um amigo com um coração maior do que ele. Por o coração ser tão grande, as palavras saem-lhe sem filtro pela boca fora. Não tem o coração ao pé da boca... tem é a boca no coração. Diz o que pensa e diz muitas vezes sem pensar. Por isso é muito inconveniente. Mas é verdadeiro e puro, até ingénuo.
Ele é casmurro e rabugento sem ser impertinente. Anda enclausurado no trabalho e sociabiliza pouco, o que o torna ainda mais resmungão. Esta é uma razão por que os amigos lhe chamam Turco... porque inscreve-se no arquétipo das personagens do cinema.
Quando bebe um copo a mais vira-se do avesso e avinagra o vinho: normalmente dá para fornicar o juízo ao irmão. É um divertimento. O melhor de tudo são as opiniões azelhadas sobre tudo: faz diagnósticos precisos sobre os mais diversos temas. É óbvio que estão absolutamente errados, porque parte de pressupostos incorrectos que têm vícios e tendências de raciocínio, mas são divertidíssimos. Isto torna-o muito português, mas ele é tão afirmativo que lembra aqueles turcos nas manifestações a gritar os seus argumentos.
A primeira razão para a gireza dos argumentos do Turco é a inteligência deste meu amigo: é das pessoas mais finas de pensamento que conheço. Ele estrutura bem, manipula o que quer para levar os ouvintes a concordarem com ele. Tem azar, pois ele é o Turco e os amigos lembram-se sempre disso e gostam de o lembrar. As tiradas sábias do Turco são de gritos!... e gargalhadas! Às vezes até de zanga, quando se mete na especialidade de alguém. E o Turco tira grande gozo quando consegue fazer comichões em alguém.
Mas o que tem de melhor o Turco é mesmo o grande coração, que é maior do que ele. É capaz de quase tudo por um amigo. Pode não saber datas de aniversários, pode baldar-se até a alguns acontecimentos importantes, mas no coração do turco cabe tanta coisa!... Mais do que ter bom fundo, não tem fundo, o coração do turco! Gosto mesmo daquele miúdo!

Nota: Como não posso e não quero mostrar a fotografia do Turco... nem revelar o nome para não se descobrir a sua identidade... fica a imagem do Banho Turco de Ingres.

Um exagero numa questão de esferas

O mundo é uma esfera e talvez mais de quatro mil milhões dos seis mil milhões de cabeças do mundo se voltem para as esferas que vão rolar no mundial de futebol. Mesmo que os corpos passem fome, a saúde passe mal e a vida exista com dores na sociedade. Quatro mil milhões ou mesmo cinco mil milhões e tanta gente com fome e doenças e sem tecto. E o que importa? Festa é festa! Haja pão e circo! A humanidade é tão romana como é egoísta e distraída. Que se gastem milhões no festim e na engorda, que se descansem os olhos das fadigas gordas de todos os bem instalados operários e funcionários ocidentais e nortistas. Não importam as misérias do Sul e do Oriente. Nem tampouco as de ao pé de casa, quanto mais as que estão longe da vista. Os ricos que paguem, gritamos todos encolhendo os ombros a olhar para o televisor, nervosos com o jogo e sedentos de cerveja e petiscos que se atiram vorazes ao coração. Esquecemo-nos que a classe média ocidental é rica. Nas outras bandas do mundo, os magros e os famintos seguem esfaimados e doentes as mesmas bolas. Há só uns tantos, talvez menos de mil milhões, que não ligam ao futebol... porque não gostam ou porque estão morrentes de misérias várias. Atrás das esferas distraídos andam cinco mil milhões, talvez mais, mas outros tantos andam com fome, não têm acesso à saúde nem condições de vida condignas para os padrões do século XXI. É hoje que começa a doença das esferas. A minha, a que tenho agarrada ao pescoço, já está farta e de cabelos em pé... mas doença é doença e eu, que nem ligo a futebóis, no domingo vou ver a bola!

quinta-feira, junho 08, 2006

Bago

Eu queria escrever sobre uma coisa, mas fui censurado pela vida... ou pelas oportunidades dela. Houve um tempo em que decidi tornar-me ladrão de imagens e daí não me movo e quase não passa dia em que não roube uma coisita e escreva sobre ela ou que a ponha a ilustrar palavras minhas.
Hoje queria escrever sobre bagos e comparar as letras e as palavras a sementes e desejar que um vento as levasse para que pudessem frutificar algures e emprenhar noutras cabeças algumas ideias. Aí a vida censurou-me: O meu objectivo era vermelho e sumarento. Pensei em bagos e nasceu-me uma romanzeira de lindos frutos difíceis de usufruir. Até na internet são complicados, pois tudo quanto encontrei não me saciou, porque não teve encanto diante dos olhos. Pesquisei nas línguas que sei e, através de maroscas, noutras que desconheço. Paciência, procuraria por bago. Simplesmente por bago.
Hoje queria escrever sobre bagos e compará-los a letras, palavras e ideias. Gostava que além de olhos, dedos, leitores e mirones passassem ventos pelo meu blog e levassem o que para aqui há para outras cabeças e lugares. Poderia ser que frutificassem e emprenhassem ideias que se vissem e dessem debates e mais textos e poesias e prosas e trocas de textos e criações em despique. Gostava. Pesquisei por bago, mas a vida censurou-me novamente. Nada me deu de prazenteiro até que...
Até que me deparei com esta foto de gansos selvagens a voar. O que têm estes gansos a ver com bagos? Comem-nos, provavelmente. E então? Não sei o que escrever sobre eles e já não quero dissertar sobre os bagos nem sobre as ideias nem despiques criativos nem cadáveres-esquisitos entre blogues. O vôo é bonito e basta-me. Se todas as censuras fossem assim!... Devemos procurar sem cessar o que queremos, mas também aceitar com um sorriso aquilo que a vida nos dá. Digo isto de mim para comigo... Digo-o muitas vezes, porque não fui bafejado pelo dom da resignação.

Olhos pra cima

Espantei-me por não conseguir fitá-lo nos olhos. Que bonito animal! Grande e lustroso. Não sei se belga, alemão ou polaco. Os nossos puro-sangue lusitanos são maneirinhos, dóceis, versáteis e inteligentes. Está bem! Mas fiquei espantado com aquele cavalo tão grande. Se fosse para a guerra montado num lusitano não sei se não debandava ao ver o opositor numa montada daquelas!... A menos que o meu lusitano me emprestasse coragem... Era tão belo e grande aquele cavalo! Agora quero ser hussardo e brincar às batalhas montado num ginete maior do que eu...

terça-feira, junho 06, 2006

Sina

Gostava que me lessem a sina. Gostava que o meu destino não fosse só meu, que não dependesse só de mim. Tenho o que escolhi, terei a sombra das árvores onde me abrigar e só comerei os frutos onde quiser. O meu futuro está nas mãos e lá está escrito que serei o que quiser e fizer, e não serei diferente de ninguém.
Gostava que me lessem a sina, pois gosto do mexer nas mãos. Gostava de saber do meu presente, passado e futuro, ainda que inventado. Gostava que mo lessem pelo corpo todo. Gosto que me toquem em todo o lado.
Gostava que o meu corpo fosse de areia para ir a todo o lado soprado pelo vento e que o roçar nos vários objectos me lesse a sina e me desse o prazer do toque. Gostava que me lessem a sina. Tenho o futuro nas mãos.

Primeiro mergulho

Dei o primeiro mergulho. Foi no domingo. A água estava transparente e quase quente, quase fria, mais para o morno... bitola da costa ocidental portuguesa. Não tive medo pois gosto. Estava calmo o mar com vagas redondas e baixas, a rebentar abaixo da cintura. Estava maré vazia. Corria uma brisa na praia e o Sol portou-se bem sem escaldar demasiado. Dediquei o meu primeiro mergulho aos amigos que ainda não se banharam este ano.Foi no domingo. Vim salgado para casa e feliz... levei areia agarrada aos pés.

domingo, junho 04, 2006

Festa à mesa

O Paulo acusa-me e eu acuso-o. Na verdade devemos ser os dois culpamos mais a Nês. Vou tentar contar a minha versão e com sorte pode ser que tudo fique em bem a rimar com todas as opiniões.
Era para acontecer um jantar aqui em casa, mas porque não havia onde deixar o miúdo do Paulo e da Nês passou a cerimónia para a casa destes. Desde então tomaram-me conta do evento, acuso eu. Desde sempre dizem que o repasto foi meu. A verdade é que a união de esforços deu uma coisa memorável de fazer inveja a nós mesmos, pois agora enciumamo-nos por não estarmos a usufruir aquele momento, como se fôssemos hoje outras pessoas, porque há instantes na vida em que o tempo está proibido de passar.
No primeiro acto aconteceu um Quinta dos Cozinheiros Rosé de 2004 (Regional Beiras), líquido seco e austero na fruta, bom para matar a sede. Estava fresco e contrariou o calor daquele fim de tarde. Porém não é o meu vinho rosé nem fez amigos... não angariou adeptos para as falanges dos rosés, embora todos lhe reconhecessem virtudes. Depois, sim, houve muita alegria e contentamento. Veio de Champanhe um rosé divertidíssimo e elegante: Bauget-Jouette. Com este todos festejaram e grandes sorrisos se puseram nos rostos, até dos teimosos que insistem em afirmar e garantir que não gostam de Champanhe nem de rosé.
Acto segundo: queijo camembert, um malcheiroso francês que não fixei o nome, queijo de azeitão, queijo de mistura de cabra e vaca, pasta de fígado de porco, duas variedades de gressinos temperados, cubos de pão com ervas e joaquins fritos. Aqui estava já em estreia líquida o primeiro vinho do jantar: Hexagon 2000 (Regional Terras do Sado), talvez o melhor vinho que se faz a Sul do Tejo ou mesmo do Mondego.
Terceiro acto: gaspacho (à portuguesa e com acompanhamentos vários, incluindo os joaquins sobrantes) com o já referido Hexagon. O vinho é uma maravilha. Julgo que Nostradamus o anteviu nas suas visões e que Leonardo da Vinci fez esboços para a sua criação. E não é que ligou mesmo bem com a sopa fria?
Quarto acto: lombo de porco temperado com massa de pimentão e batata assada no forno, ratatui (cebola, tomate, alho francês, maçã e tomilho) que se regou com Hexagon, enquanto houve, e Quinta do Monte d'Oiro Reserva 2001 (Regional Estremadura). Este segundo tinto é outra maravilha, tem encantos diferentes do parceiro mais sulista, e dança no nariz e na boca com muita elegância.
Findos os dois grandes tintos e antes que se quisessem as sobremesas bebeu-se parcialmente um Vinha da Pala Reserva 2001 (Douro), que é justo e sereno, não levanta ondas, mas tem carácter, não fez sombra aos anteriores, mas todos repararam que lá estava. Só por causa disso irá ser repetido numa jantarada menos exigente.
Após o intervalo da conversa em que os fumantes se intoxicaram, veio uma charlotte de ananás e serviu-se um Vinho do Porto que estava de estalo, embora viesse a estar mais se tivessemos a paciência de esperar mais uns anos: Ferreira 1997 Vintage. Suave e aveludado, complexo no nariz e na boca foi uma delícia de se beber. Na minha opinião ofuscou a sobremesa, pois estava demasiado vaidoso e galante.
Já quando os talheres se tinham retirado e os guerreiros da comezaina queriam apenas repousar e conversar, as gargantas molharam-se com um honesto, mas fracote Tinto da Ânfora 2002 (Regional Alentejano), que o bom Alex trouxe. Lamento, amigo, mas este não teve hipótese, mas foi um vinho amigo para quando já estávamos exaustos... e não só.
De tudo o que mais gostei foi mesmo da amizade. É que amigos destes dizem o que sentem e comem e dão a comer o melhor que têm. Foi um grande festa para festejar coisa nenhuma.

Nota: Pintura de William Claesz Heda.