digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

sexta-feira, março 31, 2006

A Corvina

Já há muito tempo que não via a Corvina. Vi-a ontem. Fazia mais de três anos! Almocei com ela. Ela pediu fuzili a três cores e eu ravioli amarelo da cor da gema d'ovo. Tínhamos uns 18 anos quando nos conhecemos e ... e é metade de uma vida. É bom saber que há gente feliz no mundo. Mesmo que a vida nem sempre seja cor-de-rosa, fico contente quando sei que há gente que chega a casa e tem um beijo à espera de quem a espera há mais de dez anos... e mais os abracinhos e beijinhos bons de um filhote João. Vi ontem a Corvina e está na mesma... com o mesmo ar de corvina sorridente!

Faltava

Faltava aqui um pouco de azul. Falta ainda. E vai faltar sempre. O azul nunca sobra, nunca enjoa. Azul! Azul! Azul! Sempre muito azul! Muitos azuis, muitos tons, muitas formas, muitas ilusões de azul. Mesclas de azul como se fossem ovos mexidos. Só se lhe pode juntar um pouco de branco ou de preto... talvez outras cores em doses mínimas. Sempre em doses diveresas, para que seja díspar o seu rosto. Nunca será a sua essência... essa é sempre azul, do marinho, ao esmeralda, ao prussiano, ao celeste. Já cá faltava azul e vai continuar a faltar. Falta sempre azul, que é a cor do abraço e do que nunca se abraça por completo... o infinito é azul. O suspiro é azul. A ânsia, o desejo, o choro e a alegria são azuis. Só os estúpidos pensam que o azul é triste. Só quem não percebe da alma canta triste uma melodia chamada azul... o fado não é azul, é castanho, é cinza ou grená. Já cá faltava azul. Vou estar mais atento para não me esquecer de pintar mais letras com a cor maior do alfabeto.

Algures

Nalgum sítio há um céu opressivo a querer cair sobre a Terra, apenas suportado pelas copas das árvores ou por uma fina corrente de ar. De que será feito o céu? Há dias que é de granito e se dissolve em água de pedra muito fria e grossa. Nessas alturas é bom ter coragem para desafiar o dia seguinte e sair para a rua com a boca escancarada para o alto para beber a água que vem. Seria bom que houvesse um grémio de loucos que formasse uma banda, que com tubas e bombos tocasse cavalgadas alegres a festejar a ruptura do céu, enquanto uns tantos doidos dançavam alegres e desconchavados. Nalgum sítio qualquer devia haver um gŕemio de músicos loucos e de foliões a festejar o céu pesado e a fazer estrondo para que se abrisse em água.

Fim de Março

Março chega ao fim, mas não a chuva. Hoje não chove. Devia chover, porque em mim tudo chove menos os olhos. Não há nada que não esteja cinzento e ventoso. A melancolia dos dias de chuva volteia-se quando respiro e aperta-se-me por estar acordado. Hoje devia chover para ficar aliviado, por ficar em sintonia com a natureza.

quinta-feira, março 30, 2006

Justiça

Preciso de ser justo e verdadeiro. O amarelo faz falta e até gosto. Limão, girassol, Sol, eléctrico, chá, malmequer, papéis velhos, reflexos de luz ao entardecer... a luz de Lisboa ao entardecer. Aquele prédio, naquele pequeno largo de Alfama com a gorda à janela a gritar pelos filhos, é amarelo! O vestido que cai melhor à minha vizinha especial cá do bairro é amarelo. O que seria do verde sem o amarelo? De que diríamos mal, se não fosse o amarelo? As louras têm o cabelo amarelo! Afinal gosto! Gosto, gosto muito, gosto tanto. Não tanto como do azul... ou do escarlate... ou do negro... ou do roxo... ou... mas gosto, gosto!

Rio Negro

O rio Negro nasce na Colômbia, onde lhe chamam Guainía, e desagua na margem direita do rio Amazonas, 1784 quilómetros mais à frente. Pelo que se depreende pela fotografia de satélite, o seu leito e a sua bacia hidrográfica devem estar cheios de bicharada de fazer náuseas a um urbanita. É tão bonito visto de longe que espero nunca o ter de ver de perto!

Negro

O negro não tem cor, porque não se sabe o que lá está. O negro não é a morte, não é luto, não é negação, não é maléfico, não é o Diabo, não é arrepio... o negro pode ser qualquer coisa. O negro só não é luz. Basta dar luz e deixa de o ser. É a ausência da luz. Pode perguntar-se: «Qual é a cor do negro?» Por isso, o negro pode ser qualquer cor. Pode até ser uma festa de flores e borboletas, com meninas felizes aos saltinhos que, por estarem no negro, brincam de olhos destapados à cabra-cega. Gosto do negro. E quem diz mal do negro não sabe o que diz.

A cor do destino

O destino não tem de ser negro! Pode bem ser escarlate. Essa é uma ironia que nem sempre percebemos, porque estamos demasiado próximos. Tantas vezes a dor que sentimos é das dentadas que damos e não das que levamos. Nunca vemos o nosso cadastro. O meu destino é da cor que eu quiser. Hoje pode ser amarelo, pois é já Primavera e eu não gosto nem do amarelo nem da Primavera. Está calor! Está frio! Está húmido! Toda a natureza está disparatada! Gosto do negro, mas não o quero no destino. Para o futuro, quero que o meu destino seja escarlate, que é cor de festa, de galanteio e de fausto. Mas quero ver muito azul em fundo e também o branco do mar a encaracolar-se na praia ou a fugir-se no céu. Não preciso de mais cores. Ao meu lado, no meu destino, todos os meus amigos. Todos e despenteados pelo vento feliz que vem com ideias frescas e luminosas. O que quero para mim quero também para os meus inimigos. Eles que tenham do mesmo, que sejam felizes, mas longe, para que não me aborreçam.

De cima para o Reno

Foi há tanto tempo. Foi ontem. Como um sonho. Foi a profanação. Estranheza, estranheza! Inquietação! O que aconteceu? Não sei se vi isto. Não sei se aconteceu. Não me lembro. Esta não é, não pode ser a minha Colónia! Quem fez isto? Por que fizeram isto a Colónia? Quem se salvou? Quem é culpado? Sei que nem sempre quem estraga é culpado... mas por que aconteceu isto? Por que aconteceu a razão para que isto acontecesse? O Reno passou ali ao lado... antes, durante e depois. Mesmo que tudo tenha sido um sonho ou um pesadelo real. Quantas dores lavou ninguem sabe. Com quantas lágrimas engordou ninguém sabe. Com quanto sangue e cinzas... é melhor nem escrever. Que certezas testemunharam os arcos-botantes, as ogivas e as rosáceas? Tantas tristeza diante de tamanha beleza! Estavas tão triste, ó linda!... Que tristeza de chorar, que silêncio de terror! Houve um grito abafado no susto deste instante. Por que não me lembro de ver isto em Colónia? De onde virá o arrepio? Será esta a minha inquietação?

Do Reno para cima

Algo de mim está ali, no Reno. Mais precisamente em Colónia. Não posso estar ali sem andar à roda da grande Dama e mesmo não gostando de cerveja tenho de ir à Frü (?) provar a kolsh. Dizem que as relíquias dos Santos Reis Magos estão depositados em Colónia... o que me importa? Importa-me a lenda e importa-me o que sinto quando ali estou. Sinto-me em em casa... mas também desconfiança... como se algo de grave ali se tivesse passado. Não sei bem o que foi... talvez uma profanação, um dano grave... mas dali, junto ao Reno, perto daquela montanha gótica, os meus olhos só param no céu... Nas suas fragas habitam anjos e demónios. Não são gargulas. São mesmo anjos e demónios. E muitos fantasmas.

Basileia

Quero uma bicicleta e uma cidade a preto e branco. Quero velocidade e eternamente 15 anos. Quero uma fonte de água por perto e estar sempre a correr. Quero estar sempre a correr, ter sempre pressa. Quero ter muitas namoradas e várias ao mesmo tempo, sem nenhuma das outras saber. Cada uma na sua ponta da cidade e eu, feito heroi, a pedalar para ir dos braços de uma para a cama de outra. Quero ter sempre pressa numa cidade de chão de pedra. Quero ter uma bicicleta veloz e nunca cair. Quero beber água fresca quando tiver sede e ter um beijo quando me apetecer beijar.

Não quero

Cada ruga é um caminho, quanto mais profunda mais numerosas a estórias para contar. Enredos simples, pequenos dramas, beijos de amores impossíveis, rupturas dolorosas e reencontros felizes. A fundura dos olhos foi escavada pelas lágrimas que não se verteram e as olheiras têm a cor das noites por dormir. Os lábios tiveram uma carne mais rija a segurá-los, hoje descaem de tanto se terem banzado, mas já nada espanta o homem. A cor do cabelo é da prata, por nenhuma razão que não a da idade. Simples! As orelhas cresceram e o nariz aumentou como acontece a todos os velhos. As desilusões de amor tonaram o coração num amontoado de cicatrizes. Primeiro endurecido, agora flácido e enfraquecido, à espera que uma vintona lhe assobie para se enamorar sem erecção. Daqui por quanto tempo será? Não quero!

quarta-feira, março 29, 2006

A culpa

Por culpa do primeiro beijo incendiou-se tudo cá dentro e tudo mais à minha frente. Que idade teria eu? Quantos anos teria ela? Provavelmente brincávamos ainda e os pesadelos eram ainda de almofada molhada.
O olhar trocado fez a ignição e tudo pegou fogo... Tudo começou a arder.
Desse primeiro beijo pouco me lembro, só da sensação de poder. Como se tivesse engolido um vulcão e o dominasse satisfeito. Nunca mais a vi. Ainda bem. Fica melhor na lembrança.

Frenesim

A paixão é um frenesim. Um formigueiro de apetites e ansiedades. Ele diz-lhe:
- Quero estar contigo
Responde-lhe pronta e lânguida:
- Quero-te tanto! Quando?
Já! A resposta é sempre já. É sempre muito! É tudo um exagero... espalhafato de tremores e aquele nó no estômago pelas incertezas. O que pode correr mal? Tudo! Não, nada. Sim, tudo. Nada se sabe e tudo se vai descobrindo até ser amor... quase sempre, onde começa o amor termina a paixão. Há quanto tempo não tenho as mãos suadas e a voz tremente? É isso a vida? Ainda bem que não! Não quero, nunca mais, a puta da paixão!

Veludo

Um cardeal tinha um corvo no salão nobre. Era lá que aquecia os pés e recebia as confidências das Excelências. Naquela sala de reposteiros pesados em veludo escarlate, o cardeal era um santo homem: absolvia os pecados em troca de umas tantas orações. A ave era malvado e com o bico feria os incautos poderosos pecadores. Era no braço, era no rosto, era numa parte qualquer onde causasse dor. Não porque tivesse fome, mas por crueldade.
Naquela sala onde o ar da rua não chegava senão filtrado pela espessura do escarlate, o príncipe eclesiástico era um velhaco: conjurava contra amigos, urdia ciladas e intrigava alianças, com nós de sorrisinhos e lacinhos de poder, colares de putas e ligas de duquesas. O corvo era mais puro, só bicava porque sim e não pensava nas consequências. Os dois tiveram da vida bom proveito: morreram de velhos, sós e apenas com o outro como companhia. Desta vida com nada ficaram, nem com o próprio corpo que usaram... só uma impressão escarlate.

Príncipe

O príncipe veste um manto de veludo. É um agasalho para a noite invernosa que perpassa as paredes de pedra gris. O luar, sabe-se, não aquece e a fraca luz das velas dá um calor murcho. O príncipe sob o manto tem mais veludo, todo ele é gravidade e negro. Não é negrum de morte, mas gala e pompa e soberba. E quando sobe à torre para arejar o peito depois do farto jartar fica mais nobre e altivo por o seu negro de veludo combinar com a escuridão da noite. A Lua, se aparece, pode ser a gema encantada, se se esconder, as estrelas milhentas são milhentos diamantes reluzentes em redor do senhor, como se este fosse o Criador. Quase não sorri, o grave príncipe. Quando morrer terá uma lenda. O povo chamar-lhe-á de corvo... animal de respeito e siso.

Cá fora

Cá fora deixas de ser pássaro e as asas passam a ser as de um anjo. Mesmo livre não foges para longe da gaiola. A isso chama-se amor ou medo. Qual deles te prende ao passado? É um beijo que te agarra ou julgas que o sol só bate nessa portada e aí vai ficar para sempre? Vai, vai à tua vida. O mundo está mais à frente.

Loucura

Eu perdia-me aqui com a minha nostalgia e claustrofobia. Ficava ali só com os meus fantasmas a conversar ou falava sozinho. O corredor fechado não é um espaço muito. Não é um espaço pouco. É um espaço bastante.

Edimburgo

Em Edimburgo não há mais fantasmas do que noutras cidades. Em tempos um foi o meu e noutros tempos houve alguns que levei comigo. Na última vez que lá estive, quando para lá fui com minhas carnes, não vi este céu, mas ele sempre lá esteve. O céu de Edimburgo é tão único como a luz de Lisboa! Não há mais fantasmas escoceses naqueles recantos de pedra e tijolo, nas correrias de vento frio quase nórdico que vêm do mar que se sente e não se vê. Não me lembro de chuva na Royal Mile, mas sei que é diferente a água escocesa que se deita no whisky e o calor das casas. Não há mais fantasmas em Edimburgo do que em Lisboa!

Prefiro escolher o destino

Para quem acredita que a morte é o fim, esta deve ser a espera do juízo final... uma resignação entardecida num promontório sem escapatória. Por mim prefiro outro mundo, em que Deus dá mais saídas e posso escolher, para não repetir enganos. Não sou cordato como a ovelha e já mordi como um lobo e quero mergulhar na vida depois de viver. Até ao dia em que deixe de precisar.

terça-feira, março 28, 2006

Tomate


Cortam-se os tomates em fatias finas. Regam-se as rodelas com um fiozinho de azeite virgem extra e polvilham-se com uns oregãos. Acompanham-se com fatias de pão torrado, mas não muito, e com um pouco de queijo... acho que sei a primeira tarefa caseira de hoje.

Muda o tempo


Adeus Inverno ou adeus Verão. É tempo em que o tempo muda. Sem tempo para passos. A melancolia vem no vento fraco que mal levanta o mar ou faz rodar o céu. Não se passa quase nada no ermo do fim do mundo, do cabo do fim do tempo, na praia de todos os voos e ânsias. Não há meninos. Não há correrias. Não há risadas. Não há chuva. Não há trovões. Não há. Não há tempo. Só uma tristeza silenciosa, uma solidão calma, um desejo de cor. As pedras são pesadas para voar e rombas para saltitarem na superfície chata do mar. Desistiram no areal. Nem uma pegada testemunha um ensaio de gesto. É um tempo de adeus. Adeus Verão. Adeus Inverno.

Gosto


Gosto de tulipas. Gosto de tulipas vermelhas e de copos com vinho tinto. Também aprecio rosas rubras, apaixonadas rosas, sentidas, saudosas e tristes rosas cor de sangue. As tulipas são mais serenas e alegres. Penso que ficariam bem os areais que emolduram as praias cobertos por tulipas multicores, como se fossem canteiros imperfeitos, desgrenhados nas tonalidades. Porém, quase uniformes. Não falam de amor, não segredam, não exigem, impõem-se sem esmagar. Gosto de tulipas e já disse o que tinha a dizer.

segunda-feira, março 27, 2006

Sereia e Estrela


Este ano não fui à praia, mas conheço o sabor do mar e o seu cheiro. Sei da textura das algas e das brincadeiras dos limos das rochas a quererem derrubar tudo o quanto neles põe o pé. Só de ver sei se a areia quer que nela me deite ou se a evite. Tudo isto aprendi durante os anos em que uma sereia viveu enamorada por mim.
A minha história com a Sereia é longa e profunda, por isso pode contar-se durante muito tempo ou resumir-se a breves palavras. Não sei se a querem conhecer. Talvez já a tenham ouvido a algum trovador ou lido contos semelhantes. Devo dizer aos descrentes para abandonarem a leitura, não os quero cá. Só digo verdades: as Sereias existem mesmo e, ao contrário do que se pensa, não vivem só no mar. Vou contar a minha verdade verdadinha, tão pura e alva que desejo um amor maior a quem de mim duvidar ou chamar mentiroso.
Julgo ter sido Inverno quando conheci a Sereia. Ela não veio do mar, mas do céu. Caiu lá de cima e por isso chamei-lhe sempre Menina-Estrela. Tinha o sorriso mais bonito que vira e quando se soltava tinha o riso mais divertido. A sua pele era macia e suavemente perfumada. Cheirava bem. Cheirava a pele. Cheirava a pele de menina. Os olhos eram escuros e profundos, como o mar abissal ou como as noites de Lua Nova. Os cabelos ondulados como o oceano, mas ela esticava-o para que se parecessem com o céu. Era bela e discreta, como devem ser todas as mulheres belas! Quando a conheci não me disse logo que era uma sereia. Ela tinha também umas asas, como se fora um anjo, e um rosto maroto, a fingir-se malvada. As asas não lhe serviam para voar, pois para isso tinha a imaginação, a alma e a bondade. As asas serviam para dizer quem era, de onde vinha e para abraçar e consolar.
Eu cria que vinha de muito longe e sabia, porque assistira, que do alto. Desconfiava que da terra do Pôr-do-Sol. Fiz-lhe mais de mil juras de amor e alguns poemas, outras tantas promessas. Jurei-lhe que a levaria ao Pôr-do-Sol, mas foi ela quem um dia me pegou na mão e me acompanhou a essa landa. Fizemos um caminho de campos de lavanda e girassóis muito amarelos, passámos sob arco-iris muito perfeitos e diante de nossos olhos passaram animais e vidas que eram maravilhas de se verem. Juntos derrotámos dragões e voámos no dorso da sorte.
Do paraíso saímos para conhecer o mundo e também cruzámos o Inferno. Fizémos tudo juntos e até partilhámos segredos. Uma vez a Menina-Estrela disse-me que era uma Sereia. Eu fingi que não sabia, mas já tinha lido que quem beijava assim eram esses seres metade mulher e metade peixe, e que com voz melodiosa seduzem quem as ouve. E que voz tinha ela! Não conheço nenhuma outra como a dela, que se sussurada descongela um iceberg.
Um dia houve em que a Sereia teve de seguir o seu destino e mergulhar no mar oceano. Disse-me que não iria voltar, mas estaria sempre comigo. Naquela promessa de amizade havia uma despedida dolorosa e desenganos, que são enganos que enganam mais de uma vez. Vieram tempestades no coração e na alma e apedregei as vagas que davam à costa. Ela contara-me tanta coisa do mar e eu não percebi que era a sua casa. O bater das pedras acertaram-lhe no dorso. Soube mais tarde, pela boca do próprio Neptuno no seu trono, que sempre assim acontece quando gostamos de alguém.
O tempo passou e as feridas foram sarando. Fui aparecendo menos vezes na praia para atirar pedras à água e por isso deixei de magoar a Menina-Estrela que tinha asas e é uma Sereia. Um dia contaram-me que foi vista no areal. Talvez tivesse vindo à minha procura ou talvez só para matar saudades do tempo que passou em terra. Espero um dia ir a um qualquer pontão mandar beijos ao mar, pode ser que lhe cheguem ou até que a aviste. Se a vir aceno-lhe, mesmo que não saiba o que lhe dizer.

domingo, março 26, 2006

Qualquer coisa de mar

Há qualquer coisa de mar na vida. Os dias passam e a luz vai e vem, vai e vem, vai e vem. A alegria e a tristeza também. Não sei o que são as quatro da manhã se não conhecer o calor do sol ao meio-dia nem o da fraternidade à mesa ao jantar. A vida traz e a vida leva pessoas numa mesma vida.
Um dia acorda-se molhado, suado ou chorado, noutro é-se feito de cama e dela não se consegue separar, mas noutros corre-se em direcção ao sol e a respirar todo o ar fresco que houver pela frente. Há dias sempre aos abraços de reencontros. Mesmo quando os olhos vêem tristeza, a alma pode sentir alegria.
Há qualquer coisa de mar na vida, no que vai e vem, no aparente acaso... na vaga gigantesca que embate na rocha para se fingir ser Neptuno, Deus do Mar. E há tanta vida na vida e muitas vidas numa só vida.
Abrem-se as janelas para que entrem as gotas salgadas do mar bravio e escancaram-se as bocas para que as línguas sintam o sal. Há qualquer coisa de sal na vida. E o mar vai ali, mas já volta. Torna a ir e a voltar. Como as pessoas. Como nós.
Se os mares são sete, há mais vidas do que mares. Talvez mais vidas do que marés, tantas quanto os abraços dados e prometidos. Há qualquer coisa de mar na vida.

Vidinha Nova

A Ritinha fez um comentário com razão. Este blog ainda é novo e vai bem a tempo de mudar. O Joãozinho passou a ir ao vinho ao seu outro blog, que partilha com o seu amigo Turco, e que se chama A Adega. Os brasões passam a estar alojados no blog Armorial. O Infotocopiável fica para aquilo que o Joãozinho talvez saiba fazer melhor... se tiver coragem e ânimo para fazer.

As manas amigas



São estas duas que me aturam e me desafiam a solidão... eram tão pequeninas e gosto tanto delas!

sábado, março 25, 2006

Luz


A Víndima de 7 de Outubro (2003) não me sai da memória, está proibida de sair. Fizeram-se 3000 garrafas e 2 vieram para minha casa... foi o vinho mais caro que comprei até hoje e só me arrependo quando penso que há gente a passar fome. Depois há o livro, que foi escrito para aqueles que não privilegiados que não provaram o dito vinho e para os habilidosos dos tachos e caçarolas. O que importa que um terço dos ingredientes seja desconhecido? O que importa que outro terço não se encontre facilmente à venda? O que importa que sejam necessários três licenciaturas, dois mestrados e cinco pós-graduações em cozinha, copa e kitchenette para se concretizarem as receitas? As respostas são sempre a mesma: nada! Porque afinal o que importa é o vinho que lhe serviu de inspiração e de mote, o tal que se chama «Vindima de 7 de Outubro»... E para a consciência não me pesar cito Mário de Cesariny: «Afinal o que importa não é haver gente com fome, porque, asim como assim, ainda há muita gente que come»... desculpem também o cinismo... Hoje vai marchar a segunda garrafa!

sexta-feira, março 24, 2006

Rendido

Rendi-me! O incrível Barbie, conhecido na Escócia por McBarbie, rendeu-se à onda dos blogs. Salve-se quem puder que eu ando à solta e não levo açaime. Algo me diz que por aqui vão passear-se amigos, vinhos, brasões e poemas... se sabe-se lá que mais. Enfim... Beijos