digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

sábado, abril 29, 2006

Um amor bonito-triste

Tenho um amor bonito, que é triste. Não o compreendo e deixo-o viver quietinho à espera dum resgate. É especial, porque sobrevive sem água e alimento. Não percebem como sou feliz. Ela está ausente. Eu nunca estou. Não há acordares nem mau hálito nem ansiedade nem ciúme nem satisfações a dar. Eu nada sei dela e ela nada sabe de mim. Não a conheço nem ela a mim. O meu coração está ocupado por coisa nenhuma. É um amor bonito e triste. Bonito, porque não pede nada a ninguém. Triste, porque não espera ninguém. Ninguém compreende este amor em espera de resgate e que não espera por ninguém. É grande e tão frágil. Quanto mais cresce mais quebradiço se torna, mas insiste em aumentar. É um amor bonito e triste que ninguém compreende.

O pesadelo em vida

Houve uma altura de vida de que não me quero lembrar do que fiz. Sei bem do passado, mas não quero saber. Estava em mim e fora. Era eu e uma outra pessoa. Respirava uma só vez, tinha um só coração e não dormia. Não dormia, porque em mim viviam duas pessoas. Quando uma deveria adormecer, a outra acordava. Viviam em mim duas pessoas e tive sempre um só corpo. O que fiz não me quero lembrar. Não quero dizer. Houve uma altura em que vivi duas vezes. Vivi o pesadelo da minha vida e vivi a minha vida em pesadelo. Não sei se sonhava que tinha pesadelos ou se vivia num pesadelo em que sonhava. Quem era e quem sou? Tinha o mesmo rosto? Há em mim três pessoas: a anterior ao pesadelo, a do sonho mau e a sobrevivente. Que cara tenho, sempre a mesma? Será que as minhas feições mudaram? Há um passado de que não me quero lembrar. Foi há tanto tempo. Foi ontem.

Regresso ao ventre

Quero voltar ao ventre da mãe. Quero o calor, a protecção e o aconchego anichado. Quero ser o óvulo acabado de fecundar e o quase nascente. Não antes nem depois. Sem memória anterior nem experiência seguinte. Quero ser o antes da brincadeira, dos amigos, da escola, das correrias, das aventuras, das namoradas e dos corações partidos. Quero ser apenas ouvinte do seu coração e comer o que ela come. Quero rir-me com ela e nunca a ouvir chorar. Quero senti-la no seu sangue por dentro de mim. Quero a protecção do castelo de carne frágil. Quero o seu calor e doçura. Não quero ser cá fora nem viver sem que o meu corpo seja outro que não o dela. Quero voltar para bem fundo do ventre de minha mãe.

A crueldade do alvo

- Por que ninguém me dá um tiro?
- Porque não tens importância.
- Não tenho importância?
- Não! Nem a tua vida vale o preço duma bala!
- Dá-me um tiro, suplico-te.
- Nem que te matasses te mataria.

sexta-feira, abril 28, 2006

Esquina

Hoje estou na esquina. Numa esquina qualquer. Estou quase escondido. Escondo-me para que não me vejas quando te vejo. Nunca te vejo. Hoje estou na esquina, entre o meu bem e o mal. O meu bem querer e o mal que te faço. Estou na espreita numa esquina à espera de te ver passar. Nunca te vejo, porque escondo os olhos quando sinto que vais passar. Não tenho coragem de te ver. Hoje estou numa esquina, entre o bem e o mal.

quinta-feira, abril 27, 2006

Planeta Zero

Vivo nu no planeta Zero, um corpo celeste sem luz própria nem forma definida. Vivo nu, porque vivo sozinho. Aqui nunca está frio nem está calor. Isto é um aborrecimento. Faltas cá tu para dar vida a isto e complicares as coisas com as coisas da vida e as coisas da vida de casal. Gostava de ti aqui e de jantar romanticamente e de jantar apenas e até de discutir. No planeta Zero não se discute, nem sequer há uma forma definida para se discutir. Se aqui estivesses poderiamos discutir sobre onde jantar, o que jantar ou sobre as tarefas. Se aqui estivesses poderiamos fazer cenas de ciúmes, ainda que não houvesse mais ninguém. Estou cansado do planeta Zero, muito embora não se viva mal... nem bem. Fazes cá falta para desarrumar as coisas, os satélites, as vistas, a forma indefinida. Fazes cá falta para fazer trânsito, para criar confusão, para discutir. Fazes cá falta, porque tenho-te amor e estou sozinho. Fazes-me muita falta.

O conselho da Fortuna

A Fortuna é cega, por isso não me vê. A sua cornucópia distribui riquezas a eito e não gosto dos encontrões que todos dão para dela se aproximarem na ânsia de receberem géneros e justiça. Da Fortuna só queria o teu amor, mas ela não mo quis dar. Disse-me, fitando-me nos olhos com a precisão que têm os cegos quando fitam nos olhos, que não me podia dar o teu amor çpor não ser questão de justiça, que o fosse pedir a Vénus, porque é senhora da beleza e da paixão sexual. Pedi-o a Vénus e ela quis-me. Neguei-me, porque o meu coração só tem uma dona... tu! Furiosa e despeitada, rejeitou-me ajuda. Solicitei auxílio a Cupido, mas este falhou sempre o tiro no teu coração, disse que era fugitivo... Embebedei-me com Baco e quando acordei Saturno jurou-me que serias minha, é tudo uma simples questão de tempo. Que Júpiter te oiça!

Gramática tangente

Se soubesse tanger viola, tangia... Se soubesse gramática, gramava. Mas como gosto de ti, choro-te. Choro-te por não te ter. Se te tivesse aqui e tivesse uma viola, tangia e cantava, esperando encantar-te com o olhar, porque com os dedos nas cordas e com as cordas da garganta só te poderia emocionar pelo esforço da vontade. Se te tivesse aqui e tivesse uma gramática explicava-te e aprendia todas as regras nelas contidas e ficariamos sabedores que as nossas línguas têm se de tocar. Se te tivesse aqui, tangia-te com os meus dedos e toda tu serias dedilhada como mandam as regras precisas da gramática das nossas línguas precisadas uma da outra.

Beijos, beijos

Apetece-me um beijo. Quero que sejas tu a beijar-me. Será que não percebeste? Será que não percebi que não queres? Sei que depois dum beijo vem outro e depois outro e outro e mais outro. Se viesse um teu, viriam muitos mais e mais outras coisas que não são beijos, mas que ficam bem com beijos. Apetece-me um beijos e outras coisas. Tudo contigo. Só contigo. Quero! Não te faças desentendida, sabes bem que é contigo. Sim, és tu. Quem mais poderia ser. Não vou escrever-te o nome só para dar prazer à vulgaridade e aos curiosos e te matar a intranquilidade insegura. Faz qualquer coisa... dá-me um beijo, foge, diz-me que não... Quero um beijo teu. Quero-o já. Será que ainda não percebeste? Será que sou eu quem não percebeu?

Couve na língua

Foi naquele dia de madrugada couve uma tempestade seca com raios e trovões. Nesse dia, pela manhã, um ministro molhou os pés ao sair do carro no Terreiro do Paço e foi demitido por ser incoveniente e incompetente. Os livros de história passaram a referir-se como um ministro couve durante algum tempo em funções. Nessa tarde um funcionário público largou os carimbos e os requerimentos e começou a declamar versinhos em rima simples e métrica complicada, antes de começar a gritar frases sem sentido com as mãos agarradas às orelhas ou a puxar os cabelos. Os colegas dizem ainda hoje que é um colega couve coisas dentro da cabeça e desesperado não sabe o que fazer e começa a deitá-las todas cá para fora. Nessa noite uma mãe cortou os pulsos cansada do alcoolismo do marido e das suas tareias. Primeiro fez uma sopa, deitou os filhos, contou-lhes uma história e beijou-os suave e profundamente nos rostos. Deixou o marido embebedar-se e sair para se ensopar na bebida antes de se esvair em sangue. Os polícias disseram couve um crime, as pessoas sensíveis perceberam couve uma mãe desesperada e os jornais sensasionalistas relataram que a sopa que dera aos filhos era de couve.

Gerard Castello Lopes


































Gosto de ti, porque és português e conheces-nos a todos como fomos. Sabemos quem fomos e até como ainda somos, porque estiveste lá. Havia bola e não havia mais nada do que bola. Havia as ruas compridas e gente a ir para o trabalho, havia até gente com trocos para apanhar o autocarro. Eram tempos difíceis. Mas o mais divertido era brincar na rua, jogar à bola e sonhar em um dia ser campeão, ser um cromo da bola, mesmo sem chuteiras... fazia-se uma bola com tudo e jogava-se em qualquer lado. Tu estiveste lá.

Robert Doisneau


















Gosto de ti, porque és o maior poeta da fotografia. Gosto de ti, porque estás no limite do bom gosto. Gosto de ti, porque o sublime é tão simples. És tão concreto, tão banal, tão corriqueiro que impressiona onde vais encontrar tanta poesia. Não me importa que digam que ensaiaste poses, que solicitaste repetições. Importa-me o que os teus olhos viram e o com que a tua emoção se impressionou.

Henri Cartier Bresson

















Gosto de ti porque és reinadio e tens o condão de apanhar as pessoas normais em poses ridículas. Gosto de ti porque és uma criança a brincar com as crianças com uma câmara fotográfica. Gosto de ti, porque sabes usar o reflexo da água. Gosto de ti, porque as tuas imagens não têm idade, apesar das personagens estarem datadas. As tuas pessoas são sempre pessoas, porque são muito autênticas.

Sebastião Salgado























Gosto da dignidade humana que sabes mostrar mesmo quando o momento é de tragédia e desespero. Sei que sabes o que é o ser humano. Não sei se acreditas em Deus, mas sei que acreditas nas alma dos homens. Gosto de ti pelos teus olhos e pela rapidez dos reflexos dos teus dedos. Gosto do modo como vês o mundo e como o mostras. Não me fazes vomitar, dás-me vontade de o querer mudar, porque me comoves. Gosto como honras o trabalho sem me intoxicares com comunismos. Só por isso gosto muito de ti.

quarta-feira, abril 26, 2006

O meu caderno

Há quem pense que o INFOTOCOPIÁVEL é um sítio de desabafos... mas não é. Às vezes apetece-me partilhar coisinhas com o mundo, fazer plágios e citar amigos. É para isso que me serve o caderno.

Amor e napalm

Só para lembrar que o terrorismo não se limita ao islão e que os crimes de guerra não são de hoje nem foram apenas obra dos nazis.
Só para dizer que os crimes dos Estados não se designam de terrorismo.
Só para lembrar que houve o Vietname e a Coreia. Só para lembrar que houve a cortina de ferro, o muro da vergonha e a invasão do Afeganistão pelos soviéticos.
Só para lembrar que nenhum ser humano é verdadeiramente livre enquanto um outro não o é. Só para lembrar que há ditadura em Cuba, em Angola e não apenas no Iraque, no Irão, no Nepal e na Coreia do Norte. Só para lembrar que a Palestina está ocupada. Estou a omitir muitos outros locais apenas porque não me apetece citá-los a todos.
Há crimes e crimes. Só para lembrar que foi deitado napalm no Vietname. Só para lembrar milhões de crimes dos muitos comunismos. Só para lembrar.

Blog de Calvin

Gosto muito do teu blog. Vou lá muitas vezes e leio-o muitas vezes. Leio repetidamente os textos que escreves e descubro sempre coisas novas e tenho prazer, sempre o mesmo prazer, com as coisas que já me tinham dado prazer. Não sei se ainda me vens ver aqui, mas eu vejo-te muitas vezes nesta tua janela. Estás sempre bonita com a luz a bater-te nas palavras e com os sentimentos iluminados pela voz quente e afável da tua garganta. Repito o gesto de ver-te muitas vezes por dia e tenho a esperança de te ver em nova prosa sempre que entro por ti a dentro. És sempre nova e sempre a mesma. Gosto por não teres mudado e por seres diferente a cada respiração. Gosto da amizade que sinto em ti e da que sei em mim.
Aos que não sabem do que falo, peço para carregarem aqui.

O vôo humano

O ser humano consegue voar. Nem sempre por vontade própria: que o digam as vítimas da defenestração de Praga (1618) ou Miguel de Vasconcelos (1640). De toda a maneira, o vôo humano desenrola-se no sentido vertical e termina muitas vezes em fatalidade, dependendo da altura do ponto de partida e da solidez do ponto de chegada.
No período do processo revolucionário em curso cantava-se desafinadamente uma cançoneta horrível que falava de gaivotas e papoilas e cujo refram dizia: «somos livres de voar». As pessoas democráticas, as reaccionárias e as bem-humoradas respondiam: «Um comunista voava, voava, dum décimo andar»...
É horrível o vôo humano!

Pináculo de Santo Estêvão

Acho que me esqueci dos segredos das gárgulas da Catedral de Santo Estêvão. Sei do telhado e dos desenhos com telhas, mas não me recordo dos mistérios das goteiras. Os arcos-botantes abraçam, as rosáceas revelam e as ogivas elevam. É mais humana esta igreja e tão absolutamente gótica. O bairro antigo é tão absolutamente antigo e nocturno.
O Danúbio não passa em Viena e não cheguei a ir ao Pratter. Não me pareceu interessante: tem um estádio e uma feira popular com uma roda gigante donde se avista a cidade. Impressiona-me mais o pináculo de Santo Estêvão. Ando com saudades de Viena. Tenho de lá ir. Sei com quem me apetece lá ir. Se pudesse...

Voar e liberdade

Reembrandt pôs janelas para dar luz aos negros, aos quartos negros. Nunca mais a vida voltou a ser como antes dentro desse mundo onde tudo se passa num espaço mais limitado do que o mundo, como um palco, à vista de todos, à vista de quem tem olhos e alma para ver.
E tu, minha menina, que tens asas, já voas? Já voas novamente? Tenho pena que tenham de te segurar para esvoaçares e te falte a coragem para te emancipares. Quando vais tu voar sozinha? O que importa se caires no chão? O chão é apenas chão. É madeira. É tão material como o ar. Quando perceberes que o ar é feito da mesma essência que a madeira vais suster-te nele e voar. Para que queres tu as asas se não voas? Larga a vida que levas, não precisas das mãos a segurarem-te. Olha, tens as janelas postas por Reembrandt. Delas podes ver o mundo e sair desse quadro. Vai, voa daí para fora. Há quem não o possa fazer por não ter asas e se limite a contemplar as vistas, mas tu nasceste com asas. Vai, vai voar. Não precisas das mãos dos outros para esvoaçar. Não é presa a alguém que vais ser livre. Sai desse quadro. Tens abertas as janelas de Reembrandt. Por elas entra a luz e podes sair para a liberdade.

Segredos

A porta do Paraíso parece-se com a porta do Inferno. Não sei distinguir uma da outra nem tampouco esta. Escondia-me nesta cave e brincava contigo às escondidas ou roubava garrafas para beber devagarinho contigo e mais companhias certas.
Gostava de não ter medo do escuro nem do pó nem das teias de aranha nem da idade das garrafas nem do vinho idoso nem da luz frouxa. Gostava de brincar no átrio onde estão as portas do Paraíso e do Inferno. Gostava de saber o que se esconde nas caves de Vinho do Porto, do Champanhe e do Tokay.
Praticar esgrima numa adega é uma façanha de herói. É a minha aventura de sonho. Quero brincar às escondidas contigo e ler-te contos infantis numa adega como se fôssemos duas crianças crentes em coelhos falantes. Gostava de não ter medo dos caminhos das escadas nem da luz amarela fraca.
O meu refúgio guarda garrafas antigas que nunca terei dinheiro para comprar. É lá onde brinco contigo e onde abasteço os jantares que sirvo aos amigos. Gostava de ter as chaves das caves do Vinho do Porto, do Champanhe e do Tokay... e já que se pode sonhar, que viessem também as do Madeira, do Bordéus, do Borgonha e do Colares. Um mar de vinho dentro de vidro e espadachins de amigos sobre pipas. Não conto a ninguém estes meus desejos secretos.

A minha ovelha favorita

Tenho ternura por uma ovelhita. Esta é inteligente, mas igualmente doce. Gosto de conversar mas ainda não me sentei com ela só a falar. Está prometida uma conversa longa. Um dia vamos ficar a conversar horas, tenho a certeza. Ela é inteligente e sensível. Tem uma voz macia e uns olhos muito espertos. Isto dos olhos espertos reflecte-lhe a alma e faz dela uma ovelha diferente. Já me deu vários conselhos e é afável e quente no que diz. Estou a gostar mesmo dela, porque é genuina e diz o que pensa. Um dia fiz-lhe uma festa e aleijei-a sem querer. Expliquei-lhe e ela compreendeu. É esperta, a minha ovelha preferida. E sabe muitas coisas que devem ser sabidas. É inteligente e sensível. Não é uma ovelha branca nem negra. É uma ovelha azul, porque o azul é uma cor bonita. Ela é bonita. Por dentro e por fora. Simpatizo com a ovelhita.

terça-feira, abril 25, 2006

Coração

É o músculo central da circulação sanguínea. Sem ele este meu corpo era apenas corpo. Existe em mim e acho-o muito mais do que é. Existe em muitos outros animais, além do homo sapiens sapiens. As minhas gatas têm um coraçãozinho que bate dum modo muito terno. Já os escutei sob os pêlos macios e quentes. O sangue delas corre mais quente do que o meu.
Atribuo-lhe capacidades de guardar e processar sentimentos. Sei que não o faz. Em sentido figurado é senhor de sentido moral, coragem, ânimo, benevolência, valor, franqueza, memória, boa-vontade e piedade.
O de algumas aves fica bem na sopa... na canja! Não gosto de canja. Quero dizer, não gosto de canja com massinha nem com arroz. Não gosto de arroz nem de massinhas na sopa. Em nenhuma delas. É por culpa desse hábito que rejeito as canjas. Prefiro a de pato à de galinha.
Os heróis destemidos e habilidosos com as mãos fazem façanhas: cortam o da vaca em fatias grossas e temperam-nas com sal e especiarias, e cobrem-nas com bom vinagre, onde fica a marinar dez horas. Depois escorrem-se as lâminas dessa carne e juntam-se numa caçarola com toucinho derretido, com o qualsão salteadas por um quarto de hora em lume bravo. As lascas do dito vão depois para uma panela de loiça com cebolinhas e dentes de alho acompanhadas de vinho tinto para cozer por sete horas. Nessa altura está o músculo pronto a comer.
O meu palpita de gulodice só de escrever estas linhas. Ainda não digeri a canja anterior e já sonho com pitéus demorados. O coração ainda me mata de prazer!...

Fim do mundo

No dia do Apocalipse não sei onde vou estar. A ver se me porto bem e não faço mais estragos. Eu até me esforço, mas tenho uma tendência natural para o disparate!... Acho que não há dia que não me lembre... não asneio por hábito nem tampouco por querer... às vezes ou sempre... mas a santidade não se vê daqui. Não sei onde vou estar no dia do Apocalipse... será que vou estar contigo? Sempre conversavamos... e Deus ainda nos pregava um sermão e mandava calar. Pior! Ainda nos mandava embora!

Hundertwasser

Nós por cá preferimos saudar o triste. Nos países lúcidos louvam a festa. Nós por cá não questionamos, dizem que é bom e aceitamos, mesmo que seja apenas medíocre, chato e branco. Nós por cá preferimos a nesga, a fresta e a passagem estreita para os lados nenhuns. Nos por cá preferimos o minimalismo a citar o antiguinho. Nos países da luz elogiam a festa e constroem-na!
Chamava-se Hundertwasser e era pintor e escultor. Morreu em 2000 e deixaram-no construir as casas que sonhou. Porque a vida é para se viver. Porque devemos viver em harmonia com a natureza fundiu casas com as colinas e mesclou-as nos verdes. Porque os pés são para andar, o chão não tem de ser direito! Porque o homem é um só, na paleta e nas casas cabiam muitos povos. Nos países lúcidos convidaram-no a construir. Ele era pintor e escultor.
Nós por cá preferimos o chato do branco, que a única coisa que devia fazer era a toca dos ursos polares no Zoo de Lisboa ou os urinóis hospitalares. Qualquer traço que o mago faça é arte, mesmo que seja apenas branco e cheire a éter e o resultado se pareça com um sanatório do tempo da Guerra de 1914/18.
Nos países de luz deixam trabahar os artistas e também os asnos do branco, que dão bons dias à tristeza infernal em que vivem os desgraçados que já tinham uma vida triste antes de viverem nos apartamentos tristes do chato.
Um destes dias tenho de ir lavar os olhos à Alemanha e à Áustria, onde deixam os pintores, os escultores e até os asnos fazer arquitectura.

Viena

Lembro-me de Viena. Gostei do frio que lá passei. A pedra de Viena tem palavras guardadas e outras que vai soltando todos os dias. A cidade faz-se nova mesmo junto ao velho e o velho vê-se ao espelho. O velho gosta de se ver. Viena não teme as rugas nem os espelhos. Gostei de usar um sobretudo cinzento e pesado em Viena. Estava muito frio nas vezes que lá fui. Os chocolates são deliciosos e os cafés requintados. Pensar no cerco turco faz confusão, mas dá mais que pensar a barbárie que entrou e viveu dentro de muros, dentro de portas, dentro das pessoas... há menos de um século.
Lembro-me de Viena. A pedra, as fachadas, os jardins, a neve, os chocolates, o café, a música, os palácios, as pessoas, as salsichas, os eléctricos, os prédios novos e as coisas velhas. Se eu pudesse sem quem lá levava. Não posso contar. Ai Viena!

Cafeteira

As garrafas estavam óptimas. Da companhia, então, nem se fala! Um primor! Agora a cabeça, hoje, parece estar sob o Convento de Mafra com os carrilhões a tocar impiedosos! A culpa é minha e até já me chamam nomes feios pelos jantares supimpas que aqui manjam!... Velhacos! Alambazam-se e depois insultam-me. Até eu me insulto e insulta-me a consciência. Ai a minha pobre cabeça. O que me vale é a minha proverbial fraqueza à matemática para me escusar nas contas das médias por pessoa... haveria de fazer corar um guarda-nocturno habituado a arrumar bebados nas vielas. Ontem foi um descarrilamento festivo. Gostámos. Agora não há quem os ature... aos amigos. Lapidam-me pelo que beberam e pedem-me mais orgias de comeres delicados e vinhos finos. Ai o que sofro. E o meu ego não aguenta. Preciso de um chá ou de um café!

segunda-feira, abril 24, 2006

Companhia perfeita

Anteontem fui à cave e trouxe uma das minhas melhores garrafas. Vou abri-la hoje depois de a ter feito repousar de pé. O tempo que se passa deitado também cansa. Vou abrir hoje uma das minhas melhores garrafas com alguns dos melhores amigos, porque assim tem mais sabor. Assim é que o vinho tem sabor. Só assim.
Na mesa vou pôr uma toalha de linho muito alva, sem mácula ou pecado, como se quer da amizade. Mas como manda a moda e o gosto de agora, a minha toalha de linho branco é de algodão roxo. É sem nódoa ou enxovalho. Nela espalharei pratos, as alfaias, os copos justos e guardanapos impolutos.
Depois vem a festa dos sabores e dos aromas, sem espalhafatos, para que nada roube a ribalta ao vinho, que já tem idade. Carninha estufada em vinho tinto com cebolinhas e alho, escoltada de batata cozida. Para falar com franqueza não sei o que primeiro hei-de trazer à tábua: nada de queijos, nada de muita fruta ou exuberância, nada que na sua juventude passe rasteiras ao velho tinto ou chame amigo tinto mais jovem que leve as emoções para longe do velho amigo. Não sei com que vá entrar. Para saída estou capaz de uma patifaria doce suave que se arrime bem a um colheita tardia que se passeia lá por casa e já anda resprescado.
Anteontem fui à cave e trouxe uma das minhas melhores garrafas. É pequena para tanta gente, a garrafa, mas é generosa a sua vontade. Se pudesse servia-a a todos os amigos. Não posso, não chega. Nem mesmo toda a minha adega é suficiente para a sede de todos eles. Não que tenham muitas securas... Felizmente tenho tantos companheiros. Uns são mais chegados do que outros e se pudesse matava a sede a todos com a minha melhor garrafa.

domingo, abril 23, 2006

Peste-negra

Hoje não durmo por causa das comichões dentro da cabeça. Tenho as ideias agitadas. Malditas moscas dos pesadelos, que não há meio de se enxotarem para fora do meu quarto, para fora da minha vida. É tudo muito complicado! Anda aí uma peste-negra a fazer banquetes com as minhas dores. Chego a pensar que vim ao mundo para alimentar cadáveres.
Hoje não durmo por causa de duas ou três frases malditas há uma semana e mais uns cubos de gelo pela camisola abaixo que provei hoje. Não consigo dormir com o gelo que vai nesta casa. Depois há as infatigáveis moscas dos pesadelos que me atormentam e não deixam o sono pegar. Já percebi que vou ver o Sol nascer e tombar na desistência. Estas comichões dentro da cabeça são pavorosas e agarram-se às ideias. Torna-se difícil pensar ou fazer qualquer coisa a não ser ter pesadelos... os malditos pesadelos e suas sarcásticas dores. Anda aí uma peste-negra desde há uma semana.
Anda aí uma peste-negra a alimentar-se de mim e já fui ao médico e já enxotei as moscas transmissoras dos pesadelos e já pedi perdão e já perdoei e não sei o que mais possa fazer para que parem as tenebrosas comichões dentro da cabeça. Disse-lhe que queria calor e experimentei o ardor dos cactos e a virtude do ácido nas feridas. Uma semana depois, julgando que melhorara, disse-lhe que queria a paz e gelou-me o corpo todo. Maldita sina esta. Não será possível a peste-negra passar?
Hoje não durmo por causa das comichões que tenho dentro da cabeça. Na testa despontam-me hastes córneas, como um touro. Torno-me cornudo, porque não posso ser um tigre. O que importa quanto se viveu e o que se viveu? Há vida nova e os beijos antigos esquecem-se e perdem a cor no fundo das gavetas. No fundo do coração está uma pedra amarrada ao amor-antigo, a prova que foi afogado... afogado em lágrimas. Maldita peste-negra! Torno-me cornudo, porque não posso ser tigre.
Todo o meu passado não interessa. Não interessa a ninguém. O meu presente pode servir de acendalha nas lareiras e como não está frio nem para isso dá jeito, vai para reciclar. Coisa assim não tem futuro. Não tenho futuro. Torno-me cornudo, porque não posso ser tigre.
Hoje não durmo com comichões dentro da cabeça. A peste-negra fez das suas. Eu alimentei-a, mas não o fiz sozinho. Hoje não durmo até ser dia.

sábado, abril 22, 2006

Dentada de Komodo

Às vezes mordo. Como um Dragão de Komodo transmito a morte na pessonha da minha boca. Às vezes mato com aquilo que digo. No mínimo firo. São setas, são dardos, são tiros, são morteiros, são torpedos, são mísseis balísticos, são o mais mortal que há. Depende, são só palavras. Quanto mais próximo, mais mortal. Às vezes mordo como um Dragão de Komodo e a minha pessonha mata dolorosamente.
Às vezes mordem-me. Como um Dragão de Komodo. A carne incha e fica da cor da inveja antes de estar morta. Depois alastra pelo sangue e toda ela vai morrendo. No mínimo têm de me cortar um pedaço para que o resto sobreviva. Depois a custo e com muita dor volto a crescer. Dói muito: a dentada, a carne arrancada e o senti-la a crescer. Às vezes mordem-me como um Dragão de Komodo.
Às vezes mordo sem querer. Como um Dragão de Komodo. Às vezes mordem-me sem querer. Como um Dragão de Komodo. A pessonha entra no sangue e apodrece a carne. Mata num instante que parece longo. Dói muito. A pessonha mata. Mesmo sem querer. A dentada do Dragão de Komodo mata.

Chá verde ao telefone

Estive três quinze dias ao telefone. Tudo seguido. Não gosto de falar ao telefone, mas gostei. Foi refrescante como um gelado de chá. Como chá verde fresco. Falámos de quase tudo e disso também. Bem, não falámos daquilo, mas dissemos algumas intimidades. Desabafos de caderninho de folhas recicladas apontadas com letra bonita. O coração que já não tenho não tem nada a esconder, é um não-lugar, um espaço e um buraco vazio e vê-se de longe que ali está um buraco. Por isso conto tudo. Ela confia e contou muita coisa. Ela felizmente ainda vai ser feliz e espero nunca se aleije com o seu namorado. As pessoas às vezes são estátuas e as estátuas são de pedra. Espero ter-lhe dito as palavras certas para que sejam consideradas de conselhos. Gostei daqueles três quinze dias ao telefone com a amiga nova, apesar de não gostar de falar ao telefone. A conversa foi fresca e falámos de muitas coisas sem ser um cabaz de assuntos. É bom ter amigos novos! A conversa foi refrescante como um sorvete. Um sorvete de algo verde... pistacho ou lima ou menta ou chá verde... ou mesmo só chá verde gelado. Gostei dos três quinze dias ao telefone.

sexta-feira, abril 21, 2006

Sobressalto

Durmo em sobressalto. Às vezes salto da cama. Na vida nunca acontece o pesadelo. Tenho pesadelos. Inquietude: acordo a suar. Desatino. Histeria. Desassossego. Medo... ou pânico. Durmo em sobressalto. Mas em belo. Chega a ser belo. Ela ainda está dentro de mim. Ainda dorme comigo. Inquietude: acordo a gritar. Tenho pesadelos. Ela ainda está cá dentro. Ela ainda amarrota os lençóis. A cama ainda está quente quando me volto. A cama está ocupada. A cama está ocupada. Está sempre ocupada. Ela está dentro de mim: na minha cabeça e nas entranhas. Acordo suado e tento vomita-la. Tenho pesadelos. Tenho pesadelos eróticos. Ela é um vulcão na cama. Ela faz-me explodir. Ainda hoje. Sempre no sono. Quando durmo. Some-se quando acordo. Durmo em sobressalto. Ela é um fantasma que entra em mim e abusa-me. Inquietude em superlativo: acordo a falar. Ela é um vulcão na cama. Ela vai-se quando acordo. Nunca está quando acordado. Só aparece quando durmo. Só me abusa quando durmo. Viola-me. Fazemos sexo. Fazemos amor. Fazemo-lo muitas vezes... e repetidamente. Tenho pesadelos eróticos.

Música

Não sei pôr música. Gosto de a dar. Não o sei fazer. Sou um fauno e toco uma flauta de pã ou uma gaita. Seduzo ninfas sem me apaixonar, porque não tenho coração. Tenho uma fantasia e o meu coração é duas coisas: ora é uma romã, ora é um relógio. Sou um fauno que brinca à noite a fazer desenhos com as estrelas e a imaginar que as tira do sítio.
Não sei pôr música e gosto de seduzir ninfas. Toco aqui uma música que só as miúdas apaixonáveis ouvem. Essas podem sofrer, se por mim se apaixonarem, porque não me apaixono... não tenho coração! Toco uma música e só as miúdas apaixonáveis a ouvem. É essa a música do meu blog.
Não brinco só com as estrelas e só gosto de brincar. Esta é a música do meu blog, só as apaixonáveis a ouvem e espero que não sofram por mim.

Magno

Se tivessem deixado as coisas quietinhas... mas cada neto teve uma talhada. Três talhadas ao todo. Cada neto dividiu o seu bolo. E como eram quase todos gulosos andaram à bulha por causa das fatias dos outros. Se tivessem deixado as terras sossegadas... O que Carlos uniu dividiu-se por três e por centenas e por milhares. A terra diluiu-se em sangue, cortou-se com ferro. Se tivessem só lavrado e não cortado... Quando Dürer pintou Carlos esqueceu-se do neto do meio, porque os lambões já lhe tinham provado quase todo o manjar. Se tivessem deixado posta a mesa de Carlos e somado mesas e cadeiras para mais se juntarem à festa e ao banquete teria corrido muito vinho em festa em vez de sangue em lágrimas. Hoje procuro bocadinhos e fragmentos da explosão. Estilhaços das batalhas. Retratos pequeninos de homens grandes atrás das espadas, mínimos na lei de Deus... como quase todos nós. São centenas e milhares as suas impressões digitais. Se deixassem as coisas quietinhas, hoje eu não tinha tanto trabalho. Muitos brasões, muitas terras, muitas famílias, muitas vidas, muitas terras, muitos dramas, muito sangue. Se tivessem deixado a terra sossegada, as árvores teriam dado mais fruta e da paz nasceriam mais homens e menos pestes. Haveria mais vida e trabalho. O sangue correria descarrilaria menos das veias. Se tivessem deixado quieta a herança de Carlos...

Fumeiro

Apetece-me. Não sei o que faço aqui. Não devia ser Primavera. Dava jeito uma garrafa de tinto não muito velho. Pão, muito pão e acabado de fazer. Amigos, uma meia dúzia deles. Uma faca afiada e uma tábua. Um gato ou dois a rondar a mesa. Um jarro de água. A lareira acesa. Gargalhadas e ciúmes amuados, ternos e quietos dos amigos. Apetece-me um chouriço ou linguiça ou morcela ou paio ou palaio ou salpicão ou presunto ou tudo. Um vinho não muito novo e pão acabado de fazer. Inverno e chuva forte a bater no telhal. Um ou dois gatos a tentar subir para a mesa e um cão atrevido a pedir de comer e a dar a pata. O lume amigo. A conversa solta. Café de cevada. Bolos de pão. Queijos. Fraternidade. Confissões. Falta de pressas. Desconhecimento das horas e do dia da semana seguinte. A chuva forte a bater no telhal. Um gato no colo de alguém. Ir buscar mais uma garrafa de tinto. O gato a saltar para o chão. Enchidos com fartura. Frio na rua. Calor do lume ameno. Gatos a aquecerem-se à lareira. O cão a pedir comida. A conversa sem fim. Silêncios de meditação. Descanso. Anjos a passar. Vislumbre de fantasma. Convívio da mesa e do lume. Ainda Inverno. Chuva forte no telhal. Apetece-me.

Em reparação

Hoje preciso de manutenção. Os meus pensamentos estão baralhados. Devo esclarecer que penso por cores e ontem e anteontem e no dia precedente e nos dias que os antecederam andei muito agitado e as tintas misturaram-se todas. Hoje preciso de abrir a cabeça e separar as cores todas, com muita paciência e vontade. Tenho de falar com elas e convence-las a voltarem a ser vermelho, azul, amarelo, verde, roxo, laranja, preto, branco, castanho, cinzento e seus diversos tons. Hoje está tudo mesclado numa cor imprecisa que chocalha cá dentro e emporcalha os dizeres, fazeres e escreveres. Vou desaparafusar-me e conversar-me: blá, blá, blá e blá comigo. Depois durmo para deixar as tintas serem cores puras e eu poder ser um pintor de ideias. Vou tirar o primeiro parafuso e fazer umas loucuras.

quinta-feira, abril 20, 2006

Coração

Não tenho coração, tenho uma romã. Se mo abrirem não vão encontrar sentimentos, mas fibra e alguma doçura. Em vez de sangue, haverá sumo. Mas tudo o resto será também vermelho.
Não tenho coração, tenho uma romã. Por isso não me apaixono e só me comovo com coisas simples. Saboreio uma laranja e sou feliz. Não compreendo o mundo e basta-me a chuva para ter do que falar durante uma semana. Emociono-me com o vento.
O meu coração não bate, descasca-se. É difícil e trabalhoso. Esperar dele um afecto é pura perda de tempo. Não posso dar sangue. Não tenho. Não prometo amor e desconheço o ódio.
Já tive um coração, mas não me servia para nada e ainda poderia criar-me um enfarte e matar-me. Troquei-o por um fruto, porque quando cair de maduro dará a nascer uma árvore, ou mais, e esta mais frutos, até todo o meu peito, até todo eu, ser um pomar. Em vez de um coração que me possa matar de enfarte ou de desgosto, tenho um fruto para me imortalizar loução.
Não dou beijos, porque quando troquei o coração por um fruto deixei de compreender a sua função. Se me abrirem o peito não morro e posso até semear-me fora de mim. Posso dar-me além de mim, porque não tenho um coração, tenho uma romã.

Menino-Rei

Eu era o menino-Rei da minha mãe. Era o peso do meu pai. Era o reizinho da minha tia. Era o encanto dos meus tios, tias e manos. Era esquecido por quase todos. Eu era o Santo que punham nos altares. Eu era o Santo a quem se esqueciam de rezar. Eu era o menino-Rei da minha mãe e o tesouro da minha avó e o sorriso da outra, da que não me lembro. Era o menino-Rei de todos. Era Rei e esquecido por quase todos.
Como um pequeno César vivi esquecido e abandonado num palácio entre os brinquedos e as riquezas. Entre os abraços e as lágrimas da mãe. Entre a ausência e o peso do pai. Só e só com a protecção da forte avó frágil. Eu era o menino-Rei. Entre os gestos fidalgos e os gritos da plebe enlouquecida. Eu era o menino-Rei a crescer com disciplina férrea... a enferrujar e a quebrar.
Hoje sou um menino grande doente e confuso. Hoje choro por muitas coisas e lamento ter sido um menino-Rei e um peso, posto num altar onde ninguém rezava. Espero que não se lembrem de mim e, sobretudo, rezo para não se lembrarem de mim como o menino-Rei.

O meu veleiro

Não sei navegar. Nem à vela, nem a remos, nem mesmo com motor. Se soubesse ou mesmo se quisesse navegar seria à vela. Não sei navegar. Se soubesse navegar, seria à vela. Se tivesse um barco, seria um veleiro. Se tivesse um veleiro, seria como este. Se tivesse este barco teria um problema: gostaria tanto do navegar por dentro como por fora. É tão bonito vê-lo no mar. Ficaria sempre a nadar à sua frente ou no cais à sua frente.
Não sei navegar. Se soubesse, talvez não navegasse. Que vento me levaria mais a minha lancha e para onde nos levaria? Não tenho para onde queira ir. Por mim ficava no cais enlevado a ver o meu barco ou ficava deitado na água a vê-lo fingir que navegava. Não sei navegar.

Pés nus

Gosto de me lembrar de ti descalça. Lembro-me de ti descalça no soalho de madeira corrida, mas nunca de tal maneira te vi. É assim que te vejo quando penso em ti da forma mais terna, porque a madeira de tábua corrida é quente, afável e familiar. Para mim é. A casa dos meus pais tem soalho de madeira corrida.
Acho que em miúda podias ter brincado comigo numa casa com chão de tijoleira rústica e feito amor numa outra com chão de tábua corrida. Por mim, deitava-me contigo numa seara ou na areia da praia. Não teria problema em encher-me de natureza a fazer amor contigo. Acho que os teus pés fundem-se com as texturas simples. Se os teus pés o fazem, toda tu o fazes também.
Gosto quando te olho bem nos olhos e vejo-te toda. Não és diferente dos teus pés nus no chão de soalho de madeira onde nunca os vi. Os teus abraços são simples, mas doces e profundos. São aquáticos. Os teus abraços não têm cheiro, Nem cor. Nem sabor. Gosto dos teus abraços, porque são despojados, porque matam a sede.
Para mim tu és terna, amiga e familiar. Como as tábuas corridas que quentes seguram os teus pés nus, que nunca vi de tal modo. Vi-os na praia, entre a areia. É quase, mas não é o mesmo. Quando me lembro ternamente de ti, lembro-me descalça em soalho corrido.
Gosto muito de ti descalça e faria amor contigo hoje numa casa vazia, desde que ao abrires-me a porta estivesses descalça e o chão fosse de madeira. Não precisaria dum sorriso ou de ouvir a tua voz serena. Eu podia ir até cabisbaixo para que os meus olhos não se encontrassem com os teus. Fazia amor contigo hoje, agora, já, se estivesses descalça em chão de tábua corrida. Como nunca te vi.

Aos basbaques

Vão construir um parque para os basbaques, onde todos se possam admirar e pasmar. Vão lá estar gordos enormes a ver alarvidades e outros escondidos a serem espreitados por outros que desconhecem que também são observados. Todos se vêem, mas nem todos sabem que são objecto do jardim dos pasmos.
O parque para os basbaques vai ter buracos enormes onde os homens vão para observar os trabalhos, mesmo sem perceber de obras. Vai haver espaço de debate onde os basbaques vão dar bitaites do que não sabem, porque todos têm opinião, mesmo que não se oiçam.
Vão construir um parque útil para inutilidades, onde não haverá música nem artistas nem poetas. Em cada rua haverá livros do Guiness para apontar inutilidades e ler que um homem correu três metros apoiado na língua e outro fez o pino com os pés no chão. O livro do Guiness é importante, porque veio para acabar com as teimas intermináveis dos bêbados. Vai haver muitos no parque dos basbaques.
O jardim dos pasmos vai ter tertúlias de fofocas de mundanidades sem atrasar ou adiantar a espécie humana nem salvar o mundo de qualquer abismo ou fome. Não importa se haverá afectos, importa que terá frinchas para espreitar e muito para espantar.
O parque dos basbaques vai ter famosos desconhecidos a fazer necessidades atrás das árvores e a espreitar a nudez do homem comum. Vai haver futebol e discussões inúteis sobre penálties nos bastidores dos balnearios e sobre a vida sexual de quem se trata por tu sem nunca se conhecer.
O que importa é o espanto e um jardim para os basbaques se espantarem com estátuas aos inventores de nulidades. Será uma festa da cultura. Sem ironia! Viva o gozo de espreitar o mundo da porcaria. É tão bom tomar banho!

Argola celeste

Devia haver um astro celeste em forma de argola por dentro do qual outros passassem. Seria brilhante, com luz própria, como uma estrela para ser visto de longe, de muitos anos-luz de distância. Nítido, muito nítido, para quando se juntassem a várias nunca se tornasse numa nebulosa de argolas. Haveria de surgir e desaparecer como os cometas e ter planetas a rodar à volta do seu corpo lombrigado. Sempre que um asteróide ou outro astro passasse pelo seu interior haveria uma grande tensão pelo receio de tangentes e secantes das trajectórias face ao seu corpo argolar e dos que em seu torno gravitariam. Seria engraçado ver um buraco negro a querer engolir uma argola e assistir ao pequeno ser deixar-se fintar por dentro do espaço de matéria vazia sem a conseguir absorver. Talvez levasse os planetas da órbita e roubasse alguma luz, mas não engoliria a argola celeste. Haveria de ser engraçado um astro celeste em forma de argola. Talvez haja e não se tenha ainda sido descoberto. Talvez Deus se esteja a guardar... ou talvez se tenha esquecido.